LUIZ-OLYNTHO TELLES DA SILVA / Divide et impera

Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não poderá subsistir.

Marcos, 3:24.

O mundo, visto pelo ângulo de cada um, é sempre diverso. Frente a uma mesma paisagem, a um chamar-lhe-á a atenção as nuances do verde; a outro, uma pequena casinha, entrevista em meio ao arvoredo, de onde exala, suave, uma bucólica fumacinha branca; um outro ficará embevecido com a luz do lugar; um Cèzanne olhará para as casinhas e pensará nas pessoas que vivem nela; alguém, com os olhos fechados, dirá da energia do ambiente; e sempre haverá aquele que não verá aí graça nenhuma, antes pelo contrário. A pluralidade de pontos de vista e de opiniões sempre foi a base de nossa riqueza cultural.

Por outro lado, se, sob o efeito de experiências diferentes, cada um vê o mundo à sua maneira, na escola, entretanto, somos levados a vivenciar experiências comuns e assim aprendemos a tabuada, muitas vezes cantando e dançando, as regras da gramática, a biologia e a história dos feitos de nossos antepassados. Aos poucos vamos construindo uma identidade, tanto pessoal como social, fruto de nossas aprendizagens.

Hoje, contudo, a diversidade de compreensão do mundo não parece tão simples. Nosso povo parece dividido em dois – apenas dois – grandes grupos. Divididos como se fossem inimigos. Não se falam e, quando o fazem, ou não discutem suas opiniões, na busca de preservar as amizades, ou então se xingam. As opiniões, isso que é o mais próprio do ser humano, porque a certeza – diziam os gregos – pertence aos deuses, tendem a ser discutidas apenas entre os que pensam igual (como se isso fosse possível).

Foi ao perceber isso, em desacordo à minha premissa, que me lembrei deste antigo ditado latino, Divide et impera. Investigando sua origem, encontrei que, a rigor, ninguém sabe de onde veio. Há quem o atribua a Filipe da Macedônia, mas as referências são incertas. Não há dúvidas, porém, quanto a tratar-se de um recurso maquiavélico para administrar o poder, pondo uns contra os outros. Prosper Mérimée atribuiu-o ao rei Luís XI, da França, que, no século XV, teria criado o slogan Diviser pour régner, dividir para reinar, enquanto o jesuíta Thomas Fitzherbert, de origem inglesa, em seus estudos sobre Maquiavel, que viveu praticamente na mesma época de Luís XI, registrou a variante Si vis regnare divide, se queres reinar, divide. Seja como for, estavam sempre apoiados no princípio de que os meios justificam os fins. A verdade é que há muitas maneiras de dizer o pretendido e talvez nenhuma absolutamente satisfatória. Em todo o caso, quando Mérimée fez essa citação, ele estava ocupado com o reinado do jovem Carlos IX, na França, no momento em que este, querendo libertar-se da tutela de sua mãe, Catarina de Médicis, se une aos protestantes do almirante Coligny para intervir nos Países Baixos em apoio aos adeptos da Reforma. Contudo, frente ao fracasso da intervenção e não tendo como opor-se à sua mãe, nem às lideranças católicas, o rei termina por renegar esses protestantes reformistas, os huguenotes, e permite, ainda que não oficialmente, seu massacre na Noite de São Bartolomeu, uma noite que durou de 24 de agosto de 1572 a meados de outubro do mesmo ano. Embora o número de mortos varie de dois mil a setenta mil, dependendo de quem conte a história, o que se sabe é que depois disso, por causa dos corpos desaguados nos rios, por muito tempo não se pôde comer peixe.

Quer dizer, dividir para imperar não é o melhor dos recursos para quem pensa no povo, e quando digo povo, antes que às multidões, não raro tomadas como massa de manobra, estou me referindo ao coletivo de pessoas, cada um com seus sonhos. Em sua propaganda, o que os pretendidos imperadores não dizem é que dos fins só sabemos depois e que, para jogar uns contra os outros, tanto os uns como os outros precisam estar unidos entre si, seja em torno de alguma religião, de alguma cloroquina, seja do que for, mas cada um para o seu lado.

Em minhas investigações, também encontrei que Goethe, por certo com a melhor das intenções, propôs ao aforismo uma contrapartida: Vereinund leite, Une e guia. Mas talvez já fosse tarde.

10 comentários em “LUIZ-OLYNTHO TELLES DA SILVA / Divide et impera”

  1. Excelente! Qualquer cego percebe essa estratégia da divisão, em ação no há no mínimo 30 anos, surtindo efeitos deploráveis no Brasil.
    Parabéns Luiz Olyntho! Precisamos de pensadores de tua estirpe para iluminar nossas mentes.
    Abraço saudoso!

  2. Dividir e comandar palavras de meu tempo de criança. Tb dividir a espécie humana entre tipos étnicos, diversidade de classe social, letrados e ignorantes, seitas e religiões opostas, são sutis estratégias de governo, como bem disseste, maquiavélicas. Lembro de Salomão que na disputa entre reinos sugere: isso é facil, um divide e o outro escolhe. Mas, resumindo, gostei muito de tua análise. Ótima para refletirmos perante essa pandemia. Sempre te considerei um excelente observador e de uma inteligência singular. Grata p compartilhar. Bjs.

  3. Não só na Política opiniões contrárias levam ao dissenso.
    Hobbes, alerta: “o homem é o lobo do homem” e, tantas vezes, ataca sorrateiramente por ambiciosa vaidade de ver-se maior no bando.
    Enfim, urge manter a sanidade em saudável diversidade.

  4. Apreciei muito a abordagem histórica no teu texto luiz Olintho. Conhecia bem o «dividir para reinar» do Maquiavel nas suas análises das relacões entre as familias nobres italianas na Renascenca, entretanto não sabia que esta idéia já tivera sido enunciada pelo Felipe da Macedônia…. só acho lamentável o uso do adjetivo maquiavélico, usando o nome da pessoa que tinha como objetivo descrever apenas as desavencas politicas renascentistas. Abracos da estacão estival…

  5. Bem na hora Luiz-Olyntho, hoje foi divulgado no Reino Unido o resultado de uma investigação nas atividades dos Russos na politica e vida britânica, visando dividir e enfraquecer outros países e entidades, especialmente OTAN e o UE.

Deixe uma resposta