FMI sugere apoio fiscal além do teto durante a pandemia

Até mesmo o insensível Fundo Monetário Nacional (FMI) – que costuma impor de forma brutal suas receitas para o pagamento das dívidas que atingem os países que dependem de seus financiamentos -, entende que dada a elevada incerteza em relação ao cenário econômico e sobre como a pandemia vai evoluir, as autoridades devem estar preparadas para oferecer apoio fiscal adicional se as condições ficarem piores do que elas esperam.

No entanto, o ministro da Economia, Paulo Guedes, durante evento promovido pela agência Bloomberg, nesta terça-feira, 10/11, disse que os custos dos programas de transferência de renda no Brasil são “insustentáveis” e serão reduzidos à medida em que a covid-19 recuar. “Estamos determinados a voltar para nossos programas de ajuste fiscal.” Caso haja uma segunda onda de contaminações pelo novo coronavírus, Guedes disse que o governo manterá os programas emergenciais, mas com valores mais baixos.

O ministro também comentou que a dívida pública está sendo rolada “sem nenhum problema”. Os números do BC mostram, ao contrário, que o país está pendurado no curto prazo. Quase metade dos R$ 5,280 trilhões da dívida líquida interna (R$ 2,260 trilhões) vencem até 12 meses.

O Brasil pré-pandemia já apresentava uma relação dívida-PIB cerca de duas vezes a média das economias emergentes. A dívida pública brasileira deve subir para cerca de 100% do PIB no final de 2020.

Uma discussão mais apurada sobre nossa dívida pública nunca é estimulada pela imprensa corporativa, mesmo com os mais de 14 milhões de desempregados. A dívida do governo federal é quase toda interna e detida indiretamente por indivíduos, bancos e firmas, através de intermediários financeiros. Sua reestruturação teria um forte impacto negativo no patrimônio das famílias e empresas, na intermediação financeira e no mercado de capitais.

Economistas calculam que o custo médio da dívida no país está em torno de 6% – 3% acima da inflação – e os tomadores vêm exigindo prêmios crescentes. É possível que o custo médio da dívida chegue a 4,5% em termos reais ou até mais.

Para 2021, o FMI projeta um crescimento de 2,8% para o Brasil, uma recuperação gradual depois do tombo forte esperado para 2020. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Alejandro Werner, diretor do departamento para o Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional, disse que a organização espera que a recuperação em 2021 seja contida pelos efeitos persistentes da crise sanitária, pela retirada do apoio fiscal e pelas cicatrizes relacionadas à crise no mercado de trabalho.

Para ele, a redução da poupança das famílias acumulada durante 2020 vai “suavizar o consumo” em alguma medida. “Como em muitos países, o investimento vai ser afetado pela capacidade ociosa e pela elevada incerteza sobre as perspectivas de crescimento. Os desafios de longo prazo da baixa expansão da produtividade, combinada ao baixo investimento, também vão restringir o crescimento, na ausência de reformas estruturais decisivas.”

No relatório Perspectivas Econômicas, sobre o crescimento na região da América Latina e Caribe, o FMI projeta uma contração de 8,1% no PIB real em 2020. Um aumento significativo da pobreza, exacerbando a disparidade de renda, já entre as mais elevadas do mundo antes da pandemia. A recuperação provavelmente será demorada. Na maioria dos países, o PIB não voltará aos níveis pré-pandemia antes de 2023 e a renda real per capita, não antes de 2025, mais tarde do que em qualquer outra região.

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