Zoobotânica é guardiã da biodiversidade gaúcha, diz professor Buckup

Buckup visita à coleção de insetos acompanhado pelos pesquisadores do MCN/FZB Luciano, Aline e Hilda/Cleber Dioni

Cleber Dioni Tentardini
Ludwig Buckup, cientista e professor, é um dos idealizadores do então Museu Rio-grandense de Ciências Naturais, a partir de 1955, ao lado do padre jesuíta Balduíno Rambo e do professor Thales de Lema. A Fundação Zoobotânica, a qual está vinculada hoje, só foi criada em 1972.
Iniciou as pesquisas com insetos, passando mais tarde a estudar os crustáceos. Dedicou mais de meio século às pesquisas no Museu e às aulas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Agora, diante da ameaça de fechamento da FZB, tem visitado com mais frequência as coleções que ajudou a enriquecer.
Na quarta-feira, dia 20, acompanhado dos pesquisadores do setor de entomologia do museu, foi surpreendido ao mostrarem- lhe um livro com os apontamentos de Adolfo Pompilio Mabilde, contendo desenhos e a descrição fiel de centenas de borboletas, a maioria coletada no século 19.
“Onde encontraram esse livro”, indagou, impressionado, aos três biólogos e curadores da coleção de insetos, Hilda, Aline e Luciano.

Buckup com o livro de Adolfo Mabilde /Cleber Dioni

Mabilde, da família proprietária de estaleiros em Porto Alegre, deixou junto com o livro 3.458 exemplares de insetos sob a guarda do Museu Júlio de Castilhos, e que hoje, tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), integram a coleção do MCN.
Borboletas do século 19, da coleção Mabilde

Ao folhar a publicação, Buckup observou a importância científica daquela coleção de borboletas, de mais de cem anos, e que pode estar condenada ao esquecimento e ao mofo, diante da possibilidade de demissão dos especialistas e fechamento da Fundação Zoobotânica.
“Além da segurança institucional para todo patrimônio das instituições vinculadas a ela, a Fundação é um ambiente de alta produção intelectual, de técnicos e pesquisadores que passam 20, 25 anos de dedicação acadêmica até se tornarem verdadeiros especialistas. Sem eles, não há o que fazer com as coleções. Dou como exemplo as professoras Miriam Becker e Jocélia Grazia, que passaram pela FZB e orientaram gerações e, sem dúvida, estão entre as cinco maiores especialistas em hemípteros (percevejos) do mundo”, avalia.
Aline, com Buckup, foi aluna de Jocélia Grazia e, hoje, orienta na Ufrgs/Cleber Dioni

A professora Jocélia Grazia iniciou como pesquisadora do Museu em 1966. Descreveu cerca de 180 espécies, sendo que grande parte, depositada no acervo do Museu, é usada como modelo para identificar novas espécies (material-tipo).
“Encerrar as atividades de pesquisa e curadoria da coleção entomológica, com a demissão dos especialistas, representa uma grande perda de patrimônio inestimável”, lamenta. “Paradoxalmente, enquanto o RS planeja enfraquecer as pesquisas científicas, o estado do Paraná recebe com simpatia a proposta apresentada pela UFPR de criação do maior museu de História Natural do país”, conclui.
Buckup confere espécies sob curadoria de Luciano/ Cleber Dioni

Coleção de insetos foi pioneira
Logo que foi criado o Museu Rio-grandense de Ciências Naturais, Buckup doou sua coleção particular de insetos à instituição. Depois, foi autorizado pelo historiador Dante de Laytano a recolher o material zoológico do Museu Júlio de Castilhos.
“Começa aí a formação patrimonial do museu sobre a diversidade biológica do Rio Grande do Sul, que comporta um significado ecológico”, salienta.
Em entrevista publicada no jornal JÁ, em 9 de março deste ano, para a série especial Patrimônio Ameaçado (https://www.jornalja.com.br/extincao-da-zoobotanica-e-vinganca-de-ana-pellini-diz-professor-buckup/), Buckup conta em detalhes como surgiu o museu, a partir da iniciativa do então secretário de Educação e Cultura do governo do general Ernesto Dornelles, José Mariano de Freitas Beck.
Ele era auxiliar do padre Rambo na diretoria de Ciências, e sugeriu que fosse criado um museu para reunir um acervo biológico a fim de realizar pesquisas.
Hilda tem se dedicado ao biomonitoramento e educação ambiental

Por volta de 1966, Miriam Becker e Jocélia Grazia começaram as pesquisas no setor de entomologia do museu. Buckup passou a estudar os crustáceos, por não haver, até então, no museu, especialistas no assunto. Em 1976, a coleção de insetos passou para a responsabilidade de Hilda Gastal e Maria Elisabeth Souza. A partir daí, foram adquiridas várias coleções.

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