Categoria: Cultura-MATÉRIA

  • Filmes, feira, oficinas, debates e até concurso de oratória na Semana do Japão

    Filmes, feira, oficinas, debates e até concurso de oratória na Semana do Japão

    Cinema, gastronomia, língua, pesquisa e tradições japonesas estarão reunidos em Porto Alegre durante a 3ª Semana do Japão. A programação ocupa espaços da UFRGS entre os dias 5 e 17 de outubro e faz parte das celebrações dos 70 anos da Imigração Japonesa no Rio Grande do Sul.

    O cinema abre a programação. Até 16 de outubro, a Sala Redenção apresenta a mostra “Crônicas e imaginações do Japão”, com oito longas-metragens contemporâneos japoneses. As sessões ocorrem de segunda a sexta-feira, às 16h e às 19h.

    Na tela, diferentes retratos do Japão contemporâneo. Os filmes percorrem histórias sobre relações familiares, encontros inesperados e aspectos da cultura japonesa, oferecendo ao público uma oportunidade de conhecer o país para além de suas imagens mais tradicionais.

    A programação segue no dia 16 de outubro, quando o Centro Cultural da UFRGS recebe, das 14h às 18h, o primeiro dia do XIII Encontro com o Japão. Pesquisadores apresentam trabalhos científicos relacionados à imigração, à língua e à cultura japonesa.

    Um sábado para vivenciar o Japão

    O ponto alto da programação ocorre no sábado, 17 de outubro, com a JAPAN FEST!. Das 9h às 17h30, o Centro Cultural da UFRGS se transforma em um espaço de encontro com diferentes expressões da cultura nipônica.

    Durante todo o dia, o público poderá circular por uma feira japonesa, participar de oficinas culturais e acompanhar atividades acadêmicas e gastronômicas. A programação inclui ainda o segundo dia do XIII Encontro com o Japão.

    A culinária, uma das principais portas de entrada para a cultura japonesa no Brasil, também ganha espaço especial com o seminário “Vamos falar sobre comida japonesa?”.

    Outra atração é o 40º Concurso Regional de Oratória em Língua Japonesa, que coloca em evidência o estudo e a preservação do idioma e chega à sua 40ª edição.

    Algumas atividades necessitam de inscrição prévia. As informações sobre inscrições, horários e a programação completa podem ser consultadas no Instagram do Escritório Consular do Japão em Porto Alegre, @escritoriojapao_poa.

    A 3ª Semana do Japão em Porto Alegre é realizada pelo Escritório Consular do Japão em Porto Alegre e pela Associação da Cultura Japonesa de Porto Alegre, com apoio do Centro Cultural da UFRGS, Hikari Empório Oriental, Kikkoman, JICA e ASBBJ.

    Mais do que apresentar manifestações da cultura japonesa, a programação marca um ano simbólico para a comunidade nipo-gaúcha: os 70 anos da Imigração Japonesa no Rio Grande do Sul, celebrando uma trajetória de integração e de intercâmbio cultural construída ao longo de sete décadas.

    SERVIÇO

    3ª Semana do Japão em Porto Alegre

    Mostra “Crônicas e imaginações do Japão”
    5 a 16 de outubro, de segunda a sexta-feira
    Sessões: 16h e 19h
    Local: Sala Redenção
    Oito longas-metragens contemporâneos japoneses

    XIII Encontro com o Japão – 1º dia
    16 de outubro, das 14h às 18h
    Local: Centro Cultural da UFRGS

    JAPAN FEST!
    17 de outubro, das 9h às 17h30
    Feira japonesa, oficinas culturais, XIII Encontro com o Japão, seminário “Vamos falar sobre comida japonesa?” e 40º Concurso Regional de Oratória em Língua Japonesa.

    Local: Centro Cultural da UFRGS
    Acesso: Av. Sarmento Leite, 426 – Farroupilha – Porto Alegre

    Inscrições e programação: @escritoriojapao_poa

  • Edison Hüttner: é preciso escutar os indígenas mais do que falar

    Edison Hüttner: é preciso escutar os indígenas mais do que falar

    Ao revisitar os 400 anos das Missões, o pesquisador destaca o protagonismo indígena e defende que essa história seja contada com diálogo, escuta e respeito.

    Em entrevista exclusiva ao Jornal JÁ, o professor e pesquisador Edison Hüttner propõe uma revisão da história das Missões Jesuíticas que reconheça a participação e a contribuição dos povos indígenas. Ao marcar os 400 anos da fundação de São Nicolau, ele defende novas interpretações sobre o passado missioneiro, conectadas às demandas indígenas do presente.

    Coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) da PUCRS, professor dos programas de pós-graduação em História e Teologia da universidade e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Hüttner pesquisa a história, a arte e a cultura indígena e missioneira.

    Na conversa, ele relata descobertas que ajudam a reconstituir esse legado, como a identificação do artista guarani Gabriel Quiri como autor do sino de São Miguel e o retorno a São Nicolau de uma escultura barroca encontrada em Santa Maria. Também analisa as reduções como espaços de proteção e controle, a preservação das cosmologias indígenas e os riscos de apagar ou distorcer a memória histórica.

    Ao refletir sobre os desafios da pesquisa, Hüttner destaca a importância de ouvir as comunidades, reconhecer seus saberes e ampliar sua participação na produção do conhecimento. Sua mensagem sintetiza esse compromisso: “Escutar mais que falar”.

    Entrevista a Cristiano Goldschmidt

    JÁ: Ao revisitar os 400 anos das Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul, quais interpretações históricas podem ser consideradas hoje insuficientes ou ultrapassadas?

    Edison Hüttner: A história dos 400 anos das Missões Jesuíticas é um acontecimento vivo e contínuo. Perene. Povos nativos, jesuítas e outros personagens permanecem atuais em nossa memória, em nossa tradição histórica e em nossa cultura. Por isso mesmo, são inúmeras as interpretações, cada uma marcada pelo contexto em que surgiu, sendo necessário que entendamos esse contexto, os diálogos entre as partes envolvidas e seus desdobramentos.

    Envolver-se nesse legado exige contemplar suas diversas perspectivas, dialogando juntos, tendo em vista interpretações históricas que unem aquele mundo, com seu significado, com o mundo de hoje.

    Ao longo de 2026 – mas não só neste período –, quando pensamos e falamos na história dos 400 anos das missões jesuíticas no Rio Grande do Sul, referimo-nos às populações indígenas e suas etnias que pertenceram e construíram aquele mundo: Kaingang, Charruas, Guarani, Minuano. E ainda carecemos de interpretações mais positivas e realistas sobre esses povos que viveram naquele período, especialmente ao confrontarmos com a situação dos povos indígenas atuais.

    Dentro desse contexto, é preciso observar, entender e valorizar profundamente a experiência da Redução de São Nicolau, fundada em 3 de maio de 1626. Afinal, este é o palco principal e articulador de significados daquele período e de seus desdobramentos. Celebramos os 400 anos das Reduções Jesuíticas no Rio Grande do Sul, não 150, nem 300, mas 400 anos, exatamente no dia 3 de maio de 2026.

    Há algo de simbólico neste dia, especialmente para mim. No dia 3 de maio de 2026, estive em São Nicolau. Nesse sentido, revisar e interpretar os 400 anos das Missões Jesuíticas pressupõe: a) a compreensão da Redução de São Nicolau como pedra angular que conecta a história e a paisagem de todos os Sete Povos Missioneiros no Rio Grande do Sul; b) levar adiante o compromisso com os povos indígenas, o legado deixado pelas reduções jesuíticas, valorizando as experiências construtivas ali realizadas, mas agora inseridas em um novo contexto de necessidades contemporâneas desses povos no RS.

    JÁ: Em sua trajetória – cercada de reconhecimento e respeito – como historiador e pesquisador de assuntos indígenas e missioneiros, qual ou quais foram as descobertas mais importantes e como elas aconteceram? 

    Edison Hüttner: As atividades de extensão universitária que realizamos junto às populações indígenas no Rio Grande do Sul, através do Núcleo de Cultura Indígena da PUCRS, desde 2003, me levaram a estudar as expressões de arte e cultura destes povos, de modo particular no contexto das reduções jesuíticas inseridas no território gaúcho.

    Iniciei minhas pesquisas sobre as reduções jesuíticas de modo mais aprofundado em 2006, tendo como foco o Sino de São Miguel, datado de 1726. Então, 2026 marca também os 300 anos do maior sino missioneiro. Descobri, através da obra do jesuíta Antônio Sepp, que o sino foi criado por um índio guarani chamado Gabriel Quiri, que também era um músico muito admirado nas reduções. Atualmente, o sino está exposto no alpendre do Museu das Missões, localizado no Sítio Arqueológico São Miguel Arcanjo – RS

    Sino de São Miguel | Foto de Edison Hüttner/Divulgação.

    É o maior sino missioneiro, nunca havia sido pesado, e exatamente por esta razão, os pesquisadores divergiam quanto ao seu peso. E não havia registro da composição metálica e nem gravação dos sons emitidos pelo sino. Ao conseguirmos içá-lo para pesá-lo, a balança indicou 910 quilos. Também registramos sua história e seus sons, que agora estão disponíveis para todos ouvirem. O sino é feito de bronze, e sua composição é de 80% cobre e 20% de estanho. Mede 1 metro e 10 centímetros de altura e tem 1 metro e 15 centímetros de circunferência

    Tive a satisfação de visitar diversas vezes São Nicolau, onde fui muito bem acolhido pela comunidade local e pela administração municipal ao longo dos anos. Durante essas visitas, realizei duas descobertas importantes.

    Uma delas, ocorrida em 2017, quando identifiquei no município de Santa Maria (RS) uma escultura barroca jesuítico-guarani de São Nicolau. Originária do município de São Nicolau, datada entre os séculos XVII-XVIII, havia sido roubada de São Nicolau nos 1960.  Depois de minha descoberta, a bela escultura retornou, em 2017, à igreja de onde havia sido levada, trazendo alegria para a população e restabelecendo um importante patrimônio histórico e cultural para a comunidade.

    Escultura de São Nicolau | Foto de Bruno Todeschini/Divulgação

    Em 2020, também identifiquei uma fonte de água pertencente à redução de São Nicolau. Neste local, após esta descoberta, foi projetado e criado pela Prefeitura de São Nicolau o “Projeto do Parque da Fonte Missioneira do Chafariz de São Nicolau”, em comemoração aos 400 anos das Missões. Este ano, uma equipe de arqueólogos, coordenado pela Juliana Soares, iniciou escavações no local com o objetivo de revitalizá-lo. E fui convidado a integrar essa equipe de trabalho.

    JÁ: Algum outro achado documental ou evidência que tenha alterado significativamente sua compreensão sobre a relação entre os jesuítas e os povos indígenas?

    Edison Hüttner: Foram muitas as descobertas registradas e documentadas ao longo desses anos. Mas, também em 2017, descobri no município de Panambi (RS) um manuscrito jesuíta raríssimo, datado do período entre 1730 – 1740, e que em breve será tombado pelo IPHAN. O Manuscrito é bilíngue, escrito em espanhol e latim. É possível identificar a escrita e a caligrafia de várias mãos, tanto de índios quanto de jesuítas. Em outras palavras, trata-se de uma produção de livro manuscrito para as escolas das reduções, com conteúdos diversos, evidenciando o alto nível de produção e de aprendizagem das populações missioneiras daquele período.

    Capa de couro do Manuscrito Jesuíta | Foto de Edison Hüttner /Divulgação
    Trecho do Manuscrito Jesuíta em que é possível ver a marca d’água do fabricante europeu do papel usado | Foto de Edison Hüttner /Divulgação
    Página do Manuscrito Jesuíta em que o Zodíaco é abordado | Foto de Edison Hüttner/Divulgação

    Em 2018, pesquisei um Relatório das Guerras Cisplatinas (1817-1818), elaborado pelo militar Francisco Chagas do Santos, encontrado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Esse documento registra a chegada de 43 sinos missioneiros saqueados por Chagas durante a invasão às reduções jesuítas na Argentina e no Paraguai. Os sinos foram transportados para Porto Alegre. Os padres solicitavam esses sinos para suas capelas no interior do RS. Alguns destes sinos nós identificamos em cidades como Caçapava do Sul, Candelária, São Martinho da Serra, Santa Maria e São Francisco de Assis. 

    Na torre da igreja de Caçapava do Sul há um sino missioneiro datado de 1732, originário da Redução da Santíssima Trindade, no Paraguai.  Registramos os sons produzidos por esse sino. O único sino do período das Sete Reduções Jesuíticas que possui o nome de autoria de um índio gravado nele próprio. No sino, em alto relevo, está gravado o nome do índio guarani que o criou: Ignatius Guarepi.

    Sinos de 1732 identificados em Caçapava do Sul. No detalhe da imagem à direita, o nome de Ignatius Guarepi aparece gravado | Foto de Edison Hüttner/Divulgação.

    JÁ: Como o senhor avalia a tensão entre o projeto evangelizador jesuítico e a preservação das cosmologias indígenas originárias?

    Edison Hüttner: Importante dizer que o projeto missionário aconteceu dentro dos parâmetros de sua época, que naturalmente podem ser questionados. Durante o período das reduções jesuíticas, houve um controle rigoroso das manifestações de rituais xamânicos em espaços públicos, dentro do ambiente das capelas e das igrejas. Ao mesmo tempo, esse mundo não poderia se manter sem a expressão das crenças nativas, que continuavam a existir em configurações mais discretas e adaptadas, em espaços privados ou por meio de práticas sincréticas, envolvendo elementos indígenas e católicos.

    Esse processo ocorreu no início por meio de experiências híbridas, ajustamentos e analogias. Por exemplo, o deus cristão recebe o nome de Ñandé Djára: Nosso Senhor. Os anjos: yvyrárí djá – que seriam os espíritos protetores da mitologia guarani. Foram relatados casos em que os índios cultuavam a cruz, mas com uma ave de rapina ao lado.  Com o passar do tempo, inseridos naquele contexto, a maioria dos índios se tornou cristão católico.  Como prova, existem registros de batismos de índios e de seu envolvimento nas celebrações e festividades religiosas nas reduções. De alguma forma, isso ainda acontece hoje nas aldeias do RS e do Brasil. Por exemplo, índios que se convertem à igreja evangélica, ou uma outra representação, mas que paralelamente preservam suas tradições religiosas e culturais.

    Acredito que os povos indígenas conseguiram preservar suas cosmologias, de modo particular o mito guarani Yvy Marãe‟y (Terra sem Mal), equivalente ao Mito do Jardim do Éden e à noção de vida eterna que os jesuítas defendiam. O que mantinha o verdadeiro significado destes mitos era: a) as trocas e compartilhamentos de experiências cotidianas entre índios e jesuítas; b) alguma área fora da redução, no Abambaé (terra dos homens), que era um espaço (chácara) destinado às famílias indígenas para cultivarem sua própria sobrevivência; c) o conhecimento da astronomia guarani.

    Quando Buenaventura Suarez, um astrônomo jesuíta (1679-1750), estabeleceu seu centro astronômico em São Tomé, ele utilizou ali instrumentos produzidos com materiais encontrados no local. Esse centro astronômico foi construído com a participação dos índios guarani, que também o influenciaram com sua visão de mundo, com sua astronomia. A sabedoria nativa dialogou com a obra de Buenaventura Suarez, que, em suas observações do céu, também registrou a constelação guarani de Ema (Guyra Nhandu).

    JÁ: Até que ponto as reduções jesuíticas podem ser interpretadas como espaços de proteção indígena, e em que medida também representaram mecanismos de controle cultural?

    Edison Hüttner: Aqui temos um ponto importante a considerar. Espanha e Portugal invadiram as terras além-mar e transformaram essas “terras descobertas” em colônias de seus reinados. Há estudos que comprovam que, naquela época, o lugar mais seguro para as populações nativas era o espaço das reduções jesuíticas. Fora deste contexto, essas populações ficavam expostas à caça, à escravização por bandeirantes, e, muitas vezes, à morte. Nesse cenário, surgiram as 30 Reduções da Província Jesuítica do Paraguai (séc. XVII-XVIII), que também funcionavam, dado o contexto da época, como forma de proteção e organização social para os povos indígenas.

    Naquele período, houve diálogo entre indígenas e jesuítas sob várias perspectivas, uma delas foi a valorização da língua nativa, de modo particular o idioma guarani. Aquele mundo era bilíngue, espanhol-guarani, o que permitiu sua proteção, sua manutenção e sua divulgação. Sem essa ligação linguística, aquele mundo não teria se desenvolvido com as criações da arte e da cultura tal como as conhecemos hoje.  Nessa perspectiva, é necessário observarmos o que existe no espaço em branco das linhas. E observarmos este fenômeno de uma sociedade que fez história, que escreveu sua própria história. 

    O modo de ser e fazer indígena fizeram parte do cotidiano das reduções jesuíticas, promovendo trocas de experiências, diálogos e influências culturais recíprocas necessárias para a vida social de então. Por exemplo, os vasos e as panelas de barro cozido feitos pelos indígenas passaram a ser pintados com um pincel das oficinas de arte ministradas pelos jesuítas. Além disso, a erva-mate, que os indígenas consumiam tradicionalmente em suas cabaças com água fervida, foi adaptada pelos jesuítas com o processo da moagem das folhas feito também pelos jesuítas, possibilitando seu consumo e comercialização em grande escala.

    JÁ: O senhor identifica permanências culturais indígenas nas regiões missioneiras atuais que ainda não foram devidamente reconhecidas pela historiografia dominante?

    Edison Hüttner: Penso que ainda precisamos expandir o espaço de diálogo, de compreensão, de valorização, do reconhecimento e do justo significado da história e da arte indígena do passado e do presente, seja ela produzida no contexto das reduções jesuíticas ou fora delas.

    É importante reconhecermos as manifestações culturais geradas nas oficinas das reduções jesuíticas, como as peças criadas por indígenas artistas, pintores e artesãos. A arte daquele período é sempre perene e atual. Pois havia índios artistas em vários campos do saber, como o famoso Ignacio Guarepi, que fez o sino da Redução de Santíssimo Trindade, em 1732. Esse e outros mestres indígenas do passado são importantes, proporcionaram a construção de uma identidade própria. Por isso, é fundamental esse reconhecimento por todos, pelas etnias Kaingang e Guarani que vivem nas aldeias do RS.  

    Nessa mesma perspectiva, é necessário reconhecermos os artífices indígenas contemporâneos que criam suas obras de arte de modo artesanal em madeira, em cortiça, representando animais como corujas, capivaras e onças-pintadas. É importante também valorizarmos os balaios pintados com urucum, assim como os sons dos violões e violinos tocados nas apresentações de corais indígenas. Precisamos de mais estudos e registros, feitos pelas próprias comunidades indígenas ou por estas em diálogo com pesquisadores e historiadores sérios e comprometidos com a causa. Não sabemos, em geral, o nome dos artesãos e dos cantores, precisamos saber de todos; na maioria dos casos os vemos se apresentando ou vendendo suas obras nas esquinas e nas praças das cidades.

    JÁ: Em termos metodológicos, quais desafios específicos surgem ao se tentar amplificar a voz indígena através de produções feitas majoritariamente por não-indígenas?

    Edison Hüttner: Aqui temos um dado importante: as produções acadêmicas de indígenas no Rio Grande do Sul têm aumentado consideravelmente nos últimos anos, resultando em registros importantes para a configuração da identidade e da voz dos povos indígenas. Falando em metodologia de pesquisa, havendo permissão e diálogo, o primeiro passo é visitar as aldeias para o convívio e a troca de experiências. Escutar mais que falar. Um dos desafios consiste em fazer mapas da realidade atual, compreendermos os problemas e os conceitos na fonte, onde eles nascem. Qualquer pesquisa sobre o tema deve considerar, em primeiro lugar, que a voz indígena precisa ser ouvida e respeitada para sabermos onde nos situar. A partir disso, realizarmos ações conjuntas que valorizem todos os aspectos essenciais para a compreensão do que eles buscam e do que nós, como pesquisadores, buscamos. Só assim poderemos contribuir com as pesquisas sobre o tema, com o crescimento das aldeias, com a manutenção de suas culturas e, respectivamente, com a construção de estudos relevantes, creditando sempre os nomes de todos os envolvidos.

    JÁ: Como o senhor enxerga o papel das missões jesuíticas dentro do contexto mais amplo da colonização ibérica na América do Sul?

    Edison Hüttner: Foi realmente algo muito grande. Em 1730, a rede das 30 reduções jesuítas alcançou uma estimativa de população de mais de 145 mil pessoas, convivendo numa rede de fala bilíngue e fundando uma sociedade altamente criativa que se bastou a si mesma e forjou uma identidade cultural própria, a qual chamo de helenismo sul-americano missioneiro.

    JÁ: Ao longo de suas pesquisas, houve momentos em que narrativas consagradas entraram em conflito com evidências empíricas? Como o senhor lidou com essas tensões?

    Edison Hüttner: Sim. Como no exemplo do sino de São Miguel, fundido em 1726. Os autores divergiam sobre algumas informações, sobre o peso do sino, que só foi possível confirmá-lo após uma força tarefa para pesá-lo, chegando nos 910 quilos. 

    Outro caso muito interessante foi um registro que encontrei na obra “Comentário Eclesiástico do Rio Grande de São Pedro”, publicada por Vicente Zeferino Dias Lopes, em 1891. Nela, consta que a escultura de uma Imaculada Conceição, da época das reduções, foi levada em 1863 para a igreja matriz de São Jerônimo. Em 2015, visitei essa igreja em busca da escultura. De fato, havia lá uma escultura da Imaculada Conceição.  À primeira vista, parecia ser de gesso, pois estava em ótima forma e bem pintada. No entanto, ao observar a parte de trás, notei uma área descascada no orbe que revelou um trabalho em policromia sobre a madeira.

    Escultura da Imaculada Conceição, retirada das reduções e levada em 1863 para a igreja matriz de São Jerônimo | Foto de Edison Hüttner/ Divulgação

    Com autorização, realizamos uma tomografia no Instituto do Cérebro do RS, na PUCRS. Então, foi possível ver a parte oca da escultura e os detalhes do barroco missioneiro. Consultando o Livro de Fábrica da Matriz, descobri que a escultura passou por uma restauração em 1914. Era uma técnica muito usada no período, chamada de encarnação ou estofamento da imagem, que constituiu na aplicação de 1 cm de gesso sobre a escultura original da Imaculada Conceição. Nesse caso, não houve conflito entre a historiografia e a parte empírica, mas sim ajustes para elucidar o caso. O conflito estava no desenrolar da história, causado por uma restauração que apagou a verdadeira identidade de uma escultura missioneira. Essa história foi recuperada, graças à documentação histórica e à evidência empírica, que possibilitaram o resgate de seu significado original.

    Tomografia da Escultura da Imaculada Conceição | Foto de Edison Hüttner/Divulgação.

    JÁ: De que forma nos apropriamos hoje da memória histórica e artística das Missões — seja através das políticas públicas, do turismo ou até mesmo como identidade regional — e quais riscos isso pode trazer para a sua descaracterização?

    Edison Hüttner: Quando visitamos cidades como Roma ou o Egito, por exemplo, nos maravilhamos com a arquitetura e as obras de arte que lá estão preservadas. Muitas vezes, observamos a arte pela arte, por sua imagética e estética. E geralmente não nos questionamos sobre os motivos ou os princípios políticos que financiaram estas obras ou aqueles espaços, destinados hoje à visitação pública. Da mesma forma, ao visitarmos as ruínas jesuíticas ou os museus no RS destinados àquele período, observamos suas obras, parcial ou totalmente preservadas e protegidas, sem refletirmos que estas também merecem ser olhadas e consideradas pelo seu contexto histórico e pelo motivo pelas quais foram criadas. Nessa perspectiva, existem dois riscos principais: a) a não valorização desta arte, seja ela criada por indígenas ou por jesuítas, e que esta desvalorização pode diminuir ou apagar a sua importância cultural e estética para a nossa história; b) fazer interpretações equivocadas ou negativas sobre esses espaços missioneiros, que geralmente são motivadas por ausência de conhecimento ou por acesso a informações que não sejam fidedignas ao que de fato aconteceu ali. Por isso, o importante é sempre buscar fontes que possam explicar e traduzir a verdadeira história e o verdadeiro significado das reduções jesuítas.

    JÁ: O senhor acredita que há um processo de romantização das Missões Jesuíticas? Se sim, quais aspectos costumam ser negligenciados nesse processo?

    Edison Hüttner: No Rio Grande do Sul, em termos gerais, não tivemos uma visão romântica das missões, mas vejo sim uma perspectiva tradicionalista, no sentido folclórico, que faz elo com a cultura e a música gauchesca.  Essa perspectiva divulga e credita o termo missioneiro atrelado à cruz missioneira. A figura do índio Sepé Tiaraju ganha então destaque como herói nacional e Servo de Deus, representando a resistência e a fé que marcaram toda a história da região. A perspectiva da tradição, nesse sentido, mais que romantização, acontece por falta de leitores interessados ou por leitores sem acesso a uma literatura apropriada, sem viés ideológico ou de abordagem duvidosa.

    JÁ: Como as questões indígenas contemporâneas no Brasil dialogam — ou deixam de dialogar — com o legado histórico das Missões no sul do país?

    Edison Hüttner: Penso que a academia, os escritores, a imprensa e os próprios indígenas contemporâneos precisam se dedicar e valorizar mais as vivências e a criação artística e intelectual dos povos indígenas que viveram no período das reduções. Arte, cultura e edificações foram produzidas em grande escala. As palavras indígenas abambaé e tupambaé conceituaram como devia ser o sistema econômico, bem como o modelo de trabalho e de propriedade das reduções jesuíticas. Diga-se de passagem, que a Guerra Guaranítica (1753-1756) provou que tanto os índios quanto os jesuítas que estavam nas reduções não queriam que as reduções fossem destruídas pelo exército espanhol e português.

    JÁ: Em sua visão, quais contribuições a pesquisa histórica sobre as Missões pode oferecer ao debate atual sobre direitos territoriais indígenas?

    Edison Hüttner: Vou dar um exemplo. O direito ao reconhecimento oficial da “religião” (expressões xamânicas, mitos) de cada etnia indígena, não só no Rio Grande do Sul, mas no país todo, já está presente na Constituição Federal de 1988, que em seu Artigo 231, garante: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições...”. Contudo, até o momento, nenhuma manifestação ou “religião” indígena específica foi oficialmente reconhecida em cartório no Brasil, como ocorre com outras religiões e igrejas. Se queremos realmente valorizar os direitos indígenas, não apenas os que dizem respeito aos seus territórios, mas também às suas crenças, é necessário haver um forte trabalho pelo reconhecimento oficial de suas crenças, expressões ou manifestações de fé. Esse passo, junto com a proteção dos seus territórios, garantiria proteção legal e respeito às práticas xamânicas e rituais dessas comunidades indígenas. Talvez fosse um fator a mais a contribuir contra influências, interferências e imposições externas. Com o passar do tempo, essas experiências não registradas podem acabar se perdendo.

    JÁ: Considerando os 400 anos desse processo histórico, quais seriam as perguntas ainda não feitas — ou pouco exploradas — que deveriam orientar novas pesquisas?

    Edison Hüttner: É importante fazermos perguntas a partir de dentro das aldeias indígenas, das instituições jesuítas e das cidades que preservam o patrimônio cultural e artístico dos Sete Povos das Missões do Rio Grande do Sul. Hoje, no estado, há uma estimativa de 38 mil indígenas, com representação de quatro etnias: Mbya Guarani, Kaingang, Xokleng e Charrua.  Praticamente a mesma estimativa de indígenas que viviam nas reduções dos Sete Povos das Missões. Como as instituições municipais, estaduais e federais estão respondendo hoje às demandas e à situação desses diferentes povos indígenas nas áreas da saúde, da educação, da moradia e de valorização da sua cultura? Nesse sentido, é importante observarmos todos os índices alcançados nestas áreas no passado e no presente, não apenas para fins de registro, mas principalmente para encontrarmos as respostas necessárias que conduzam à construção de políticas públicas que de fato atendam às demandas urgentes dessas populações, e que não são poucas.

    JÁ: Uma última pergunta: Qual legado intelectual e humano o senhor considera mais relevante transmitir às próximas gerações ao estudar as Missões Jesuíticas e as culturas indígenas?

    Edison Hüttner: O legado mais relevante que procuro transmitir é a demonstração da própria convivência e das vivências entre índios e não índios nas reduções jesuítas. Essa vivência bastou por si só, porque deu certo, porque sobrepujou o modelo de uma nova experiência de sociedade. Acredito fortemente que se os índios e os jesuítas não tivessem sido expulsos das reduções, teríamos um novo estado bilíngue, com uma identidade nativa altamente avançada. Com certeza, esse foi o receio das autoridades coloniais espanhola e portuguesa, que agiram selvagemente para impedir esse processo de crescimento.

  • Arte, Política e Democracia: livro convida a reflexões sobre o futuro do país

    Arte, Política e Democracia: livro convida a reflexões sobre o futuro do país

    Coletânea reúne pesquisadores de diferentes estados e aproxima teatro, dança, artes visuais, memória e participação política

    Em um claro convite à reflexão coletiva sobre o futuro do país, às vésperas das eleições, o livro Arte, Política e Democracia: reflexões sobre artes visuais, teatro e dança, será lançado em Porto Alegre no dia 30 de setembro, das 19h às 21h, na Fundação Ecarta, dentro da programação do projeto Ecarta Anfitriã.

    Organizado por Daniela Kern, Rosane Vargas e Cristiano Goldschmidt, o livro reúne 19 artigos produzidos por pesquisadores de diferentes regiões do país. O resultado é uma coletânea de ampla abrangência temática, que percorre a história da arte, o teatro, a dança, o carnaval, a performance, a cultura afro-brasileira, questões de gênero, as políticas culturais e os movimentos sociais para discutir um mesmo problema: de que maneira a produção artística participa das disputas de memória, representação e poder que atravessam a democracia brasileira.

    A origem do projeto está ligada a outra publicação organizada por Goldschmidt. Depois de lançar Diálogos com Paulo Freire para entender e mudar o mundo: 100 anos de um educador (Editora Diálogo Freiriano, 2022), coorganizado com Liana Borges, com a parceria de Nita Freire, viúva do educador, Goldschmidt afirma ter percebido que precisava se dedicar a uma obra voltada às relações entre arte, política e democracia. O livro anterior homenageou o centenário de nascimento de Paulo Freire, reconhecido como Patrono da Educação Brasileira.

    “Pensei que precisava me dedicar a organizar uma obra sobre ‘Arte, Política e Democracia’, desta vez um livro que trouxesse reflexões sobre o momento político que então vivíamos, com ataques às artes e à cultura em geral”, relata Goldschmidt.

    Naquele momento, ele procurou Rosane Vargas e propôs uma parceria na organização. Rosane sugeriu o nome de sua orientadora de doutorado, Daniela Kern, para integrar a empreitada. Desde o início, segundo Goldschmidt, a ideia era lançar um edital público para a submissão de artigos, de modo a reunir contribuições de pesquisadores das artes de muitos estados da federação. O projeto foi iniciado no primeiro semestre de 2022 e se desenvolveu em meio à pandemia, à crise política e ao agravamento dos ataques às instituições democráticas.

    A proposta resultou em uma publicação que não se restringe à análise de obras consagradas ou de episódios recentes. Os artigos também recuperam experiências históricas pouco conhecidas, acompanham trajetórias coletivas e mostram como diferentes linguagens artísticas produziram formas de resistência em contextos autoritários.

    Um teatro que transforma a conjuntura em cena

    Entre os textos em destaque está “Crônica de uma performance em Teatro”, de Marcelo Ádams. O artigo parte da experiência do ator no espetáculo O inverno do nosso descontentamento, Nosso Ricardo III, uma criação baseada em Shakespeare e realizada com a atriz Margarida Peixoto e o diretor Luciano Alabarse, da Cia Teatro ao Quadrado.

    Em vez de apresentar apenas uma análise externa da montagem, Ádams escreve a partir do próprio processo de criação e descreve a organização da performance em cenas. O espetáculo alterna a presença do personagem Ricardo com a do ator Marcelo, explorando as fronteiras entre representação e depoimento, personagem e intérprete, passado histórico e conjuntura brasileira.

    O artigo acompanha recursos de encenação como a composição física do protagonista, a construção de um corpo marcado por escoliose, a presença de máscaras, os jogos com a quarta parede e o uso de referências a Frankenstein, White Heat e King Kong. A montagem também incorpora elementos de Beckett, Shakespeare, Brecht e da tradição do teatro épico.

    Um dos momentos mais diretamente relacionados à política brasileira é a cena do discurso. Com duração superior a 23 minutos e cerca de 3,7 mil palavras, ela reproduz a velocidade e determinados padrões de fala associados ao discurso político contemporâneo, com destaque aos discursos de ódio proferidos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. A imitação não funciona como simples caricatura. O procedimento revela como a linguagem pública pode combinar apelo religioso, violência, autoritarismo e teatralidade.

    O texto de Ádams interessa ao conjunto do livro porque mostra a política dentro do próprio mecanismo da cena. Não se trata apenas de abordar um tema político, mas de compreender como ritmo, corpo, voz, figurino, paródia e presença do ator produzem uma leitura crítica do poder.

    O artista como empreendedor de si mesmo

    Outro artigo é “Neoliberalismo e arte contemporânea”, de Lucas Dilacerda. O autor examina a transformação da figura do artista em um trabalhador que precisa administrar a própria imagem, divulgar permanentemente sua produção e converter sua presença em valor.

    A análise passa pelas ideias de Arthur Danto sobre os regimes ontológicos da arte e pelo conceito de “artista-etc.”, associado a Ricardo Basbaum. Dilacerda observa que o artista contemporâneo é frequentemente levado a acumular funções: produtor, curador, gestor, comunicador, empreendedor e “blogueiro de si”.

    O texto identifica três efeitos do neoliberalismo no campo artístico: a exigência de formalização do trabalhador como microempreendedor individual, a ampliação indefinida das tarefas reunidas na expressão “artista-etc.” e a necessidade de transformar a autopromoção em parte permanente do trabalho. A crítica não recai sobre o uso de redes sociais ou sobre a autonomia profissional em si, mas sobre a transformação da visibilidade em obrigação econômica.

    Ao tratar a arte e o artista como invenções históricas, o artigo questiona a ideia de que exista uma essência fixa da produção artística. O que se entende por arte muda conforme as instituições, as relações econômicas e as disputas sociais. A democracia, nesse contexto, também depende das condições concretas de trabalho, financiamento, circulação e reconhecimento dos produtores culturais.

    Quando a destruição vira mercadoria

    A crítica ao mercado e à tecnologia aparece de forma radical em “A obra de arte na era de sua destrutibilidade técnica”, de Yuri Flores Machado. O artigo analisa o projeto The Burned Picasso, no qual um desenho de Pablo Picasso, Fumeur V, de 1964, foi adquirido, queimado e associado a um NFT (non-fungible token), um registro digital em blockchain que passou a representar a obra destruída.

    O episódio é colocado em diálogo com Walter Benjamin, especialmente com as discussões sobre aura, reprodução técnica e sobrevivência da obra. O texto pergunta o que acontece quando a destruição física deixa de significar desaparecimento e passa a funcionar como estratégia de valorização financeira.

    Para Machado, a operação expõe a relação entre especulação, exclusão cultural e fetichização tecnológica. A promessa de uma arte imaterial e acessível por meio da blockchain não elimina as desigualdades do sistema artístico. Ao contrário, pode criar novos espaços de privilégio, nos quais a experiência da obra é substituída pelo acesso restrito ao ativo e à narrativa de sua valorização.

    O artigo também questiona o mito da neutralidade tecnológica e aproxima a queima do desenho de Picasso de outras formas históricas de destruição de imagens, livros e patrimônios. A discussão amplia o alcance do livro ao mostrar que a relação entre arte e política passa, atualmente, também pelos regimes digitais de propriedade, circulação e visibilidade.

    Arquivos, masculinidades e memória colonial

    A coletânea apresenta ainda o estudo de Ramsés Albertoni Barbosa sobre a artista chilena Voluspa Jarpa. O texto investiga obras que reorganizam documentos desclassificados sobre as ditaduras sul-americanas e a Operação Condor. Em instalações como Declassified, secret and confidential: outgoing message e L’Effet Charcot, o arquivo aparece como material físico, fragmentado e incompleto.

    Barbosa aproxima os documentos de questões relacionadas ao trauma, à histeria e à memória histórica. A obra de Jarpa não apenas expõe informações antes mantidas em segredo. Ela também torna sensível o modo como a violência política continua inscrita no corpo dos arquivos, nas lacunas e nos apagamentos.

    Na parte dedicada à dança, Luciano Correa Tavares e Suzane Weber da Silva discutem as experiências afrodiaspóricas de homens negros e suas masculinidades. O artigo aborda as relações entre corpo, raça, gênero e poder, além das condições econômicas precárias que caracterizam o trabalho na dança.

    Os autores mobilizam conceitos de capital corporal, social e cultural para analisar a trajetória de dançarinos negros, entre eles Rui Moreira, Luiz de Abreu e Rubens Oliveira. O texto também recupera a importância de Rubens Barbot, criador de uma companhia brasileira voltada à cultura negra, e discute o conceito de danças negras formulado por Patrick Acogny.

    A questão central é saber como corpos negros são enquadrados, reconhecidos e valorizados no campo da dança. Ao mesmo tempo em que esses artistas enfrentam padrões raciais e estéticos dominantes, produzem outras noções de pertencimento, masculinidade e presença cênica.

    Uma chamada pública para ampliar o debate

    O livro inclui também artigos sobre a atuação do Bando de Teatro Olodum, os trabalhos de Gê Viana, as experiências de história oral e performance de Andrea Paula dos Santos Oliveira Kamensky, as pesquisas de Frederico Duarte Bartz sobre imagens e socialismo no movimento operário do Rio Grande do Sul e o Clube de Gravura de Bagé, estudado por Andréia Carolina Duarte Duprat.

    A diversidade de temas corresponde à escolha editorial de abrir a publicação à participação de pesquisadores de várias partes do Brasil. O edital público permitiu que a coletânea não ficasse limitada a um único centro acadêmico ou a uma perspectiva regional. Essa abrangência aparece tanto na variedade dos objetos quanto nas diferentes formas de pesquisa, que incluem análise de espetáculos, história da arte, estudo de arquivos, entrevistas, história oral, leitura de imagens e acompanhamento de práticas coletivas.

    O resultado é uma obra que trata a democracia como uma experiência disputada no cotidiano. Ela está nos palcos, nos desfiles de Carnaval, nos jornais operários, nos museus, nos monumentos, nos arquivos, nas instituições de ensino e nas condições de trabalho dos artistas.

    Em período eleitoral, o lançamento de Arte, Política e Democracia recoloca a cultura no centro do debate público. A publicação mostra que as artes não apenas refletem crises políticas. Elas também produzem documentos, questionam versões oficiais, abrem espaços de participação e constroem imagens capazes de alterar o modo como uma sociedade reconhece seus conflitos.

    Serviço

    Lançamento: Arte, Política e Democracia: reflexões sobre artes visuais, teatro e dança
    Data: 30 de setembro de 2026
    Horário: das 19h às 21h
    Local: Fundação Ecarta, Porto Alegre
    Programação: projeto Ecarta Anfitriã
    Organização: Cristiano Goldschmidt, Rosane Vargas e Daniela Kern
    Editora: Panorama Crítico
    ISBN: 978-65-89388-03-6

  • Verissimo em São Paulo: “O mundo fabuloso do mestre do humor”

    Verissimo em São Paulo: “O mundo fabuloso do mestre do humor”

    A partir de 24 de setembro, um lado pouco conhecido de Luis Fernando Verissimo estará exposto no Centro Cultural Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) na exposição “Traçando Verissimo – O mundo fabuloso do mestre do humor”

    São 300 peças entre charges, tiras, desenhos, ilustrações e fotos de família e objetos do escritor, jornalista, humorista, desenhista e músico que completaria 90 anos neste 26 de setembro de 2026. Veríssimo morreu em 30 de agosto do ano passado.

    “A gente tem de sair de lá rindo um pouco da nossa vida, da estranha vida que a gente leva. Acho que vamos sair com a alma leve, nutrida por reflexões profundas e, ao mesmo tempo, leves, engraçadas”, declarou a curadora Isa Pessoa.

    Local: Centro Cultural FIESP (Avenida Paulista, 1.313 — São Paulo, em frente à estação Trianon-Masp)

    • Horário: Terça a domingo, das 10h às 20h
    • Entrada: Gratuita (sem necessidade de reserva de ingressos) [1]
  • Enio Squeff : a saga paulista num mural de 120 metros quadrados

    Enio Squeff : a saga paulista num mural de 120 metros quadrados

    “De Saulo de Tarso a São Paulo”, alegoria sobre a formação da cidade de São Paulo, é um mural de 120 metros quadrados pintado pelo artista plásico Enio Squeff.

    A obra,  criada em 2004 para os 450 anos da cidade, foi reconstituída agora na entrada da Escola de Artes e Ciências Humanas, da USP-Leste. A restauraçao foi concluída nesta sexta-feira, 4/9.

    Aos 83 anos, o autor encarou os andaimes para reparar partes da obra que se haviam deteriorado e acrescentou novos elementos à pintura, feita em tinta acrílica sobre compensado marítimo.

    Na versão original, numa inserção simbólica dos moradores à história da cidade, mais de 100 corpos nus foram “impressos” na base do mural, que tem seis metros de altura. Mais 30 voluntários foram acrescentados agora. Os corpos nus, cobertos de tinta e impressos na tela, de costas, dão a impressão de que as pessoas estão entrando na cena.

    A composição faz um amplo percurso visual por diferentes culturas, tradições e períodos históricos, tendo como fio condutor a figura de Saulo de Tarso e a ideia de universalidade associada à missão do apóstolo Paulo.

    De templos e arquiteturas de diferentes épocas — do Egito e da Grécia – às tradições cristã ortodoxa e muçulmana, passando pelo gótico e pelo neoclássico até chegar à capela jesuítica de 1554 — o conjunto compõe um inventário simbólico da diversidade de culturas e civilizações que atravessam o tempo e chegam à São Paulo de hoje.

    Saulo de Tarso, que ficou como Paulo e chamado de “Apóstolo dos Gentios”, tornou-se uma figura fundamental para a expansão do cristianismo para além de suas origens judaicas. É essa dimensão de abertura a diferentes povos, associada à ideia de universalidade, que constitui uma das chaves para a leitura do painel e estabelece uma relação simbólica entre Paulo e a cidade que leva seu nome.

    Parte do projeto original, um grande vitral com a figura de São Paulo está instalado desde 2019 no saguão dos Auditórios da EACH. Com a chegada do painel, as duas partes voltam a compor um único conjunto.

    Embora dialogue com referências da tradição cristã e de outras culturas, a obra não possui caráter religioso. Segundo Enio Squeff, o mural foi conceibo como “uma obra aberta, que reune diferentes referências históricas, culturais e humanas”.

    Ênio Arizio Squeff é gaúcho, nascido em Nova Prata, se criou em Porto Alegre, onde estudou jornalismo e música. No final dos anos 1960, mudou-se para São Paulo, onde integrou a equipe que criou a revista Veja, em 1968. Trabalhou em O Estado de São Paulo, onde foi editor e crítico de música e na Folha de São Paulo, como crítico e chargista. Há 30 anos, decidiu dedicar-se às artes plásticas e, desde então, trabalha em tempo integral como pintor e escultor em seu atelier na Vila Madalena.

  • Casa Ramil: a transição geracional de uma família musical

    Casa Ramil: a transição geracional de uma família musical

    A Casa Ramil, espetáculo musical que vem se apresentando em cidades brasileiras, é um caso raro de sucesso de crítica e de público. No último fim de semana de agosto, lotou por duas noites seguidas os 900 lugares do Teatro Ademir Rosa em Floripa.

    São sete figuras no palco, seis homens e uma mulher, vários instrumentos se alternando nas mãos de pais, filhos, tios e sobrinhos, uns compositores, todos cantores unidos pelo sobrenome Ramil. Uma caixinha de música reciclável cujos integrantes moram em cidades distantes (Rio, Pelotas, Porto Alegre e Macapá), onde estão sempre prontos e dispostos a se juntar para mais um show.

    A reinvenção dos Ramil não acontece só no palco. Nos bastidores também atua um grupo de mulheres portadoras da mesma genética. Com Branca no comando, Karina, Isabel e Khris dão o chamado suporte artístico ao grupo musicista made in Laranjal Beach em 2018.

    Recordemos: no início, há mais 50 anos, os dois mais velhos da irmandade montaram um grupo chamado Almondegas, que deu à luz a dupla Kleiton e Kledir, estrelas da música popular que subiram de Pelotas ao Rio com trilhas de novelas da Globo. Solito no pampa, com os ouvidos abertos para a música da fronteira, ascendeu o caçula Vitor com uma série de canções de raro lirismo.  

    Quarenta anos depois, os Ramil vivem uma transição geracional. Os veteranos KK+V passam a bola para Ian, Thiago, Gutcha e João. Além de mesclar hits antigos como Vira Virou (de Kleiton) a canções recentes como Artigo 5º (de Ian), o ajuntamento artístico-familiar enriqueceu as apresentações com conversas, lembranças, comentários e citações nos intervalos entre as canções. Tanto para o público como para os artistas, é um achado que propicia distensão e intimidade.  

    Nessas pausas relaxadas, os mais novos jogam conféti nos mais velhos (suas “referências”), que lançam farpas e lantejoulas entre si. É tudo tão natural que nem parece ser combinado. Segundo Vitor, “a gente se diverte enquanto vai mostrando nosso trabalho”. São momentos em que se misturam emoção e bom humor, sem lágrimas nem baixarias, como nas boas casa do ramo. Tudo leve, lindo e solto com deve ter sido em outras casas mais antigas de famílias musicais (Caymmi, Gil e Velloso).

    Eles falam da casa de veraneio na praia do Laranjal, na Lagoa dos Patos, em Pelotas, ponto de encontro familiar nos finais de ano. A casa foi construída pelo imigrante uruguaio Miguel Ramil, cuja sensibilidade como marceneiro transparece no vitral mostrado na abertura do show – é tipo um logo familiar. Num painel no fundo do palco, aparecem folhas e galhos do salso chorão do jardim, imagem fotográfica também usada em show solo de Vitor Ramil. Em alguns momentos, um áudio passeia trechos de cantorias caseiras da matriarca Dalva (1926-2024), a antena musical da família a quem os filhos e netos quiseram homenagear neste espetáculo ao mesmo tempo singelo e grandioso.  

    Sem dúvida, a mescla de gerações veio em boa hora. A ascensão dos jovens está permitindo que, na alternância dos versos e das vozes, os veteranos possam descansar as cordas vocais calejadas após tantos anos de estrada. Ainda assim, o vocal coletivo é tão intenso que a Casa Ramil poderia reduzir o volume da engenharia de som, aparentemente desnecessária nos solos da gurizada.Sem desfazer da potência do macharedo que a cerca, postada no fundo do palco, Gutcha Ramil é uma revelação: toca flauta e rabeca em algumas canções, mas seu forte é a percussão, do pandeiro ao bombo leguero. E a voz, um brado de fera. Segundo o líder Kleiton, a sobrinha (filha da mana Kátia e irmã de Thiago Ramil) está madura para gravar um trabalho solo. “Merece”, como se diz em Pelotas. (Geraldo Hasse)

  • 5ª Expo Mob reúne imagens de 63 fotógrafos em Porto Alegre

    5ª Expo Mob reúne imagens de 63 fotógrafos em Porto Alegre

    Em sua 5ª edição, a Expo Mob reúne os trabalhos de 63 fotógrafos, provenientes de 19 cidades do Brasil e também do exterior, revelando a diversidade de olhares, histórias e linguagens que a fotografia produzida por dispositivos móveis é capaz de alcançar. São diferentes territórios, experiências e sensibilidades reunidos em uma única exposição, mostrando como a tecnologia ampliou as possibilidades de criação e aproximou novos artistas da arte fotográfica. 

    Expo Mob, foto de Nario Barbosa.

    A abertura da exposição a céu aberto foi realizada no sábado, 22 de agosto, no Píer da Usina do Gasômetro (João Goulart, 551) e a visitação segue diariamente, ao longo de 24h, até o dia 31 de outubro.

    Sediada na Galeria Escadaria, que foi criada no Viaduto Otávio Rocha, na avenida Borges de Medeiros e migrou para outro cenário emblemático de Porto Alegre, a Orla do Guaíba, a “Expo Mob” é formada por 20 grandes painéis, especialmente concebidos para exposições de arte em espaços públicos. 

    Expo Mob, foto de Paulo Guerra.

    O objetivo é aproximar a fotografia do cotidiano da cidade, levando a produção artística para um espaço de circulação, convivência e encontro com o público. A curadoria e coordenação é do fotógrafo, designer visual e produtor cultural Marcos Monteiro, com uma trajetória dedicada à criação, à curadoria e à democratização do acesso à arte em espaços abertos.

    Expo Mob, foto de Camila Medeiros.

    A “Expo Mob” não pretende discutir o smartphone como tecnologia, mas reconhecer aquilo que ele tornou possível: o surgimento de uma nova e ampla geração de artistas e de novas formas de expressão visual. Ao colocar uma ferramenta de criação nas mãos de bilhões de pessoas, a tecnologia abriu espaço para que diferentes olhares, experiências, histórias e sensibilidades encontrassem na fotografia uma forma de expressão artística. Pessoas que talvez nunca tivessem acesso a equipamentos fotográficos tradicionais passaram a criar, experimentar e desenvolver suas próprias linguagens.

    Expo Mob, foto de Paulo Paim.

    Essa transformação ampliou o território da arte. Novos autores surgiram, novos olhares ganharam visibilidade e a fotografia passou a incorporar uma diversidade ainda maior de experiências e narrativas. O que importa, portanto, não é o equipamento utilizado para produzir uma imagem, mas o olhar de quem cria e a potência da imagem que resulta desse olhar. A “Expo Mob” nasce desse movimento e busca dar visibilidade a essa produção, reconhecendo a fotografia móvel como um campo legítimo da criação artística contemporânea. “Mais do que uma exposição de fotografias feitas com celulares, a mostra celebra os artistas, seus olhares e a democratização da possibilidade de criar arte”, afirma o curador, Marcos Monteiro.

    Expo Mob, foto de Jerônimo Sanz.

    PARTICIPANTES:

    Ale Bruny, Alice Alvarez, Andrea Barros, Andre Schuett, Angela von Mühlen, Bia Donelli, Camila de Medeiros, Cerise Gomes, Claudia Bento  Alves, Claudia Brandão, Clara Koury, Cynthia Feyh Jappur, Daniel Fontana, Daniel Mesquita, Fernanda Carvalho, Fernando Kluwe  Dias, Fernando Kokubum, Gustavo Vara, Hairton Cezar, Heloiza Averbck, Henri Rupp, Ismael Holanda, Jaque  Borba, Jerônimo Sanz, Joceliene Chies, Jorge Neuman, Kathy Esposito, Leandro Bezerra, Lidiane Nepomuceno Macêdo, Luiza Viegas, Magnum Koury, Manoel Nunes, Marcelo Grivot, Margare Abreu, Maria do Carmo Both, Maria João Vale, Maria Sallet, Márcio Pinto, Mario Carvalho, Nádia Maria Weber Santos, Najara Silva, Nário Barbosa, Neca Lahm, Nely Alves, Paulo Filandro, Paulo Guerra, Paulo Paim, Carlos Sadao, Sandra Carrilo, Silvana Bittencourt, Silvia Pozza, Sonia Amorim, Sonia Rovisnk, Stheve Balbinotti, Tacila Torres, Tercles, Vanesa Castro, Victor Ghiorzi, Vilma Blondet, William Omar Perez Clavi e Zulaine Santos

    Expo Mob, foto de Vilma Blonded.

    Serviço:

    Abertura: 22 de agosto (sábado) de 2026, a partir das 16h.

    Local: Pier da Usina do Gasômetro (av. João Goulart, 551) – Centro Histórico de Porto Alegre

    Encerramento: 31 de de outubro de 2026.

    Visitação: Diária, ao longo de 24h.

    Entrada franca.

  • Charge Mestra: meio século de criação de Vasques, Santiago e Schröder

    Charge Mestra: meio século de criação de Vasques, Santiago e Schröder

    Charge Mestra é mais do que uma exposição que reúne a obra de três grandes artistas gaúchos: Edgar Vasques, Santiago e Schröder, que abre nesta quinta-feira, no Centro Histórico-Cultural Santa Casa, às 18 horas.

    Além de apresentar um conjunto de desenhos, traz publicações e documentos sobre o processo de criação dos artistas, organizados e selecionados ao longo de cinco décadas de produção.

    A proposta dos curadores Margarete Moraes e André Venzon é apresentar uma mostra inédita, com reflexão crítica e bem-humorada sobre a realidade histórica e contemporânea, evidenciando a força e a relevância das charges como linguagem e pensamento.

    A exposição fica em cartaz até 27 de setembro, na Sala de Múltiplos Usos I do CHC Santa Casa, em Porto Alegre, de segunda a sábado, das 8h às 18h30, com entrada franca.

  • Galeria Duque celebra “Misturas” com a arte de Cava e Anaurelino Barros

    Galeria Duque celebra “Misturas” com a arte de Cava e Anaurelino Barros

    Mais de cinco décadas de criações de alguns dos grandes nomes da arte produzida no Rio Grande do Sul se encontram e inspiram uma exposição inédita na Galeria Duque.

    Cava, mestre de diversas gerações de artistas gaúchos, leva para a galeria sua exposição “Rastros do Eu”. Já Anaurelino Corrêa de Barros Neto apresenta obras que levantam um questionamento: “Cartas para o Futuro (Teremos futuro?)”.

    A mescla de obras e materiais dos dois artistas inspira a exposição “Misturas”, com produções selecionadas entre o vasto e prestigiado acervo da Galeria Duque pela curadora Daisy Viola.

    O vernissage será realizado neste sábado, 22 de agosto, das 14h às 16h30, na Galeria Duque. A exposição fica no espaço até o dia 30 de outubro.

    Rastro do Eu

    Will Cava. Reprodução

    Cava é o nome artístico de Wilson Cavalcanti (nascido em Pelotas, 1950), um renomado pintor, desenhista e um dos gravuristas mais conceituados do Sul do Brasil. Ele também atuou como instrutor no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre por muitos anos e foi homenageado no curta-documental Cava.

    Na Galeria Duque, ele apresenta a exposição “Rastros do Eu”. “São pinturas, colagens, assemblagens, tudo ao mesmo tempo, com materiais inusitados, aquilo que está à mão, disponível – madeira, terras, tintas, tecidos, papéis…”, descreve a curadora Daisy Viola. “A expressividade e a força dos trabalhos de Cava têm muito da mistura de narrativas que cruzam realidade com imaginação. Pontos de partidas reais geram uma continuidade imaginária, quase onírica. Assim o universo-fantasia-realidade um tanto biográfica do Cava torna possível que, de alguma maneira, recriemos o nosso próprio mundo de faz de conta ou encontremos pontos de intersecção entre a nossa história e a dele”, observa Daisy.

    Cartas para o futuro (Teremos futuro?)

    Anaurelino Corrêa. Reprodução

    Anaurelino Corrêa de Barros Neto leva para a Galeria Duque suas cartas para o futuro. Comemorando 40 anos de carreira artística, ele já realizou dezenas de exposições coletivas e individuais no Brasil, recebendo cinco prêmios de arte no Estado. Formado em Artes Visuais pelo Instituto de Artes nas décadas de 70/80, concomitantemente com Arquitetura pela Unisinos, recentemente cursou Pós-graduação em Práticas Curatoriais também na UFRGS, sendo responsável pela curadoria de 26 exposições no Estado.

    Anaurelino Corrêa. Reprodução

    Desde os anos 80, pesquisa sobre mitos, rituais, arquétipos, pinturas rupestres e corporais dos povos originários e sua relação com as florestas. Seus trabalhos de desenho, pintura e escultura são também uma denúncia sobre o genocídio dos povos indígenas e a devastação das florestas do Brasil e servem como defesa da demarcação de terras.

    Misturas

    Simultaneamente às produções de Cava e Anaurelino, a Galeria Duque apresenta a exposição “Misturas”, com obras do acervo.

    Di Cavalcanti. Reprodução

    “A exposição foi inspirada nos nossos convidados deste momento, os artistas Cava e Anaurelino Barros, cujos trabalhos contêm este espírito de trazer materiais não convencionais, que resultam em força e expressividade”, revela Daisy. “A liberdade na arte contemporânea permite e incentiva também a mistura de linguagens. As fronteiras entre elas desaparecem, então temos pintura com desenho, com colagem, com objetos. Fazer arte é fazer misturas. Artistas misturam tintas, linhas, gestos, matérias diferentes. Poetas misturam palavras, e músicos misturam sons. Misturamos ideias e tempos. Misturamos vidas, a do artista com a do espectador”, resume a curadora.

    Dessa mistura, surgem nomes que são verdadeiros ícones da arte, como Cândido Portinari, Athos Bulcão, Burle Marx, Iberê Camargo, Júlio Plaza, Claudio Tozzi, Fúlvio Pennacchi, Carlos Paez Vilaró, Anita Malfatti, Danúbio Gonçalves, Maria Tomaselli, Maria Lídia Magliani, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Leon Ferrari, Vicente do Rego Monteiro, Pablo Picasso, Aldo Locatelli, Carlos Scliar, Takashi Fukushima, entre muitos outros.

    A Galeria Duque também presta uma homenagem ao grande artista gaúcho Paulo Porcella, que faleceu em julho, aos 90 anos. “Nessa exposição, dedicamos uma parede especial a obras do artista Paulo Porcella para celebrar a vida e a memória desse mestre incomparável”, destaca Daisy Viola.

    Paulo Porcella. Reprodução

    Exposição “Misturas” – Acervo
    Exposição “Rastros do Eu” – Cava
    Exposição “Cartas para o Futuro (Teremos futuro?)” – Anaurelino Barros

    Galeria Duque
    Endereço: 
    Duque de Caxias, 649 – Porto Alegre
    Vernissage:
    sábado, 22 de agosto, das 14h às 16h30

    Período da exposição: de 22 de agosto a 30 de outubro

    Horário de funcionamento: Seg/Sex: 10h às 18h | Sáb: 10h às 17h
    Entrada Franca

  • Roteiro imperdível nas Missões: a arte Guarani Mbya no Museu Antropológico

    Roteiro imperdível nas Missões: a arte Guarani Mbya no Museu Antropológico

    Abre nesta quarta (19/8) a exposição “Mbya Rembiapo – Arte Guarani Mbya” no Museu das Missões, em São Miguel das Missões (RS). O projeto tem curadoria colaborativa e enfoca na arte e na cultura Guarani do Rio Grande do Sul.

    A mostra permanece aberta para visitação até o dia 30 de novembro, com entrada gratuita.

    Com trabalhos de seis curadores Mbya de diferentes Tekoás (aldeias), a exposição apresenta um conjunto de esculturas em madeira, cestarias e instrumentos musicais e de caça, que compõem e expressam parte da visão de mundo Guarani.

    Também integram a mostra fotografias, mapas e textos em versão bilíngue em guarani e português, que comunicam os significados atribuídos pelos Mbya e os contextos de sua produção e do território socioambiental das matérias-primas de que dependem para os reproduzir.

    Desde sua concepção, o projeto contou com oficinas de curadoria de professores e artistas indígenas, incluindo um circuito de visitas a museus. Houve ainda a participação dos curadores como palestrantes de mesas redondas no evento “Os Mbya Guarani e o Museu: diálogos sobre artesanato e patrimônio”, ocorrido em abril, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico/UFRGS). Esse conjunto de ações foram preparatórias para a maturação da exposição que agora abre à visitação pública.

    Curadores

    Os curadores do projeto estarão presentes na inauguração da exposição. São eles: Karai Mirim (Laércio Gomes), Karai Nhe’ery (Isabelino Aguirre), Kerexu Rete (Fermina Campos), Para Ixapy (Patrícia Ferreira), Para Rete (Elsa Chamorro Benites) e Ywa Mirim (Patrícia Souza).

    A partir de dezembro, a mostra estará disponível para itinerar em outros municípios. Para fazer o agendamento, as instituições interessadas devem entrar em contato pelo e-mail musa@sedac.rs.gov.br.

    Serviço:
    Inauguração da exposição “Mbya Rembiapo – Arte Guarani Mbya”
    Quando: 19/8, às 16h
    Onde: Museu das Missões (Rua São Luís, s/n – Sítio Arqueológico de São Miguel das Missões)
    Entrada gratuita

    (Informações da Assessoria de Imprensa)