Autor: Sérgio Lagranha

  • Fórum IA Unicórnio: desafios transformadores da nova revolução tecnológica

    Fórum IA Unicórnio: desafios transformadores da nova revolução tecnológica

    A inteligência artificial (IA) representa uma mudança de era, definiu Ramon Martins da Silva, chefe de Inteligência Artificial na Totvs, considerada uma das principais líderes no mercado brasileiro de software de gestão empresarial. A IA é comparável a outros marcos históricos como a Revolução Industrial ou o surgimento da internet.

    Ela não é apenas mais um avanço tecnológico, mas um ponto de inflexão com a possibilidade de redefinir fundamentalmente a maneira como vivemos, trabalhamos e interagimos na sociedade. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), dentro da “Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial”, estima de que cerca de 35 milhões de trabalhadores formais poderiam estar em risco pela automação até 2050 no Brasil.

    Nesta quinta-feira (6/11) Porto Alegre foi palco da primeira edição do IA Unicórnio da Gestão – Fórum de Inteligência Artificial na Gestão Pública e Privada, com diversas palestras que proporcionaram um panorama das transformações, possibilidades e desafios que tais recursos estão promovendo nos espaços de tomada de decisão. Uma parceria da Storia Eventos com o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), que reuniu em sua sede, no Centro Histórico, cerca de 300 representantes dos setores público, privado e academia.

    A proposta de trazer a inteligência artificial como ferramenta de elemento do cotidiano de pessoas, empresas e órgãos públicos, foi um dos destaques da imersão. “Discutimos um tema tão transformador em um dia de muita conexão com convidados dos setores público e privado. Os palestrantes vieram de diversas partes do Rio Grande do Sul e do Brasil e proporcionaram uma agenda de muito conhecimento”, disse a CEO da Storia, Beatriz Moraes.

    CEO da Storia, Beatriz Moraes, e CEO do-CIEE-RS, Lucas Baldisserotto-Foto Rodi Goulart

    Na palestra “Acelerando o Futuro: IA, Nuvem e Times de Elite na Era Digital”, Lino Maggi, líder de Arquitetura AWS Brasil (Amazon Web Services) abordou mecanismos para construir times de elite e implementar soluções de IA em escala empresarial. A AWS desempenha um papel crucial na estratégia de IA da Amazon, pois fornece a infraestrutura e os serviços para o desenvolvimento e implantação de soluções de IA e machine learning, um subcampo da inteligência artificial que permite que sistemas aprendam e melhorem automaticamente a partir de dados, sem serem programados explicitamente para cada tarefa.

    A AWS possui a IA agêntica, um sistema autônomo que pode agir de forma independente para atingir metas predeterminadas. Diferente do software tradicional que segue regras predefinidas, a IA agêntica é proativa e pode realizar tarefas complexas sem a supervisão humana constante. “Agêntica” indica agência: a capacidade desses sistemas de agir de forma independente, mas de uma maneira orientada por metas. Eles aprendem com o ambiente e se adaptam às mudanças nas condições, permitindo que executem fluxos de trabalho sofisticados com precisão.

    A conexão entre a inteligência artificial, suas ferramentas e o setor público foi abordada nos painéis, com representantes do governo do Estado do Rio Grande do Sul e da prefeitura de Porto Alegre. O secretário-adjunto da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), Bruno Silveira, apresentou os avanços recentes da Nova Estratégia Digital do Governo do Estado, como o novo portal rs.gov.br, com recomendação personalizada de serviços e a assistente digital Guria, que utiliza IA generativa para facilitar o acesso a serviços públicos, com mais de 340 mil interações e cerca de 85 mil conversas com usuários entre junho e setembro de 2025. Entre os temas mais recorrentes estão: carteira de identidade, abertura de empresas, agendamentos e consultas relacionadas a serviços estaduais.

    O painel contou também com a participação da presidente da Famurs, Adriane Perin de Oliveira, e da presidente da Procempa, Débora Roesler, que abordaram a importância da integração entre municípios, estado e União na adoção de tecnologias e destacaram o papel das prefeituras e das empresas públicas municipais na modernização dos serviços.

    A secretária de Inovação, Ciência e Tecnologia do RS, Simone Stulp, ressaltou que a ferramenta pode colaborar com a formulação de soluções integradas a desafios recorrentes, como eficiência, uso de dados, qualidade no atendimento, inovação e, considerando a realidade gaúcha, na construção da resiliência climática. “A IA representa um mundo de oportunidades, mas é fundamental que a sociedade esteja preparada e capacitada para utilizar estas ferramentas. O tom da usabilidade e eficiência será dado pelos humanos.”  

    Na mesma linha, o secretário de Inovação de Porto Alegre, Luiz Carlos Pinto da Silva, considerou que são muitas as possibilidades de uso da ferramenta no setor público, “mas é preciso entender os dados, os processos internos e, tecnicamente, o que fazer com a IA”. 

    Na palestra “IA na Gestão: O Custo Oculto e a Blindagem Jurídica”. O advogado Marcel Marques, sócio da MCM Advogados, alertou para os riscos legais e operacionais do uso de tecnologias de IA reforçando a importância do monitoramento constante, treinamento das equipes e assessoria jurídica especializada. “A automação traz eficiência, mas também exige responsabilidade. É preciso garantir a proteção de dados e a segurança das informações em todos os níveis da gestão”, destacou.

    O sucesso e a abrangência da primeira edição já impulsionam o desenho do II Fórum, enfatizou o CEO do CIEE-RS, Lucas Baldisserotto. “CIEE-s de todo Brasil estiveram participando porque o IA Unicórnio não é só de Porto Alegre ou do Rio Grande do Sul, é do Brasil e pertence à agenda nacional, tamanha importância do tema. O evento superou as expectativas, os painelistas foram extremamente felizes na escolha de seus temas, de relevância. Estamos só no aguardo da próxima edição, em 2026!”

    🧭 Eixos da Estratégia Brasileira de IA (EBIA)

    EixoObjetivo
    Pesquisa, Desenvolvimento e InovaçãoFomentar soluções nacionais e remover barreiras à inovação.
    Formação de Profissionais

     

    Capacitar pessoas e formar especialistas em IA.
    Aplicação em Setores EstratégicosEstimular o uso de IA nos setores produtivos, públicos e de segurança.
    Governança e Aspectos LegaisDiscutir legislação e governança da IA, incluindo aspectos internacionais.

    📜 Projeto de Lei nº 2338/2023

    ElementoDescrição
    Classificação de RiscosClassifica sistemas de IA conforme o risco à vida humana e aos direitos.
    Autoridade SupervisoraCriação do SIA, coordenado pela ANPD, para aplicar e fiscalizar regras.
    Responsabilidade e TransparênciaObrigações para informar usuários sobre interação com sistemas de IA.

     

  • Os lucros bilionários dos bancos

    Os lucros bilionários dos bancos

    O lucro líquido total estimado pelo mercado dos bancos Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil, para 2025, é de R$ 99,8 bilhões. Itaú Unibanco, R$ 47,6 bilhões; Bradesco, R$ 24,7 bilhões; Santander Brasil, R$ 15,5 bilhões e Banco do Brasil, R$ 12 bilhões.

    Ao pinçar alguns números dos balanços do Santander e do Bradesco, como exemplo, é possível perceber que a taxa básica de juros, a Selic, muito acima da inflação é responsável por uma parte substancial dos lucros bilionários.

    O Santander Brasil obteve lucro líquido gerencial de R$ 4,0 bilhões no terceiro trimestre de 2025, o que representa alta de 9,6% na comparação com o segundo trimestre e de 9,4% ante o mesmo trimestre do ano anterior. O que mais chamou atenção foi a composição da margem financeira bruta (receitas com crédito menos custo de captação), que somou R$ 15,2 bilhões no período.  A margem com clientes (aquela relacionada às operações de crédito e captações de clientes) subiu cerca de 11,1% na comparação anual, para aproximadamente R$ 16,6 bilhões.

    O Bradesco registrou lucro líquido recorrente de R$ 6,2 bilhões no terceiro trimestre de 2025, alta de 2,3% na comparação trimestral e 18,8% em relação a igual período do ano passado. Esse número foi impulsionado pela boa performance também da margem financeira — fundamentalmente a margem com clientes — R$ 18,6 bilhões. A carteira de crédito expandiu (9,6% a/a) e o spread médio (a diferença entre taxa cobrada do cliente e custo de captação) melhorou.

    A margem financeira bruta é a receita dos juros, antes de deduzir despesas administrativas, provisões e impostos. É o que o banco ganha com empréstimos, financiamentos, títulos, aplicações e captações. Já a margem com clientes é a parte dessa margem vinda diretamente das operações com o público (crédito, conta corrente, cartões, etc.).

    A Selic, hoje em 15% ao ano, é a taxa que remunera os títulos públicos federais — ou seja, quanto o governo paga para tomar dinheiro emprestado no mercado. Os bancos, quando têm “sobras de caixa” (recursos não emprestados), aplicam esse dinheiro em operações compromissadas ou em títulos do Tesouro, que rendem basicamente a Selic.

    Isso cria um piso de rentabilidade para o sistema financeiro: qualquer aplicação ou empréstimo deve render acima da Selic, senão o banco preferirá deixar o dinheiro aplicado junto ao Banco Central. Com a Selic a 15% e o IPCA em 5,17%, o ganho real (descontada a inflação) é 9,83 pontos percentuais. Ou seja, o poder de compra do banco (ou de quem aplica em títulos públicos) aumenta em quase 10% ao ano, um rendimento real altíssimo.

    Como o banco pode ganhar 15% sem risco algum emprestando ao governo, ele só empresta ao público acima disso, para compensar o risco de inadimplência, custos administrativos e lucro. Por isso, taxas de empréstimo pessoal, cheque especial, cartão de crédito e crédito rotativo ficam muito acima de 15% — frequentemente até mais de 100% ao ano.

    O efeito macroeconômico disso é que os bancos ganham muito com aplicações de sobra de caixa; desestimula o crédito produtivo, encarecendo investimentos e consumo; eleva o custo da dívida pública, pois o governo paga juros muito altos e mantém a renda financeira muito mais atrativa do que a renda produtiva.

    Operações compromissadas

    O Bradesco, como os demais bancos, não indica explicitamente as operações compromissadas no seu balanço. No entanto, as Demonstrações Financeiras Consolidadas do Bradesco (acumulado do ano em 30/09/2025), informa que as rendas de aplicações em operações compromissadas foram de R$ 22,80 bilhões, conforme o site Investidor 10.

     As operações compromissadas do Banco Central significam remuneração da sobra de caixa diária dos bancos, com o argumento defendido pelo mercado de regular a liquidez e a oferta de moeda. O BC vende um título para um banco com o compromisso de recomprá-lo. A operação tem um prazo curto, geralmente um dia, e é revertida no dia seguinte quando o título é recomprado/revendido, com os juros acordados.

    De 2003 a 2022, segundo o Tribunal de Contas da União, o custo dessas operações diárias ao Banco Central foi de R$ 1,15 trilhão. Segundo as demonstrações financeiras do BC, em 2023, a despesa com Compromisso de Recompra (juros) foi de R$ 156,8 bilhões e, em 2024, R$ 153,2 bilhões.

    Para completar, essa operação é incluída no cômputo da dívida pública federal. Quanto mais essas operações o BC realiza, mais a dívida pública é afetada. 

     

  • Georreferenciamento em propriedades rurais é prorrogado desde 2000

    Georreferenciamento em propriedades rurais é prorrogado desde 2000

    O governo brasileiro editou nesta semana o Decreto nº 12.589, que amplia em quatro anos, até outubro de 2029, o prazo limite para a exigência de certificação de georreferenciamento dos imóveis rurais que são objeto de transferência. O texto foi publicado em edição extra do Diário Oficial da União.

    Desde o ano 2000 (Decreto 4.449/2002, INCRA, Lei 10.267) o georreferenciamento foi implantado no Brasil, e os prazos vêm sendo sucessivamente prorrogados, o que ajuda a entender o poder político de proprietários de terras, que muitas vezes resistem ou tentam ocultar informações sobre suas propriedades georreferenciadas por uma série de motivos econômicos, fiscais e até políticos.

    “Assinei o decreto porque esta semana venceria o prazo para o georreferenciamento das propriedades rurais. Isso dá um prazo mais longo para que todos possam se adequar à lei e promover o georreferenciamento”, afirmou Geraldo Alckmin, presidente da República em Exercício. A extensão do prazo de adequação foi proposta pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). E nada mais foi dito pelo governo federal. A imprensa corporativa não toca no assunto há 25 anos.

    O georreferenciamento é o processo de mapeamento técnico que define a localização, os limites e a dimensão de um imóvel rural por meio de coordenadas geográficas. Para isso, utilizam-se técnicas de levantamento topográfico, como GPS de alta precisão, drones ou até imagens de satélite.

    A exigência de georreferenciamento por lei garante a exatidão dos limites de cada terreno e evita sobreposições com outras propriedades. O procedimento é necessário para transações como venda e doação, acesso a crédito rural e para fins de registro e regularização.

    O georreferenciamento torna o imóvel rural plenamente identificado (limites, área exata, titularidade e uso do solo). Isso facilita a cobrança do ITR (Imposto Territorial Rural) com base real na área e grau de utilização da terra. A identificação de subdeclarações, pois muitos proprietários informam ao fisco uma área menor ou subutilizada para pagar menos imposto. Assim, quanto mais precisa for a informação, menor a margem para evasão fiscal.

    Questões ambientais

    Além dos limites físicos e legais da propriedade rural, o georreferenciamento controla o que é plantado, gestão produtiva, econômica e fiscal da terra, quantidades e registros de aplicação de agrotóxicos, além de identificar e manter limites de áreas de preservação e reserva legal. Também a origem e destino da produção, especialmente importante em cadeias exportadoras como soja, café e carne.

    Com o cruzamento do georreferenciamento com imagens de satélite e cadastros ambientais (CAR), o Estado passa a saber a extensão real de desmatamento, áreas de reserva legal ou APPs invadidas, e se há uso irregular do solo (como plantio em áreas protegidas). Isso gera risco de multas e embargos ambientais, além de ações civis públicas.

     Irregularidades fundiárias

    Muitas grandes propriedades rurais brasileiras têm origens documentais problemáticas, como sobreposições (duas ou mais propriedades sobre a mesma área); grilagem (falsificação de títulos para apropriação ilegal), apropriação de terras públicas (devolutas). O georreferenciamento revela essas incongruências, podendo levar à perda de posse ou à revisão judicial de títulos.

    Concentração fundiária

    A precisão do mapeamento mostra quem realmente possui a terra no Brasil — o que ameaça interesses de quem detém latifúndios improdutivos, ou ocupa terras públicas sob aparência de propriedade privada. A transparência do cadastro pode fortalecer políticas de reforma agrária, reduzir a especulação fundiária e expor grandes desequilíbrios regionais de posse.

    Especulação e valorização imobiliária

    Alguns proprietários preferem manter áreas “na sombra” para negociar informalmente; evitar fiscalização sobre transações, ou lucrar com futuras regularizações, aumentando o valor da terra quando o registro for oficializado.

    Portanto, o georreferenciamento representa transparência fundiária — e transparência, no campo, significa controle estatal, justiça fiscal e ambiental.
    Por isso, muitos proprietários de grandes áreas adiam ou resistem à sua implementação: quanto mais o Estado sabe, menor o espaço para irregularidades, subdeclarações e especulação.

     

  • Modelo matemático da destruição criativa, de Schumpeter, leva Nobel da Economia

    Modelo matemático da destruição criativa, de Schumpeter, leva Nobel da Economia

    A teoria da “destruição criativa” proporcionou a metade do Nobel de Economia de 2025 a Philippe Aghion e Peter Howitt, enquanto a outra metade do prêmio foi para Joel Mokyr, que identificou os pré-requisitos para o crescimento sustentado por inovação. Juntos, eles foram reconhecidos por “explicarem o crescimento econômico impulsionado pela inovação”. 

    No artigo “Estrutura de mercado e inovação” Lia Hasenclever e Patrícia Ferreira revelam que o estudo da inovação tecnológica foi durante muito tempo esquecido pela análise econômica, que priorizava análises de equilíbrio de curto prazo ou, quando se tratava de analisar o longo prazo, dedicava-se à análise da acumulação de capital e da distribuição de renda.

    Foi somente após a Segunda Guerra Mundial que as ideias apresentadas pelo economista e cientista político austríaco Joseph Schumpeter (1883/1950) começaram a florescer, fundando o que hoje se denomina Economia da Inovação. Schumpeter, em obras como A Teoria do Desenvolvimento Econômico (1911) e Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942), formulou a ideia da “destruição criativa”.

    Segundo ele, o capitalismo se renova continuamente pela introdução de inovações (novos produtos, novos processos, novos mercados, novas formas de organização), que tornam obsoletos os antigos. Esse processo, ao mesmo tempo em que gera progresso, implica perdas para empresas e setores ultrapassados.

    Em 1992, Aghion e Howitt formalizaram matematicamente a narrativa de Schumpeter. Eles criaram um modelo matemático endógeno, ou seja, o crescimento vem de dentro da economia, no qual o motor no longo prazo não é apenas o acúmulo de capital ou trabalho, mas sim a inovação, gerada por Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

    Para Schumpeter, o crescimento capitalista ocorre em ciclos de inovação. Cada inovação introduz uma tecnologia mais produtiva que substitui a anterior. Isso gera ganhos de produtividade e, ao mesmo tempo, “destrói” empresas antigas que não se adaptam. O processo é dinâmico: sempre que surge algo novo, o velho é descartado. Exemplo simples: telefone fixo → celular → smartphone → IA integrada. Cada passo gera progresso e elimina o anterior.

    A diferença chave é que Schumpeter mostra uma visão histórica e qualitativa, que o capitalismo progride em ondas de destruição criativa. Já o modelo quantitativo de Aghion & Howitt é capaz de prever como investimentos em políticas públicas (educação, concorrência, subsídios à P&D e outros) afetam a taxa de inovação e, portanto, o crescimento de longo prazo.

    Schumpeter disse: “o capitalismo cresce destruindo o velho e criando o novo”. Aghion & Howitt mostraram, com equações, que a taxa de crescimento do PIB depende da velocidade e intensidade com que isso acontece.

  • Domínio do dólar está sendo lentamente erodido

    Domínio do dólar está sendo lentamente erodido

    A participação do dólar estadunidense caiu para 56,3% das reservas cambiais globais alocadas entre abril e junho de 2025, o que corresponde a uma queda de 1,5 ponto percentual em relação ao trimestre anterior. Esse percentual é o menor desde 1995, marcando uma mínima histórica de três décadas.

    As quedas constantes alimentam um debate sobre se o dólar pode estar correndo o risco de perder seu status de moeda de reserva mundial preferida e o ponto central do sistema monetário global, embora a recente queda tenha ocorrido em grande parte devido a movimentos cambiais e não à venda ativa por parte dos bancos centrais, conforme o relatório de estabilidade financeira divulgado nesta semana pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

    O índice DXY — uma medida de referência do desempenho do dólar estadunidense em relação ao euro e às moedas do Japão, Reino Unido, Canadá, Suécia e Suíça — caiu mais de 10% no primeiro semestre do ano, sua maior queda desde 1973.

    O dólar desvalorizou 7,9% em relação ao euro no segundo trimestre e 10,6% no primeiro semestre. Ele caiu 9,6% em relação ao franco suíço no segundo trimestre e mais de 11% nos primeiros seis meses, seu pior desempenho no primeiro semestre em relação ao franco em mais de uma década.

    Isso significa que, mesmo os bancos centrais não alterando seus portfólios, o valor de suas participações não denominadas em dólares aumentou, resultando em uma diminuição correspondente na moeda norte-americana.

    O FMI vem destacando três fontes de vulnerabilidade no mercado global de câmbio que aumentam o risco de choques cambiais e reduzem a previsibilidade da liquidez em dólar.

    • Incerteza macrofinanceira, com instabilidade nas políticas monetárias, juros altos prolongados e volatilidade nas expectativas sobre crescimento global;
    • Expansão das instituições financeiras não bancárias, como fundos de investimento, fundos de hedge e plataformas de cripto ativos, que atuam fora da regulação tradicional.
    •    Riscos operacionais relacionados a tecnologia, cibersegurança e liquidez, especialmente em mercados emergentes.

    Reservas internacionais

    O uso do dólar nas reservas internacionais caiu de cerca de 71% em 1999 para 56,3% em 2025. A China, Rússia, Índia e países do Golfo têm ampliado liquidações em moedas locais, especialmente em comércio de energia. A expansão de ativos digitais e stablecoins também cria rotas financeiras fora do sistema bancário tradicional baseado no dólar.

    Os países integrantes do bloco econômico BRICS estão usando moedas nacionais em 65% dos acordos comerciais mútuos. O presidente russo Vladimir Putin alertou que o uso político do dólar por Washington por meio de sanções e negação de acesso dos países ao sistema financeiro ocidental foi um “grande erro” que os forçará “a procurar outras alternativas, que é o que está acontecendo”.

    Além disso, o dólar está se desvalorizando porque os fundamentos da economia estadunidense (juros, déficits e dívida) estão pressionados, enquanto cresce o movimento global de diversificação de moedas e ativos.

    Em 2020, a participação do dólar nas reservas mantidas pelos bancos centrais já havia caído para 59% — naquele momento o nível mais baixo em 25 anos, de acordo com o levantamento do FMI.  Se as mudanças nas reservas dos bancos centrais continuarem, inevitavelmente afetarão os mercados de câmbio e principalmente de títulos do governo dos Estados Unidos.

    O alerta do FMI reflete um sistema financeiro global mais complexo, fragmentado e vulnerável, no qual o domínio do dólar está sendo lentamente erodido, não por substituição direta, mas por diversificação de instrumentos e moedas.

     

  • Governo Lula registra um recorde com 58,1% da população ocupada

    Governo Lula registra um recorde com 58,1% da população ocupada

    A taxa de desocupação de trabalhadores no trimestre móvel encerrado em agosto ficou em 5,6%, repetindo o menor patamar já registrado pela série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, iniciada em 2012. No mesmo período do ano passado, o índice estava em 6,6%. Os dados foram divulgados nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A maior taxa já registrada foi de 14,9%, atingida em dois períodos: nos trimestres móveis encerrados em setembro de 2020 e em março de 2021, ambos durante a pandemia de covid-19, no governo de Jair Bolsonaro.

    O país tinha, no final de agosto, 6,1 milhões de pessoas desocupadas, o menor contingente da série. Isso representa 605 mil pessoas a menos na procura de trabalho, em relação ao trimestre móvel anterior, terminado em maio. O número de ocupados chegou a 102,4 milhões. Com esse resultado, o nível da ocupação, que mede o percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar, ficou em 58,1%, se mantendo no nível mais alto da série histórica.

    William Kratochwill, analista da pesquisa do IBGE, acredita que a estabilidade é algo recorrente em trimestres de meio de ano, momento de transição entre o período de demissões de temporários contratados para as festas do final do ano anterior e as novas contratações para este ano.

    “Pode se dizer que o mercado está acomodado, em um momento de calmaria, se preparando para tomar as decisões para o segundo semestre, quando começam as novas contratações. A Pnad vem mostrando que o mercado está aquecido, resistente à taxa de juros alta. É um momento em que ele está favorável ao trabalhador. Pela ótica do trabalhador, uma taxa de desocupação não aumentar é sempre um bom sinal”, ressaltou.

    O número de empregados com carteira assinada também foi recorde e alcançou 39,1 milhões de pessoas, com alta de mais 1,2 milhão em relação ao mesmo período do ano passado. Esse índice deixa claro que o mercado de trabalho está aquecido. Com menor disponibilidade de mão de obra, os patrões são obrigados a oferecer mais benefícios para os trabalhadores, como a carteira assinada.

    Ao mesmo tempo, a taxa de informalidade – proporção de trabalhadores informais na população ocupada – ficou em 38%, acima dos 37,8% do trimestre móvel anterior. O mínimo aumento é explicado pelo crescimento do trabalhado por conta própria sem CNPJ, que chegou a 19,1 milhões de pessoas, 1,9% a mais que no trimestre móvel até maio.  

    Pode ser um sinal de que pessoas estão apostando no trabalho autônomo, como os motoristas de Uber e trabalhadores com menor escolaridade, geralmente nas atividades de comércio e alimentação. “Uma parcela de desalentados (pessoa que não procura emprego por achar que não conseguirá vaga) pode ter migrado, em parte, para a informalidade”, acredita Kratochwill.

    O Ministro do Trabalho informou que, entre 2022 a 2025, considerando Previdência, Fundo de Garantia e Sistema S, deixou-se de arrecadar mais de R$ 106 bilhões em decorrência da pejotização. Os adeptos a pejotização esquecem que, além de proteger o trabalhador, o fundo de garantia também é um instrumento de investimento, no momento, em especial no Minha Casa Minha Vida.

    Outro sinal de que o mercado está mais favorável aos trabalhadores é que os serviços domésticos foi a única categoria analisada pelo IBGE cujo número de vagas recuou tanto na comparação com o trimestre imediatamente anterior como com igual período do ano passado. Em relação a maio, por exemplo, houve queda de 3% no número de pessoas ocupadas – ou menos 174 mil trabalhando em casas de família, que apresenta características de trabalho análogo à escravidão, uma realidade que persiste no Brasil.

    Níveis historicamente baixos

    A taxa de desocupação no Brasil atingiu níveis historicamente baixos por uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. Entre os principais motivos, destaca-se o mercado de trabalho brasileiro que absorveu trabalhadores em diferentes setores, quatro dos cinco grandes agrupamentos apresentaram resultado positivo. O setor de Serviços fechou o mês com 81.002 novos empregos; Comércio com 32.612; a Indústria 19.098 e Construção Civil ficou com 17.328.

    Também o crescimento simultâneo do emprego com carteira assinada e do trabalho por conta própria amplia a ocupação total. Políticas como isenções para a indústria, programas de crédito subsidiado, e incentivos à construção civil e infraestrutura ajudaram a manter o nível de atividade e contratação. Programas sociais como Bolsa Família / Auxílio Brasil também sustentaram o consumo das famílias, aquecendo setores intensivos em mão de obra.

    Além disso, a força de trabalho brasileira cresce menos, pois há menos jovens ingressando e mais pessoas saindo por aposentadoria. Isso reduz a pressão de oferta, facilitando quedas na taxa de desemprego mesmo com crescimento moderado da economia.

    O rendimento médio real habitual chegou a R$ 3.488 no trimestre até agosto, considerado estável frente ao trimestre até maio, segundo o IBGE. Na comparação com igual trimestre de 2024, houve alta de 3,3%. Com isso, a massa total de rendimento médio real chegou a R$ 352,6 bilhões, avanço de 1,4% frente ao trimestre até maio e de 5,4% frente ao mesmo trimestre de 2024. 

    É surpreendente que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva consiga reduzir o desemprego a cada trimestre com todas as travas criadas pela pressão dos representantes de uma elite neocolonial, participantes do governo de coalizão, como o arcabouço fiscal e meta de inflação, que limitam os investimentos, e a manutenção da taxa básica de juros em 15% ao ano, bem acima dos índices inflacionários, impossibilitando o aumento do volume de crédito mais barato. Todas essas medidas promovem mais concentração de renda. Sem esquecer um Congresso hostil formado em sua maioria por políticos de oposição caricatos e de extrema direita.

     

     

  • Todas as tecnologias digitais avançam nas empresas

    Todas as tecnologias digitais avançam nas empresas

    A Pintec Semestral, pesquisa de inovação de empresas, mostrou que todas as tecnologias digitais avançadas tiveram aumento em suas taxas em 2024, comparando com 2022. A Computação em nuvem foi a tecnologia mais utilizada pelas empresas (77,2%). A Internet das coisas (50,3%), Inteligência Artificial (41,9%) e a Robótica (30,5%) vieram a seguir. Em 2022, os percentuais de utilização destas mesmas quatro tecnologias foram, respectivamente, 73,6%, 48,6%, 16,9% e 27,7%.

    A Pintec Semestral é uma investigação experimental realizada a partir de 2021 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), um serviço social autônomo criado para desenvolver ações que auxiliem o governo federal a implementar políticas industriais, como a Nova Indústria Brasil (NIB), e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa busca informações sobre as atividades de inovação das empresas industriais brasileiras de 100 ou mais pessoas ocupadas, a cada seis meses.

    O seu objetivo é complementar a Pintec tradicional, pesquisa realizada pelo IBGE que coleta dados sobre as atividades de inovação de empresas brasileiras para a construção de indicadores nacionais e setoriais. Por ser semestral, fornece indicadores em um tempo mais adequado, em especial sobre a adoção de tecnologias digitais, práticas ambientais e biotecnologia, ajudando a compreender e a orientar o desempenho inovador do país.

    Em 2024, 97,9% das empresas que declararam utilizar algum tipo de tecnologia digital avançada relataram ter benefícios. O Aumento da eficiência foi o ganho mais apontado por 90,3%, alta de 2,7 pontos percentuais, em relação a 2022. Em segundo lugar, a Maior flexibilidade em processos administrativos, produtivos e organizacionais, o mais apontado em 2022 (89,8%), agora aparece com 89,5%. Nos dois casos, foram as empresas de maior porte as mais favorecidas por esses benefícios, respectivamente, por 95,9% e 92,9% das empresas com mais de 500 pessoas ocupadas.

    Estratégia autônoma

    A Estratégia autônoma da empresa, com 88,6%, foi o fator que mais contribuiu na adoção das tecnologias digitais avançadas em 2024. Em administração e inovação, estratégia autônoma é aquela que não surge de um planejamento formal da alta direção, mas sim de iniciativas que brotam de forma espontânea dentro da organização — normalmente vindas de colaboradores, equipes ou unidades que experimentam, inovam e encontram soluções práticas para problemas do dia a dia.

    Esta edição da Pintec trouxe, ainda, uma nova informação: 9,1% das empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas utilizaram algum programa de apoio público relacionado à promoção de tecnologias digitais avançadas, e as empresas de maior porte foram as mais beneficiadas, proporcionalmente. Do total de empresas com 500 ou mais pessoas ocupadas, 13,9% utilizaram algum programa, ao passo que 9,5% e 7,1%, respectivamente, das empresas de 250 a 499 e de 100 a 249 pessoas ocupadas obtiveram algum tipo de incentivo.

    Além disso, quase todos os tipos de dificuldades para a adoção de tecnologias avançadas digitais apresentaram queda ante 2022. Altos custos das soluções tecnológicas foi o fator mais apontado (78,6%), com redução de 2.2 pontos percentuais ante 2022. A Falta de pessoal qualificado percebido por 54,2% recuou 0,4 ponto percentual. Já os Riscos associados à segurança e privacidade passaram de 49,5% para 47,2%. A Dificuldade de integração entre as áreas de negócio foi de 47,3%, em 2022, para 45,1%, em 2024. Contudo, a maior queda aconteceu no setor de Infraestrutura de telecomunicações adequadas que encolheu 6,5 pontos percentuais, passando de 41,2% para 34,7%.

    Inteligência artificial

    O percentual de utilização da Inteligência Artificial (41,9%) em 2024 não foi o maior, mas teve o maior crescimento: 25 pontos percentuais acima de 2022 (16,9%). As áreas que mais fizeram uso da Inteligência artificial foram Administração (87,9%), Comercialização (75,2%) e Desenvolvimento de projetos de produtos, processos e serviços (73,1%). A área de Produção (52,0%) veio a seguir, recuando 4.4 pontos percentuais frente a 2022 (56,4%).

    Internet das coisas foi a segunda tecnologia avançada mais utilizada em 2024. A maior proporção de empresas que a utilizaram concentra-se na área de Produção (82%), com alta de 4,9 pontos percentuais frente 2022 (77,1%). Nas áreas de Administração (72,2%), Desenvolvimento de projetos de produtos, processos e serviços (67,9%), Logística (65,5%) e Comercialização (61,6%), houve redução ante 2022.

    Em 2024, das 10.167 empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas, 27,8% (ou 2.823 empresas) fizeram uso de Análise de Big data em suas áreas/funções de negócios. A utilização desta tecnologia cresceu 4,4 pontos percentuais ante 2022 (23,4%).

    A pesquisa revela que, das 10.167 empresas com 100 ou mais pessoas ocupadas nas empresas industriais em 2024, 3.098 (30,5%) empregaram robótica em suas atividades. A utilização desta tecnologia cresceu 2,8 pontos percentuais frente a 2022 (27,7%).

    Em 2024, o uso da Robótica foi mais presente nas áreas de Produção (92,8%) e de Desenvolvimento de projetos (55,6%). O percentual de utilização na área de Produção cresceu ante 2022 (90,4%) mas o de Desenvolvimento de projetos diminuiu, pois era de 63,1% em 2022.

  • Banco Central mantém taxa básica de juros em 15%

    Banco Central mantém taxa básica de juros em 15%

    O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu manter nesta semana a taxa Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira, em 15% ao ano, com apoio unânime da diretoria sob a presidência de Gabriel Galípolo, como já tinha acontecido na reunião anterior, em julho passado. O nível dos juros básicos é o maior em 19 anos, desde julho de 2006, e está entre os três maiores do mundo.

    Nos últimos 12 meses, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a 5,13%. Portanto o ganho real para os bancos e fundos de investimentos é de 9,87 pontos percentuais acima da inflação. Só uma mídia corporativa como a brasileira pode defender que a razão da alta dos juros é para reduzir a inflação. Ao contrário, a redução da taxa de juros aumentaria geometricamente o consumo, o crédito, aproveitando a diferença de quase 10 pontos percentuais entre inflação e taxa de juros.

    Um conjunto de amarras como a taxa de juros e arcabouço fiscal, entre outros, limitam os investimentos. O motivo principal é enfraquecer o governo Lula. Outro pouco falado e muito simples é que o mercado interno forte inviabiliza o neoliberalismo concentrador de renda. Esse projeto sempre foi apoiado pela elite empresarial brasileira e foi potencializado no governo Bolsonaro (2019/2022). Por isso, ainda continuamos majoritariamente uma economia neocolonial agroexportadora de commodities com multinacionais explorando nossas riquezas minerais.

    A diferença nesse momento é que o Brasil está no grupo Brics, defensor de um mundo multipolar, com parcerias comerciais avassaladoras principalmente com China e Rússia. O mundo não é mais unipolar, apesar do governo Donald Trump e seu tarifaço tentar um controle que não existe mais.  

    O Brasil atravessa por um momento histórico para fortalecer sua soberania, com apoio de parte importante do empresariado que defende a política neoliberal, atendida em muitos pontos pelo governo de coalizão de Lula, mas não aceita partidos ligados ao crime organizado e uma família que fica de joelhos para as aves de rapina do imperialismo que pretende jogar o país novamente ao século IX.

    Tudo pela meta

    No comunicado habitual, o Copom avisou que deve manter a taxa atual por “período bastante prolongado para assegurar a convergência da inflação à meta”.  A meta de inflação é de 3,0%, com limite de tolerância de 1,5% a 4,5%.

    É o argumento perfeito para manter a taxa de juros no atual nível com a desculpa da inflação. Não é coincidência que essa estrutura com margem de tolerância vem desde que o regime de metas foi adotado em 1999, período neoliberal de Fernando Henrique Cardoso na presidência da República. A meta da inflação de 4,50% ao ano foi estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 2005 e permaneceu nesse patamar até 2018.

    Em 2019, assume a presidência Jair Bolsonaro, que provoca mais arrocho fiscal e reduz a meta de inflação para 4,25% ao ano, com margem de 1,5 ponto percentual para menos ou para mais. Em 2024, já no governo Lula, o CMN reduz ainda mais a meta de inflação para 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

    O CMN é composto atualmente por três membros: o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que o preside; o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; e a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet.

    O regime de metas resulta em decisões do Copom que lembram um movimento de moto-contínuo. A Selic pode baixar até 10% ao ano. A partir daí, o mercado financeiro com o apoio da mídia corporativa faz uma pressão brutal, denuncia descontrole da inflação, e provoca a elevação da taxa até em torno de 15% ao ano.

    Os números mostram isso. Durante o governo Bolsonaro a taxa Selic ficou em 13,75% ao ano de julho de 2022 até junho de 2023. Depois começou a baixar para 13,25% até 11,75% em dezembro de 2023 por causa das eleições presidenciais.  

    A partir de janeiro de 2023, o governo Lula continuou a redução da taxa Selic de 11,25% até 10,50% em agosto. Em setembro sobe para 10,75%, acaba o ano em 12,25% e janeiro de 2025 passa para 13,25% e chega aos 15% atuais.  

    Em algum momento o Galípolo deve começar a baixar a taxa básica, mas os números não devem mudar muito desse histórico. Assim, o ganho real está garantido para os bancos e grandes fortunas, através de fundos de investimentos, que são os maiores compradores do Tesouro Selic, título público federal de renda fixa negociado pela plataforma do Tesouro Direto, que tem como característica principal acompanhar a taxa Selic.

     

     

     

     

     

     

     

     

  • América Latina responde às ameaças do governo Trump

    América Latina responde às ameaças do governo Trump

    No mês passado, os Estados Unidos (EUA) enviaram pelo menos oito navios da Marinha e um submarino de ataque para uma região próxima da Venezuela, com cerca de quatro mil soldados envolvidos na operação com o argumento de combate ao narcotráfico.

    Aparecendo no programa ‘Talking with Correa’ da RT nesta semana, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou que a operação dos EUA “não é sobre tráfico de drogas… eles precisam de petróleo e gás”. Ele disse ao anfitrião, o ex-presidente equatoriano Rafael Correa, que “a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo… a quarta maior reserva de gás”. Ele também observou que seu país tem o potencial de ostentar as “maiores reservas de ouro do mundo”.

    Em 1853, algo parecido aconteceu quando a armada estadunidense, comandada pelo comodoro Matthew C. Perry (1794-1858) apareceu com os seus temíveis “navios negros” no porto de Uraga, exigindo a abertura de portos japoneses. Na história do Japão foi um evento fundamental e suas consequências econômicas foram profundas e transformadoras.

    Sob a ameaça militar, em 1854 o Xogunato Tokugawa foi forçado a assinar o Tratado de Kanagawa (paz e amizade) e, mais importante, em 1858, o Tratado de Amizade e Comércio (Harris Treaty) com os Estados Unidos, seguido por acordos similares com outras potências (Reino Unido, Rússia, França e Holanda).

    O Xogunato Tokugawa foi o governo militar do Japão que durou de 1603 a 1868, estabelecido por Tokugawa Ieyasu. Este período foi marcado por um governo centralizado sob a autoridade do xogum em Edo (atual Tóquio), um sistema feudal chamado bakuhan, e um rigoroso isolamento do Japão do resto do mundo.

    A consequência da ação dos Estados Unidos para a economia japonesa foi a abertura forçada do país ao comércio exterior e desencadeou uma série de transformações radicais. Os tratados impuseram condições humilhantes ao Japão. Os portos de Shimoda, Hakodate, Nagasaki, Yokohama, Kobe e Niigata foram abertos ao comércio estrangeiro. Os cidadãos estrangeiros no Japão estavam sujeitos às leis de seu próprio país, e não às leis japonesas, minando a soberania nacional.

    O Japão perdeu o direito de definir suas próprias tarifas de importação. Estas foram limitadas a uma taxa máxima de 5%, tornando o país incapaz de proteger suas indústrias nascentes da concorrência estrangeira.

    A abertura abrupta teve efeitos imediatos e, em muitos casos, devastadores. O Japão tinha uma taxa de câmbio ouro/prata diferente do resto do mundo. Os comerciantes estrangeiros exploraram essa diferença, comprando grandes quantidades de ouro japonês e prata, levando a uma enorme fuga de reservas e à desvalorização da moeda.

    A chegada da frota estadunidense enviada sob o governo do presidente Franklin Pierce, resultou na assinatura do Tratado de Kanagawa. Agora, o presidente Donald Trump tenta repetir a façanha na Venezuela. Os tempos mudaram ou nem tanto assim?

    Momento de união

    Durante a inauguração do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia (CCPI Amazônia), que promoverá a colaboração entre os nove países amazônicos e os nove Estados brasileiros que compõem a Amazônia Legal, os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Colômbia, Gustavo Petro, criticaram os Estados Unidos pelo avanço militar em direção à Venezuela. Para Lula, o continente não pode ser omisso e tem que “falar de igual para igual” com os estadunidenses. “Vamos ficar calados agora e ver essas bombas caindo e matando nossas crianças ou vamos parar e nos unirmos? Lula referia-se a um míssil lançado pelos Estados Unidos sobre uma lancha civil, com 11 mortes, no mar do Caribe.

    Os movimentos dos EUA visam estancar o envolvimento dos Brics na região, especialmente a China. O comércio China-América Latina passou de US$ 18 bilhões em 2002 para US$ 315 bilhões em 2020, atingindo US$ 518,4 bilhões em 2024. Além disso, a China implementou mais de 200 projetos de infraestrutura e diversos empreendimentos industriais na região, gerando mais de um milhão de empregos locais.

    O Porto de Chancay, no Peru, que entrou em operação no final de 2024, com investimento de US$ 3,6 bilhões (R$ 17,8 bilhões), é o primeiro porto com maioria de capital chinês na América Latina. Através da Rota Amazônica será possível uma ligação direta e mais rápida para o transporte de mercadorias entre a Ásia e a América Latina, conectando os oceanos Atlântico e Pacífico. O projeto envolve cinco rotas bioceânicas – um corredor de transporte que liga o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico, passando por Brasil, Paraguai, Argentina e Chile – que encurtarão a distância entre o Brasil e a China em aproximadamente 10 mil quilômetros.

    Além da Venezuela, a bola da vez é o Brasil. Nesta semana, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o governo de Donald Trump está disposto a usar “poderes econômicos e militares” para “proteger a liberdade de expressão no mundo”, uma referência ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

    Depois da condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em nota publicada nas redes sociais, afirmou que as perseguições do violador dos direitos humanos Alexandre de Moraes continuam… Washington responderá de forma adequada a essa “caça às bruxas”. Já o presidente Donald Trump afirmou estar surpreso com a decisão da Corte brasileira.

    Também em nota nas redes sociais, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro respondeu à ameaça de Marco Rubio e disse que a declaração não “intimidará” a democracia brasileira: “O Brasil continuará a defender sua soberania de agressões e tentativas de interferência, venham de onde vierem.”

    Desfile militar

    Neste clima pesado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva organizou nesta semana uma cúpula virtual do Brics para, na justificativa oficial, coordenar estratégias focadas no multilateralismo, em resposta à nova política dos Estados Unidos de aumentar tarifas sobre seus parceiros comerciais.​​​ O que realmente foi discutido, com a participação dos presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, não vazou.

    O Brics foi fundado em 2006 pelo Brasil, Rússia, Índia e China, com a África do Sul se juntando a ele em 2011. Em 1º de janeiro de 2024, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos também se tornaram membros, assim como a Indonésia em 6 de janeiro de 2025. São países parceiros: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão.

    Uma semana após o poderoso desfile militar, em Pequim, do Dia da Vitória da China, para marcar o 80º aniversário de sua vitória na Segunda Guerra Mundial, em 3 de setembro, os chineses e os estadunidenses mantiveram um diálogo de alto nível sobre diplomacia e segurança militar.

    Nesta semana, o ministro da Defesa chinês, Dong Jun, conversou por vídeo com o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, a pedido deste último. Também o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, membro do Bureau Político do Comitê Central do Partido Comunista da China, conversou por telefone com o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Ambas as conversas, com poucas horas de diferença, atraíram ampla atenção global. 

    Em editorial, o Global Times afirma que “em um cenário de turbulência global e frequentes conflitos regionais, o aumento da frequência da comunicação de alto nível entre a China e os EUA não apenas reduz significativamente o risco de mal-entendidos e erros de cálculo, mas também cria condições favoráveis ​​para enfrentar desafios globais, como a segurança pública global e cadeias de suprimentos estáveis.”

    Manchetes recentes noticiaram submarinos russos ausentes de bases ou operando furtivamente — às vezes em grupos. Agências de notícias e análises descrevem movimentações, reposicionamentos e preocupações da Organização do Tratado do Atlântico Norte, em inglês NATO. Não há evidência pública e verificável de que submarinos nucleares russos estejam “perdidos” de modo que os EUA não consigam localizá-los de forma definitiva.

     

  • Xi Jinping propõe governança global com igualdade soberana entre países

    Xi Jinping propõe governança global com igualdade soberana entre países

    O presidente chinês, Xi Jinping, propôs nesta semana a Iniciativa de Governança Global (GGI) na reunião da “Organização de Cooperação de Xangai Plus”, em Tianjin, China. “Espero trabalhar com todos os países por um sistema de governança global mais justo e equitativo e avançar em direção a uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade,” afirmou.

    “Embora as tendências históricas de paz, desenvolvimento, cooperação e benefício mútuo permaneçam inalteradas, a mentalidade da Guerra Fria, o hegemonismo e o protecionismo continuam a assombrar o mundo”, disse Xi, acrescentando que novas ameaças e desafios só aumentam, e o mundo se encontra em um novo período de turbulência e transformação. “A governança global chegou a uma nova encruzilhada.”

    A China está pronta para trabalhar com a Rússia para construir um sistema de governança global mais justo e razoável, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun. Ele confirmou que a China está disposta a cooperar com a Rússia em diversas áreas para explorar o enorme potencial das relações sino-russas. O porta-voz acrescentou que Pequim deseja que os dois países “desempenhem conjuntamente um papel ativo na resolução de grandes questões internacionais e regionais”, mantenham a estabilidade estratégica global, defendam a imparcialidade e a justiça internacionais.

    O presidente russo, Vladimir Putin, reiterou seu apoio ao projeto de reforma da governança global proposto pela China, saudando-o como uma iniciativa oportuna que visa promover laços positivos entre os países que participaram da última cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX).

    Putin também enfatizou que o mundo multipolar proposto por Moscou e Pequim e o novo sistema de governança global não implicariam a ascensão de novas potências hegemônicas. “Todos os países participantes da comunidade internacional devem ter direitos iguais e ocupar uma posição igual”, disse o presidente russo. Também sugeriu que os contornos de um novo mundo multipolar já tomaram forma.

    É uma resposta do Sul Global, sob a liderança da China e Rússia, ao comércio mundial em alvoroço com as idas e vindas do tarifaço que o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, aplicou em vários países em razão de seu déficit comercial. Sul Global é um termo geopolítico que descreve países em desenvolvimento da África, Ásia, América Latina e Oceania que enfrentam desafios históricos e socioeconômicos comuns, como colonialismo, desigualdade e dependência econômica.

    Como afirma o governo chinês, o “América em primeiro lugar” não pode privar outras nações dos direitos de desenvolvimento e ficar acima das regras internacionais. Um esforço dos Estados Unidos para conter principalmente a China, líder do Brics, resistindo a uma mudança para uma ordem multipolar com esferas de influência distintas.

    Antes do tarifaço, os Estados Unidos abandonaram o Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas; a Organização Mundial da Saúde (OMS); a Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas; a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), e bloquearem a nomeação de árbitros para o órgão de apelação da Organização Mundial do Comércio (OMC), o que paralisou esse mecanismo essencial para resolver disputas comerciais.

    A razão comum desses atos é a lógica central da política externa do governo Donald Trump: unilateralismo e America First.  Trump vê instituições multilaterais como restrições à soberania estadunidense. Para ele, acordos e organismos internacionais impunham obrigações que limitam a liberdade de ação dos EUA e, muitas vezes, beneficiam “rivais”.

    No documento conceitual sobre a Iniciativa de Governança Global, divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores da China, consta que o cenário internacional atual está passando por mudanças e turbulências. A Organização das Nações Unidas (ONU) e o multilateralismo estão sendo desafiados. O déficit na governança global continua a crescer.

    As instituições internacionais existentes mostraram três deficiências:

    Primeiro, grave sub-representação do Sul Global. A ascensão coletiva de mercados emergentes e países em desenvolvimento exige o aumento da representação do Sul Global e a reparação da injustiça histórica.

    Segundo, a erosão da autoridade. Os propósitos e princípios da Carta da ONU não foram efetivamente observados. Resoluções do Conselho de Segurança foram contestadas. Sanções unilaterais, entre outras práticas, violaram o direito internacional e perturbaram a ordem internacional.

    Terceiro, a necessidade urgente de maior eficácia. A implementação da Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável está seriamente atrasada. Questões como as mudanças climáticas e a exclusão digital estão se tornando mais salientes. Lacunas de governança existem em novas fronteiras, como inteligência artificial (IA), ciberespaço e espaço sideral.

    O presidente Xi destacou cinco princípios da Iniciativa de Governança Global:

    1. Manter o compromisso com a igualdade soberana. Esta é a premissa fundamental da governança global. A igualdade soberana é a norma mais importante que rege as relações entre Estados,  princípio observado pela ONU e por todas as outras instituições e organizações internacionais. A essência da igualdade soberana é que todos os países, independentemente de tamanho, força ou riqueza, devem ter sua soberania e dignidade respeitadas, seus assuntos internos livres de interferência externa, o direito de escolher independentemente seu sistema social e caminho de desenvolvimento e o direito de participar, tomar decisões e se beneficiar do processo de governança global como iguais. O fortalecimento da democracia deve ser promovido nas relações internacionais para que o sistema de governança global reflita melhor os interesses e aspirações da maioria dos países e para aumentar a representação e a voz dos países em desenvolvimento.
    2. Manter o compromisso com o Estado de Direito internacional. Esta é a salvaguarda fundamental para a governança global. Os propósitos e princípios da Carta da ONU são normas básicas universalmente reconhecidas das relações internacionais. Eles devem ser defendidos inabalavelmente. Em áreas emergentes, as regras internacionais devem ser formuladas com base em amplo consenso. O direito e as regras internacionais devem ser aplicados de forma igual e uniforme, sem qualquer duplicidade de critérios ou imposições. A autoridade e a solenidade do direito internacional devem ser mantidas. Os principais países, em particular, devem assumir a liderança na defesa  do Estado de Direito internacional.
    3. Manter o compromisso com o multilateralismo. Este é o caminho básico da governança global. O multilateralismo é o conceito central do sistema internacional existente e da ordem internacional. O princípio da ampla consulta e da contribuição conjunta para benefício compartilhado deve ser mantido. Os assuntos globais devem ser decididos por todos, o sistema de governança construído por todos e os frutos da governança compartilhados por todos. A prática do unilateralismo deve ser rejeitada. A ONU é a plataforma central para a prática do multilateralismo e o avanço da governança global, cujo papel deve ser aprimorado, não enfraquecido. Outras instituições multilaterais globais e regionais devem explorar seus respectivos pontos fortes e desempenhar um papel construtivo. Todos os arranjos discriminatórios e excludentes devem ser evitados.
    4. Manter o compromisso com a abordagem centrada nas pessoas. Este é o valor fundamental da governança global. Os povos de todas as nações são os atores fundamentais da governança global, e seu bem-estar é o seu benefício final. O sistema de governança global deve atender às necessidades das pessoas e fomentar consistentemente sua confiança e crença em um futuro estável para ser amplamente apoiado e eficaz. Deve buscar melhorias por meio de reformas para inspirar, entre os povos de todos os países, um maior senso de realização por meio do desenvolvimento comum acelerado, um maior senso de segurança por meio de uma resposta mais eficaz aos desafios comuns da humanidade e um maior senso de bem-estar por meio do avanço dos interesses comuns de diferentes países e comunidades. 
    5. Manter o compromisso com resultados reais. Este é um princípio importante da governança global. Uma governança global eficaz é essencialmente aquela que resolve problemas reais. Dadas as estreitas ligações entre várias questões, a governança global deve ser realizada de forma mais coordenada, sistemática e holística. Deve-se abordar tanto as causas raiz quanto os sintomas para encontrar soluções sustentáveis. Deve-se abordar questões urgentes e levar em consideração os desafios de longo prazo. Os países desenvolvidos devem assumir seriamente suas responsabilidades e fornecer mais recursos e bens públicos. Os países em desenvolvimento, por sua vez, devem se unir para se fortalecer e fazer o melhor pelo mundo.