Queimando as pontes

PINHEIRO DO VALE
A presidente afastada Dilma Rousseff fez sua primeira aparição pública, na quarta feira, deixando-se fotografar no Palácio da Alvorada à frente de uma tela de computador comunicando-se pelas redes sociais.
Não se ouviu sua voz nem se leu o conteúdo de suas mensagens.
Não seria esse um bom dia para dar o troco a seus algozes, pois o carteiro levara, há pouco, um ofício expedido pela ministra Rosa Webber, do Supremo Tribunal Federal, pedindo que a “presidenta” se explicasse sobre o que ela quer dizer com “golpe”.
Devido a esse discurso desqualificando o ritual do afastamento, Dilma estaria criando mais uma aresta a lhe dificultar o caminho de volta para o Palácio do Planalto.
Como disse o ex-governador e senador paranaense, Roberto Requião, a presidente afastada está queimando as pontes.
Seus assessores que ainda têm voz, cuidadosamente ponderam que ela deve preservar o que sobrou da debacle. O Supremo é uma possibilidade longínqua, mas é uma luz no fim do túnel.
Isto não quer dizer que o tribunal vá lhe devolver diretamente a cadeira, mas dali pode sair uma fresta estreita que sirva para botar o pé lhe abrindo a porta do gabinete do terceiro andar.
Em breve, talvez na semana que vem, pode estar chegando à praia uma primeira onda do esperado tsunami da Lava Jato, com o julgamento do recurso do presidente da Câmara , Eduardo Cunha, pedindo sua reintegração na Câmara e, por conseguinte, na presidência da Casa.
Uma sentença negativa a Cunha pode ser a porteira aberta para que o ministro Teori Zavaski dispare os primeiros mandatos na orbita do foro privilegiado, pegando a turma que ficou sob sua jurisdição. Aí pode se dar o estouro da boiada.
Os observadores, em Brasília, estimam que devam ocorrer mais de 200 prisões. Esse maremoto levará por diante tudo o que sobrou.
Se conseguir surfar esta onda gigantesca, Dilma poderá chegar à praia e, mesmo arranhada e com algum membro quebrado, voltar a seu lugar. É um fio de esperança.
A tática é que ela fique quieta sem provocar marolas antecipadas, porque a onda grande está quase chegando.
Neste momento, o aconselhável é deixar o embate verbal para sua tropa de choque no Congresso. Neste particular, é interessante observar os discursos exibidos pelas tevês da Câmara e Senado.
Quem vem acompanhando desde antes do impeachment fica com a sensação de que não pode crer nos seus próprios ouvidos.
Os discursos têm os mesmos conteúdos de antes, apenas trocaram-se os oradores. A antiga bancada governista diz o que falavam os opositores e vice versa. Para uns a crise vem das antigas culpas; para os outros os programas sociais são obra do novo governo.
E assim vai.  O novo governo já lançou seu bordão: “abrir a caixa preta”. Isto, no dizer dos assessores de Michel Temer, vai bater diretamente em entidades (ONGs) que têm convênios com o governo federal e que não prestaram contas.
Só no Ministério do Planejamento havia mais de 20 mil projetos em exigência, isto é, em dívida. Isto se refere a pequenas organizações tão minúsculas que não têm condições técnicas para cumprir as intrincadas exigências pra prestação de contas da  burocracia do serviço público.
Com isto, ficaram vulneráveis, impossibilitadas de receber novos aportes ou, mesmo, de se apropriar de recursos já aprovados.
Uma dessas “caixas pretas” seria o Ministério da Cultura, onde artistas e promotores culturais captaram pequenas quantias, irrelevantes, e ficaram com suas contas pendentes.
Além disso, há milhares de outros projetos que embora aprovados, estão em exigências burocráticas, esperando para receber o dinheiro.
Entretanto, muitos desses projetos já fizeram despesas e ainda não puderam pagar seus fornecedores, deixando os promotores com dívidas reais no comércio. É uma situação angustiante.
Segundo informações extraoficiais, o presidente interino teria dito que liberaria 200 milhões de reais para cobrir esse rombo. Essa promessa poderia acalmar protestos que se espalham pelo país, com ocupação de dependências do Ministério da Cultura.
Neste particular, o novo governo assustou-se com a reação da classe artística. Mexer com os famosos, mesmo pequenos saltimbancos, é cutucar uma casa de marimbondos. Michel Temer quer se livrar rapidamente desse incômodo.
No entanto, não conseguiu recuar, como ensaiou, recriando o Ministério da Cultura, como chegou a fazer e voltou atrás duas vezes.
O plano de seus gestores é levar o setor de volta para o Ministério da Educação, mesmo que seja por um tempo limitado, para desmontar a bomba relógio que foi ativada com a atabalhoada providência de simplesmente dar um canetaço num espaço tão sensível.
Com menor impacto, mas tão incômodo quanto o MinC, foi a intervenção na EBC, a empresa Brasileira de Comunicação.
Ali está a TV Brasil, uma emissora regida por um estatuto especial e gerida por um conselho integrado por segmentos da sociedade civil. É outro vespeiro.
Neste caso, porém, ressalva-se a Agência Brasil, uma agência de notícias do governo com grande aceitação no mercado. Esta empresa é, em milhares de casos, a única fonte de material jornalístico de pequenos e médios jornais das cidades brasileiras. Este segmento não estaria ameaçado.
Sua redação é comandada por um jornalista do mercado, o gaúcho Paulo Totti, veterano das mais categorizadas redações da história da Imprensa dos anos 1950 para cá.
Ali se produz um noticiário isento, informativo, que atende a toda a demanda de informações especificas sobre regiões e segmentos da administração, que estão além do foco da chamada grande imprensa, comprometida com noticiário de interesse dos grandes centros urbanos onde os jornais e tevês têm seus mercados principais.
A EBC pode escapar da caça às bruxas.

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