JORGE BARCELLOS/ Não é necropolítica, é necroeconomia!

O afrouxamento do isolamento em várias cidades mostra que o verdadeiro soberano é o capital, que revela sua capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Achille Mbembe define a soberania em termos de poder, mas as condições práticas hoje de exercer o poder de matar não estão na política, mas estão no capital financeiro, no poder exercido por empresários e todos aqueles que em sua capacidade de afetar as políticas governamentais em seu desejo da volta ao trabalho, exercem o poder de matar. Enquanto correm a imprensa com seus artigos exigindo que parte da sociedade volte ao trabalho, veem editadas medidas de liberalidade – só em Porto Alegre, foram autorizadas a funcionar lojas de venda de chocolate – produzem ali adiante o assassinato de trabalhadores. Não é apenas guerra contra o vírus que estamos vivendo, é a guerra contra os interesses de mercado que se quer soberano, como foi à guerra contra o poder dos reis do século XVIII “a guerra, afinal, é tanto um meio de alcançar a soberania como uma forma de exercer o direito de matar”, diz Mbembe. Agora, não é a política que é uma forma de guerra, é a economia que assume o lugar de decidir a vida e a morte de trabalhadores.

Sabe-se que na epidemia brasileira as vítimas do coronavírus não são apenas os idosos, mas trabalhadores em sua melhor faixa produtiva, jovens e adultos. As filas junto aos bancos, as aglomerações nos parques e tudo aquilo que desrespeita as medidas de isolamento irão se tornar nossos campos de morte, campos de extermínio ao ar livre, equivalente às avessas dos campos de concentração. O que os empresários querem é a suspensão do estado de direito, direito à vida, a proposta de volta ao trabalho de frações de idade é a disputa entre as formas de soberania sanitária e econômica, por isso trata-se de um acordo onde as peças estão viciadas: os empresários sabem na comodidade de seus lares, são os operários que estão em exposição permanente e mortal.

No paradigma hegeliano, diz Mbembe, a morte é resultado de ações voluntárias, de “riscos conscientemente assumidos pelo sujeito”. Somos sujeitos porque enfrentamos a morte, o contrário daqueles que nos expõem ao vírus e nos tornam objetos, retirando nossa humanidade. Por isso ficar em casa frente à pandemia é um ato humano, não se trata mais da politica como poder de morte de quem vive a vida humana, a economia quer assumir esse lugar, definir de forma soberana arriscar a totalidade de uma vida, e por isso, se torna assim, desumana! Foi preciso a morte provocada pelo vírus para encararmos a verdade do capital: para ele, a vida é só utilidade, o limite da morte foi abandonado pelo empresariado, pelo capital financeiro, enquanto que o trabalhador respeita a morte, não há limites para a economia.

O afrouxamento das regras de isolamento é o ponto de início do sacrifício de milhares de trabalhadores, e por isso é um excesso, uma “antieconômia” que os empresários ignoram porque trará prejuízos maiores na segunda onda do vírus que já se anuncia.  A economia opera na base de uma divisão entre os que podem viver e morrer, a facilidade para o capital está no fato de que as elites não vivenciam os efeitos de suas decisões: a morte de seus trabalhadores é visto como o seu dano colateral, no sentido dado pelo sociólogo Zygmunt Bauman. Não é mais o estado que detém funções assassinas: com a pandemia, é a economia “a condição para aceitabilidade do fazer morrer”.

O empresariado é este estado nazista dentro do estado democrático de direito exercendo seu direito de matar, expondo seus trabalhadores à morte, combinando as características de um estado assassino, racista e suicidário como sugere o filósofo Wladimir Safatle. Não é a fusão da guerra com a política, é a fusão da guerra com a economia, pois a exposição do Outro no trabalho é essencial para o lucro, reduzido o trabalhador a lógica impessoal da racionalidade instrumental. A racionalidade econômica passa pela imposição do risco a morte, capacidade de expor ao risco a fim de obter lucro. Para quê câmaras de gás e fornos se basta expor os trabalhadores ao ar, ao trabalho para fazer a completa desumanização e produção de morte baseado na falsa premissa racional de que alguns podem trabalhar?

Na Revolução Francesa, a passagem da execução pela força para a execução pela guilhotina foi repleta de significados. O vírus é a nova guilhotina que mantém as características do enforcamento. Ela é democrática como a guilhotina que estendeu a prerrogativa da execução dos pobres para todos os cidadãos, mas impõe uma morte humilhante como a do enforcamento, a morte solitária sem a presença de seus entes queridos, o enterramento de massa e por isso cruel. Chamar ao trabalho é uma forma civilizada de matar, um grande número de pessoas num curto espaço de tempo, prova da insensibilidade das classes abastadas, e, portanto, atualização da fusão da razão com o terror da Revolução Francesa.

A falsa verdade de que “só os velhos morrem”, e por isso, libertemos os jovens para o trabalho, esconde a verdade do conflito de interesses entre o capital e o Estado, entre quem deve viver e quem podem morrer. Qualquer narrativa que se construa com base no rompimento do isolamento radical está claramente propondo uma experimentação bio-econômica e não biopolítica, como diz Foucault. Perda de direitos sobre o corpo, perda da casa como lugar de proteção ao risco, morte social pela expulsão da sua humanidade, não é o retorno do plantation por outros meios, onde o escravo pertence ao senhor? Nesse apelo ao trabalho, somos todos escravos, propriedades, temos valor, respondemos a necessidade de lucro dos empresários. Todos os que foram as ruas em passeata chamar ao trabalho são o equivalente do capataz, comportando-se de forma descontrolada no espaço público, o discurso do desemprego é o equivalente das chibatadas do senhor no escravo para impor o terror, disputa entre a liberdade de propriedade e liberdade da pessoa, imposição comercial de quem se acredita proprietário do trabalho e da vida do trabalhador.

Quando o direito de fazer a guerra, de tomar a vida, se expande do estado para a economia, o que acontece? O direito de matar ou negociar a vida, privilégios do estado como apontado por Foucault cede espaço à ideia de que a fronteira do estado é inferior às fronteiras econômicas. A economia não reconhece nenhuma autoridade superior a sua dentro das fronteiras de estado e por isso o relaxamento do isolamento proposto pelo Ministro da Saúde em sua negociação para permanecer no cargo ou as iniciativas de relaxamento de prefeitos de norte a sul do país é apenas o modo civilizado de matar para que a economia atinja seus objetivos, prova de que a necropolítica perde seu lugar para a necroeconomia, que a biopolítica se transforma em bio-economia: o capital sabe que, frente aos mortos, tem a disponibilidade de um exército industrial de reserva para substitui-los, mão de obra renovável, como se o empresariado tivesse o direito divino de existir e os trabalhadores não.

“A Faixa de Gaza é aqui!” prognóstico fatal das múltiplas separações e limites que é preciso impor aos cidadãos pelo isolamento radical, limites que precisam serem impostos pelo estado sob vigilância e controle “não ir às praias”, “não aglomerar nas ruas”, tudo é o novo estimulo a reclusão, somos as novas gated communities, praticando a rápida circulação. Agora, os campos de batalha estão nas filas sem distanciamento dos mercados e bancos, nas lojas abertas e exposição de seus trabalhadores a um vírus que não respeita divisões de classe social. O estado de sitio deixa de ser uma instituição militar para se tornar econômica, a obrigação de trabalhar é essa máquina da necroeconomia ”As guerras da época da globalização, assim, visam forçar o inimigo a submissão, independentemente de consequências imediatas, efeitos secundários e danos colaterais das ações militares”, diz Mbembe. Não é exatamente assim que é tratado o trabalhador que se recusa a trabalhar, não é visto como inimigo que é preciso ser combatido, submetido nessa guerra, sua morte não é vista como “dano colateral”? Na era da mobilidade global, impõe-se a imobilidade planetária, já que “a própria coerção tornou-se produto do mercado”.

Jorge Barcellos é historiador, Mestre e Doutor em Educação pela UFRGS. Autor de O Tribunal de Contas e a Educação Municipal (Editora Fi, 2017) e A impossibilidade do real: introdução ao pensamento de Jean Baudrillard (Editora Homo Plásticus, 2018), é colaborador de Sul21, Le Monde Diplomatique Brasil, Jornal Já e do jornal O Estado de Direito. Mantém a página jorgebarcellos.pro.br.

 

 

 

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