Flordelis: por trás do casal de religiosos e bem feitores, uma realidade chocante

Flordelis e Anderson: por trás das aparências, uma realidade chocante. | Foto: divulgação

Foram duas décadas e meia para construir a imagem da mulher pobre, nascida e criada na favela, que resolveu dedicar sua vida às crianças e adolescentes carentes.

Nessa trajetória, Flordelis dos Santos, hoje com 59 anos, tornou-se uma líder religiosa, cantora gospel conhecida em vários países e se elegeu deputada federal com quase 200 mil votos em 2018. Apresentava-se como “mãe de 55 filhos”.

Essa imagem começou a ser abalada em junho do ano passado, com o assassinato de seu marido, o pastor Anderson do Carmo, na casa onde moravam.

E ruiu fragorosamente neste final de agosto, quando o inquérito policial que apurou o caso apontou Flordelis como mandante do crime.

“Não se trata de uma família, mas de uma organização criminosa”, concluiu o delegado Allan Duarte, que coordenou as investigações. Os detalhes que vieram a público, da vida do casal e seus filhos,  são chocantes.

A cada revelação das testemunhas ouvidas pela polícia, mais se expunha o lado obscuro da “família”.

Tratamento desigual entre filhos, castigos físicos, relações incestuosas e promiscuidade… foram revelando uma face diferente daquela que costumava ser mostrada.

A menção de rituais tenebrosos na casa e as suspeitas de que Anderson e Flordelis frequentavam casas de swing chocaram os que admiraram a história da família.

O delegado Allan Duarte é taxativo: a imagem construída por Flordelis ao longo dos anos tinha o claro objetivo de chegar ao poder.

A deputada é acusada de ter articulado o plano de morte do marido, convencendo e cooptando parentes. Flordelis, sete filhos e uma neta foram denunciados pelo crime.

Filhos de Flordelis relataram que havia tratamento diferenciado para os adotivos e biológicos na casa.

Filha afetiva, Daiane Feres afirmou que se sentia usada e disse que a pastora só foi alçada ao sucesso por conta da história das crianças que acolhera.

Uma mulher que trabalhou na casa relatou ter presenciado crianças sendo agredidas fisicamente e punidas com pimenta na boca.

A mulher ainda contou que alguns adolescentes acolhidos pela pastora trabalhavam e todo dinheiro ficava com Flordelis e Anderson.

Adoções irregulares

Uma das bandeiras da candidata Flordelis era a simplificação dos procedimentos para a adoção de crianças no Brasil.

Ela, no entanto, não seguiu os trâmites necessários para regularizar a situação de pelo menos três crianças e adolescentes que passaram por sua casa.

Um dos casos é o de Daniel dos Santos, rapaz que o casal sempre afirmou ser o único filho biológico que tiveram juntos.

Após o crime, a polícia descobriu que a verdadeira mãe biológica entregou Daniel para Flordelis logo após o seu nascimento. Ele foi registrado como filho da deputada e de Anderson sem qualquer processo de adoção.

Os depoimentos de integrantes da família expuseram ainda os relacionamentos entre filhos dentro da casa de Flordelis.

Adriano, um dos filhos biológicos apenas da deputada se relacionou amorosamente com duas irmãs — Nylaine e Lorrana — quando já namorava sua atual mulher.

Na casa, ainda há casais formados entre os filhos da deputada. O próprio pastor Anderson chegou à casa de Flordelis como um de seus filhos e acabou se tornando seu marido, anos depois, história que jamais havia sido revelada antes do crime.

Rituais secretos

Um homem que morou na casa de Flordelis nos anos 90 relatou uma rotina que envolvia rituais secretos com uso de sangue, nudez e até sexo.

A testemunha afirmou considerar que participava de uma verdadeira seita e revelou que chegou a manter relações sexuais com a pastora.

O homem relatou ainda que, na época, Anderson já vivia na residência e, em determinada ocasião, pediu a Flordelis autorização para se relacionar com uma jovem que havia recém-chegado, o que foi aceito.

Ele também contou que a deputada recebia pastores estrangeiros em sua casa e uma das filhas era oferecida sexualmente para eles.

Uma antiga frequentadora da igreja de Flordelis fez uma revelação que caiu como uma bomba no meio evangélico: segundo ela, a pastora e Anderson frequentavam uma casa de swing na Zona Oeste do Rio.

A fiel contou que soube da informação por uma mulher que trabalhava com ela, que relatou ter visto o casal no local.

A polícia suspeita ainda que, na madrugada do crime, Flordelis e o marido tenham ido justamente a uma boate desse tipo.

Os investigadores não acreditam na versão da deputada, que afirma ter ido “comer um petisco” em Copacabana, mas alega não se lembrar o nome do local e nem sua localização exata.

Flordelis dos Santos de Souza, de 59 anos, está denunciada por cinco crimes, mas ainda não foi presa por ter imunidade parlamentar.

Nascida e criada na favela do Jacarezinho na Zona Norte do Rio, começou a acolher crianças e adolescentes no início dos anos 1990.

Em apenas uma noite, acolheu 37 crianças que tinham fugido de uma chacina na Central do Brasil, no Centro do Rio.

Foi na favela que Anderson e Flordelis se conheceram.

Quando o casal começou a se envolver, ela tinha 30 anos e ele, que também morava na comunidade, 14 anos.

Inicialmente, ele passou a frequentar a casa de Flordelis, que já fazia um trabalho com jovens na comunidade, mas acabou se apaixonando por ela.

Na época, Flordelis estava recém-separada do primeiro marido.

Trabalhou como balconista em uma padaria e acompanhava a mãe, Carmozina Motta, em cultos evangélicos, dos quais participava cantando e tocando guitarra.

Quando conheceu Anderson, a missionária já tinha três filhos biológicos do primeiro casamento e que viviam com ela — Simone, Flávio e Adriano.

Anderson fugia do perfil dos outros jovens acolhidos pela pastora. Eles, em geral, tinham problemas familiares ou parentes envolvidos com o tráfico.

Já Anderson, também nascido e criado na favela, vivia com os pais e estava concluindo o ensino médio no Colégio Pedro II de São Cristóvão, uma escola pública de tradição e qualidade.

Poucos meses antes, havia conseguido um trabalho como jovem aprendiz no Banco do Brasil.

Desenvolto e articulado, Anderson tornou-se líder do grupo de jovens da igreja tocada por Flordelis e por dona Carmozina Motta, na Rua Santa Laura, no Jacarezinho.

A pastora foi sua segunda namorada, de acordo com o relato da mãe, Maria Edna do Carmo.

O primeiro namoro foi com Simone, filha biológica de Flordelis, que tinha três anos a menos que ele.

Anderson logo assumiu a função de administrador da casa. Era visto, entre os jovens do Jacarezinho que chegaram à casa com ele, como um irmão mais velho, uma liderança, apesar de até ser mais novo que um deles.

Tinha uma estratégia criativa para levantar dinheiro usando a imagem de Flordelis.

Gravava os cultos ministrados por ela e fazia cópias em CD e DVD para vender nas igrejas por onde passavam.

Eles carregavam consigo um portfólio de Flordelis, com matérias de jornais sobre ela.

Anderson saía pelas ruas com uma maleta prateada nas mãos, na qual levava o material das pregações de Flordelis para vender.

Os outros familiares cuidavam das tarefas domésticas. Não demorou para as doações começarem a chegar. Um dos dois quartos da casa ficava tomado por elas.

Sobrava o outro para que todos dormissem. Mas havia ainda jovens que se espalhavam pela sala e pela cozinha.

Foi nessa época que a mãe de Anderson, Maria Edna, insistia, com frequência, para que o filho voltasse para casa.

Em resposta, ouvia que ele precisava “se dedicar à obra do Senhor”.

Como a situação de muitas das crianças não era regularizada, Flordelis fugiu de diversas fiscalizações da Vara da Infância e Juventude ao longo dos anos 1990 e a família passou por diversos endereços.

Na época, dizia que era perseguida. Em 1999, Anderson e Flordelis fundaram seu primeiro templo, no bairro do Rocha, Zona Norte do Rio.

Também fundado na Zona Norte do Rio, o Ministério Flordelis foi transferido no início dos anos 2000 para São Gonçalo.

Chegou a ter cinco filiais, além da sede, no bairro Mutondo. O auge da popularidade de Flordelis foi um documentário de 2009 (Flordelis — Basta uma palavra para mudar), que narrava como ela se tornara mãe de 55 filhos.

O filme foi um trampolim para seu lançamento no mundo da música e, em seguida, no meio político.

Interessado em negociar a trilha sonora do filme, Anderson procurou o hoje senador Arolde de Oliveira, dono da gravadora evangélica MK Music.

Oliveira abraçou o projeto gospel e acabou sendo o grande padrinho político da pastora.

Flordelis passou a integrar o time de artistas da gravadora e fazia turnês no Brasil e no exterior. Tinha uma carreira de artista, não era apenas mais uma pregadora.

Mentor de Flordelis, Anderson começou a impor uma condição para as apresentações da mulher. Ele teria de fazer a pregação de abertura.

Mostrou-se um orador articulado, com especial talento quando dava seu testemunho, a narrativa emocionada de como o casal se encontrou e se uniu.

Anderson mostrava-se controlador a respeito da mulher, das finanças, da igreja.

Escolhia as roupas que ela usava e fazia questão de sugerir até os temas que ela abordaria com os fiéis.

Apesar do jeito “mandão”, endeusava a mulher. Uma das coisas que o deixavam enfurecido era ver os filhos discordando da pastora. Era terminantemente proibido na família. “A mãe falou, está falado”, repetia.

A imagem de mandachuva fazia com que nem todos os filhos enxergassem Anderson como pai. Muitos o viam como um líder e o chamavam pelo apelido de Niel.

Já Flordelis era chamada por quase todos de mãe, com raríssimas exceções. Roberta Santos, por exemplo, acolhida ainda bebê, ficara sob os cuidados de dois filhos adotivos que se casaram, Carlos e Cristiane.

Roberta os chamava de pai e mãe. Era comum, na casa, o cuidado dos filhos mais novos ser delegado aos mais velhos.

O xodó do pastor Anderson na casa era Daniel dos Santos, de 21 anos, sempre apresentado por ele e Flordelis como o único filho biológico do casal.

A morte de Anderson, no entanto, trouxe outra versão para a história. Maria Edna do Carmo, mãe do pastor, revelou em depoimento à Polícia Civil que Daniel não era filho biológico do casal.

O rapaz, no entanto, foi registrado como filho de ambos e nunca houve qualquer processo de adoção.

O crime ainda trouxe à tona outras irregularidades.

A primeira criança abrigada por Flordelis, em 1993, na Central do Brasil, também nunca foi formalmente adotada.

A menina Rayane dos Santos Oliveira, levada para a casa da parlamentar com poucos dias de vida, ficou sob os cuidados de Simone dos Santos, filha biológica de Flordelis, e foi registrada como sua filha sem passar pelo aval de um juiz.

Não há nenhum processo na Justiça sobre a adoção da jovem. Ainda que desejasse adotar Rayane, Simone seria impedida por lei. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que a diferença de idade entre quem adota e quem está sendo adotado precisa ser de, no mínimo, 16 anos.

A diferença entre Simone e Rayane é de apenas 13 anos.

Flávio, de 38 anos, quatro anos mais jovem que Anderson, nunca o teve sequer como padrasto.

Seu relacionamento com o marido da mãe era frio e distante, assim como com outras pessoas da casa. Recentemente, houve uma tardia aproximação.

Vendo o filho biológico de Flordelis ser acusado de violência doméstica pela ex-mulher, o pastor resolveu levá-lo para Brasília, na tentativa de afastá-lo de problemas.

Quando Flordelis foi eleita deputada federal pelo PSD, em 2018, o papel de mentor de Anderson foi reconhecido no meio político.

Sua participação era tão ativa que, nos corredores da Câmara dos Deputados, chamavam-no de o 47º parlamentar do Rio.

No início deste ano, foi ao presidente da Casa, Rodrigo Maia, pleitear um crachá para circular no plenário.

Flordelis fez coro ao apelo: disse que não tinha condições de assumir o mandato sem o marido. O pedido foi aceito.

Anderson articulou os principais compromissos da mulher em Brasília: conseguiu que fosse recebida pela primeira-dama, Michele Bolsonaro, no Palácio da Alvorada e pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli.

Também foi do pastor a articulação de um seminário sobre adoção na Câmara dos Deputados, realizado pouco mais de duas semanas antes de sua morte.

Aos poucos, Flordelis foi ocupando um importante espaço na Casa, algo improvável para uma estreante na política.

Tudo ruiu na madrugada de 16 de junho. Anderson do Carmo de Souza foi assassinado, na garagem da casa da família, em Pendotiba.

Para a polícia, o crime foi planejado e executado por integrantes da família.

Às 3h25, Anderson e Flordelis chegaram à casa depois de uma noite juntos.

Uma testemunha disse à polícia que viu os dois numa casa de swing, ela bastante embriagada.

Flordelis conta que se dirigiu ao terceiro andar, enquanto o marido permaneceu na garagem.

As câmeras de segurança estavam desligadas… O pastor foi baleado cerca de dez minutos após ter chegado à casa.

“Não se trata de uma família, mas de uma organização criminosa”, concluiu o delegado Allan Duarte, que coordenou as investigações.

Segundo a Polícia Civil, Flordelis orquestrou o crime, que envolveu oito integrantes da família.

O inquérito, aceito pelo Ministério Público, narra uma trama complexa e uma dinâmica familiar diametralmente oposta à imagem puritana que o casal transmitia em cultos e eventos pentecostais pelo país.

O enredo inclui sexo, traições, envenenamento, rituais nada cristãos e até a prática das famosas “rachadinhas” — desvio de dinheiro de funcionários de gabinete.

Um ano e dois meses depois do crime e de uma investigação cheia de reviravoltas, a polícia concluiu o inquérito.

Aos três suspeitos já presos, se juntaram mais cinco filhos de Flordelis, uma neta e a mulher de um dos detidos anteriormente.

A deputada segue em liberdade, graças ao foro privilegiado, embora a polícia não tenha dúvidas de que ela desempenhou papel central na articulação do crime e em seus desobramentos.

“Descobrimos que toda aquela imagem altruísta, de decência, era apenas um enredo para ela alcançar objetivos financeiros e a projeção política”, disse o delegado Allan Duarte na denúncia contra Flordelis, agora formalmente acusada de ser a mandante do assassinato do marido.

Flordelis e Anderson tinham 55 filhos, a maioria adotivos. O próprio pastor havia sido adotado pela deputada, e chegou a ser tratado como genro, quando namorou uma de suas filhas.

Segundo investigadores, ele controlava a família com mão de ferro, tomando conta de tudo, da partilha dos alimentos às finanças, e ainda administrava a igreja fundada pelo casal, que, até 2019, tinha oito templos.

Morto com mais de 30 tiros na garagem da casa, em Pendotiba, Niterói, Anderson era odiado por parte dos filhos e pela mulher, e foi alvo de oito tentativas frustradas de assassinato, inclusive por envenenamento. Ele foi hospitalizado cinco vezes.

A família tentou esconder evidências dos crimes, segundo a polícia, e fez uma fogueira no quintal da casa para destruir provas. Mas, pouco a pouco, os indícios apareceram ao longo de um ano e dois meses de investigação.

O revólver usado na execução estava em cima do armário de Flávio, filho que admitiu ser o autor dos disparos.

Outras confissões e contradições em depoimentos também resultaram em provas, assim como mensagens de celulares que revelaram planos criminosos.

Numa das mensagens descobertas por policiais e promotores, Flordelis escreveu a um dos filhos: “André, pelo amor de Deus, vamos por um fim nisso. Me ajuda. Cara, tô te pedindo, te implorando. Até quando vamos ter que suportar esse traste no nosso meio?”.

Numa outra, Marzy, uma das filhas, incitou o irmão Lucas a matar o pastor por R$ 10 mil.

Por seis vezes, tentaram envenenar Anderson com arsênico. Investigadores comprovaram que duas filhas fizeram pesquisas na internet sobre venenos que teriam sido colocadas em sucos e pratos servidos a Anderson; misturadas a porções de feijão, a molho de macarrão e a sobremesas.

Anderson foi internado cinco vezes com problemas digestivos. Numa mensagem de celular, uma das autoras da tentativa de homicídio lamentou: “Ele é ruim de morrer”.

Em um recado enviado aos filhos, Flordelis se justificou sobre o plano de execução. “Fazer o quê? Separar não posso, porque ia escandalizar o nome de Deus”, escreveu a pastora e cantora gospel.

Um comentário em “Flordelis: por trás do casal de religiosos e bem feitores, uma realidade chocante”

  1. Está flordelis é a pior traste da história nos últimos tempos. Não poderia separar p não escandalizar o nome de Deus.? Mas matar de forma planejada sangue frio após uma noite em boate de swing pode.?
    Meu Deus está mulher e a turma de bandidos q apoia deveria acabar em ruína. É o mínimo q a sociedade espera

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