Por que a mídia não quis ouvir Joaquim Barbosa?

P.C. de Lester
O maior sintoma de que há um golpe em andamento é a manipulação do noticiário, sutil quase sempre, às vezes escancarada.
Um exemplo, quentinho: a palestra do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal,  Joaquim Barbosa, na sexta-feira em Florianópolis.
Ele vinha dando sinais de que discordava das interpretações legalistas que foram feitas (e trombeteadas) a respeito do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.
Postou varias mensagens no twitter, intrigantes, questionadoras. E anunciou que falaria mais sobre o assunto na palestra que faria em um evento da Unimed Florianópolis na sexta.
E falou. Disse claramente que “falta fundamentação ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff”.
“”Há um problema sério com a fundamentação. Tenho uma certa dificuldade, uma mal estar como ex-magistrado, com esse fundamento. A alegação é fraca e causa desconforto. Descumprimento de regra orçamentária é regra de todos os governos da Nação. Não é por outro motivo que os Estados estão quebrados. Há um problema sério de proporcionalidade. Não estou dizendo que ela não descumpriu as regras orçamentárias. O que estou querendo dizer é que é desproporcional tirar uma presidente sobre esse fundamento num país como o nosso. Vão aparecer dúvidas sobre a justeza dessa discussão. Mais do que isso, essa dúvida se transformará em ódio entre parcelas da população. Quanto à justeza e ao acerto político dessa medida tenho dúvidas muito sinceras”, afirmou.
joaquimbarbosa“Acredito que, à medida que o tempo for passando, vão crescendo as dúvidas e os pensamentos de boa parte dos brasileiros quanto à justeza dessa destituição, que sem dúvida alguma vai acontecer dentro de duas ou três semanas. Mais do que isso, acho que essa dúvida paulatinamente se transformará em um racha profundo, uma rivalidade, um ódio entre parcela da população. A história mostra, o impeachment provoca esse tipo de paixões. Se ele não é fundamentado de maneira indiscutível, incontroversa, vai provocar esse tipo de discussão. E isso já estamos vendo no cotidiano do Brasil”.
“Quanto à justeza e ao acerto político dessa medida tenho dúvidas muito sinceras. E essa a interpretação que estou dando em primeira mão para vocês. Por outro lado, tem que se levar em conta, impeachment não é só uma questão legal, do domínio dos profissionais dos direitos. É muito mais político do que jurídico. E é isso que a maior parte dos autores desse processo em curso não conseguem perceber. Estamos lidando com algo que mexe com a relação delicada que cada um e nós mantém com o Estado que governo as nossas vidas”.
Graves e importantes declarações de uma figura como Joaquim Barbosa, mesmo que estimuladas por alguma ambição política (ele prega eleições gerais, como saída para a crise).
A palestra terminou antes das dez horas da manhã, conforme registrou o Diário Catarinense. Na mesma hora estava no 247.
Suas palavras foram, no entanto, ignoradas pelos informativos on line  e os noticiários da Globo, Estadão, Folha… só a Zero Hora deu no site uma nota copiada do DC. Postou pouco depois das dez e às seis da tarde já estava fora da capa.
A edição impressa da ZH, a dita superedição de fim de semana, que circula sábado deu cinco linhas no pé de uma nota, amaciando as declarações de Barbosa.
No dia em que Dilma falaria na ONU sobre a crise brasileira, não era conveniente uma voz como a de Joaquim Barbosa engrossando o coro dos que dizem que esse impeachment é um golpe parlamentar.
Se ele tivesse dito que o impeachment é legal, teria merecido manchetes.

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