Tanto denunciar, tanto delatar

Luiz Recena
Jornalista
Tanto denunciar, tanto delatar
Tanto aceitar, tanto mar, tanto mar
Um fantasma português ronda o Supremo Tribunal Federal: é o fantasma de Gil Vicente, o criador do teatro lusitano e autor, entre outras obras primas, do auto Todo Mundo e Ninguém.
Os inquilinos atuais das togas superiores, que parecem às vezes brincar de reunião de condomínio, ou não leram ou faltaram à reunião que discutiu a importância do teatro português na formação da nossa cultura, tema sempre presente nos seminários que o instituto do superior togado Gilmar Mendes costuma realizar, com patrocínios, em terras dantes visitadas pela elite nacional, desde os tempos do imenso Portugal.
O auto foi levado à cena por vez primeira por ocasião do nascimento do príncipe, filho de dom João III, em 1532. Gil tinha para permissão matar, digo, permissão real para alguma crítica. E não a deixou passar. Todo Mundo é um rico mercador, primeiro a entrar em cena, procurando oportunidades e fortuna. Ninguém é um pobre a fazer perguntas e pensar na vida. Belzebu e o auxiliar Dinato espiam e comentam.
Ninguém: Que andas tu aí buscando?
Todo o mundo: Mil cousas ando a buscar :
delas não posso achar,
porém ando porfiano /por quão bom é porfiar.
Ninguém: Como hás nome, cavalheiro?
Todo o Mundo: Eu hei nome Todo Mundo
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo
Ninguém: Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência
Belzebu: Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei , companheiro?
Belzebu: Que ninguém busca consciência,
e todo mundo dinheiro.
Ninguém: E agora que buscas lá?
Todo o mundo: Busco honra muito grande.
Ninguém: E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.
Belzebu: Outra adição  nos acude:
escreve logo aí, a fundo
que busca honra todo mundo
e ninguém busca virtude.
Ninguém: Buscas outro mor bem qu’esse?
Todo o mundo: Busco mais que me louvasse
tudo quanto eu fizesse.
Ninguém: E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.
Belzebu: Escreve mais.
Dinato: Que tens sabido?
Belzebu: Que quer em extremo grado
todo o mundo ser louvado,
e ninguém ser repreendido.
Ninguém: Buscas mais, amigo meu ?
Todo o mundo: busco a vida a quem ma dê.
Ninguém: A vida não sei o que é,
a morte conheço eu.
Belzebu: Escreve lá outra sorte.
Dinato: Que sorte?
Belzebu: Muito garrida:
Todo o Mundo busca a vida
e ninguém conhece a morte.
Todo o Mundo: E mais queria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.
Ninguém: E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.
Belzebu: Escreve com muito aviso.
Dinato: Que escreverei ?
Belzebu: Escreve
que todo o mundo quer o paraiso
e ninguém paga o que deve.
Todo o Mundo: Folgo muito d’enganar,
e mentir nasceu comigo.
Ninguém: Eu sempre verdade digo
sem nunca me desviar
Belzebu: Ora escreve lá, compadre,
não não sejas tu preguiçoso.
Dinato: Quê?
Belzebu: Que todo o mundo é mentiroso,
E ninguém diz a verdade.
Ninguém: Que mais buscas?
Todo Mundo: Lisonjear.
Ninguém: Eu sou todo desengano.
Belzebu: Escreve, ande lá mano.
Dinato : Que me mandas assentar?
Belzebu: Põe aí mui declarado,
Não te fique no tinteiro:
Todo o mundo é lisonjeiro,
e ninguém desenganado.
STF e o togado Fachin completam:
Todo Mundo é culpado/ Ninguém deve ser maltratado.
 

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