Naira Hofmeister
Com um “parabéns à você” cantado em afinados tons graves e velinhas assopradas em uma tradicional torta Marta Rocha, o Cipel – Círculo de Pesquisas Literárias – comemorou 50 anos de estudos da história, cultura e manifestações sociais do Rio Grande do Sul.
A reunião festiva ocorreu neste sábado, 10 de dezembro, em um restaurante na Galeria Chaves, em pleno Centro Histórico de Porto Alegre. Ali na Rua da Praia, uma das tantas que o historiador e decano do clube Moacyr Flores não se conforma por terem mudado de nome (oficialmente ela é “dos Andradas”). “Agora mesmo, fui dar o endereço para o taxista e não conseguia me lembrar o nome da Jerônimo Coelho, só me vinha ‘do Poço’ na cabeça…”, admite.
“Nós trocamos os nomes populares das ruas, que tinham muita sabedoria, pelos nomes dos generais. Foi depois da Guerra do Paraguai. Mais tarde, com o golpe de 1889, não se podia mais falar nada do Império, então a Rua do Imperador virou da República; a da Imperatriz, Venâncio Aires e assim por diante”, recorda, incomodado.
O papo chegou a este ponto porque, aos 82 anos, Moacyr Flores prepara seu artigo para a 32ª antologia do Cipel, publicação anual temática da casa. A edição 2017 vai abordar “Literatura & Cinema” e o historiador está escrevendo sobre a adaptação de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo para as telas. No livro há descrição minuciuosa do tecido urbano do bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, por coincidência, onde Moacyr e a esposa, a também historiadora Hilda Flores possuem um apartamento. “Lá está tudo igual: vamos a um supermercado em uma rua que é mencionada no romance”, exemplifica.
Se Moacyr é o decano, Hilda foi a sócia que mais tempo permaneceu no cargo máximo do Cipel – de presidente, não presidenta, conforme sua preferência. Foram 26 anos à frente da instituição, 13 gestões, capítulo que se encerrou também neste sábado, quando ela passou as chaves da instituição ao novo – e jovem – presidente da casa, Rafael Bán Jacobsen, um físico e escritor de 36 anos.
O ato soa solene, mas Jacobsen logo desmistifica: “Agora sou eu que tenho que tomar conta da faxina, cuidar para que os cupins não ataquem o acervo…”. Nada de glamour.
O Cipel se mantém com a anuidade paga pelos seus sócios, que não chegam a 100 pessoas. As antologias são fruto de trabalho caseiro – capas, diagramação, editoração, tudo fica por conta de algum integrante do grupo. No caso, a maioria do trabalho recai sobre Lotário Neuberger, que mantém a Ediplat – Editora Plátano Ltda – responsável pelas publicações da casa. No número mais recente, que se dedica aos 50 anos do círculo, a capa é obra criativa de Moacyr Flores, que produziu e fotografou a imagem, e desenvolveu a arte no computador.
Dissidência anti-discursos
O Cipel foi fundado em 8 de dezembro de 1966, fruto de uma dissidência da Academia Rio-grandense de Letras (ARL). “Na Academia tinha muito discurso, auto-elogios. Pesquisa mesmo e debate, era muito pouco”, explica Moacyr Flores.
Foi quando Lothar Hessel, professor da Faculdade de Letras da Ufrgs, “aglutinou um grupo de ex-alunos, amigos e colegas da ARL em torno de debates que desejavam conhecer melhor”, conta Hilda, no texto introdutório da 31ª antologia, dedicada ao cinquentenário da instituição.
“Costumavam encontrar-se na Livraria do Globo, até que um dia Pedro Leite Villas-Bôas ofereceu um apartamento no centro da cidade. Na segunda reunião criaram o Cipel”, detalha.
Nos primeiros anos o trabalho consistiu em fazer levantamentos bibliográficos no interior do Estado. “Não havia nenhuma pesquisa sobre a nossa literatura. Chegávamos nas bibliotecas e perguntávamos: o que tem de produção daqui? Se lembravam o nome do autor, não sabiam as obras ou conheciam apenas uma”, relata Moacyr Flores.
Dessa pesquisa surgiram os primeiros dicionários de literatura gaúcha.
Homenagem ao Partenon Literário
Outro dos objetos de estudo desse grupo pioneiro foi o Partenon Literário, associação cultural porto-alegrense do século XIX. Entre outras atividades, o Partenon promovia saraus, aulas noturnas para pobres e escravos, editava uma revista literária – tudo isso em uma cidade onde a maioria esmagadora da população não sabia ler nem escrever.
O Partenon foi o tema da primeira antologia do Cipel, publicada em 1976. Na quarta-feira da semana passada (7 de dezembro), o Círculo de Pesquisas Literárias reinaugurou um monumento em homenagem à associação pioneira na Praça da Matriz. A antiga placa de bronze com a nominata dos sócios mais ativos do Partenon, instalada no local nos anos 80 por iniciativa do Cipel, mas roubada posteriormente, foi substituída por uma de pedra.
“O Partenon foi um marco cultural , chegou a reunir 80 sócios e é anterior inclusive à Academia Brasileira de Letras. Fez campanha pela abolição e defendeu o republicanismo muito antes de esses temas ganharem as ruas”, elogiou, na ocasião, Moacyr Flores.
Outro feito notável do Partenon foi ter levado a cabo uma campanha pela emancipação das mulheres através da educação. A professora Luciana de Abreu foi o símbolo dessa causa, ao ter sido a primeira mulher a falar em uma tribuna – a do Partenon – no Brasil.
O grupo também criou um curso noturno de alfabetização para pobres e escravos que desejassem aprender a ler e escrever e incentivou a criação de bibliotecas no interior do Estado.
Categoria: Geral
Círculo de Pesquisas Literárias completa meio século de história
Monumento com a nominata da associação cultural pioneira de Porto Alegre foi reinaugurado No Rio, metade do pacote de Pezão já foi derrubado
O pacote de ajuste do governo do Estado do Rio de Janeiro enfrenta grandes resistências.
As pressões do funcionalismo, com manifestações diárias na rua, mesmo com a violenta repressão, estão se refletindo nas votações.
Ao fim da primeira semana de votação na Assembleia Legislativa fluminense, a proposta original apresentada pelo governador Pezão está desfigurada. A previsão de uma economia de R$ 27 bilhões com os cortes terá que ser refeita porque dez projetos já não passaram no plenário – nove foram retirados de pauta e um – que estabelecia o fim dos programas Renda Melhor e Renda Melhor Jovem, ambos custando R$ 13 milhões mensais – acabou rejeitado.
Um levantamento feito pelo G1 nesta sexta-feira mostra o seguinte resultado:
RETIRADO DE PAUTA
1 – Extinção da Fundação Leão XIII – economia de R$ 2,5 milhões por ano.
2 – Extinção da Suderj – economia de R$ 1,4 milhão por ano.
3 – Extinção do Instituto de Terras e Cartografia – economia de R$ 1,5 milhão por ano.
4 – Extinção da Fundação de Apoio à Pesca – economia de R$ 1,6 milhão por ano.
5 – Extinção do Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro – economia de R$ 800 mil por ano.
6 – Extinção do Instituto Estadual de Engenharia e Arquitetura – economia de R$ 1,1 milhão por ano.
7 Extinção do Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro – economia de R$ 3,2 milhões por ano.
8 – Uso de 40% das receitas de fundos de 12 instituições.
9 – Extinção do adicional por tempo de serviço para todos os servidores, civis e militares – economia de R$ 202 milhões por ano.
AINDA SERÁ VOTADO
10 – Mudanças no Rioprevidência – aumento na alíquota dos servidores de 11% para 14% e da contribuição patronal de 22% para 28% .
11 – Adequação dos repasses de duodécimos à previsão da Receita Corrente Líquida, com elaboração dos orçamentos dos poderes respeitando esse cálculo em 2018.
12 – Estabelecimento de limite para crescimento das despesas com pessoal dos poderes: seria referente a 70% da Receita Corrente Líquida do Estado.
13 – Aumento do ICMS para cerveja, refrigerante, combustível e serviços de telecomunicações. É proposto, ainda, reajuste escalonado do imposto para consumo de energia.
14 – Adiamento para 2020 de aumentos salariais que, aprovados em 2014, entrariam em vigor em 2017. Isso geraria uma economia de R$ 2,4 bilhões no terceiro ano.
15 – Alíquota provisória da previdência, com duração de quatro quadrimestres.
APROVADO
16 – Fim de qualquer tipo de anistia a devedores de impostos ao longo dos próximos 10 anos. Também foi aprovada a proibição de refinanciamento de dívidas.
17 – Criação de um modelo de intimação eletrônica para cobranças da Secretaria de Fazenda o que vai agilizar processos e reduzirá custos e tempo.
18 – Redução de pagamentos de pequenos valores: os limites para débitos que o Estado tem de quitar com dinheiro ou depósito caiu de 40 para 20 salários mínimos.
19 – Mudança de cobrança nas barcas: moradores de Paquetá e Ilha Grande que não têm isenção de Imposto de Renda começam a pagar metade do valor da passagem.
20 – Limitação do Bilhete Único Intermunicipal: os usuários isentos do Imposto de Renda mantém o benefício. Os outros perdem o subsídio. A tarifa subiu de R$ 6,50 para R$ 8.
REJEITADO
21 – Fim dos programas Renda Melhor e Renda Melhor Jovem.
Entre os deputados governistas, existe a percepção pessimista quanto à possibilidade de aprovação das propostas que ainda não foram apresentadas.
Entre elas, a elevação da alíquota de contribuição previdenciária de 11% para 14%. Os parlamentares aliados ao Palácio Guanabara também veem o adiamento do reajuste dos servidores da área de Segurança Pública para 2020 também é visto com desconfiança.Movimento em defesa das fundações tem eventos domingo e segunda
Uma série de eventos marca a agenda da mobilização contra a extinção de nove fundações gaúchas, prevista no pacote enviado à Assembleia pelo governador José Ivo Sartori, batizado de Plano de Modernização.
No domingo, 11, acontece o “S.O.S. As fundações públicas estão na rua” no Jardim Botânico (avenida Salvador França, 1427). O evento reúne mais de 20 músicos em XX shows, a partir das 14h. Entre os artistas estão nomes como Nelson Coelho de Castro, Marcelo Delacroix, Marisa Rotemberg e Oly Jr. Em paralelo às apresentações musicais, o grupo Studio P fará um varal de artes e pintura coletiva, a partir das 15h.
Na segunda-feira, 12, acontece um abraço simbólico à Fundação Cultural Piratini, responsável pela TVE e pela FM Cultura, que também está ameaçada de extinção. A concentração começa às 10h, em frente à sede da Fundação, na rua Correia Lima, 2118.
O caso da Fundação Piratini vem mobilizando artistas e agentes culturais através de diversos eventos e manifestações públicas de repúdio ao projeto. No Facebook, diversos apoiadores publicaram vídeos se posicionando contra a proposta de extinção. O ex-governador Alceu Collares, o ex-vice-governador, crítico teatral e professor de comunicação Antônio Hohlfeldt, a vice-reitora da Ufrgs e escritora Márcia Tiburi e o jornalista Juremir Machado são alguns dos nomes.
Nesta sexta-feira, os músicos Thiago e Ian Ramil se apresentaram no Jornal do Almoço, da RBS TV, vestindo camisetas do movimento “Salve salve TVE e FM Cultura”, repetindo o gesto, na semana passada, do músico Tonho Crocco.
Um único projeto de lei (PL 246) prevê a extinção da Fundação Zoobotânica, Fundação Piratini, Fundação de Ciência e Tecnologia (CIENTEC), a Fundação de Economia e Estatística (FEE), a Fundação de Recursos Humanos (FDRH) e a Metroplan.
Viaduto Otávio Rocha completa 84 anos sem recursos para revitalização
Uma das mais vultuosas e importantes obras da história de Porto Alegre, hoje convertida em retrato do descaso com o patrimônio público, o Viaduto Otávio Rocha completa 84 anos.
O aniversário do famoso viaduto, que teve sua construção concluída em 1932, será celebrado em um evento que reunirá teatro, fotografia, feira e performances ao longo de todo o dia, neste domingo, 11, a partir das 10h, por iniciativa da associação dos comerciantes locais e do movimento Amigos do Viaduto.
O organizadores do evento almejam aproximar moradores do entorno, bem como a população em geral, para utilizar este espaço público e, através da convivência, buscar soluções conjuntas com os órgãos públicos responsáveis pelas questões sociais, segurança e saúde pública. Constatam que hoje os vizinhos sentem-se inseguros de transitar por ali.
Com o aumento do déficit habitacional, o viaduto atraiu os sem teto, uma das razões é que ali há um banheiro público
Sucessão de descuidos
O passeio de pedras portuguesas sob o imponente monumento foi remendado às vésperas da Copa 2014, mas desde então o local está descuidado, precisando de reforma. Mas o problema mais premente é que as calçadas sob o viaduto se converteram em um condomínio a céu aberto de moradores de rua, o que expõe em pleno centro da cidade o problema habitacional e demanda atuação da assistência social. Porém, recentemente o prefeito José Fortunati afirmou que o viaduto é caso de polícia, pois há no local narcotráfico.
Há mais de dez anos, os comerciantes e moradores do entorno tentam viabilizar a revitalização do viaduto. Porém, até hoje, não se conseguiu recursos para tirá-lo do papel. O projeto foi concluído em agosto de 2015 e custou R$ 400 mil. O custo estimado da obra é de R$ 33 milhões.
Em novembro deste ano, Adacir José Flores, presidente da Arccov (Associação Representativa e Cultural dos Comerciantes do Viaduto Otávio Rocha) falou na Tribuna Popular da Câmara de Vereadores. Flores defendeu a formalização de uma parceria com a Prefeitura, para que a associação possa buscar os recursos através de leis de incentivo. “Queremos deixar um legado para a área social, política e humana de Porto Alegre”, completou Flores, que classificou o viaduto como patrimônio cultural da cidade.
Para o presidente da Arccov, a situação atual do Viaduto Otávio Rocha é crítica: “É necessária uma solução humana para os moradores em situação de rua que lá se encontram, a fim de emancipá-los”, destacou.Congelamento de gastos trará "retrocesso social", segundo a ONU
A organização das Nações Unidas (ONU) criticou nesta sexta-feira, 9, a proposta do governo de Michel Temer que congela por 20 anos os gastos públicos, indexando-os à inflação, a chamada PEC 55.
Em nota à imprensa, o relator especial da ONU para extrema pobreza e direitos humanos, Philip Alson, diz que o efeito “inevitável” da medida será o prejuízo aos mais pobres nas próximas décadas.
“Se adotada, essa emenda bloqueará gastos em níveis inadequados e rapidamente decrescentes na saúde, educação e segurança social, portanto, colocando toda uma geração futura em risco de receber uma proteção social muito abaixo dos níveis atuais”, afirma Alson.
O Relator Especial nomeado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU recomendou ao Governo Brasileiro que garanta um debate público apropriado sobre a PEC 55, que estime seu impacto sobre os setores mais pobres da sociedade e que identifique outras alternativas para atingir os objetivos de austeridade.
“Uma coisa é certa”, ele ressaltou. “É completamente inapropriado congelar somente o gasto social e atar as mãos de todos os próximos governos por outras duas décadas. Se essa emenda for adotada, colocará o Brasil em uma categoria única em matéria de retrocesso social”.
O representante da ONU reitera que a PEC 55, que pode ser votada em segundo turno na próxima terça-feira, 13, é uma medida radical, desprovida de toda nuance e compaixão. “Vai atingir com mais força os brasileiros mais pobres e mais vulneráveis, aumentando os níveis de desigualdade em uma sociedade já extremamente desigual e, definitivamente, assinala que para o Brasil os direitos sociais terão muito baixa prioridade nos próximos vinte anos.”
Ele acrescentou: “Isso evidentemente viola as obrigações do Brasil de acordo com o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais que o pais ratificou em 1992, que veda a adoção de “medidas deliberadamente regressivas” a não ser que não exista nenhuma outra alternativa e que uma profunda consideração seja dada de modo a garantir que as medidas adotadas sejam necessárias e proporcionais.”
Philip Alston apontou que, nas ultimas décadas, o Brasil estabeleceu um impressionante sistema de proteção social voltado para erradicar a pobreza e o reconhecimento dos direitos à educação, saúde, trabalho e segurança social.
“Essas políticas contribuíram substancialmente para reduzir os níveis de pobreza e desigualdade no país. Seria um erro histórico atrasar o relógio nesse momento,” disse ele.
O Plano Nacional de Educação no Brasil clama pelo aumento de 37 bilhões de reais anualmente para prover uma educação de qualidade para todos os estudantes, enquanto a PEC reduzirá o gasto planejado em 47 bilhões de reais nos próximos oito anos. Com mais de 3,8 milhões de crianças fora da escola, o Brasil não pode ignorar o direito deles de ir à escola, nem os direitos de todas as crianças a uma educação de qualidade.
O debate sobre a PEC 55 foi apressadamente conduzido no Congresso Nacional pelo novo Governo com a limitada participação dos grupos afetados, e sem considerar seu impacto nos direitos humanos. Um estudo recente sugere que 43% dos brasileiros não conhecem a emenda, e entre aqueles que conhecem, a maioria se opõe a ela.
O relator especial, que está em contato com o Governo Brasileiro para entender melhor o processo e a substancia da emenda proposta, ressaltou que “mostrar prudência econômica e fiscal e respeitar as normas internacionais de direitos humanos não são objetivos mutuamente excludentes, já que ambos focam na importância de desenhar medidas cuidadosamente de forma a evitar ao máximo o impacto negativo sobre as pessoas.”
“Efeitos diretamente negativos têm que ser equilibrados com potenciais ganhos a longo prazo, assim como esforços para proteger os mais vulneráveis e os mais pobres na sociedade”, disse ele.
“Estudos econômicos internacionais, incluindo pesquisas do Fundo Monetário internacional, mostram que a consolidação fiscal tipicamente tem efeitos de curto prazo, reduzindo a renda, aumentando o desemprego e a desigualdade de renda. E a longo prazo, não existe evidência empírica que sugira que essas medidas alcançarão os objetivos sugeridos pelo Governo,” salientou o relator especial.
O apelo de Alston às autoridades brasileiras foi endossado também pelos a Relatora Especial sobre o Direito à Educação, Koumbou Boly Barry.
Autor escreve livro para lançar aos 100 anos: “Não tenho tempo para morrer”
ELMAR BONES
João Gomes Mariante, psicanalista e jornalista, completou 98 anos em 26 de fevereiro de 2016.
Deste então, entre outras coisas, trabalha num livro que irá concluir em fevereiro de 2018, com o título: Como cheguei aos 100 anos.
Ele escreve a mão, com uma caneta tinteiro, letras grandes bem desenhadas, em folhas soltas que vai numerando. Quando há ouvintes, gosta de testar os trechos que já escreveu:
“Não fui amamentado por minha mãe e sim por muitas amas de leite que invariavelmente entravam em choque com ela.”
Levanta os olhos do papel e acrescenta, com a voz magoada: “Ela brigava com todas”.
Nascido em Porto Alegre, foi “ainda em fraldas” para Porto Mariante, pequeno povoado à beira do rio Taquari, do qual a família de seu pai era fundadora. Criou-se na fazenda do avô autoritário, que não o estimulava a estudar. Queria que fosse bom pialador (que derruba o boi na corrida, jogando o laço nas patas dianteiras)
Tinha 12 anos quando se alfabetizou. Estudou em Porto Alegre, cursou Medicina no Rio de Janeiro, foi funcionário da embaixada brasileira em Buenos Aires, psicanalista em São Paulo.
Voltou para Porto Alegre com planos de se estabelecer como psicanalista. Enfrentou dificuldades, principalmente o início de uma surdez que hoje o aflige. “Pedir para o paciente repetir, não dá.”
Voltou-se para o jornalismo, valendo-se da experiência pioneira com a Revista de Medicina Social, que editou no Rio na década de 1940.
Lançou em outubro de 2002 o jornal MenteCorpo, mensário, voltado para a popularização do conhecimento médico e psicanalítico.
O número que está circulando é o 137, uma edição especial toda dedicada à cidade de Venâncio Aires, feita quase integralmente por ele, como todas.
Ele determina a pauta, escreve os editoriais e as principais matérias, além de mobilizar numerosos articulistas, para compor as 48 ou mais páginas de cada edição.
Além de editor, ele é o empresário, que capta publicidade, cuida da distribuição e comanda uma pequena equipe de colaboradores. Em cima da mesa já estão espalhadas as provas da próxima edição. “Essa madrugada vou escrever o editoral e a Personalidade do Mês, que ainda não sei quem é…”
Todos esses encargos não o impediram de lançar três edições revisadas e ampliadas de um livro em que explora seus conhecimentos de psicanálise e suas relações com três ícones da política do Rio Grande do Sul: Osvaldo Aranha, Flores da Cunha e Getúlio Vargas.
Ele conheceu os três no Rio de Janeiro, onde era estudante. Era afilhado de um ministro de Vargas.
Frequentou churrascos aos quais Vargas comparecia e dele chamou atenção por uma frase, dita numa roda de estudantes paulistas: “São Paulo é a locomotiva do Brasil, mas o carvão é de São Jerônimo e o maquinista é de São Borja”.
Mariante é o homem de bigode atrás de Vargas
A frase arrancou uma das famosas gargalhadas de Vargas e então lhe apresentaram o jovem gaúcho atrevido que estudava no Rio.
Foi amigo desde a escola de um dos filhos de Osvaldo Aranha e conheceu Flores da Cunha no Rio, quando era estudante de medicina e, numa emergência, até aplicou-lhe algumas injeções.
Com Osvaldo Aranha
Seus anos de dedicação à profilaxia do suicídio, levaram-no a identificar um traço autodestrutivo na conduta política dos caudilhos gaúchos. Daí resultou o livro, do qual já publicou duas edições.
Em junho deste ano lançou um novo ensaio de 200 páginas fixando-se em Getulio Vargas, procurando rastrear os sinais inconscientes de que Vargas teve em mente, desde sempre, o suicídio como uma saída.
O lançamento mais recente
“Em vários momentos, em situações cruciais, ele considerou a ideia de se dar um tiro se tudo desse errado. Até que chegou naquele 24 de agosto, quando tudo havia realmente dado errado”.
Para a autobiografia que está escrevendo, prevê umas 300 páginas: “Vai ser uma coisa simples, talvez faça algum sucesso”, pondera.
Já descreveu a primeira surra que levou da mãe, pelo susto que deu numa tia muito carola. A tia o obrigava a confessar e a comungar. Ele odiava: “Eu cuspia na hóstia”. À noite tinha que rezar em pé junto da cama, antes de deitar.
Um dia a tia tomou-lhe a reza e ele lascou um verso que aprendera na rua: “Deita-te corpo /espicha-te rabo/arreganha esse cú/ para todos os diabos”.
Diverte-se com suas memórias
A tia desmaiou. A surra foi tamanha que até hoje ele fica em dúvida se o verso não é “muito forte” para entrar nas memórias.
Depois de um longo expediente, ele sente dificuldade para erguer-se da poltrona de onde comanda a editora e o jornal, mas não aceita ajuda:
“Deixa comigo…”, diz empunhando a bengala.
Vai até a cozinha e volta com uma garrafa de uísque. “Já vou trazer o gelo.” Vai e volta com passinhos curtos. Fala dos seus planos, das próximas edições do jornal, da campanha que vai lançar, da viagem a Buenos Aires. Quer lançar um outro livro com as crônicas que publicou no Jornal do Comércio nos últimos 20 anos. Reclama que a Zero Hora não tem publicado seus artigos. Desespera-se com a incapacidade de organizar papéis. “É uma desgraça!”. Mostra a capa do livro que ele mesmo idealizou: uma ampulheta com um restinho de areia na parte de cima.
Pergunto se no livro ele vai revelar o segredo. “Que segredo?”. De como chegou aos 100 anos. “Ah, acho que fui salvo pela psicanálise. Embora tivesse condições genéticas, não teria chegado a essa idade se não fosse a psicanálise”.
Conta que foi um jovem turbulento, duas vezes baleado. Levanta a perna da calça para mostrar a cicatriz do tiro que levou num entrevero em Santa Cruz. Isso não revela também uma tendência suicida? “Sem dúvida, tinha esse componente.”
Parece buscar a origem desse componente. “Meu avô queria um filho homem, não aceitou o fato de ter vindo uma mulher, minha mãe. Ele não escondia a decepção e isso causou nela um trauma muito grande, ela nunca superou. Quando nasci, ele quis fazer de mim o filho que não teve.”
Outro ingrediente de sua receita de vida é dormir pouco. Sempre foi assim. Sai da cama antes das quatro.
Dorme uma hora depois do almoço e depois vai até nove, dez da noite. “Não tenho tempo para morrer”, brinca. Diz que vai “parar duas horas antes, para arrumar alguns papéis…”. E sintetiza tudo: “O trabalho é a grande e única terapia”. Mas é preciso gostar do que faz.
Ele por exemplo, no final de semana, percorreu mais de mil quilômetros para dar autógrafos e palestra em Dom Pedrito. Com frequência, toma um ônibus e vai a Santana do Livramento, gosta de ir ao cassino de Rivera.
Na segunda-feira, já tem compromisso na agenda: “Quero falar com aquele rapaz para o site. Quero fazer o jornal on line”.
Palavras escolhidas com precisão a cada texto, discurso ou palestra
Além da atividade intensa com o jornal, com os livros e com uma agitada agenda social, os 98 anos não impedem João Gomes Mariante de acompanhar os fatos do noticiário e de ter uma lúcida opinião sobre eles. Confira:
“Estou com muito medo de uma guerra civil. Medo de estourar esse movimento de rua, esse Bolsonaro quer liderar o golpe. O Exército vai ter que sair para guerra…”
“Corrupção é sempre a desculpa para os golpes. Getulio não roubava mas protegia os corruptos. O Jango a mesma coisa. Em 1964, os milicos prometiam moralizar mas não pegaram o Ademar de Barros e tantos outros que eram aliados deles”.
“Eduardo Cunha é um psicopata. É diferente do psicótico, o psicopata se caracteriza pela ausência de culpa. Não tem controle interno, projeta no outro, nunca aceita a culpa. Ele não se compromete. Cunha compromete os outros…”
“A Lava Jato abriu os olhos do povo, o PT se excedeu na roubalheira. Nunca tantos roubaram tanto de tantos. E, depois, a arrogância, o povo não tolera mais o arrogante”.
“Lula é muito inteligente, mas é um paranóico, tem mania de grandeza, se sente perseguido. Acredito que ele está terminado, nunca mais”.
Eleições municipais: “Para mim não foi surpresa, o pessoal quer coisa nova. Os que se declararam não políticos, levaram. Não está na ordem dos contagiados”.
Violência: “Enquanto não se fizer uma varredura na polícia, não vai se resolver o problema da criminalidade no Brasil, porque os grandes criminosos estão dentro da polícia. Tinha que ter um projeto: submeter todos eles a um exame psiquiátrico”.
Caso Plinio Zalevski: “Pra mim não foi suicídio, foi homicídio. Quem se mata não dá dois cortes. Dificilmente, quando dá um corte profundo, dá o segundo. Não consegue dar. A motivação também é pouco convincente. Mais plausível é que o tenham obrigado a escrever aquilo”.
Magistério em greve até a votação do pacote
Em assembleia a céu aberto, na Praça da Matriz, professores e funcionários de escolas de várias regiões do Estado decidiram entrar em greve a partir do dia 13 de dezembro, quando uma Assembleia Unificada dos Servidores Públicos decidirá sobre uma greve geral para fazer frente ao pacote de medidas que o governador Ivo Sartori encaminhou para aprovação dos deputados, com votação prevista para o dia 22.
A greve pode comprometer o calendário escolar de 2016
“Estamos na rua e não vamos sair enquanto não derrubarmos este pacote. Agora, a missão de cada um de nós é conversar com nossos colegas para fazermos uma grande mobilização a partir do dia 13”, disse a presidente do Cpers, Helenir Aguiar Schürer.
Ocupação massiva
Entre as ações de mobilização aprovadas está a ocupação massiva da Praça da Matriz, em Porto Alegre, a partir do dia 19 de dezembro, e atos nas regiões dos 42 Núcleos do CPERS, cobrando o pagamento do 13º salário e a reprovação do pacote na Assembleia Legislativa.
A avaliação do Cpers/Sindicato é que as medidas econômicas tomadas pelo governo estadual desrespeitam diretamente os direitos dos professores, funcionários de escola e demais servidores estaduais: 13º salário sem data limite, extinção da licença prêmio, novas regras para tempo de serviço e a retirada da remuneração de servidores cedidos para entidades sindicais. Além dos projetos do governo para extinção de nove Fundações.
Propostas aprovadas na assembleia geral do Cpers
1 – Deflagrar Greve de Resistência, contra a aprovação do Pacote do Governo, a partir do dia 13 de dezembro até a votação dos projetos na Assembleia Legislativa;
2 – Dia 13 de dezembro: Realizar grande Ato Estadual Unificado, com o conjunto dos Servidores do Estado e Comunidade Escolar;
3 – Realizar Atos Regionalizados de pressão aos deputados, em conjunto com os servidores.
4– Ocupar massivamente a Praça da Matriz, em Porto Alegre, a partir do dia 19 de dezembro e realizar atos radicalizados nas regiões dos Núcleos, cobrando o pagamento do 13º Salário e barrar o Pacote;
5 – Cobrar do Governo o cumprimento do calendário de pagamento e publicação das alterações de níveis, reivindicação que constou na pauta da última greve;
6 – Realizar denúncia através de outdoors e banners em todo o Estado.Governo lança página para rebater críticas e denunciar boatos
Numa contra-ofensiva à mobilização dos servidores contra o pacote de ajuste, o governo do Estado lançou um site para prestar informações sobre os projetos enviados à Assembleia e, principalmente, “desfazer inverdades”, como disse o secretário da comunicação, Cleber Benvegnu.
“Não me trova” (naometrova.rs.gov.br) é o nome do site onde o governo procura responder as perguntas mais frequentes levantadas por seus críticos: o governo não combate à sonegação? O governador Sartori e os secretários também recebem salários parcelados?
O site foi desenvolvido pela Procergs e abre espaço para o contribuinte fazer buscas por informações de seu interesse. “Não deixa que te passem a conversa, nem fica com a pulga atrás da orelha. Envia tua dúvida, a gente responde.” Promete falar de forma clara “para que ninguém caia em conversa fiada”.
Carta aberta pede coerência e retirada do regime de urgência
As nove fundações estaduais e outras duas estatais ameaçadas de extinção representam 0,4% do orçamento e prestam serviços que não podem ser suprimidos de uma hora para outra.
O corte delas quase nada representará para o equilíbrio financeiro mas a supressão dos serviços que prestam podem causar transtornos em diversas áreas.
Este é o principal argumento da “carta dos servidores” enviada aos deputados pedindo a retirada do regime de urgência dos projetos para que haja melhor avaliação dessas medidas.
Eis a íntegra da carta:
Excelentíssima Presidente da Assembleia Legislativa,
A Sociedade Gaúcha exige coerência do Parlamento!
Cidadãos e cidadãs gaúchas, reunidos no Seminário “A importância das Fundações para a Sociedade”, na data de 7 de dezembro, aprovaram por unanimidade o encaminhamento de Carta à Assembleia Legislativa com manifesto contrário aos Projetos de Lei que compõem o chamado Pacote de “refundação” do Estado.
Através deste pacote, o Governo expressa um formato açodado de enfrentamento à crise financeira que o Rio Grande atravessa. Levantamos as seguintes fragilidades do pacote:
1º – Retira da sociedade o direito ao acesso a serviços públicos nas áreas de planejamento, pesquisa, meio ambiente, recursos humanos, saúde, tecnologia, transporte e cultura. Não podemos extinguir órgãos que reúnem décadas de acúmulo de diferentes saberes, cujos os trabalhos possuem reconhecimento nacional e internacional. As justificativas apresentadas apontam que o Governo não se apropriou corretamente da enorme capacidade desses órgãos para contribuir com soluções para superação da crise financeira;
2º – Não foca a resolução da crise das finanças a partir da receita. Existem outras iniciativas alternativas. São exemplos o combate mais incisivo à sonegação e a revisão de desonerações fiscais concedidas por décadas. O mais grave é que a pretensa economia com a extinção de órgãos de inteligência, pesquisa e cultura é muito pequena, representando apenas 0,4 % do orçamento;
3º – Com esse pacote, o Governo pretende se desfazer de quadros funcionais extremamente qualificados e reconhecidos em suas áreas. Profissionais que a partir de sua qualificação tem assessorado os diferentes órgãos do Governo, conquistando projetos que captam vultosos recursos para o Estado do RS;
4º – Muitos desses serviços necessitarão ser contratados, através de consultorias mais caras e menos qualificadas. Caso os serviços prestados gratuitamente por essas fundações fosse cobrado, haveria superávit. Sobretudo quando se considera que a trajetória das despesas é declinante, devido à redução de seus custos e modernização de processos;
5º – Compromete o patrimônio dos gaúchos, sem a necessária discussão. O patrimônio não se restringe aos prédios e instalações, mas também ao conhecimento que temos acumulado, o qual não tem preço, tem valor! Pesquisa, planejamento, qualificação de recursos humanos, cultura valem muito mais do que a alegada despesa anunciada para justificar as extinções;
O Seminário “ A importância das Fundações para a Sociedade”, a partir dos depoimentos dos diferentes painelistas, ratificou a imensa contribuição que as atividades desenvolvidas por FDRH, FEE, METROPLAN, CIENTEC, FZB, Fundação Piratini, Corag, FEEPS, FEPAGRO, SPH e demais órgãos ameaçados de extinção, trazem para o conjunto da sociedade gaúcha.
Neste sentido, solicitamos que a Casa Legislativa seja “A casa dos grandes debates, a casa do Povo”. Importantes decisões necessitam de grandes debates e de tempo para apresentações iniciais, contrapontos, maturação das ideias e tomada de decisão.
Isso não é possível em um espaço de tempo tão curto como esse dado aos deputados, com Projetos de Lei em regime de urgência.
Desta forma, solicitamos vossa sensibilidade e apoio para que gestione junto ao Executivo a retirada dos projetos e das propostas, em vista a uma discussão ampla do Parlamento Gaúcho e da Sociedade.
Seminário ressalta a importância das fundações para a sociedade
Com suas faixas, cartazes, camisetas, buzinas, palavras de ordem e muita disposição, servidores públicos lotaram o auditório do Plaza San Rafael para assistir ao seminário promovido pelo Semapi sobre “A importância das fundações para a sociedade”.
Os organizadores contaram 650 pessoas. Pouco, se levar em conta que são mais de oito mil servidores ameaçados pelo projeto do governador Sartori de extinguir nove fundações estaduais. Bom número, considerando-se data, local e horário: quarta-feira, no centro de Porto Alegre, início às duas da tarde.
O evento foi importante também pelas manifestações de apoio, desde a Universidade Federal do Rio Grande do Sul até associações de pequenos produtores, incluindo respeitados intelectuais e cientistas, como o economista Cláudio Accurso e o professor Ludwig Buckup, pioneiro da pesquisa científica no Estado.
Considere-se também o ineditismo do evento. Pelo que se ouviu, foi a primeira vez que os funcionários destes órgãos, muitos deles com mais de 40 anos, participaram de um encontro amplo para troca de informações.
Apenas dois políticos estavam presentes, mas saíram no início: Manoela Dávila (PCdoB) e Adão Villaverde (PT).
Mara Feldes: “Essa não é a saída, eles mesmo já provaram”
Mara Feldes falou em nome do colegiado que dirige o Semapi. Disse que está claro o propósito do governo Sartori de fazer o ajuste à custa do desmonte o setor público, com cortes e privatizações.
“O projeto que extingue as fundações e o projeto que retira a exigência legal de plebiscito para privatização de estatais se complementam”, disse Mara Feldes lembrando que Sartori era o líder do governo Britto, há 20 anos, quando foram privatizadas ou extintas as principais estatais. “Venderam, fecharam, cortaram funcionários…não resolveu nada”.
A dirigente do Semapi reconheceu que Sartori armou uma ampla aliança para aprovar seus projetos e despachou o vice em caravana pelo interior para convencer de que esse pacote é a única saída: “Essa não é a saída, eles mesmo já provaram”.
Helenir Schürer
Helenir Schürer falou em nome do Movimento Unificado dos Servidores. Disse que está claro agora que o golpe contra Dilma Rousseff não foi contra este ou aquele partido: “O golpe foi contra os trabalhadores”.
Disse que o problema do setor público do Rio Grande do Sul não é financeiro. Citou o deputado Marlon Santos, do PDT, relator do orçamento, que mostrou: em 2017, as desonerações fiscais chegam a R$ 9 bilhões, a sonegação vai a R$ 7 bilhões. “E ainda ontem saiu a notícia: o governo do Estado, que está falido, concedeu mais 450 milhões em incentivos”
Segundo ela, o problema é de concepção: “Qual é o papel do Estado?”, perguntou.
Claudir Nespolo
Claudir Nespolo, presidente da CUT/RS, falou a seguir. Falou da importância de esclarecer os trabalhadores do setor privado sobre o “brutal retrocesso” que está ameaçando os servidores públicos.
Para isso, a CUT vai desencadear uma campanha de esclarecimento com dezenas de carros de som por todo o Estado denunciando Sartori e seus aliados “RBS, Fiergs, Farsul, Federasul, Fecomércio”. “Esses serviços públicos que serão extintos, garanto que os contratinhos com as empresas privadas já estão prontos”, afirmou.
“Um tiro no pé”
Depois das lideranças sindicais, começaram a falar os convidados que formaram a mesa do seminário.
O professor Odilon Marcuzzo do Canto, engenheiro nuclear, ex-presidente da Cientec, de 72 anos, disse que cumpria um dever de cidadão. Lembrou que quando estudante na Universidade Federal de Santa Maria vinha a Porto Alegre para fazer testes no laboratório do IPERS, embrião da Cientec.
Disse que o mais grave do pacotaço do governo estadual é que está propondo medidas drásticas sem qualquer consulta à sociedade, nem aos diretamente interessados, que são os dirigentes e servidores das fundações.
Marcuzzo: “Num regime democrático, um governo agir assim é muito preocupante”
“Num regime democrático, um governo agir assim é muito preocupante”, frisou.
Disse que há 70 anos não se tem dúvida de que o desenvolvimento está ligado a uma base tecnológica e que a Cientec, criada em 1972, é a expressão dessa realidade. “Hoje mais do que nunca a ciência e a tecnologia estão na ponta do processo. Portanto, não é inteligente nem racional desmontar uma estrutura dessas e jogar fora um acúmulo de conhecimento de tantas décadas”.
Lembrou que a Cientec tem 24 laboratórios de pesquisa, 14 deles credenciados junto ao Inmetro, e que presta um serviço essencial para micro e pequenas empresas que não terão a quem recorrer se ela for extinta. “Se não está funcionando a contento, tem que arrumar, mas extinguir pura e simplesmente não tem sentido. No mínimo tem que estudar e avaliar com cuidado, senão vai jogar fora um enorme investimento que a sociedade fez”.
O professor João Jornada, também ex-presidente da Cientec e do Inmetro, lembrou que a Cientec tem um histórico de inovação e de apoio a pequenas empresas que é um patrimônio intangível do Estado. “Se problemas operacionais existem é mais racional corrigi-los. Senão vamos fazer como naquele dito popular – jogar a criança fora com a água da bacia”.
A socióloga Jussara Kalil disse que os argumentos para extinguir a Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional revelam que os formuladores do governo “não conhecem a Metroplan“.
Descreveu resumidamente as atividades da Metroplan no apoio aos gestores públicos nas regiões de maior concentração populacional no Estado – região metropolitana de Porto Alegre, e os aglomerados de Caxias, Pelotas e Litoral. “A Metroplan é a única organização com capacidade técnica para assessorar os diversos municípios nas questões de mobilidade, de plano diretor, de projetos de parques e de vias. Por obrigação legal ainda a fundação é a gestora do transporte intermunicipal nas regiões conurbadas, planeja a prevenção de enchentes e administra e fiscaliza a Lei do Passe Livre, que beneficia 12 mil estudantes carentes na região metropolitana de Porto Alegre”.
O professor Paulo Roberto Rodrigues, do Observatório das Metrópoles, enfatizou ao papel decisivo de duas fundações – a FEE (Fundação Estadual de Economia e Estatística) e a Metroplan – no planejamento de políticas públicas no Estado. Ambas tem um corpo técnico permanente e um acúmulo histórico de conhecimento que a Universidade não poderá absorver, “até porque a gestão pública não pode se submeter ao tempo da academia”.
O administrador Anderson da Cunha alertou para o “tiro no pé” que o governo vai dar se extinguir a FDRH (Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos), há mais de 40 anos responsável pela organização dos concursos públicos, pela formação de servidores através da Escola de Governo, pela assessoria a prefeituras e a gestão de cerca de 8 mil estagiários que prestam serviços ao Estado. “Vai desmontar essa estrutura, jogar fora uma experiência de 44 anos, vai qualificar a gestão pública como?”, indagou.
O professor Marcos Cepik falou como representante do reitor da UFRGS, Rui Oppermann, anunciando que o Conselho Universitário aprovou uma moção contra o projeto de extinção das fundações, pelos enormes prejuízos que a medida vai causar a serviços públicos essenciais.
O economista Tomas Fiori, da FEE, chegou a chorar ao final de sua exposição. Ele apresentou o apoio do economista Claudio Accurso, de 87 anos, que não pode comparecer, mas mandou sua solidariedade ao movimento em defesa das fundações. Elencou uma série de operações que resultaram em ganhos significativos para o Estado, que contaram com a participação decisiva da FEE, fornecendo informações e estudos.
Ludwig Buckup: “Alguém precisa dizer ao Sartori que o tempo das passarinhadas já passou, exatamente porque dizimaram tudo”.
O professor Ludwig Buckup, ex-reitor da Universidade Federal, pioneiro da pesquisa científica no Rio Grande do Sul fez uma emocionada defesa da FZB (Fundação Zoobotânica).
Também foram apresentadas informações mostrando a importância das demais fundações ameaçadas: Piratini (TVE e FM Cultura), Fepagro e Fepps.


Todos esses encargos não o impediram de lançar três edições revisadas e ampliadas de um livro em que explora seus conhecimentos de psicanálise e suas relações com três ícones da política do Rio Grande do Sul: Osvaldo Aranha, Flores da Cunha e Getúlio Vargas.








O professor Paulo Roberto Rodrigues, do Observatório das Metrópoles, enfatizou ao papel decisivo de duas fundações – a FEE (Fundação Estadual de Economia e Estatística) e a Metroplan – no planejamento de políticas públicas no Estado. Ambas tem um corpo técnico permanente e um acúmulo histórico de conhecimento que a Universidade não poderá absorver, “até porque a gestão pública não pode se submeter ao tempo da academia”.