13 de abril: Queriam transformar o Hino Nacional em grito de guerra, mas ele insiste em ser canto de paz

CRISTIANO GOLDSCHMIDT

No calendário das datas cívicas, o 13 de abril passa quase em silêncio, como um acorde sustentado que poucos escutam até o fim. Não há fogos, não há desfiles grandiosos, não há a coreografia ensaiada das celebrações que se impõem ao olhar. Há, antes, uma espécie de pausa — um intervalo discreto em que repousa a memória de uma música que atravessou o tempo como um rio paciente, desses que contornam pedras sem jamais deixar de seguir. É o Dia Nacional do Hino Brasileiro, e há algo de profundamente simbólico nessa discrição: celebramos um canto que nasceu para unir, mas que hoje, tantas vezes, ecoa como território em disputa.

Antes de ser grito de multidão, o hino foi sussurro de criação. Em 1831, quando o Brasil ainda tateava sua própria identidade como quem aprende a reconhecer o próprio rosto no espelho, Francisco Manuel da Silva compôs uma melodia para retratar um país em formação — instável, grandioso, cheio de promessas e contradições. Décadas depois, as palavras de Joaquim Osório Duque Estrada vieram como uma segunda camada de sentido, vestindo a música com imagens de bravura, natureza e destino. Não era apenas uma canção: era uma tentativa — talvez impossível, talvez necessária — de dizer, em som e verso, o que significava existir como povo.

E, no entanto, nosso hino nunca foi simples. Há nele uma grandiosidade que beira o excesso, como se cada palavra precisasse erguer uma estátua, como se cada verso carregasse a responsabilidade de eternizar uma ideia de pátria. “Margens plácidas”, “brado retumbante”, “lábaro estrelado” — o Brasil ali é mais horizonte do que chão, mais promessa do que realidade. Talvez seja justamente por isso que ele persista: porque não descreve o que somos, mas insiste, teimosamente, no que ainda poderíamos ser.

Mas toda beleza, quando deslocada, corre o risco de endurecer.

Nos tempos recentes, o hino tem sido capturado por vozes que já não querem cantar — querem delimitar. Ele surge em manifestações carregadas de tensão, entoado não como convite, mas como exigência. Canta-se para marcar território, para distinguir quem pertence e quem deve ser colocado à margem. Quem não canta, suspeito é; quem hesita, já se torna alvo. E assim, aquilo que nasceu como ponte vai sendo lentamente erguido como muro, pedra sobre pedra, nota sobre nota, até que o som já não acolhe — apenas separa.

Há uma violência sutil nesse processo, quase invisível para quem não se detém a escutar com atenção. Não se trata da destruição do símbolo, mas de sua torção. O hino permanece reconhecível, intacto em sua melodia, mas deslocado em seu sentido mais profundo. A música que deveria abraçar passa a excluir. O canto coletivo se transforma em coro disciplinado, rígido, onde não há espaço para variações, apenas para repetição.

E talvez o mais trágico seja que esse processo empobrece não apenas o debate político, mas a própria experiência cultural. Reduzir o hino a instrumento ideológico é como transformar poesia em palavra de ordem: perde-se a ambiguidade, o mistério, a abertura que permite múltiplas leituras. O que antes era interpretação vira obediência. O que antes era emoção compartilhada se converte em teste de fidelidade.

Ainda assim, o hino resiste — e talvez resista justamente por não caber inteiro em nenhuma tentativa de controle.

Resiste nas escolas onde crianças tropeçam nas palavras difíceis e ainda assim seguem cantando, inventando sentidos próprios. Resiste nos momentos em que alguém, sozinho, escuta sua melodia e sente algo que não sabe nomear — uma mistura de pertencimento e estranhamento, de orgulho e dúvida, de proximidade e distância. Resiste porque não pertence a quem grita mais alto, mas a quem ainda é capaz de escutar o que há de humano por trás das notas.

Porque o hino, no fundo, nunca foi sobre unanimidade. Foi — e talvez ainda seja — sobre convivência. Sobre a difícil tarefa de existir junto, apesar das diferenças, apesar das discordâncias, apesar das fissuras que insistem em atravessar o tecido social. Ele não exige concordância plena; exige presença. Não impõe uma única voz; pressupõe um coro imperfeito, feito de contrastes.

Neste 13 de abril, celebrar o Hino Nacional talvez seja justamente recusá-lo como instrumento de imposição. É devolvê-lo ao seu estado mais frágil — e, por isso mesmo, mais poderoso: o de canto. Um canto que não apaga conflitos, mas também não os transforma em trincheiras. Um canto que não define quem é mais brasileiro, mas pergunta, com delicadeza e inquietação, o que significa ser.

E talvez, no fim, seja essa a verdadeira subversão: cantar sem ódio em tempos repletos de gritos, ouvir sem medo em meio ao ruído, reconhecer no outro não um inimigo, mas uma voz possível dentro do mesmo coro incompleto.

Porque o hino pode até ser apropriado por alguns por um tempo — mas nunca será totalmente possuído. Ele escapa pelas brechas, ressoa nos lugares inesperados, reaparece onde menos se espera. Ele se reinventa na escuta de quem ainda acredita que o país não é propriedade, mas construção.

E, apesar de tudo — das disputas, dos ruídos, das tentativas de captura — ele permanece.

Não como ordem.
Não como prova.
Mas como canto.