Trump relança agenda tarifária e inclui Pix em disputa comercial

Presidente Lula: O Pix pode abalar muito as chamadas empresas de cartão de crédito deles. Foto: Ricardo Stuckert/PR

A investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) propôs uma nova rodada de tarifas abrangentes sobre importações de mais de 60 economias, incluindo Brasil, China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e a União Europeia. O principal objetivo é reconstruir a agenda tarifária do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, em bases legais mais sólidas, após a Suprema Corte ter derrubado suas medidas anteriores de emergência em fevereiro passado. Para atingir esse objetivo, a nova proposta utiliza a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um instrumento juridicamente mais robusto e que já foi usado no passado para impor tarifas à China.

A proposta diferencia países que já adotaram algumas medidas de combate ao trabalho forçado daqueles considerados menos alinhados. Alguns receberiam tarifas menores (10%) e outros maiores (12,5%). Isso cria incentivos para que governos adaptem suas legislações aos padrões exigidos por Washington.

Para o Brasil, a questão tem um componente adicional. Além de estar entre os países sujeitos à investigação sobre trabalho forçado, o governo Trump abriu outras frentes de disputa comercial envolvendo o comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais desleais, aplicação de medidas anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

O Pix não faz parte diretamente da investigação sobre trabalho infantil ou trabalho forçado. Porém, ele aparece em uma frente paralela das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, relacionada a serviços financeiros, meios de pagamento e economia digital. Do ponto de vista dos EUA — especialmente de setores ligados a grandes empresas estadunidenses de pagamentos — o Pix representa algo muito maior do que um simples sistema de transferências instantâneas.

O Pix, desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, tornou-se um dos sistemas de pagamentos instantâneos mais bem-sucedidos do mundo. Ele é gratuito e reduz significativamente a dependência de cartões de crédito e débito, TEDs e DOCs, que são intermediários financeiros privados. Isso afetou modelos de negócio de poderosas empresas internacionais como Visa, Mastercard e outras operadoras que tradicionalmente obtêm receitas com taxas de transação.

E há uma dimensão geopolítica ainda maior, porque o Brasil participa dos Brics, que discutem há anos integração financeira, pagamentos transfronteiriços,redução de custos de liquidação internacional e menor dependência do dólar em algumas operações. O PIX, por si só, não ameaça a posição do dólar, mas se no futuro sistemas semelhantes forem conectados entre países dos Brics ou outras economias emergentes, eles poderiam reduzir parte da dependência das infraestruturas financeiras dominadas pelos EUA.

A Visa e a Mastercard não divulgam seus faturamentos isolados para o mercado brasileiro. Em 2025, o setor de cartões movimentou R$ 4,5 trilhões no Brasil. Globalmente, a Visa registrou receita de aproximadamente US$ 40 bilhões, enquanto a Mastercard reportou receita líquida de cerca de US$ 32,8 bilhões.  O controle das duas companhias está nas mãos dos fundos de investimentos Vanguard e BlackRock.

Busca de soluções

A assessoria de imprensa do USTR divulgou que o Representante Comercial dos EUA, embaixador Jamieson Greer, propôs medidas corretivas para consulta pública, enquanto os Estados Unidos continuam a dialogar intensamente com o Brasil em busca de soluções para as preocupações estadunidenses. “Iniciei esta investigação ao abrigo da Secção 301 a pedido do presidente Trump para abordar preocupações antigas e generalizadas dos EUA relativamente a certas políticas e práticas comerciais do Brasil. Ao longo do último ano, o presidente Trump e eu tivemos várias reuniões construtivas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o seu gabinete, que se intensificaram nas últimas semanas”, afirmou Greer. “Contudo, continuamos a ter divergências substanciais na resolução das questões identificadas nesta investigação. Aguardo com expectativa a continuação do diálogo com o Governo brasileiro, antes do prazo legal de 15 de julho de 2026 para a tomada de medidas corretivas.”

A agência de comércio solicitou comentários sobre as tarifas propostas, que ainda não estão em vigor, até 1º de julho, com uma audiência pública marcada para 6 de julho. A USTR tem até 15 de julho para tomar “medidas de resposta” no âmbito da investigação da Seção 301.

A proposta do USTR ainda está em fase de consulta pública, mas já representa uma nova frente da política comercial do governo Trump. Os primeiros afetados seriam os próprios importadores dos EUA. Empresas estadunidenses que compram produtos brasileiros, chineses e de outros países passariam a pagar tarifas adicionais na entrada das mercadorias. Parte desse custo seria absorvida pelas empresas, reduzindo margens de lucro. Outra parte seria repassada aos consumidores, elevando preços finais.

Reorganização do comércio mundial

Do ponto de vista geopolítico, a nova investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos faz parte de uma estratégia mais ampla do governo dos Estados Unidos para reorganizar o comércio mundial em torno dos interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos.

Além de reconstruir a política tarifária após derrotas judiciais, outro objetivo é pressionar a reorganização das cadeias globais de suprimentos. Trump costuma usar tarifas como instrumento de negociação. Ao ameaçar parceiros comerciais importantes, inclusive aliados, ele aumenta sua capacidade de exigir concessões em temas diversos.

Obviamente também a intenção é conter a influência econômica da China. Embora a medida atinja dezenas de países, a China continua sendo o alvo principal da estratégia comercial do governo Trump. O objetivo é dificultar que empresas chinesas utilizem outros países para acessar o mercado estadunidense.

Falta legitimidade

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, disse na quinta-feira (4) ter demonstrado às autoridades norte-americanas que os argumentos apresentados pelos Estados Unidos para impor tarifas sobre produtos brasileiros “não são legítimos”.

Vieira confirmou ter se reunido com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, em meio a um encontro ministerial da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris.  O chanceler brasileiro informou ter enfatizado que os resultados de duas investigações do governo dos EUA sobre supostas práticas comerciais desleais foram divulgados antes do prazo acordado pelos presidentes dos dois países, em encontro bilateral realizado em maio.

“Demos todas as informações necessárias. O que nós esperamos é que isso tudo seja levado em conta e que fique comprovado que não há por que sermos objeto de tarifas, porque todos os argumentos apresentados nós provamos que não são legítimos”, afirmou Vieira.  

Com Agência Brasil, Agência Reuters, AP News e The Guardian

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