No Brasil, atualmente, os juros são um componente muito maior da dinâmica da dívida do que o déficit primário e deveriam ser tema dos candidatos à Presidência da República. Segundo o Banco Central, os juros nominais do setor público consolidado, no acumulado em doze meses até julho, alcançaram R$1,15 trilhão (8,67% do PIB). Traduzindo, é o saldo final e definitivo das contas públicas, que engloba todas as receitas e despesas do governo, incluindo o pagamento dos juros da dívida acrescidos da correção monetária (inflação) do período.
Desconsiderando os gastos com os juros da dívida, no mesmo período, o acumulado do déficit primário foi de R$89,3 bilhões, equivalente a 0,67% do PIB, que ocorre quando as despesas de um governo são maiores que as suas receitas.
Portanto, hoje o problema da dívida brasileira é muito mais “juros + dívida já existente” do que simplesmente “gasto público maior que arrecadação”. Se há déficit primário, o governo precisa financiar essa diferença, normalmente emitindo títulos da dívida. Portanto, o déficit fiscal importa, mas atualmente ele é bem menor que a conta de juros.
A maior parte da dívida pública é indexada à taxa básica de juros (Selic) ou tem seu custo fortemente influenciado por ela. Em análise recente, cerca de 65% da dívida mobiliária (títulos emitidos pelo governo), somada às operações compromissadas, vencimentos de curto prazo e depósitos remunerados, aparece diretamente sensível à Selic.
Nas operações compromissadas, o Banco Central recolhe o excesso de dinheiro dos bancos comerciais com o argumento de controlar a inflação. O saldo total desse dinheiro “guardado” no BC diariamente está próximo de R$ 1,5 trilhão. O BC remunera os bancos por esse dinheiro guardado utilizando a taxa Selic. O custo anual auditado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) foi de R$ 170,4 bilhões para o ano de 2025.
Se tomarmos a taxa Selic de 14% ao ano e o IPCA dos últimos 12 meses, que está em 4,44%, temos um juro real próximo de 10% ao ano. A economia brasileira está sendo submetida a uma taxa de juros excessivamente elevada. Isso aumenta a despesa financeira do Estado, transfere renda para os detentores de riqueza financeira e reduz investimento produtivo. A própria dívida cresce por causa dos juros.
Existe uma estrutura de interesses que favorece juros elevados: o sistema financeiro e os grandes detentores de patrimônio têm muito a ganhar com taxas reais elevadas, enquanto os custos recaem de maneira mais difusa sobre trabalhadores, empresas e Estado.
O endividamento das famílias permanece em patamar historicamente alto, e o comprometimento de renda atingiu o maior nível da série histórica. Em relação à renda acumulada dos últimos doze meses foi de 49,75% em junho ante 48,82% do mesmo período de 2025, conforme dados do Banco Central. O cálculo é feito com base na Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias (RNBF). A série histórica da estatística começou em 2005, e mede a disponibilidade de recursos da população brasileira com base nos ganhos financeiros com trabalho, ajudas do governo, rendas de aluguel, por exemplo.
Financeirização x crescimento
A economia brasileira apresentou uma taxa média de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 7,4% ao ano entre 1947 e 1980. Nesse período, o Brasil passou por um expressivo processo de industrialização e urbanização que implicou numa mudança significativa da sua estrutura social e econômica. No entanto, o processo de crescimento econômico do país, a partir dos anos 1980, tem passado por uma desaceleração importante. A taxa média de crescimento anual do PIB encolheu para 2,21% ao ano.
As razões para a desaceleração do crescimento brasileiro foram discutidas no trabalho Taxa de juros, serviço da dívida e investimento público: as relações entre a financeirização subordinada e o crescimento econômico do Brasil, dos economistas Luiz Carlos Magalhães e Beatriz Estulano Vieira, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
Segundo os autores, o diagnóstico clássico-marxista avalia que a taxa de juros e a financeirização em geral da economia criam mecanismos de valorização do capital que fogem ao circuito da produção, como, por exemplo, aplicação em ativos financeiros, dividendos e diferentes formas de remuneração do capital.
“A taxa de juros estruturalmente elevada para padrões internacionais que incide sobre o estoque da dívida pública implica um alto custo fiscal para o Estado. Dessa forma, para manter a trajetória sustentável, na percepção dos rentistas que a carregam, o governo federal é obrigado a se comprometer com superávits primários, que significa contenção dos gastos públicos. O efeito desse comportamento, dadas as pressões dos diferentes grupos de interesse do orçamento federal, é o investimento público tornar-se sistematicamente comprimido.”
Como a posse de ativos financeiros é extremamente concentrada, os efeitos também são desiguais. Com a Selic alta os títulos públicos rendem mais para fundos, bancos e investidores financeiros. A renda financeira aumenta. Ao mesmo tempo, com a Selic alta o crédito fica caro, consumo e investimento diminuem, empresas investem menos, atividade econômica e emprego são pressionados.
Radiografia do Rombo Fiscal Brasileiro
Os dados abaixo mostram o acumulado recente em relação ao PIB do Brasil
| Indicador Fiscal | Percentual do PIB | O que esse número significa na prática? |
| 1. Déficit Primário (Gastos cotidianos vs. Arrecadação) | 1,14% | É o quanto o governo gastou a mais do que arrecadou no “dia a dia” (saúde, educação, infraestrutura). |
| 2. Juros Nominais (Custo da dívida acumulada + inflação) | 8,52% | É a despesa financeira gerada pela taxa de juros incidindo sobre a dívida antiga e acumulada do país. |
| Resultado Nominal (O Rombo Definitivo Total) | 9,66% | É a soma dos dois itens acima. O déficit total salta de 1,1% para quase 10% do PIB devido ao peso esmagador dos juros. |

