O azar de Parreira

André Klaudat*

Poder-se-ia pensar que o que Parreira teve até agora, após quatro jogos da copa na Alemanha, foi sorte. Essa sorte, no entanto, acredito, quase não há. Um desempenho e um resultado – e eles podem, é certo, ser diferentes quanto à qualidade – não vêm sem planejamento, preparação, habilidades, estratégia, atitude, cultura, equipe, ou seja, tudo o que se resume com “é preciso ter time”. Portanto, o azar de Parreira de que quero falar não pode ser esse de quem pensa que ele teve sorte.

Poder-se-ia pensar que o que falta a Parreira é inteligência. Ou coragem. Ou os dois. Pois, simplesmente, não é possível alguém não conseguir montar um bom time com os jogadores que a nação brasileira pôs à disposição do nosso técnico. Além disso, pensar-se-ia, com material humano muito mais pobre Parreira mesmo montou um time que funcionou em 1994. Portanto, Parreira teria tornado-se menos capaz, ou seja, ficado burro. Quanto à coragem, como não escalar Robinho, Juninho Pernambucano, Gilberto Silva, e talvez ainda Cicinho e o Gilberto do Hertha Berlin? Quanto à combinação de falta de inteligência e coragem, as considerações para tanto exploram esses dois pontos e seriam as seguintes.

Em 1994, Parreira montou um time com um perfil bem definido e com uma estratégia clara. Tinha um meio de campo forte com dois jogadores de grande poder de destruição – Dunga e Mauro Silva – e dois jogadores táticos de “povoamento” e controle desse mesmo meio de campo – Zinho e Mazinho (vale a pena lembrar: Parreira começou com o Raí, que era até capitão no primeiro jogo, e não deu certo). Resultado: os outros times não conseguiam jogar na nossa parte do campo. Além disso, Parreira tinha um Bebeto em plena forma que “flutuava” e servia o Romário, encarregado de ocupar ou invadir a área adversária. A estratégia era atrair o inimigo para o nosso campo, em função de uma postura defensiva, roubar a bola e atacar com rapidez. Parece mesmo que funcionou muitíssimo bem, especialmente levando-se em consideração o peso quase que insuportável dos vinte e quatro anos sem título. E o Romário não foi goleador daquela copa junto com seu companheiro de Barcelona Stoichkov por falta de… – o que será que faltou mesmo ao Romário na final?

O que temos até agora é que Parreira foi inteligente e até corajoso em 1994. Em 2006, no entanto, há alguns fatos a nos saltarem aos olhos. A contar pelas evidências dos quatro primeiros jogos – e alguns dirão “não é o caso no segundo tempo do jogo contra o Japão e nem nalguns momentos no jogo contra Gana”, ao que outros responderão “não queiramos tapar o sol com a peneira” – são fatos: 1) Ronaldo e Adriano não vão bem juntos. Eles têm tendências similares, acabam por ocupar os mesmos espaços e às vezes se atrapalham um ao outro. Sem falar que não conseguem jogar um com o outro (o primeiro gol do Adriano parece mesmo confirmar isso). 2) A parte defensiva do meio de campo está sobrecarregada. O Zé Roberto e o Émerson, nos jogos decisivos, estão se arrebentando para dar conta do recado minimamente bem. E agora até mesmo os zagueiros já estão mais expostos e tendo que suar a camiseta.

Relacionado com isso está que o Ronaldinho Gaúcho e o Kaká não cumprem bem funções defensivas e, não obstante, estão posicionados de forma bastante recuada. Isso faz com que num número excessivo de vezes o Zé Roberto e o Émerson tenham que armar jogadas e até ir à frente (embora o Zé Roberto tenha feito um gol, já vimos no que isso normalmente dá). A conclusão principal dos dois fatos é que o tal do “quadrado mágico” não está funcionando. O golpe de misericórdia seria o seguinte: “o Parreira não tem inteligência para perceber isso?” E daí vem: “e fazer alguma coisa a respeito, como mudar o time?” É hora de trazer à cena o azar de Parreira.

Gostaria de registrar o quão importante considero reconhecer os fatos. Os fatos apontados acima são mesmo fatos e são tais que se nada for feito para alterá-los nós com muita probabilidade não ganharemos a nossa sexta copa – a não ser com lances de exceção do quais alguns dos nossos jogadores são capazes. O problema do atual time titular é o azar de Parreira: ele dispõe de um conjunto de jogadores extremamente talentosos que não combinam numa disposição tática eficiente. E não se trata de uma questão de inteligência ou coragem. Parreira tem inteligência para saber o que está acontecendo. E a sabedoria para não aviltar um dos pilares da cultura futebolística brasileira: ele não quer se sobrepor aos nossos talentosos jogadores.

Ele está com a ingrata tarefa de fazer jogar todos esses craques que todos os brasileiros sabem que são ótimos jogadores. Até agora Parreira tem agido com inteligência, o que lhe é característico. Tem procurado jogar com os jogadores que todos acreditam que deveriam formar um time imbatível. Parreira quis recuperar o Ronaldo, que teve seus problemas e parece ser considerado um jogador muito importante nesta campanha de 2006. A recuperação tem acontecido nalguma medida. Mas não estão bem o Adriano e o Ronaldinho Gaúcho; o Kaká parece ser a má-consciência em campo da equipe e pode jogar melhor.

Parreira sabe que o time não esteve bem, que melhorou um pouco, que teve alguns lampejos e que deverá melhorar mais, ele conhece o processo e reconhece a importância da evolução dentro de uma competição como a copa. Ele sabe também que substituições voluntaristas, como a introdução definitiva no time do verde Robinho, não funcionam no curto prazo. Parreira espera conseguir formar um time vencedor durante a copa. O problema está em ele conseguir fazer algo com a sua sorte: esse seu azar. O meu palpite é o de reforçar o meio de campo e ter uma saída de bola mais rápida para o ataque. Mas como? E afinal formar uma liderança em campo, que Parreira acredita que teria que ser o Ronaldo, embora ele também já tenha mostrado ter alguma esperança com o Ronaldinho Gaúcho. Funcionará? O Cafu está mais para reserva moral do time.

Uma observação final sobre os elementos psicológicos no futebol. Poder-se-ia apresentar como atenuante a excessiva pressão que estão sofrendo os nossos jogadores, por termos sido considerados os favoritos e por conta da nossa imprensa futebolística. A tensão estava claramente presente no primeiro jogo. Elementos psicológicos são decisivos no esporte, inclusive no futebol, embora nesse os efeitos possam ser diluídos entre mais participantes. É sempre perceptível aquela falta de segurança no que fazer, em presumir onde estão os companheiros ou o que eles farão. E quando levarmos um gol de um time mais poderoso? Esses problemas, no entanto, são superáveis, o que precisamos é ter time, senão…

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