Os tarados e taradas do Brasil pós-socialismo imaginário

MARÍLIA VERÍSSIMO VERONESE
Impressionante como as pessoas que recentemente assumiram o poder executivo no Brasil – as quais nem consigo adjetivar, pois ainda não inventaram termo adequado para defini-las – têm óbvios pontos de fixação, taras, deliram com fantasias sexuais constantes. Eles “só pensam naquilo”, como dizia a personagem D. Bela, que Zezé Macedo interpretava na Escolinha do Professor Raimundo. Tudo se resume a uma obsessão por órgãos genitais; é mamadeira de piroca, kit gay, um mundo de fantasias sexuais constantemente em ebulição. Ando pensando que terei de voltar aos estudos de psicanálise e reler o texto Três Ensaios sobre a Sexualidade[1] (antes que seja queimado em praça pública e proibido pelo index bolsonarista), para ver se o velho Sigmund me ajuda a entender essa gente. Nessa obra ele analisa as perversões sexuais.
Mas acho que nem Freud explica tamanha monomania. Preocupadíssimos com o que as pessoas têm entre as pernas, não dormem a noite, caraminholando o que vão fazer para controlar a sexualidade alheia. Como se o valor de um ser humano se resumisse ao uso mecânico de seus genitais e à reprodução de uma identidade fixa e imutável, divinamente determinada. Não podem olhar para uma criança sem pensar na pequena genitália daquele serzinho em formação, frágil porquanto ainda dependente de cuidados e ensinamentos? “Tem pipi ou tem perereca? Usa rosa ou usa azul?” exaltam-se eles, babando e rugindo, os olhos e as mentes fixados, ensandecidos. Dizem-se religiosos, cristãos. O Deus deles valoriza tanto assim a genitália humana?!
Na lógica desses depravados, uma pessoa não vale o que sua personalidade singular acrescenta ao mundo que a cerca; não vale pela sua inteligência ou talentos pessoais; não vale por sua existência humana; vale apenas se agir conforme normas rígidas estabelecidas por gente tacanha, em cuja mente estreita tudo é determinado pela aparência dos órgãos sexuais. Fico pensando se não seriam todos pedófilos em potencial, ardendo de desejo doentio pelos pequenos corpos que querem dominar, vigiar e punir (caso não sigam sua obsessão heteronormativa). Essa gente é tão assustadora que é uma hipótese plausível… a medonhice[2] deles não parece ter limites.
Impossível, além de evocar Freud, não me referir também a Foucault. O filósofo e historiador francês estudou em detalhe os meios de coerção e suplício utilizados ao longo da história para subjugar mentalidades e corpos. Quanta maldade o ser humano pode praticar contra seus iguais? No livro Vigiar e punir: o nascimento da prisão[3], o I capítulo, intitulado “Os corpos dos condenados”, abre com a seguinte descrição, obtida na pesquisa do autor em documentos históricos:

  • “[Damiens fora condenado, a 2 de março de 1757], a pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroça, na praça de Greve, e sobre um patíbulo que aí será erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento. Finalmente foi esquartejado [relata a Gazette d’Amsterdam]. Essa última operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não estavam afeitos à tração; de modo que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas…”

Os suplícios e castigos eram medonhos. Os reformadores dos séculos XVIII e XIX iriam demandar o fim dos castigos físicos em praça pública. Não era algo compatível com o “espírito das luzes”, as expectativas morais do iluminismo, das novas ideias desenvolvidas na Europa sob a égide da tríade Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Curioso que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos tenha dito, em recente palestra, que esses governos reacionários tipo Trump, Duterte, Bolsonaro etc, queiram justamente retroceder a um tempo pré-iluminista, pré-revolução francesa. Não à toa, pois, que exaltem a tortura.
O livro de cabeceira do presidente do Brasil foi escrito por um torturador, já reconhecido como tal pelo Estado brasileiro após investigações que não deixam dúvidas. Assassino (mais de 60 pessoas morreram sob seu comando ou ação direta, no DOI-CODI em São Paulo), era claramente um sádico, um psicopata. Brilhante Ustra foi processado várias vezes por ocultar cadáveres, especialmente em valas comuns do cemitério de Perus, na capital paulista. Alguém, certamente, muito pré-reformas do século XIX na Europa, que clamaram pela extinção das sevícias e fim das torturas nos manicômios, asseverando que deviam ser substituídas pelo “tratamento moral” à lá Philippe Pinel. Pois então, caros e caras.
Talvez estejamos diante da tentativa de revogação de um princípio do Direito Internacional, a proibição da tortura. Trata-se de uma norma imperativa, de aplicação obrigatória. Sendo a prática da tortura um ato proibido por lei, é considerada crime e deve ser punida. Contudo, os tarados sexuais fixados em piroca e perereca são declaradamente favoráveis a ela. Os adolescentes trintões, filhos do presidente da república, usam camisetas impressas com odes a Ustra. O bufão presidencial declarou em rede nacional sua admiração pelo torturador assassino. Mesmo assim, foi eleito. É a banalização do mal descrita por Hannah Arendt. É o mal praticado e exaltado, aos zurros, no Parcão e em outros lugares onde moram as supostas “elites”.
Parte da população brasileira (e mundial) nunca incorporou os princípios iluministas. São toscos. São potencialmente pedófilos e torturadores. Utilizam massivamente o mecanismo de projeção, dizendo que os gays é que são pedófilos e pervertidos. Dizem isso enquanto fazem programas com travestis, como publicizado recentemente sobre um político conservador de direita, em Porto Alegre[4].
Otávio Germano é a cara deles. Votando hipocritamente “pela família” no congresso nacional, sai dali e vai fazer sexo com travestis, às escondidas. Seria bem mais saudável largar a obsessão de só pensar naquilo e fazer sexo naturalmente com quem desejasse, sexo consentido e reciprocitário, livre e prazeroso. Sem as taras que possivelmente os atormentam e os fazem assim atormentar os outros.
Deixem as crianças em paz, tarados e taradas (Damares vem se revelando das piores taradas/obcecadas com sexo e com cores, obsessões tolas e sem sentido). Parem de enxergar pênis e vaginas onde devem ver as crianças brasileiras. Deixem-nas ser quem elas são, quem nasceram para ser, herdeiras da infinita diversidade humana, dos milhões de singularidades possíveis. Deem a elas oportunidades de se educarem, de desenvolverem suas aptidões, talentos e possibilidades. Ofereçam a elas oportunidades iguais, educação de qualidade (incluindo educação sexual, ambiental, midiática, para que possam lidar de maneira saudável com esses aspectos da vida), cuidados em saúde, protejam-nas de violências e agressões, proporcionem-lhes lazer, alegria, espaço físico digno e adequado. Ensinem-lhes a respeitar os outros, a praticar a beneficência e evitar a maleficência com humanos e não humanos, com o meio ambiente que as cerca e lhes permite a vida.
Uma criança sempre simboliza a esperança no futuro. No nosso imaginário, ela poderá ver um mundo melhor do que o que nós, adultos, vemos ou ainda poderemos ver. Na medida em que envelhecemos, nos resta cada vez menos tempo. Elas, as crianças, nos sucederão, passaremos o bastão para elas e sucessivamente para as gerações vindouras.
Pois muito bem, adultos ainda lúcidos e responsáveis: temos muito trabalho pela frente nos próximos anos. Para limpar essa lambança toda e deixar algo mais digno, um futuro no qual nossas crianças possam viver e amar livremente, com responsabilidade, tendo a justiça e a solidariedade incorporadas como valores fundamentais, como a nossa mais importante herança para elas.
 
[1] Freud, Sigmund. (1905) Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
[2] De Medonho: assustador, horripilante, horroroso, disforme, desgraçado, sinistro, funesto, aterrador, horrível, pavoroso, temível, tenebroso, terrível, tétrico. In: Dicionário de Sinônimos. Disponível em:  http://www.sinonimos.com.br/busca.php?q=medonhice
[3] Foucault, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis, Vozes, 1987. 288p. Do original em francês: Surveiller et punir.
[4] http://www.diariodocentrodomundo.com.br/travestis-cobram-divida-de-deputado-do-pp-gaucho-que-votou-pelo-impeachment-por-miguel-enriquez/

3 comentários em “Os tarados e taradas do Brasil pós-socialismo imaginário”

  1. Então, para você “as pessoas que recentemenre assumiram o poder executivo no Brasil” são todos tarados com fixação em alguma fantasia sexual. A mim não parece isto. Posso até achar uma idiotice um presidente da república ficar postando bobagens como idiotas se mijando um ao outro, em público, mas não vejo o poder executivo composto por tarados. Acho sim que deve haver limites para expor a sexualidade em público, afinal, não somos uma sociedade de bonomos. Enfim, não gostei do seu artigo.
    Mauro Horst

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