Rede 5G deixa Governo Bolsonaro numa sinuca de bico

Presidente da República, Jair Bolsonaro, recebe o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Robert O’Brien | Foto: Marcos Correa/PR

A visita da delegação do governo dos Estados Unidos ao Brasil esta semana, tendo como um dos integrantes o Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Robert C. O’Brien, mostra o tamanho da pressão contra a China e a presença da Huawei no leilão da quinta geração de internet móvel, 5G. O leilão das faixas de espectro que serão utilizadas para a implementação da rede 5G no Brasil está previsto para acontecer no primeiro semestre de 2021.

Membros da comitiva foram firmes ao dizer que há alternativas aos fornecedores chineses e que o governo dos EUA está pronto para financiar empresas de telecomunicações brasileiras que queiram comprar equipamentos de rivais da potência asiática.

Na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) O’Brien externou preocupação com ataques cibernéticos recentes e ao crescente domínio chinês sobre essa esfera. “Estamos recomendando fortemente que nossos parceiros fechem acordos com fornecedores confiáveis”, alertou. “Temos uma longa história de cooperação com o Brasil nas áreas de segurança e defesa e podemos aperfeiçoar ainda mais essa parceria”, complementou.

Os EUA têm pressionado o Brasil a banir equipamentos chineses da infraestrutura da telefonia 5G, alegando que há risco de espionagem. Soa estranho o alerta depois das informações secretas obtidas pelo WikiLeaks, que revelam detalhes sobre a espionagem da NSA, sigla em inglês da Agência Nacional de Segurança, contra a presidenta Dilma Rousseff e assessores próximos, ministros e um integrante do Banco Central.

Além disso, o governo brasileiro instituiu o Plano Nacional de Internet das Coisas por meio do Decreto nº 9.854, de 25 de junho de 2019. A finalidade é implementar e desenvolver a internet of things (IoT) no Brasil, com base na livre concorrência e na livre circulação de dados e com observância das regras de segurança da informação.

Infraestrutura já existe

O governo Bolsonaro sabe da importância de implementar a infraestrutura para o 5G, que permitirá uma banda larga móvel de altíssima potência e qualidade com impacto no acesso ao conhecimento. A infraestrutura que já existe é um entrave real à pressão dos Estados Unidos contra a chinesa Huawei. Ela já atua há mais de 20 anos no Brasil e é uma das principais fornecedoras das operadoras de telecomunicações. Segundo dados da Anatel, a Huawei está presente em 35% da infraestrutura das redes de telefonia móvel de 2G, 3G e 4G do País, ficando atrás apenas da sueca Ericsson.

As marcas não fabricam equipamentos de infraestrutura compatíveis entre si. Estas antenas e estações não vão virar 5G com extensões de outras marcas. Portanto, não usar Huawei exigiria trocar também a rede 4G — ou implementar uma 5G do zero, o que aumentaria muitíssimo o preço.

A embaixada da China no Brasil distribuiu uma nota à imprensa sobre as declarações da comitiva dos EUA: “Alguns políticos norte-americanos inventaram recentemente mentiras políticas contra a China com um conceito de Guerra Fria e jogo de soma zero para criar uma teoria de ‘ameaça chinesa’ para pressionar o Brasil a reduzir sua dependência comercial com a China.”

Continua a nota: “China e Brasil são parceiros estratégicos globais. Ambos são membros do G20 e do grupo BRICS e compartilham interesses comuns amplos em muitos temas internacionais e regionais importantes. A China tem sido o maior parceiro comercial do Brasil há onze anos e é a maior fonte do superávit comercial do Brasil, além de um dos países com mais investimentos no país sul-americano.”

Também a Huawei distribuiu uma nota, onde afirma “que nunca teve nenhum grande incidente relacionado à segurança cibernética nos 170 países em que opera nas últimas três décadas. Há 22 anos no país, a Huawei tem no Brasil um histórico de produtos de alta qualidade e segurança cibernética.”

Estreita relação econômica

As notas dos chineses revelam a estreita relação econômica com o Brasil. A China é o principal importador de produtos brasileiros e respondeu por 40% das exportações agrícolas brasileiras no primeiro semestre deste ano, segundo levantamento realizado pela Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura. De janeiro a junho deste ano, foram gerados US$ 20,5 bilhões com as vendas de produtos agrícolas para os chineses.

Em 2020 a participação da China nas exportações do agro foi recorde. O país compra do Brasil sobretudo soja em grão e carnes, mas a pauta inclui dezenas de produtos e a intenção da cadeia produtiva é ampliá-la cada vez mais. A China importou do Brasil, em 2019, US$ 63,36 bilhões, 28,1% do total, enquanto os Estados Unidos, US$ 29,72 Bilhões, 13,2%.

Em entrevista para “O Globo”, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, já havia avisado que o país terá “consequências” econômicas negativas caso decida manter a Huawei no leilão do 5G. Para o diplomata, a presença da gigante chinesa de telecomunicações deve fazer com que empresas “baseadas na propriedade intelectual” evitem investir no Brasil.

O embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, também deu seu recado em entrevista para o jornal Valor Econômico, em julho passado: “A China não exercerá pressão, nem fará ingerência sobre nenhum país, na sua escolha do fornecedor do 5G. No entanto, somos contrários ao uso de meios administrativos para interferir na participação legítima de empresas chinesas na cooperação internacional ou na concorrência de mercado. A questão não é se a Huawei poderá ganhar ou não um determinado leilão. O que está em jogo é a capacidade e vontade de um governo criar um ambiente de negócios e regras de mercado dentro dos parâmetros de equidade, imparcialidade e não discriminação. Não se trata somente da preocupação de uma empresa em particular, como a Huawei, mas de um importante critério de avaliação das condições de um mercado, que tem impacto significativo nas decisões de investimento e operação de todas as empresas chinesas.”

Impacto difuso

Steve Jobs apresentou em janeiro de 2007 um novo modelo do iPhone ao mundo e muita coisa mudou no smartphone. Agora, o 5G extrapola o smartphone, com o novo conceito da a internet das coisas, onde a regra principal é que tudo o que puder ser conectado será conectado. Isso inclui itens que vão desde eletrodomésticos e meios de transporte até maçanetas de portas e peças de vestuário. No futuro, tudo estará conectado à rede mundial de computadores e poderá ser acessado por equipamentos cada vez mais sofisticados.

O Ministério da Economia calcula um impacto em aumento de produtividade de R$ 249 bilhões até 2035 com a chegada do 5G. Segundo a Associação Brasileira de Internet das Coisas (Abinc), quando comparado ao atual 4G, o 5G terá transmissão de dados 10 vezes mais rápida, latência 10 vezes menor, de 10 a 100 vezes mais dispositivos conectados e menor consumo de bateria, em termos gerais.

A latência mede quanto tempo leva um pacote de dados ir de um dispositivo ou servidor até outro dispositivo ou computador. Na média, a latência de uma rede 4G gira em torno de 50 milissegundos (ms). Já a latência prevista para as redes 5G é de 1 ms.

O relatório anual o Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do trabalho, que mapeia os empregos e as habilidades do futuro, prevê que, até 2025, a automação irá eliminar 85 milhões empregos no mundo enquanto a nova divisão de trabalho, entre máquinas, humanos e algoritmos irá criar 97 milhões. Até agora, a destruição dos empregos foi infinitamente maior.

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