Banco do Brics inicia expansão e Brasil perde importância

O Novo Banco de Desenvolvimento (New Development Bank, NDB, na sigla em inglês), mais conhecido como o Banco do Brics, iniciou em setembro a expansão do seu quadro de participantes, com a admissão dos Emirados Árabes Unidos, Uruguai e Bangladesh como seus primeiros novos países membros. Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul vão ter 55% do controle do banco sediado em Xangai (China), criado formalmente em julho de 2015.

O grupo BRIC foi criado em 2006 para reunir os principais países emergentes do mundo: Brasil, Rússia, Índia e China. Durante a sua terceira cúpula, em 2011, a África do Sul aderiu formalmente ao grupo, que então se tornou Brics.

Existe a possibilidade, ainda em 2021, de ser concluída a negociação para adesão de mais um sócio. A expectativa é de três a quatro novos sócios por ano, podendo alcançar um total de 20 membros nos próximos anos.

De acordo com o comunicado de imprensa, a primeira expansão do NDB para ampliar seu alcance global está alinhada com a estratégia do banco de se posicionar como a principal instituição de desenvolvimento para as economias emergentes.

Para o entendimento da importância de Bangladesh como novo parceiro emergente é necessário um curto retrospecto. Em agosto de 1971, no Madison Square Garden, Nova York, foi realizado o famoso Concerto para Bangladesh, um evento constituído por dois shows beneficentes assistidos por mais de 40 mil pessoas, para diminuir a fome naquele país. Os organizadores foram os músicos George Harrison e Ravi Shankar.

No entanto, também em 1971, Bangladesh conquistou sua independência do Paquistão e começou a mudar a realidade econômica do país. Ao celebrar 50 anos de sua independência, em 2021, o país mostra um rápido desenvolvimento econômico e um melhor padrão de vida para sua população.

Bangladesh já tirou mais de 25 milhões de pessoas da pobreza nos últimos 15 anos e, desde o ano 2000, reduziu a pobreza pela metade. “Bangladesh tem feito um progresso notável na redução da pobreza, apoiada pelo crescimento econômico sustentado”, observou o Banco Mundial em novembro de 2018.

O ministro de Estado para Assuntos Financeiros dos Emirados Árabes Unidos, Obaid Humaid Al Tayer, disse que a adesão ao Novo Banco de Desenvolvimento representa um passo importante para melhorar o papel da economia de seu país no cenário global. Também ressaltou a expertise dos Emirados no apoio a projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável.

O bilionário fundo Mubadala, que investe capital soberano dos Emirados Árabes, muito ativo no exterior, com patrimônio de US$232 bilhões, teve contrato de compra da Refinaria Landulpho Alves (RLAM), na Bahia, assinado com a Petrobras pelo valor de US$1,6 bilhão. Negócio ainda inconcluso. O fundo Adia (Abu Dhabi Investment Authority) tem US$ 650 bilhões de ativos. O Investment Corporation of Dubai (ICD) tem US$ 302 bilhões e o Emirates Investment Authority soma ativos de US$ 68 bilhões.

A ministra de Economia e Finanças do Uruguai, Azucena Arbeleche, disse que vê no NDB uma grande oportunidade de cooperação com seus países membros, um marco de uma busca de maior inserção internacional para o comércio e investimentos. “Os projetos em áreas como transporte, água e saneamento, energia limpa, infraestrutura, digital, infraestrutura social e de desenvolvimento urbano estão dentro do alcance do banco”, acrescentou.

Estudos do Goldman Sachs

A ideia do BRICS foi formulada pelo então economista-chefe da Goldman Sachs, Jim O’Neil, em estudo de 2001, intitulado “Building Better Global Economic BRICs”, em português, “o mundo precisa de melhores tijolos econômicos”, um trocadilho entre a palavra em inglês para tijolos (brick) e o acrônimo Brasil, Rússia, Índia e China.

Pela primeira vez, O´Neil descreveu uma nova divisão de trabalho na economia mundial, considerando os quatro países como as principais economias emergentes. O quarteto, escreveu o economista, estava prestes a alcançar os países industrializados em termos de poder econômico. Realmente, entre 2003 e 2007, o crescimento dos quatro países – principalmente China – representou 65% da expansão do PIB mundial.

Outro estudo da Goldman Sachs, publicado em outubro de 2003, denominado “Dreaming With BRICs: The Path to 2050”, previa que os quatro grandes emergentes –  África do Sul não foi incluída – deveriam se tornar, até 2050, a maior força da economia mundial, superando em valor de PIB os países do G-6 – Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália.

Segundo Pesquisa Econômica do Valor Data, se a Goldman Sachs tivesse acertado em sua previsão, o PIB do Brasil teria crescido 101,7% nos primeiros vinte anos do século, mas ficou próximo de 43%.  A Rússia também não correspondeu às expectativas e cresceu 78,4% no período, menos que os 127,3% previstos. A China e a Índia superaram as projeções: cresceram respectivamente 425,4% e 229,8%, bem mais que os previstos 249,3% e 206,1%.

A estatal de Comunicação da Alemanha, Deutsche Welle (DW), fez uma extensa matéria, em agosto passado, com o título “Vinte anos depois, o Brasil virou segundo escalão do Bric”. Depois de 2016, politicamente quase não houve aproximação do Brasil com os países parceiros. O Governo Bolsonaro ficou distante da Rússia e com seguidas críticas ideológicas em relação à China.

A economia brasileira, conforme a DW, perdeu o prumo: exceto pelas matérias-primas, o Brasil quase não oferece produtos competitivos para o mercado mundial. “Sua indústria está encolhendo. Ao mesmo tempo, o poder de compra dos brasileiros foi o que mais diminuiu entre os países do Brics nos últimos dez anos.”

O PIB do Brasil está estagnado ou em queda nos últimos seis anos. Em 2020, reconhecendo os efeitos adversos da pandemia de Covid-19, o PIB caiu 4,1% frente a 2019, a menor taxa da série histórica, iniciada em 1996. Em 2019, cresceu 1,1%, seguindo a fraca expansão de 1,3% nos dois anos anteriores, conforme dados do IBGE.  Em 2016, houve queda de -3,3%, em relação a 2015, que também teve um decréscimo de -3,5%, na comparação com 2014. Portanto, a crise é anterior a pandemia.

Para piorar, o governo brasileiro deu um calote parcial, em 3 de janeiro passado, no NDB. Dos US$ 350 milhões que o país deveria ter repassado, como aporte de país membro, só pagou US$ 58 milhões. Sem honrar o compromisso, o governo brasileiro pode perder o direito a voto no banco, que atualmente é presidido justamente por um brasileiro, Marcos Troyjo, ex-secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia.

Desde o início de suas operações, o NDB aprovou cerca de 80 projetos em todos os seus membros, totalizando uma carteira de US$ 30 bilhões. Projetos em áreas como transporte, água e saneamento, energia limpa, infraestrutura digital, infraestrutura social e desenvolvimento urbano estão no escopo do banco. O NDB tem capital autorizado de US $ 100 bilhões, aberto à subscrição de membros das Nações Unidas.

Na criação do banco, a então presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, disse que o novo banco deveria representar uma alternativa “para as necessidades de financiamento de infraestrutura nos países em desenvolvimento, compreendendo e compensando a insuficiência de crédito das principais instituições financeiras internacionais”, que são o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, instituições criadas em 1945, pelos Acordos de Bretton Woods.

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