No mês passado, os Estados Unidos (EUA) enviaram pelo menos oito navios da Marinha e um submarino de ataque para uma região próxima da Venezuela, com cerca de quatro mil soldados envolvidos na operação com o argumento de combate ao narcotráfico.
Aparecendo no programa ‘Talking with Correa’ da RT nesta semana, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou que a operação dos EUA “não é sobre tráfico de drogas… eles precisam de petróleo e gás”. Ele disse ao anfitrião, o ex-presidente equatoriano Rafael Correa, que “a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo… a quarta maior reserva de gás”. Ele também observou que seu país tem o potencial de ostentar as “maiores reservas de ouro do mundo”.
Em 1853, algo parecido aconteceu quando a armada estadunidense, comandada pelo comodoro Matthew C. Perry (1794-1858) apareceu com os seus temíveis “navios negros” no porto de Uraga, exigindo a abertura de portos japoneses. Na história do Japão foi um evento fundamental e suas consequências econômicas foram profundas e transformadoras.
Sob a ameaça militar, em 1854 o Xogunato Tokugawa foi forçado a assinar o Tratado de Kanagawa (paz e amizade) e, mais importante, em 1858, o Tratado de Amizade e Comércio (Harris Treaty) com os Estados Unidos, seguido por acordos similares com outras potências (Reino Unido, Rússia, França e Holanda).
O Xogunato Tokugawa foi o governo militar do Japão que durou de 1603 a 1868, estabelecido por Tokugawa Ieyasu. Este período foi marcado por um governo centralizado sob a autoridade do xogum em Edo (atual Tóquio), um sistema feudal chamado bakuhan, e um rigoroso isolamento do Japão do resto do mundo.
A consequência da ação dos Estados Unidos para a economia japonesa foi a abertura forçada do país ao comércio exterior e desencadeou uma série de transformações radicais. Os tratados impuseram condições humilhantes ao Japão. Os portos de Shimoda, Hakodate, Nagasaki, Yokohama, Kobe e Niigata foram abertos ao comércio estrangeiro. Os cidadãos estrangeiros no Japão estavam sujeitos às leis de seu próprio país, e não às leis japonesas, minando a soberania nacional.
O Japão perdeu o direito de definir suas próprias tarifas de importação. Estas foram limitadas a uma taxa máxima de 5%, tornando o país incapaz de proteger suas indústrias nascentes da concorrência estrangeira.
A abertura abrupta teve efeitos imediatos e, em muitos casos, devastadores. O Japão tinha uma taxa de câmbio ouro/prata diferente do resto do mundo. Os comerciantes estrangeiros exploraram essa diferença, comprando grandes quantidades de ouro japonês e prata, levando a uma enorme fuga de reservas e à desvalorização da moeda.
A chegada da frota estadunidense enviada sob o governo do presidente Franklin Pierce, resultou na assinatura do Tratado de Kanagawa. Agora, o presidente Donald Trump tenta repetir a façanha na Venezuela. Os tempos mudaram ou nem tanto assim?
Momento de união
Durante a inauguração do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia (CCPI Amazônia), que promoverá a colaboração entre os nove países amazônicos e os nove Estados brasileiros que compõem a Amazônia Legal, os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Colômbia, Gustavo Petro, criticaram os Estados Unidos pelo avanço militar em direção à Venezuela. Para Lula, o continente não pode ser omisso e tem que “falar de igual para igual” com os estadunidenses. “Vamos ficar calados agora e ver essas bombas caindo e matando nossas crianças ou vamos parar e nos unirmos? Lula referia-se a um míssil lançado pelos Estados Unidos sobre uma lancha civil, com 11 mortes, no mar do Caribe.
Os movimentos dos EUA visam estancar o envolvimento dos Brics na região, especialmente a China. O comércio China-América Latina passou de US$ 18 bilhões em 2002 para US$ 315 bilhões em 2020, atingindo US$ 518,4 bilhões em 2024. Além disso, a China implementou mais de 200 projetos de infraestrutura e diversos empreendimentos industriais na região, gerando mais de um milhão de empregos locais.
O Porto de Chancay, no Peru, que entrou em operação no final de 2024, com investimento de US$ 3,6 bilhões (R$ 17,8 bilhões), é o primeiro porto com maioria de capital chinês na América Latina. Através da Rota Amazônica será possível uma ligação direta e mais rápida para o transporte de mercadorias entre a Ásia e a América Latina, conectando os oceanos Atlântico e Pacífico. O projeto envolve cinco rotas bioceânicas – um corredor de transporte que liga o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico, passando por Brasil, Paraguai, Argentina e Chile – que encurtarão a distância entre o Brasil e a China em aproximadamente 10 mil quilômetros.
Além da Venezuela, a bola da vez é o Brasil. Nesta semana, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o governo de Donald Trump está disposto a usar “poderes econômicos e militares” para “proteger a liberdade de expressão no mundo”, uma referência ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Depois da condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em nota publicada nas redes sociais, afirmou que as perseguições do violador dos direitos humanos Alexandre de Moraes continuam… Washington responderá de forma adequada a essa “caça às bruxas”. Já o presidente Donald Trump afirmou estar surpreso com a decisão da Corte brasileira.
Também em nota nas redes sociais, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro respondeu à ameaça de Marco Rubio e disse que a declaração não “intimidará” a democracia brasileira: “O Brasil continuará a defender sua soberania de agressões e tentativas de interferência, venham de onde vierem.”
Desfile militar
Neste clima pesado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva organizou nesta semana uma cúpula virtual do Brics para, na justificativa oficial, coordenar estratégias focadas no multilateralismo, em resposta à nova política dos Estados Unidos de aumentar tarifas sobre seus parceiros comerciais. O que realmente foi discutido, com a participação dos presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, não vazou.
O Brics foi fundado em 2006 pelo Brasil, Rússia, Índia e China, com a África do Sul se juntando a ele em 2011. Em 1º de janeiro de 2024, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos também se tornaram membros, assim como a Indonésia em 6 de janeiro de 2025. São países parceiros: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão.
Uma semana após o poderoso desfile militar, em Pequim, do Dia da Vitória da China, para marcar o 80º aniversário de sua vitória na Segunda Guerra Mundial, em 3 de setembro, os chineses e os estadunidenses mantiveram um diálogo de alto nível sobre diplomacia e segurança militar.
Nesta semana, o ministro da Defesa chinês, Dong Jun, conversou por vídeo com o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, a pedido deste último. Também o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, membro do Bureau Político do Comitê Central do Partido Comunista da China, conversou por telefone com o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Ambas as conversas, com poucas horas de diferença, atraíram ampla atenção global.
Em editorial, o Global Times afirma que “em um cenário de turbulência global e frequentes conflitos regionais, o aumento da frequência da comunicação de alto nível entre a China e os EUA não apenas reduz significativamente o risco de mal-entendidos e erros de cálculo, mas também cria condições favoráveis para enfrentar desafios globais, como a segurança pública global e cadeias de suprimentos estáveis.”
Manchetes recentes noticiaram submarinos russos ausentes de bases ou operando furtivamente — às vezes em grupos. Agências de notícias e análises descrevem movimentações, reposicionamentos e preocupações da Organização do Tratado do Atlântico Norte, em inglês NATO. Não há evidência pública e verificável de que submarinos nucleares russos estejam “perdidos” de modo que os EUA não consigam localizá-los de forma definitiva.