MIRIAM GUSMÃO / A urgência de ressuscitar as palavras

As palavras estão mortas, ou melhor, “foram a óbito”, como rege o eufemismo que se tornou usual quando se fala em morte. Talvez não seja um momento propício para se pensar na morte das palavras, diante da dolorosa realidade de perda de milhares de seres humanos, eliminados por um vírus e pela negligência de péssimos governantes. Claro, essa é a morte que, no momento, exige-nos pensar e agir. No entanto, para pensar sobre problemas e agir para soluções, precisamos das palavras. Para compartilhar informações e conhecimentos, para interagir, para atenuar o peso destes dias e para projetar dias melhores, precisamos das palavras. E o que fazer, se já matamos as palavras e nem nos damos conta do incessante uso que fazemos dessas múmias, desses esqueletos inertes de discursos, dessas frases embalsamadas?

Em todos os âmbitos da comunicação humana, nos dias atuais, observamos o uso abusivo, esperto, gratuito e sem graça das palavras. É comum nos depararmos com textos pseudoacadêmicos, em que o entulho de citações gratuitas – muito além das necessárias e pertinentes, ou muito aquém de uma laboriosa revisão bibliográfica – substitui o que deveria ser uma real elaboração de ideias, capaz de contribuir minimamente com o conhecimento preexistente. Quem quiser percorrer os caminhos que, eventualmente, poderão nos levar à ressurreição das palavras, poderá escolher, por exemplo, o da desmontagem desses textos pernósticos de supostos intelectuais. É um exercício interessante, e até divertido, desconstruir textos vaidosos, pesados, enjoados, abarrotados de citações e carentes de conteúdo. Muitos deles são utilitários, pois servem de suporte a partidos políticos e, com frequência, asseguram a seus autores o status de referência teórica e, não raro, postos de assessoramento técnico. Cabe vasculhar o entulho de palavras e verificar o que, de fato, sobra de contribuição singular ao que já fora dito e citado.

O jornalismo – embora imprescindível desde sempre e mais ainda quando o governo desinforma – padece de clichês e simplificações, com raros trabalhos de investigação jornalística e de boa elaboração textual. As fontes das informações não variam muito e boa parte das notícias prende-se ao disse me disse de políticos e alguns economistas, sem contar o sensacionalismo e as aberrações. Os jornalistas destacados pelas empresas empregadoras, que lhes confiam postos de “colunistas” e “comentaristas” e o direito de “opinar” e “analisar”, não raro deleitam-se com a notoriedade e se ocupam de textos banais, de indisfarçável personalismo, de exercícios retóricos, ou de mera repetição de notícias já veiculadas, sem uma análise significativa. Assim é que um presidente da República, que não exerce minimamente o que o cargo exige, consegue pautar a imprensa todos os dias, bastando proferir qualquer frase absurda para merecer grande repercussão e “análises”. Quem quiser ir atrás da ressurreição das palavras no jornalismo, deverá demandar, como leitor, ouvinte ou telespectador, melhor qualidade no entulho de informações e comentários.

Os militantes políticos, com respeitáveis exceções, assim como os operadores das chamadas mídias alternativas, blogueiros e boa parte dos usuários de redes sociais, mergulhados num ativismo ininterrupto e nunca autoavaliado, colaboram diariamente com o entulho de palavras que já foram a óbito. É impressionante ver como considerável parte dos ativistas abriu mão de pensar e de se expressar por conta própria, restringindo-se ao repasse permanente de frases feitas, de juízos herdados e de expressões surradas que se tornam vazias. Todo o pensar e todo o dizer são extraídos de escaninhos, onde tudo está pronto para uso. As identidades, seja qual for a ideologia, estão moldadas em escaninhos contemporâneos. As pessoas se afirmam rigorosamente conforme os moldes e passam a repetir o que está moldado, assim como as frases para cada situação. E quem discordar receberá prontamente os adjetivos de ocasião, os rótulos prontos para uso, pois toda a etiquetagem já está feita e à disposição dos adeptos de cada causa. A enxurrada dos compartilhamentos de slogans e discursos clichês causa cansaço, embora seus agentes não detectem que provém dessa correnteza uma parte do desânimo que, volta e meia, os assalta, na situação já desalentadora de nossos dias. Quem quiser ressuscitar as palavras no ativismo político precisará ir atrás da capacidade crítica perdida, da cidadania atrofiada, da recuperação da autonomia necessária para fazer parte de uma causa sem ser engolido por estruturas e instâncias de poder.

E os usuários das redes sociais, que desperdiçam tecnologias potencialmente proveitosas e prazerosas para a comunicação interpessoal, poderiam também se ocupar um pouco da tentativa de ressuscitar as palavras. Muitas vezes devem estar cansados, transitando pelos sarcófagos dos insultos e intolerâncias, dos debates sem conhecimento dos assuntos, das críticas em Português precário, das opiniões sem qualquer reflexão, das repetições de postagens prontas, da gratuidade de palavras mortas. Carregar palavras mortas, interagir com palavras mortas, deixar-se soterrar por palavras mortas, significa também estar morto como sujeito do discurso. Este texto traz, desde o início, uma singela proposta para reflexão: a possibilidade de alguma ressurreição das palavras e dos sujeitos dos discursos. E uma das vias para buscar, na vida prosaica, no cotidiano, a ressurreição das palavras poderá ser a recuperação da capacidade de contar uma boa história. Contar, em texto singular, em texto próprio, oral ou escrito, uma história interessante, é recuperar-se como sujeito do discurso, é ressuscitar-se. É também possibilitar a ressurreição do interlocutor, que, inevitavelmente, no ato de ouvir ou ler, vai recriando a história, preenchendo seus não-ditos, salpicando-a com as luzes de sua imaginação ou de sua memória.

Contar uma boa história, não necessariamente dentro de um gênero literário reconhecido, mas contar simplesmente uma história interessante, uma cena presenciada na rua ou em algum lugar qualquer (pois boas cenas existem; basta saber observar), um evento do passado, uma experiência vivida, um acontecimento do dia anterior, um fato inusitado, real ou imaginário. Contar boas histórias para não morrer. Foi assim que Sherazade, a memorável contadora de histórias de As mil e uma noites, conseguiu evitar que o sultão Shariar a matasse. (Essa narrativa milenar e de muitos autores anônimos do mundo árabe transita no Ocidente, como um clássico, desde o início do século XVIII, com muitas traduções, e já está em PDF na Internet). Saber contar histórias, para viver e para que as palavras vivam. E rechear a narrativa com boas descrições, como as descrições encantatórias de As cidades invisíveis, do escritor Ítalo Calvino (CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990). Nesse livro, o viajante Marco Polo dá conta das cidades por ele visitadas para o conquistador, Kublai Khan, imperador dos tártaros, que nem conhecia seu imenso império. Reais ou imaginárias, as cidades descritas, com riqueza de detalhes, por Marco Polo, encantam o imperador.

Não faz muito tempo, se pensarmos numa linha de tempo histórico, que ainda era comum sentar em casa, à noite, para ouvir as boas histórias que os mais velhos contavam aos mais novos. Sim, os mais velhos, por terem vivido mais tempo, tinham boas histórias para contar. E os mais novos aprendiam a arte de contar histórias, de uma maneira natural. Difícil era ir para o quarto dormir, se os relatos tinham sido de assombrações! Também era um momento muito aguardado o da chegada de um parente, que vinha da cidade natal para uma estada de alguns dias ou meses. O que mais se aguardava eram as histórias que esse parente trazia consigo e sabia contá-las, criando uma atmosfera mágica na casa. Todo o peso do cotidiano desaparecia, ou se ausentava um pouco, com a leveza das interações em torno das boas histórias compartilhadas. Quem sabe seja possível, nestes dias de palavras que foram a óbito, de entulho de frases feitas, de discursos pernósticos, de tagarelice sem graça, ressuscitarmo-nos como sujeitos de nosso discurso e ressuscitarmos as palavras, em afetuosa interação com os outros, contando e ouvindo boas histórias…

*Miriam Gusmão é professora aposentada e jornalista.

5 comentários em “MIRIAM GUSMÃO / A urgência de ressuscitar as palavras”

  1. Pertinente reflexão Miriam… por conta dessa verborragia imensa que nos inunda diária e incessantemente as redes sociais e a mídia televisiva tenho sentido ultimamente uma maior necessidade de ficar calado, de ler mais, de aprofundar e rever saberes… teu texto me traz a lembrança aquele trecho dá música do Engenheiros: “Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada….”

  2. Excelente e realista texto, retrata o que vivemos nos dias atuais, principalmente no tocante ao jornalismo de “estrelas”, que ouvimos, lemos e vemos diariamente nas mídias “privadas”.

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