Durante a 4ª reunião do Grupo de Trabalho de Cooperação Estratégica Financeira China–Brasil, realizada na terça-feira, 9, em Pequim, o presidente do Banco Popular da China, Pan Gongsheng, e do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, oficializaram as discussões sobre o incentivo à emissão de Panda Bonds pelo Brasil, a facilitação de contas em moedas locais e a ampliação do uso de acordos de swap cambial.
Na plataforma X, o Consulado-Geral da China no Rio de Janeiro deu boas-vindas à emissão de Panda Bonds — títulos de dívida soberana emitidos pelo governo brasileiro no mercado chinês. “Esperamos que mais empresas brasileiras de alta qualidade também participem dessas emissões, ampliando os canais de financiamento e a conexão entre os dois mercados.”
O governo brasileiro planeja anunciar ainda neste mês uma captação de recursos no mercado financeiro da China por meio da emissão de títulos públicos em yuan, a moeda chinesa, conforme informação divulgada pela agência Reuters. O secretário-executivo do ministério da Fazenda, Dario Durigan, irá liderar uma delegação à China no final de junho, quando deverá ser anunciada a primeira emissão soberana de títulos do governo denominados em yuan.
O objetivo é ampliar os canais de financiamento, reduzir a dependência do dólar e acessar novos investidores na China. No ano passado, o Brasil já foi o principal destino dos investimentos chineses no mundo, recebendo US$ 6,1 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões) em novos projetos e negócios, segundo relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).
Até o momento, não foram anunciados o valor da emissão, prazo dos títulos, taxa de juros, cronograma de colocação e quais bancos coordenarão a operação. Esses detalhes deverão surgir durante ou após a visita oficial à China.
Os Panda Bonds são títulos de dívida emitidos por governos ou empresas estrangeiras no mercado financeiro doméstico chinês e denominados em yuan (renminbi). Em vez de captar recursos em dólares, o emissor toma empréstimos diretamente junto a investidores chineses na moeda chinesa.
A emissão faz parte de uma estratégia mais ampla do Tesouro Nacional brasileiro de diversificação das fontes de financiamento externo. O governo já realizou, em abril de 2026, sua primeira emissão de títulos em euros desde 2014, captando € 5 bilhões. Agora busca ampliar essa diversificação para o yuan.
O movimento tem mais importância estratégica do que financeira imediata porque sinaliza uma inserção do Brasil em uma arquitetura financeira mais multipolar, na qual dólar, euro e yuan coexistem como fontes de captação, além de criar uma referência para futuras emissões de empresas brasileiras em yuan.
O mercado de títulos Panda expandiu-se consideravelmente nos últimos anos, à medida que a China promove maior uso de sua moeda nas finanças globais. A entrada planejada do Brasil o posiciona como o primeiro grande país soberano da América Latina a explorar esse mercado. Outros países, incluindo vários na Europa e na Ásia, já testaram o terreno.
Um aspecto particularmente interessante é que essa emissão ocorre ao mesmo tempo em que Brasil e China discutem ampliação de investimentos em minerais críticos, infraestrutura verde, mercado de carbono e mecanismos de financiamento sustentável, temas que estarão na agenda da comitiva de Durigan em Pequim e Xangai.
Reservas brasileiras
No contexto da emissão dos futuros Panda Bonds, um estoque de reservas acima de US$ 370 bilhões dá ao Brasil uma posição relativamente confortável para diversificar suas fontes de financiamento sem comprometer sua segurança externa.
O que os dados mais recentes mostram é que o Brasil vem promovendo uma diversificação gradual das reservas, mas não um abandono dos ativos estadunidenses. O Banco Central informou no Relatório de Gestão das Reservas Internacionais de março de 2026 que 72% das reservas internacionais brasileiras estavam aplicadas em ativos denominados em dólar ao final de 2025, o menor percentual da série recente do BC. Ao mesmo tempo, o ouro ganhou espaço e passou a representar 7,19% das reservas, tornando-se o segundo maior ativo na carteira.
Sem alarde, o Brasil vem reduzindo gradualmente sua exposição a títulos do governo norte-americano (US Treasuries) e aumentando a proporção de ouro nas reservas internacionais. Comprou 42,8 toneladas de ouro físico entre setembro e novembro de 2025. O volume de ouro passou de 129,6 para 172,4 toneladas no período, após o Banco Central adquirir cerca de 42,8 toneladas entre setembro e novembro de 2025, elevando suas reservas e consolidando o país na liderança do ranking na América Latina. Em valor, essa parcela subiu de cerca de US$ 11,7 bilhões para US$ 23,3 bilhões.
Esse movimento está alinhado com uma tendência global de diversificação de reservas observada em vários bancos centrais, que têm aumentado posições em ouro diante de incertezas econômicas e geopolíticas. Em 2025, muitos bancos centrais compraram ouro como parte dessa estratégia, reduzindo gradualmente a dependência de dólar e de títulos públicos dos Estados Unidos (EUA).
Os dados do sistema TIC (Treasury International Capital) do Departamento do Tesouro dos EUA mostram que o Brasil ainda continua entre os grandes detentores estrangeiros de títulos de dívida pública emitidos pelo governo dos Estados Unidos, embora sua posição tenha diminuído nos últimos anos em relação aos picos observados anteriormente.
Essa estrutura foi criada no final da Segunda Guerra Mundial, com os títulos do Tesouro dos EUA sendo usados pelos bancos centrais da maioria dos países como seu principal ativo de reserva. Atualmente, o mercado desses títulos, avaliado em US$ 30 trilhões, é o maior do mundo.
No entanto, já existe um movimento nos últimos 25 anos de diversificação das reservas internacionais. O dólar estadunidense representava cerca de 72% das reservas mundiais de todos os bancos centrais do mundo, em 2001, medida normalmente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), base COFER, e caiu para cerca de 56%, em 2025, o nível mais baixo em 30 anos. Pela primeira vez, desde 1996, o valor do ouro nas reservas dos bancos centrais superou o dos Treasuries.
Isso mostra uma menor dependência do dólar, mas não o fim dele. O que os números deixam claro é que apesar do yuan chinês ainda ser limitado e o ouro não funcionar bem para pagamentos cotidianos, o mundo caminha resoluto para um sistema multipolar.


