Somos todos campeões na modalidade corrupção

Geraldo Hasse
Mesmo com suas distorções de fundo político-ideológico, a Operação Lava Jato tem sido bastante pedagógica no sentido de revelar a extensão e a profundidade dos arranjos feitos pelos malandros profissionais para fazer a máquina dos negócios funcionar em harmonia com as engrenagens do poder em benefício da chamada turma dos camarotes.
Eles montaram o crime quase perfeito. Funcionou por décadas, do primeiro ao último Cabral. Se foram descobertos é porque alguns protagonistas se refestelaram tanto na sacanagem que deixaram os rabinhos de fora, como nas parábolas sobre os sete pecados capitais.
Quem ainda se lembra deles? Originalmente, segundo a igreja católica, eram sete: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, preguiça, soberba. Atire a primeira pedra quem nunca andou por uma das sete casas.
Hoje em dia há outros pecados, como a cobiça, exercida indiscriminadamente por empresários, executivos, atletas, políticos e pastores religiosos, entre outros.
Ademais, mereceriam enquadrar-se como pecados capitais a desfaçatez dos ladrões do dinheiro público e a hipocrisia de tantos mentirosos de ofício e de ocasião. Como diz o slogan da SporTV, da Rede Globo, “somos todos campeões”.
Entre esses, poderíamos apontar o maior dos corruptos: é o achacador, que se prevalece de posições de mando para angariar vantagens para si e para seus amigos. Na cadeia, impedido de achacar pessoalmente, ameaça alcaguetar ex-companheiros. Mau caráter integral.
Todos os dias os jornais trazem indicadores notórios de que não há lugar para a ética no mundo moderno, pois quase todas as personagens citadas no noticiário estão invariavelmente mais preocupadas com os aspectos materiais da vida do que com os valores morais.
De fato, nada pesa mais no jogo do poder do que a força do dinheiro.  Pesa tanto que se tornou o leit motif (motivo condutor) da maioria dos crimes. Se não é o motivador, está presente no cenário como pano de fundo. Por isso, para a maioria das pessoas, a palavra “negócio” traz implícita a ideia de “sujeira”. Dizendo de outro jeito: não há jogada limpa no mundo dos negócios. Por extensão, a política é um jogo essencialmente sujo.
Propina, graxa, mutreta, bola, maracutaia, pixuleco: seja qual for seu apelido, a corrupção não se restringe aos empresários e executivos ou aos políticos e funcionários de ministérios e partidos políticos.
Estamos mais do que cientes de que a corrupção é generalizada: começa na base da cidadania onde eleitores vendem seus votos, passa pelos políticos que prometem mundos e manipulam fundos doados por picaretas empresariais, e chega aos togados que julgam contas de campanhas, absolvendo camaradas e condenando adversários.
Por artes de uma espécie intangível de corrupção, salva-se quem tiver as costas quentes ou desfrutar de foro privilegiado, uma espécie de asilo procurado por bandidos que se protegem com o voto popular – uma modalidade de corrupção que parece estar com os dias contados.
A partir de 11 de abril, com o amplo acolhimento pelo ministro Facchin, do STF, das delações de executivos da Odebrecht, pode ser que as coisas tomem um novo rumo no âmbito dos supremos poderes, onde o jogo se concentra em apenas 11 cabeças cansadas da guerra política.
PROVÉRBIO DE OCASIÃO
“De barriga de mulher, de urna eleitoral e de cabeça de juiz, ninguém sabe o que pode sair”.

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