Além das manifestações poéticas, muitas e variadas maneiras foram usadas por prisioneiros e perseguidos para levar suas vidas avante e superar os maus momentos por que passavam. Por seu dramatismo e exemplo, trazemos três delas: a carta do raptado Dirceu Messias desde o Estádio Nacional do Chile; a carta do sequestrado Sargento Raimundo Soares, desde a Ilha do Presídio; e os rabiscos da sequestrada Vera Ligia Durão nas paredes da cela do DOPS em Porto Alegre. Por certo não têm voo poético, mas são verdadeiros hinos de amor à vida e à esperança.
Dirceu Luis Messias
Natural de Porto Alegre, trabalhador ativista do Sindicato dos Eletricitários de Porto Alegre, procurou refúgio no Chile democrático da Unidade Popular. Nos dias imediatos ao golpe de estado de 1973, foi detido junto a colegas da Manutenção Industrial Gemo, passando por todo tipo de sevicias. No Ginásio Chile, presenciou maus tratos ao músico Victor Jara, e já no Estádio Nacional padeceu junto aos demais 120 brasileiros e milhares de outros cidadãos novos períodos de padecimento.
Carta desde el Estadio Nacional de Chile, setembro de 1973
Querida Gorda
Hoy despertamos a las 6 de la mañana, lo que ocurrió con todos los detenidos del Estadio. Formamos un grupo dentro de la cancha y se dividió el grupo de los chilenos y el de los extranjeros. Posteriormente fuimos todos trasladados al Setor Norte Poniente, donde hubo nueva división – el camarin 3 tocó a los de Justicia Militar y los restantes a los que deben abandonar el pais y ser expulsados. Ayer (17) fué un dia no muy bueno para mi; fui interrogado nuevamente y recebi la noticia de la muerte del brasileño Wanio, ocurrido en el Hospital de Campaña del Estadio.
Manoel Raimundo Soares
Nascido em Belém do Pará, Manoel mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou no Exército em 1955, sendo transferido em 1963 para o Mato Grosso como represália por suas posições políticas. Após abril de 1964, teve a prisão decretada e passou a viver na clandestinidade, no Sul, vinculado ao Movimento Revolucionário 26 de Março, que planejava ações de resistência ao regime. A partir de seu sequestro em março de 1966, suportou vários meses de torturas em diferentes dependências repressivas conforme relato de outros prisioneiros, ficando um período com destino ignorado, provavelmente no sitio clandestino chamado “Dopinha”. Após reaparecer no DOPS, em 24 de agosto, cinco meses depois de sua prisão, seu corpo foi encontrado boiando no Rio Jacuí com as mãos amarradas às costas. Este famoso “caso das mãos amarradas” foi objeto de CPI da Assembléia Legislativa, que indicou mandantes e executores civis e militares, ainda impunes. A viúva Elizabeth Chalup conservou algumas cartas enviadas por Manoel, durante seus últimos meses de vida. O nome de Manoel designa atualmente dezenas de logradouros e escolas em todo o Brasil.
Carta de Manoel Raimundo Soares a sua esposa Elizabeth Soares, em 1966
Estou vivo. Estou calmo. Tão logo eu seja posto em liberdade, e isto ainda vai demorar, vamos ter uma nova lua de mel. Aproveito para lembrar-te que meu pensamento é só para ti. Durante todas as horas dos últimos dias, não sais do meu pensamento. O banquinho na cozinha, os beijos nos olhos, tudo aquilo que liga meu corpo à tua alma.
Mil beijos e um caminhão de abraços”.
Raimundo.
Vera Lígia Huebra Neto Saavedra Durão
Nasceu em Laginha, pequena cidade da Zona da Mata, de Minas Gerais. Estudou em Belo Horizonte, onde terminou o segundo grau. Lutou contra a ditadura e foi presa em Porto Alegre, em junho de 1970. Casou-se em 1971 com Jorge Eduardo Saavedra Durão, companheiro de clandestinidade. Concluiu o curso de jornalismo na UFF, em Niterói, após sair da prisão em 1974. Trabalhou em diversos jornais do país, como Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São Paulo, Gazeta Mercantil e Valor Econômico. Vive no Rio de Janeiro junto ao marido, com quem têm duas filhas, Mariana e Carolina, as quais compartilham os valores democráticos e da defesa do Estado de Direito contra a volta dos regimes autoritários em todo Mundo.
Texto esculpido a estilete (talvez com um grampo de cabelo), com letra de forma impecável, na parede da cela nº 1 – masmorra chamada “fossa”, do DOPS de Porto Alegre, resgatado na memória de um preso subsequente, e identificado por associação de nomes e épocas:
“Abraços aos companheiros que por aqui passarem. Que a confiança na revolução socialista não os deixe sucumbir os incentive a lutar e a vencer.”
Vera Lucia (VAR-Palmares).
Categoria: HOTSITE Poetas da Dura Noite
Victor Douglas Nuñez
Victor Douglas Núñez nasceu em Salto, no Uruguai, em fevereiro de 1930. Veio ainda na infância para o Brasil, crescendo no município de Iraí, no norte do Rio Grande do Sul. Ainda na adolescência, se mudou com a família para Porto Alegre, onde estudou no colégio Júlio de Castilhos. Ingressou no curso de direito da UFRGS, onde fez parte do movimento estudantil. Em meados dos anos 50 foi diretor da União Estadual de Estudantes, participando de campanhas como “O petróleo é nosso!”. Formado advogado, passou a atuar na advocacia trabalhista, sempre na defesa dos trabalhadores. Foi advogado dos sindicatos dos eletricitários, dos telefônicos, dos funcionários da Carris e dos radialistas, entre outros. Em agosto de 1961 coordenou o setor de comunicações da “Resistência Democrática”, movimento popular que se constituiu na espinha dorsal do movimento da Legalidade. Foi diretor da Associação Gaúcha de Advogados Trabalhistas (AGETRA) em 1974 e novamente em 1984.
Sombra e semente
À memória de Afranio Araújo
Tinhas que morrer como viveste:
De pé, como uma árvore.
Os ventos da raiva não te dobraram:
Só o raio te feriu o coração.
Esta louca e desatada tormenta
– que aprisiona a asa dos pássaros
E despetala borboletas-
Por mais que ruja seus ódios,
Passará.
Mas eu te choro, companheiro:
Não estarás no tempo que virá,
Quando os ventos sejam de flor e música.
Eu te choro, mestre:
Não verás o tempo novo
Em que de ensinar se prescinda.
Eu te choro, irmão,
Que viveste o sonho antigo
De fazer um mundo novo
E não partilharás da alegría vindoura.
Mais te choram os que tiveram fome
E comeram do pão da justiça
Que ajudaste a servir em suas mesas.
E, se não te choram os que rezando exploram,
Eles te respeitam a espada limpa.
Companheiro, mestre, irmão,
Ningúem passou por ti
Sem compartir-te.
Foste sombra frondosa,
E semente.
De luta, de vida, de sonho.
Guerreiro sem repouso
Um a um
– ainda o braço forte e a espada firme-
O coração vai nos levando.
Guerreiros sem repouso,
As duras armaduras pesam tanto
Que vamos morrendo sem feridas.
Quebrando lanças, no confronto sem fim
Deste combate, rompe-se o peito
E explode o coração.
Mas contigo foi muito cedo, companheiro
Tu, que tanto fizeste, sabes
Quanto ficou por fazer,
Até que os pobres sejam menos pobres.
Até que o pão seja alegre.
Eu te vi menino
– e já na mesma trincheira
Aprendendo com teu pai
a opção peos pobres,
– essa velha paixão de todos os santos.
Depois te vi crescer
– sempre ajudando a servir
O pão da Justiça
Na mesa dos mais pobres.
Na seara tão vasta, de tão poucos lidadores
Não te poupaste nunca,
Lutador incansável.
E não te vi morrer,
Homem de ferro e de flor.
Ninguém te viu morrer,
É só uma ausência.
Não morre o fogo,
A luz não morre:
– se renovam.
Choramos, sim,
Te choramos muito.
Mas já limpamos dos olhos
Toda lágrima, companheiro.
E, sem temor da morte,
Voltamos a teu bom combate
Luiz Heron Araujo.
Rui Neves da Rosa
Natural de Jaguarão, RS, militou no PC do B e PT. Foi demitido em 1964 do serviço público, onde era funcionário dos Correios e Telégrafos, sem motivo e sem processo legal. Formado em Letras, admirador de Thiago de Mello, Maiakowsky e Federico Garcia Lorca, foi comerciante e artesão, famoso por consertar bolas de futebol. Publicou livro de poemas “Sedimentos da manha” e deixou outros finalizados. De natureza extrovertida, era animador de encontros sociais e políticos, onde declamava seus poemas comprometidos com a realidade social do país.
messe
no agosto
o vento soprou forte e frio
tua voz ficou rude e destemida
do rosto do homem
na miséria da rua
fizeste
em ti
um canto de revolta
as veredas da rua te afundaram vales
e viram teu olhar comprometido
tua voz ecoou na coxilha e na várzea
e fizeste teu canto
o dos oprimidos
partiste em busca de foices
nas lavouras
e o trigal balançou espigas maduras
punhos cerrados vibram no ar e te seguem
para quebrar os elos das correntes
haverá mais pão e riso na criança
e a paz fecundará o arrozal na safra
o homem da terra
com olhar de outono
sorrirá contigo
na festa da colheita
Federico Garcia Lorca
foi agosto
em Granada
em Granada de al Andaluz
sob o céu ensanguentado
que a madrugada insinuara
sete balas surpreenderam
o peito de Federico
sem madrigais na manhã
sete balas
um só peito
uma consciência tranquila
de resto
a guarda civil
sete fuzis
sete sombras
as clarinetas dos galos silenciaram
por sua morte
sete medalhas de chumbo pendem-lhe
agora
do peito
por ser poeta de Espanha
ah
meu pobre Federico
só o vento velou teu corpo
no teu cortejo sem flores
Decisão
Convocam-me sentenças para a guerra
Aceito e compartilho
Instrumento da sinfonia diária
Ensaio meu coral constantemente
Apedrejando
De vozes e canções
As relíquias a que celebro culto
Semeio gestos de regência
Batutas de ceifas e tratores
Convoco o homem para entoar o canto
Dilacerando a noite
Para amor do pão
Do beijo
Da mesa farta
Do sorriso armando rostos
Não aceito a pregação da caridade
As esmolas desta farsa
Como perspectiva ou solução
Para o problema estrutural
Nem o que disseram a 2000 anos
E provavelmente dirão
Quando a manhã tumultuada romper
Rajadas de agapês
Para o trato da terra
E construção da vida
O homem convocado abrirá eclusas
Protestando manhãs
Estabelecendo o tempo
Onde
O servo e senhor
Construa o mundo
Como o menino que brinca
Reneu Geraldino Mertz
Cirurgião dentista formado em Passo Fundo, realizava através da profissão a assistência e amparo às comunidades mais carentes de toda a região. Eleito vereador pelo MDB em 1968, foi o mais votado no município de Três Passos e exerceu assim a oposição consentida à ditadura militar. Tornou-se sócio, através da compra do terreno próximo ao rio Uruguai, da Sociedade Pesqueira Alto Uruguai, empresa situada no município de Três Passos, motivo pelo qual foi preso pela ditadura militar em 1970. Acusado de integrar a VPR permaneceu preso por cerca de um ano e meio nas dependências do exército em Santa Maria; julgado inocente, foi posto em liberdade em 30 de agosto de 1971. Em 1985 elege-se vice-prefeito e em 1988 prefeito municipal de Três Passos, assim reacende sua luta em favor dos direitos dos menos favorecidos e da diminuição da desigualdade social em seu município. Das sequelas do cárcere e das torturas sofridas resultou a hipertensão, chaga que precocemente o levou à morte, aos 50 anos de idade, em 1991.
Acróstico
Harla, voce tem o rosto de um anjo menina que
Amei desde os seus dias de antes de nascida, e
Revivo hoje, na minha saudade, a tristeza
Lenta e serena dos seus olhinhos de pequena que
Aprendeu, tão cedo, o entristecido dos meus dias de
pai prisioneiro.
Nilton Rosa da Silva
Nascido em Cachoeira do Sul, Nilton Rosa da Silva iniciou participação política no movimento de estudantes secundaristas do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Com sua natural liderança, influía no grêmio estudantil e mesmo na União Gaúcha de Estudantes Secundários, sendo perseguido pela direção do “Julinho”. Temendo por sua segurança, “Bem bolado” busca proteção no Chile presidido pelo Dr. Salvador Allende, onde é admitido no Curso de Castelhano da Instituto Pedagógico da Universidade do Chile. Se destaca como poeta e agitador político, publicando seu opúsculo Hombre América (Santiago de Chile, Facultad de Letras, 1972) e poemas soltos em cadernos coletivos, atuando em ocupações populares de supermercados e favelas. Em 15 de junho de 1973, ainda em democracia, recebe um balaço fatal no rosto quando tentava proteger a sede do Partido Socialista no centro da capital chilena, ante uma milícia fascista. Seu sepultamento reuniu 100 mil pessoas em Santiago, encabeçado por dirigentes políticos de diversos partidos (MIR, PS, MAPU) e representante do governo chileno (Ministro Anibal Palma). A fotógrafa Amy Conger publicou nos EUA o livro-ensaio fotográfico “We don’t forget the color of blood”, com o registro completo do funeral. Junto a seu alojamento no Instituto Pedagógico, floresce um jacarandá brasileiro, plantado por seus antigos colegas de estudos, que lhe dedicaram diversos poemas em vários países. Em sua cidade natal, foi criado o Centro Cultural Orelhinha (outro de seus apelidos).
I
Mi nombre no es mi nombre
Sino el nombre de todos los seres.00
Mi nombre es América,
Volcán de los oprimidos.
Es libertad símbolo del pueblo.
Mi nombre no es otro sino patria,
Sino tierra, aire,
Sino nombre. Tu nombre…
Mi nombre no es mi nombre,
Porque yo no soy, siquiera yo,
Porque soy hombre, hermano, combatiente,
Porque hoy soy arma, polvo, agua y sangre.
Hoy soy América dormida que despierta,
Soy los explotados del mundo
Que se rebelan,
Soy los fusiles que empuñan
Los pueblos en lucha.
Hoy soy Pueblo…
Hoy soy ser despierto,
Sin nombre,
Porque soy POETA…
II
Es noche. Madrugada
En la noche de Santiago.
Todos duermen.
Duerme el hombre, con la fatiga del día,
Duerme el niño y sueña,
Con el porvenir,
Duerme quizás, la naturaleza
Su sueño de descanso creador.
Duermen todos…
Pero yo no duermo.
El poeta no duerme.
El poeta escoge
Las horas más puras de la noche,
Para regar la tierra con el llanto
De sus versos…
Para lanzar al aire
La sangre de sus poemas.
El poeta tiene la noche afable
Por su compañera,
Tiene la madrugada por su inspiradora,
Tiene el mundo, el hombre,
Como su pensamiento.
El poeta escribe…
Y dentro de la inmensa noche,
Las palabras brotan del poeta,
Como el llanto y la sangre,
Brotan del hombre.
El llanto se transforma
En tierra y aire
Su sangre en hombre y poesía.
La pluma del poeta en la noche,
Es como la herramienta del obrero.
La sangre y el llanto del obrero
En la fábrica,
Es el llanto y la sangre del poeta
En sus versos.
Las horas tristes del poeta,
No son más que la tristeza de su Pueblo,
Que se mezcla con el llanto y la sangre
De los hombres en la madrugada.
Duerme…
Continuad durmiendo…
Pero antes de todo oídme
Escuchad el grito y el llanto
Del poeta…
Escuchad el único pedido del poeta…
Transformen en sangre y polvo,
En piedra, escarnio,
En guerra, en paz y amor.
Hagan lo que quieran del día,
Pero dejad la noche para el poeta,
Para el simple hombre
Poeta…
Para que él escriba sus versos,
Para que él derrame sus llantos.
Para que él entregue su sangre.
Para que la llama
Que sale de su alma,
Brote en la tierra
Sin escarnio,
Y no sea fuego
Y si agua…
Que sea dulce…
Que sea eterno…
Aunque para esto
tenga que ser su sangre derramada…
que tenga que ser la sangre de los hombres derramada
Dejad al poeta
El lecho de la noche.
Un día quien sabe como ahora
De madrugada,
En la triste y afable madrugada,
Llegue la muerte y despacio me sorprenda,
Aunque esta muerte no sea por ti,
(porque además de ti y de tu amor,
existen los seres de mi patria Lejana y pura…)
Aunque mi muerte no traiga tu nombre
En mi boca.
(aunque traiga el nombre de mi pueblo o de tu pueblo.)
Aún así mis últimos pensamientos
Serán tuyos.
Y mi alma traerá en mi muerte
Tu encanto.
III
El pueblo está callado…
Los explotados no piensan…
Sienten…
Silencio…
El pueblo está hablando…
El poeta está hablando…
El poeta…
El desgraciado y maldito poeta.
La voz del pueblo sale de su boca.
Silencio… silencio…
Que no se escuche siquiera,
El sonido de la pluma que escribe,
Porque el poeta
Está escribiendo sus versos…
El poeta está hablando…
El pueblo no está callado,
Su voz viene firme e incansable,
En la voz del poeta,
Del desgraciado, del mil veces maldito
Poeta…
Silencio… silencio…
Hoy el pueblo quiere hablar,
Hoy se rompe el silencio de los siglos,
Las palabras salen de la boca del pueblo,
O del pensamiento del poeta.
El poeta entonces,
Será uno…
Será mil… millones…
Será todos los seres perdidos de la tierra…
Será los explotados…
Será el pueblo…
El poeta entonces será dios.
Silencio…silencio…
Que nadie conteste,
Que sólo hable, el poeta…
Que sólo se escuche, su voz,
En el silencio de la noche.
Silencio… silencio…
El pueblo está hablando.
IV
Lejos de la patria,
Ausente de tu Pueblo, junto al amigo,
Frente al enemigo,
Así eres , tú, hombre de américa.
Nacido en el vientre de los humildes
Y criado en las tierras áridas y profundas,
De américa virgen y ardiente.
Luchador en la patria, combatiente en la selva.
Amigo de los pobres,
Defensor de los oprimidos.
Así eres tú CHE.
Así lo eres todavía GUEVARA.
Porque tú vives.
Tú estás en cada combatiente de américa;
En cada explotado de este continente,
Tu ejemplo nos enseña a luchar.
Tu américa explotada,
Tu CUBA liberada,
Los explotados,
Los seres sin patria,
Evocan tu nombre,
Con el puño en alto,
Las armas en la mano,
En tu nombre comandante,
En nombre de américa:
PATRIA O MUERTE… VENCEREMOS!
V
¡AMÉRICA!
En tu seno virgen
Adormece un gigante…
Un gigante que lucha…
Un gigante de luto…
¡AMÉRICA!
En tu seno virgen
Adormece un gigante…
BRASIL…
¡Ah! mi patria Brasil…
Yo el ser sin patria…
El increado de dios,
El nacido en tu cuerpo,
Y creado en el cuerpo virgen de américa…
¡Ah! mi patria… patria mía…
Yo que recorrí todo tu cuerpo,
Que sentí la miseria y la opresión
Junto con todos tus seres…
Yo el ser despierto,
Que vive en otras tierras de américa,
Que siente la alegría y el calor
De otros pueblos,
Que sufre la miseria y la opresión
Con otros hermanos…
Yo el ser despierto,
Yo el ser creado, increado,
Hermanado de tu cuerpo,
Nacido de tus entrañas…
¡Ah! Mi patria…
Patria…mía…
De todos los seres nacidos en américa.
Patria hoy manchada,
Vilipendiada,
Que hoy tiene su bandera rota,
Te clamo, reclamo,
Proclamo…
Grito con todo el ardor de mi alma…
¡LUCHA GIGANTE!
¡DESPIERTA GIGANTE!
El clamor, de guerra,
De lucha, de amor,
Que sale de mi alma
Y que resuena en toda américa,
Es el mismo clamor, de tu pueblo,
De mi pueblo.
Mi patria no es sólo mi patria,
Es la patria de los humildes,
De los explotados de este continente…
Mi patria hoy tiene su bandera rota,
Hoy tiene su cuerpo sangrando,
Mi patria hoy tiene a su pueblo en duelo,
Hoy tiene su pueblo en lucha…
Pero los fusiles que empuña
Su pueblo en lucha,
Serán la alegría y el porvenir del mañana.
El mañana de américa es uno solo…
En el mañana tendremos en américa,
Un gigante despierto,
Un gigante que cubrirá de alegría y calor,
A los explotados de este continente.
Mi patria entonces no será mi patria,
Yo ya no seré el increado,
El ser sin patria,
Seré el ser de américa,
Mi patria será la patria de todos,
Ya no habrá un gigante
Que duerme en américa virgen…
Porque en el mañana
Habrá un américa despierta y única.
VI
Las cárceles de mi patria están llenas,
Las calles de mi patria,
Tienen desesperación y muerte.
Cada uno de su Pueblo
Trae en su rostro la incertidumbre
Y la desconfianza…
La paz ya no existe en mi patria,
Lo que existe es sangre,
Muerte… y sólo muerte…
Y en las paredes de mi patria,
Es que la libertad existe,
La libertad rayada,
Por los jóvenes,
En la oscuridad de la noche.
El nombre de mi patria,
No es más el nombre de mi Pueblo,
Sino el nombre de sus explotadores.
Su bandera no es más que un paño roto,
Rayado de verde y amarillo
Y manchado de pólvora y sangre.
Pero mi patria no dejó
De ser la patria de los humildes…
El pueblo lucha…
Su lucha…
Su sangre derramada…
Llenará de alegría
A los explotados de américa,
En el día pronto de la victoria final.
VII
La única cosa que te puedo dar
son mis versos…
(Yo sé que tú mereces mucho más.)
Mis versos son mi alegría y mi sufrimiento,
Son mi cansancio y mi tristeza.
Mis versos son pues mi propio ser.
Mis versos son cantos,
De muerte, alegría, paz y amor
(alegría, paz y amor que canto a ti.
Hoy mis versos traen tu figura,
Que baila en mis pensamientos,
Con éxtasis y locura.
Mis versos hoy son para ti.
Aunque tú no sepas de mis versos
(aunque no lo sepa nadie.)
Aunque tú no sepas porque vivo,
(aunque yo mismo no lo sepa.)
Mis versos y mi vivir son tu presencia.
Si acaso algún día alguien cante a tu oído,
Diciendo que yo ya no te quiero,
(aunque sea yo que lo cante.)
Aún así sepas que es mentira,
porque mis versos son la prueba
de este amor eterno…
VIII
Algún día alguien sabrá
De los versos que escribo.
De mis versos,
De los versos que son tuyos.
Algún día la tierra
Se regará con mis poemas.
Mis versos serán
Como la hoguera
Que brota de mi alma.
Quizás los conocerás todos,
Los conocerán,
Los seres más longincuos de la tierra.
Pero tú no sabrás
Que son tuyos,
Que es para que tú
Y sólo tú los entiendas.
Porque mis versos son tuyos,
Como es tuyo mi cuerpo,
Como es tuya mi alma.
Un día de mi cuerpo
Ya no brotarán más versos
Y mi sangre,
La sangre por ti
Y sólo por ti derramada.
IX
Vuela una paloma a lo lejos…
A lo lejos vuela una paloma…
Vuela… Vuela mi paloma…
Vuela… Vuela…
Lleva mis ilusiones,
Lleva mis penas, mis sueños.
No importa que tardes en llegar.
No importa que vuelvas nunca más.
Pero vuela…
Vuela… y llega a tu destino.
Pero llega de pronto,
Llega despacio en la inmensidad de la noche…
Despierta con el sonar de tus alas,
Mi amor…
Despierta a mis amigos…
Mis padres… mi patria…
Vuela… Vuela…
Vete…
No importa que no vengas nunca más.
Lo que importa es que dentro de ti,
Arriba de tus alas estoy yo,
Está mi ser, mis pensamientos.
Quiero despacio, en la inmensa noche,
Despertar en mi patria
Longincua y sola,
En la inmensidad de américa dormida.
Nei Duclós
Nei Duclós (Uruguaiana, RS, 1948) estreou como poeta pregando poemas em cartolina nas árvores das praças de Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, junto a outros autores da mesma geração. Mesmo sob o ambiente opressivo do regime militar, lançou seu primeiro livro, Outubro, em 1976. Em 1979, foi a vez de No Meio da Rua, apresentando a seguir No Mar, Veremos (2001), assim como Partimos de Manhã, em 2012, todos de poesia. Publicou como romancista, como autor de literatura juvenil, de livro de contos e crônicas. Trabalhou em veículos de comunicação como Folha de S. Paulo, IstoÉ, Senhor e foi colaborador de Veja e Estadão com resenhas de livros. É formado em História pela USP desde 1998. Nos últimos anos, lançou vários e-books de poesia, contos e crônicas, e participa com ensaios, artigos, contos, crônicas e poesia nas mídias sociais. Publica poemas e contos na revista virtual Sagarana, editada em italiano. Teve poemas traduzidos para o inglês na revista novaiorquina Rattapalax. Participou de diversas antologias.
Carta ao companheiro exilado
Aqui, o sol obstinado
ainda banha a folhagem
a chuva nos visita
e deixa o arco-íris quando parte
As cores da saudade
abriram a palma
de nossa mão pálida
e a vontade de buscar-te
soltou-se como um raio
Descobrimos que era muito tarde
Agora, que a madrugada se acaba
e o sol nos dá na cara
não sabemos o que fazer
com esta ressaca
Batem nas portas e revistam roupas e pacotes
Estamos na praia do naufrágio
Do mar vieram boiando coisas mortas
entre elas
nossos sonhos e emboscadas
Cais
O passageiro não perde a vez de partir
e parte
pois é tarde
Este cais apodreceu as cordas
que soltam a sua carne
Os bares silenciam
a memória é uma cadeira que ringe
como um cofre de vime
(o que passou não é sonho
é desafio)
De pé, a mão na vista
ele toca o horizonte com a saliva
Sua boca guarda um aviso
(o tempo é um susto, uma víbora)
Apesar de tudo
Apesar de tudo
sou teimoso
e vivo
sou teimoso e visto
a pele dos soldados mortos
Neste carrossel de espanto
que carrego dentro dos olhos
toco melodias
que me ressuscitam
Levanto com esforço
as âncoras e parto nas naus sem volta
do meu canto
E sempre tenho que mudar as velas
arrebentadas de vento
com remendos colhidos
dos violentos panos do tempo
O tempo é novo
e eu tenho a mania insone
de rebentar em pranto
Mas sou teimoso e insisto
sou teimoso e visto
a pele dos soldados mortos
Outubro
Trago a nova: eu mudo
lento, e é tudo
Sinto ser assim
por estações: aos turnos
Posso voltar
ao ponto de partida
mas luto
Sei que vem outubro
Flores, fruto de seiva
romperão no mundo
(Trabalho duro:
sugar de pedras
rasgar os caules
colher ar puro)
Lento e bruto
eu mudo
Sei que vem
outubro
Toca
e os meus mortos
quem chora
os milhares que caem
enquanto passo?
o exílio, quem paga
e a tortura, seu fruto
quem devora?
somos herdeiros
da vida amarga e da morte
as prisões cobrem
o canto dos escravos
com a mão no horizonte
os bravos aguardam
breve
sairemos da toca
Luiz Eurico Tejera Lisboa (Ico)
Luiz Eurico Tejera Lisbôa, conhecido como Ico, nasceu em Porto União (SC), em 19/01/1948, mas desde criança viveu no RS, em Caxias e Porto Alegre. Ao se intensificar a luta contra a ditadura, na década de 60, Ico liderava – com outros companheiros – o movimento estudantil secundarista, através da União Gaúcha dos Estudantes Secundários – UGES. Em novembro de 1969, foi condenado pela LSN a seis meses de prisão pela tentativa de abertura de entidade ilegal, no caso o Grêmio Estudantil do Colégio Julio de Castilhos. Como militante da ALN, fez treinamento em Cuba a partir do final de 1970 e regressou ao Brasil em 1971, no auge da repressão política. Em setembro de 1972, foi sequestrado e desapareceu em São Paulo. Em agosto de 1979 a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, onde sua esposa Suzana Lisboa teve papel protagônico, anunciou o achado de seu corpo, sendo o primeiro dos desaparecidos localizado, enterrado com nome falso no Cemitério Dom Bosco, em Perus (SP). Somente em 2012, uma análise dos peritos da Comissão Nacional da Verdade, atestou que foi assassinado, contestando a versão oficial de suicídio. Em 1993, foi publicado o livro Condições Ideais para o Amor, com poesias e cartas resgatadas por seus familiares. Em 1999, nova edição do livro, com editoração de Nei Lisboa, apresentação de Luiz Pilla Vares e texto de Noeli Lisboa.
Tempo Novo
Há um Novo Tempo
De novas coisas!
Todos sabem
A mudança é irreversível
Mas as velhas formas
Não cedem sem um último gesto
De desespero.
O importante é persistir
Confiar na vitória do Povo.
Avancemos
Seguros
Passo a passo.
Pois a história não se volta
Sobre sí mesma
É uma espiral infinita
Que nada consegue deter!
Porto Alegre, 11/6/66
Liberdade
Há um povo que sofre
Há um povo que geme
E há outros
Como eu
Que embora
Saibam desse sofrimento
E ouçam esses gemidos
Não sofrem
E não gemem.
Ah prisão de minha classe!…
Amarras de minha família
Cordames de meus vizinhos
Tendões de meus amigos
Redes de meu lar e minha escola
Todos! Todos eu rompi.
E encontrei melhor família
Na fraternidade universal
Melhores amigos
Nos companheiros de luta
E dei sentido à vida
Ao lado dos que sofrem
E dos que gemem
Ah! Prisão de minha classe…
Pouco a pouco
Aumenta a brecha de teus muros
Pouco a pouco
Encontro a minha LIBERDADE.
Santa María, 15/2/67
Procuro o Homem do Povo
Procuro o homem do povo
o proletário
o camponês
o assalariado
Procuro o homem do povo
o explorado
famélico
desabrigado
o que dorme na mansidão
do não saber.
Procuro o homem do povo
para ultrapassar a frieza
do vocabulário político,
e ver na “massa oprimida”
nas “contradições sociais”
na “luta de classes”
nas “análises da realidade”
o homem do povo.
Renuncio à Revolução calculada
milimétrica e friamente
no racionalismo tecnicista
dos “cientistas”
da transformação social.
Hoje
procuro o homem do povo.
quero além da ignorância
além da fome
além do frio
o homem que se consome
nessa dor.
Quero as mesmas contorções
de suas entranhas
sem alimento.
as mesmas chagas
de seu corpo maltratado.
As mesmas lágrimas
o mesmo sofrimento
a mesma angústia
de não compreender.
Hoje
quero ser um homem do povo.
Viver por um día
as estatísticas
dos levantamentos do Partido.
Fugir por um momento
ao jargão, ao palavreado
e chegar ao real.
Quero uma mente rústica
que até mesmo creia em Deus
e outras divindades.
Quero um corpo dorido
e um olhar sem luz
perdido languidamente
no incompreensível.
Quero vender meus braços
sufocar minha voz
amordaçar-me
crucificar-me todos os días.
Hoje
serei um homem do povo
porque necessito
mais do que os dados minuciosos
mais do que a ciência.
Busco o sofrimento
naquele que sofre
para amá-lo
acima dos pronunciamentos políticos
para que nasça em meu peito
o ódio incontrolável
que dê força às minhas mãos
e torne certeiros os meus golpes!
Procuro o homem do povo
porque recuso
a mistificação revolucionária
dos gabinetes.
Porque necessito
Paixão em minha luta
entusiasmo em minha voz
firmeza em meus passos
amor a meu povo
e fé na sua vitória.
18/4/68
Patos azuis em meu pensamento
Patos azuis selvagens
dos grandes lagos
pousaram resvalando
na limpidez de meu pensamento
esta manhã
as águas se abriram
silenciosas, ternas
como uma mulher que ama.
espadanar de espumas
carícias de luz
paraíso de cores
verdes planícies
das cobiçadas terras do sul
estive preso num iceberg
navegando no
mar das Antilhas
ao longo da ilha de Cuba
Ah!… doce calor
que me liberta…
as águas engolem as águas,
meus olhos se abrem,
caem os últimos cristais de gelo,
movo lentamente
os membros entorpecidos,
saboreando a surpresa
desta exótica liberdade
milhares, milhões
de patos azuis selvagens
dos grandes lagos
pousaram resvalando na limpidez de meu pensamento
esta manhã.
1968/1969
Noite singular
Dos limites do mundo
Eu espiava as coisas humanas.
Tu chegaste no seio da noite
E me levaste à outra margem.
Juntos na escuridão partimos,
Teu coração palpitante,
Meu coração palpitando,
Lado a lado
Na unidade natural de nossos caminhos.
Os grandes ventos da noite
Agrediram nossas faces
Mas nós seguimos
E nossas mãos se enlaçaram.
Os grandes ventos da noite
Agrediram nossas faces
Mas nós sorrimos
E nossas almas
Se inundaram de ternura.
Singular instante de tristeza
Há na simplicidade do teu gesto
um aceno inexplicável para mim,
na limpidez do teu olhar
há um momento turvo
que não posso comprender.
E o teu sorriso se torna
às vezes
sério
sem que eu saiba o porquê.
É verdade…
conheço todos os caminhos
do teu corpo.
Mas ignoro as trilhas misteriosas
De tua alma de menina e de mulher.
E embora eu te ame
e eu te deseje tanto
há nessa felicidade sem par
um instante singular de tristeza.
19 de janeiro
19 de janeiro
19 anos
Só.
19 de janeiro
e eu choro
de saudades
do Bolão
do menino sardento
sempre no 1º lugar
do gurizinho briguento
que ia pra rua
de bodoque
enfrentar a espátula
do filho do vizinho
do menino que tinha
um sonho encantado
uma menina linda
de rabo-de-cavalo
e fita na cabeça.
Saudades do Bolão
tão tímido que chorava
envergonhado
do apelido
que eu hoje
mergulho no tempo
só pra ouvir novamente.
Do Bolão que jurou ser
“um grande herói”
-“um dia”.
Do “campeão” de botão
Do “chutador” de sorvete
Do Bolão mentiroso
Que aos 15 anos
Já tinha mil casos de amor.
19 de janeiro
19 anos
Só.
Quanta saudade!…
Balada de Ham-Li
Na pequenina aldeia
de Luang-Dinh
um menino
de pele amarela
e olhos rasgados
está
silencioso
deitado no chão.
Seu nome
Ham-Li.
As mãos
as pequeninas mãos
de Ham-Li
estão crispadas
retorcidas
por uma grande dor.
Os pequeninos braços
fortes de Ham-Li
– menino camponês –
estão descarnados
e já se decompõem.
A pequenina face
de pele macia
onde brilhavam
os negros olhos rasgados
o menino Ham-li
escondeu-a no ventre aberto
para que o mundo
não visse tanto horror.
Mas ao pequenino coração
do menino Ham-li
o napalm
não poderá jamais atingir!
Entre os escombros
da pequenina aldeia
de Huang-Dinh
um menino
de pele amarela
e olhos rasgados
está
silencioso
deitado no chão.
O pequenino coração
pulsa
inalterado
sobre todo o Vietnã.
Longa a Marcha
É longa a marcha
– camarada –
As sombras envolverão
nossos passos mudos
em eterno caminhar
O inimigo se aproxima
e já nos alcançam
os ruídos cautelosos dos seus batedores.
Avancemos
Não se trata
simplesmente
de nossas vidas
– camarada –
Essa verdura
esse andar
sem fim
já nos deram
a medida
da nossa pequenez
É a chama que
devemos
manter acesa!
Ela ainda é tímida
incerta
bruxuleante
O dever é protegê-la
alimentá-la
eternizá-la
ela é o coração do povo
que inicia a palpitar
Dantos e Bustos
lhe ofereceram
em holocausto
a própria liberdade
Ramon entregou-lhe
a vida em Camiri
sem hesitar
O sangue de Bolívar
e San Martin
verteu em Bolívia rebelde!
E a chama agigantou-se
no peito ardente do povo.
À Camarada que Fica
Adeus. Doce amada.
É preciso partir.
Seguirei tranquilo por outros caminhos
pois nosso andar
busca uma mesma pousada.
Breve descansaremos na Rubra Aurora
de nosso Povo.
Mas preciso confiar-te
que dou às cegas muitos dos meus passos largos
que são frágeis as minhas pernas
e muito dura a jornada.
Só em teus olhos encontrarei a luz
Que iluminará meu caminho.
No mais profundo do teu ser
fortalecerei meu corpo,
firmarei meus passos,
acumularei energias
para o desafio do presente.
Em tuas mãos aquecerei as minhas
para enfrentar o rigor dos tempos.
E se algum dia
– meu anjo lindo –
novo amor florescer em tua vida
ainda assim
pensa sempre em mim
com carinho
porque estarei pensando em ti
e estarei sozinho.
Junho/1968.
Luiz de Miranda
Poeta nascido em Uruguaiana (RS) e já com mais de 48 anos de carreira literária, tem 41 livros publicados. Premiado em diversos países, tem uma carreira poética consagrada, onde se destacam as obras Quarteto dos Mistérios, Amor e Agonias, Trilogia do Azul, do Mar, da Madrugada e da Ventania, Trilogia da Casa de Deus, Canto de Sesmaria, e Nunca Mais Seremos os Mesmos. Miranda participou da luta armada contra a ditadura militar. foi preso em Uruguaiana, em 1969, e no Teatro de Arena, em Porto Alegre, em 1971. Mesmo caçado pela polícia política dos militares, participou em São Paulo de ações da resistência democrática.
Artefatos para cumprir a vida
I
Nasci em Uruguaiana
com todos os benefícios da memória
O rio Uruguai é o mar de infância
pendurando no rosto
a fuselagem de meus ossos
II
Quando indaguei
no transe das coisas íntimas
agora prendo nelas o tambor do meu desejoas fatias desprovidas destes dias
Quanto dói a lonjura
que fecha nossa infância
e mais se sabemos rompido
o caminho da lembrança
III
Onde tenho a injustiça
me detenho
não há entrave no meu canto
e canto (prova mais dura
de ser presente – não aparente)
o que resiste e sem demora
veste a roupa de sua hora
Para tanto
asilar as dores de cabeça
em carreiras
despedir dos relógios
a despedida
ser de resguardo
nos guardados
da esperança
Asilar o primeiro amor
o coração desabitado
e nesse arredo
suspender dos meses a solidão
arredar o medo
sem o segredo do transporte
ao visto vigiá-lo
como pedaço do próprio corpo
IV
Em todos os nortes e ventos
disponho os trastes inábeis
já auferi a vida outro trajeto
e abandono de vez
a ressaca dos domingos
Haverá quem pergunte
coisas mais solenes
haverá quem indague
no branco das camisas
nas gravatas e sapatos
minha altivez
Não isso não
a vida é corredor sem regresso
derivando derivando
aonde se abandona
o mofo do regime
V
Ah! uma canção
lonjura de pó
nas paredes que me cobrem
Tanta morte enfeixa
minha camisa de brim
que morrer faz a diferença
na distância
onde meu sonho se anuncia
Tanta morte equilibra no meu ombro
no lado esquerdo
onde escondo o pensamento
que viver é ir com todos
sem nunca se perder
VI
Na linha do horizonte
a justiça equilibra seu pronome
é deveras distante
é deveras enrolado ao falso de seu nome
nos documentos vigentes do sistema
A justiça é porto seguro
represa de vento
onde desembarcamos a vida
é porta operária
onde o tempo é arma acesa
e fantasma
VII
Onde tenho a injustiça
me detenho
Sou desembarcado
não por desejo
nos domicílios de mil novecentos
e setenta e dois
num abril que resseca minha idade
Sou desembarcado
e desde muito
teço junto aos irmãos
nova rede nova arma
Não exaspera minha descida
nesta hora
aprendi do caminho
como a serpente
o veneno de si mesma
Aprendi não de repente
a rebeldia elementar
e nos seus volumes cinzentos
fundei minha casa
Golpe a golpe
desmembramos o dia
o difícil instante
onde fundamos nossa casa
VIII
A vida é o trajeto vivo
cumpre movê-la
suspendendo nos dentes
o mal nascido
mas até amanhã
onde até dezembro
colocar a mão desprovida
o coração maduro que despencou?
O amor
ainda censurado
é permitido às palavras
nelas fazemos muradas e abrigos
em dia de boa paz
o roto amar da vida
Onde antes que a noite
permita todo seu pasmo
colocar o sal e a pólvora
e tristeza e as horas
roubadas dos relógios?
IX
Ah! canção para cumprir a vida
sempre adiada
artefato de sonho
para cobrir o que me falta
o que me resta
Todo o desigual
é uma distância sem perdão
e mofa em nossos olhos
In memoriam
A selva
salva
o peito
da bala.
A fala
da bala
estala
na selva.Fuzis carregados
carregam os homens
que morrem sem nome
no meio da mata.
Guerreiro
Guerrilha
Guerrilheiro
teu grito de selva repousa nas praias
teu gesto de luta dorme na história
Um homem sem pátria
dentro da noite arrasta
medalhas e glórias
da sala
sem bala
Coragem
couraça
da raça
A praça é livre
a selva é densa
não morre a crença
de um homem forte.
As garças já partiram
no sopro curvado do meio-dia
– quando um homem morria
O horror do mês presente
cospe dos montes frases de pedra
– quando um homem morria
A noite espreita o barraco
e a mulher grita o filho
– quando um homem morria
Cruzou a noite na ciranda estrelada
rumou para os campos do sem fim
na sua túnica de madrugada
levando no peito
um preito de luta
era Che Guevara que já não escuta
Fuzil
fusão
da mão
– em terra e sangue
Dormiu nos montes
e sob pontes
a terra seca comeu-lhe o rastro
a guerra louca comeu-lhe o corpo
Madrugada abriu seu manto
guerreiro abriu seu canto
madrugada já se foi
guerreiro também foi
num carro de boi
para a terra que Deus dará.
A morte é absoluta
em Che Guevara que já não escuta.
Ponto de Partida
A Alceu Valença
Não sonharei o impossível
nem aurora
a luz vem luzindo
sua desesperada agonia
o passado move
sua chuva de caspa e cinza
Não me queiram cordato
sou sempre o reverso
o horizonte inacabado
quando me julgam morto
renasço com os caídos e mato
para morrer de novo
à lucidez das palavras endurecidas
Alerta, neste quarto emprestado
à beira do coração
me sustento de miudezas
substantivos, verbos, adjetivos
complementos do cotidiano
e construo a esperança
como quem se salva
para salvar
Alerta na pampa
casa e coração
cinza no osso da dor
cinza no rosto do amor
arsenal da solidão
arreios da vida inteira
Não sonharei o impossível
revoa a angústia
como pássaro sem prumo
nossos mortos, nossa morte
escuro silêncio
espaço sem ar
desequilibrando no céu
o algodão das palavras
Desequilibrando no céu
as aves de pouso alto
o alarme geral
das armas e das canções
Desequilibrando, desequilibrando
José Luiz Braga Mauricio
É licenciado em Estudos Sociais pela UFPel, ex-operário e ex-estudante de Medicina e de Enfermagem. Pelotense nascido em 1944, teve sua vida marcada pela ditadura civil militar brasileira. Sua experiência política e as sequelas sofridas pelo terror da ditadura marcam fortemente seus textos. Foi militante do PCB, mais tarde do PCdoB e da FARP- Força Armada Revolucionária Popular, de Pelotas (RS). Depois de ter sido preso pelo Departamento de Ordem Política e Social – DOPS, em dezembro de 1966, seu sofrimento psíquico aumentou, atingindo a culminância depois da segunda prisão, em 1967. Tem um livro publicado – Viva a Liberdade! – de 1992, e recebeu o Prêmio de Literatura João Simões Lopes Neto, edição de 1987. As duas balizas que ajudam a manter vivo este ex-suicida são o amor de sua esposa – a artista plástica Seli Maurício – e a poesia.
Circunstâncias
Havia virilidade demais… e isto era uma ameaça!
Havia risos demasiadamente felizes
e isto destoava com a coerção reinante.
Havia palavras, muitas palavras… conversas longas…
e sem fim… cheias de pausas e de medos!
e de arrepios… e isto era suspeito
Havia Amor e isto foi demais: a malícia, a intriga e a inveja
levaram seu recado ao ciúme
que decretou a abertura da caixa de Pandora
e, então todos falaram e gritaram ao mesmo tempo
e a indignação acendeu o fogo das faces
e se esbofetearam e se condenaram mutuamente
ao degredo perpétuo.
Desde então a monotonia tomou o lugar dos jogos
e o tédio tornou-se um muro seguro
contra qualquer tentativa de novas amizades.
daquele tempo
Estou quieto
Estou quieto, muito quieto,
insatisfeito, embora, e aí vêem as doses
[bestificantes;
Isto não é uma poesia, isto é uma confissão de derrota:
não querem, não permitem que eu me defenda
não querem, não permitem que eu me defenda
não querem, não permitem que eu me defenda
não querem, não permitem que eu me defenda
Jorge Fischer
Nascido em Porto Alegre, em 1955 ingressou no Batalhão de Choque da Polícia do Exército. Sofreu duas prisões, em 1965 e 1970, sofrendo sevícias de todo tipo, ministradas por colegas. Condenado em 1967, a partir de 1970 cumpriu diversas penas, quando escreveu poemas, crônicas e desenhou cartuns satíricos colados nas paredes dos xilindrós por onde passou. Conhecido por seu humor, publicou uma dezena de livros, onde se destacam “O riso dos torturados” e “Mulheres de Atenas”. Como meio de vida, Jorge Fischer “Fishão” Nunes ambulou por diversas cidades, notabilizando-se como cartunista erótico.
O Dia da Independência
Ah, falam tanto no Dia da Independência
Marcham os soldados, batem continência:
“Um viva ao general! Um viva ao Coronel! “
Os ínclitos tribunos assomam ao palanque
e leêm “de improviso” discursos no papel.
Há tanques pelas ruas
e os velhos generais
costumam esquecer
o crônico artritismo:
brandem espadas nuas
em gestos de heroísmo
e juram lealdade a deus, à pátria e aos pais.
O louro e sorridente embaixador ianque
confraterniza com a “nação amiga”.
Mas, entre a multidão, resmunga um operário:
“Que gringo de uma figa,
que gringo salafrário!”.
Além, de pé, entre o povo, palpita uma comadre.
Não vai embora: aguarda a benção do “sêo” padre.
E quando, enfim, assoma, redondo como um zero
o quengo tonsurado – o símbolo do clero –
as santas mãos cruzadas sobre a proeminência
do ventre romboidal – um poema de indecência –
a boca a mastigar a frase decorada
deitando falação –mas sem que diga nada –
na fria objurgatória do seu latim de festa,
é o triunfo!, é a apoteose!, é a benção clerical
que, mais que tudo, atesta
que Cristo está de bem com nosso general.
Depois, a tal comadre, com ar bem satisfeito,
retira-se: já viu o padre e até o prefeito
e o louro e sorridente embaixador ianque.
À tarde, quando for lavar roupa no tanque,
há de esquecer a dor das crônicas varizes,
sentir-se-á a mais feliz de todas as felizes
e dirá consigo mesma, redonda de alegria:
– “Ah, tudo foi tão lindo! Isto é que é democracia!”
O Sete de Setembro, de fato, é bem festivo:
tem muito carnaval, tem muita alegoria.
Mas…Dia da Independência, meus camaradas?
Quando é que vamos marcar este dia?