Categoria: Geral

  • Ospa celebra 125 anos do colégio Anchieta com concerto gratuito

    Na próxima terça-feira (19), a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) homenageia o Colégio Anchieta por seu aniversário de 125 anos com concerto gratuito na Igreja da Ressurreição – o templo fica dentro da escola, na avenida Nilo Peçanha, 1521.
    Sob a regência do violinista italiano Emanuelle Baldini, spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, os músicos da Ospa vão interpretar duas obras do compositor alemão Felix Mendelssohn (1809-1847). O concerto integra a Série Igrejas e começa às 20h30.
    A vinda de Baldini marca também seu reecontro com a orquestra de Porto Alegre com qual já se apresentou algumas vezes e tem um apreço muito grande. “A Ospa é, para mim, uma família de amigos antes de ser uma excelente orquestra”, conta ele.

  • Arquivo Lauro Hagemann: "O poder público cedeu a interesses privados"'

    Em junho de 2005, o JÁ lançava uma edição de seu jornal de reportagens – hoje transformado em revista – que trazia em um de seus destaques de capa a foto de Lauro Hagemann, falecido nesta segunda-feira (11), aos 84 anos.
    “Botaram gambá no galinheiro”, era a manchete da capa, explicada pela chamada das páginas 4 e 5, nas quais foi publicada. “O poder público cedeu a interesses privados”.
    Era uma referência ao planejamento urbano de Porto Alegre, cidade em que viveu a maior parte de sua vida – Hagemann era natural de Santa Cruz do Sul.
    Cinco vezes vereador da Capital, em seu último mandato 1997-2000), assumiu a função de relator do Plano Diretor da Capital, que estava sendo elaborado naquele momento.
    Foi com esta prerrogativa que, exatos 10 anos atrás, nos dia 13 e 16 de maio de 2005, o comunista recebeu o repórter Guilherme Kolling em seu apartamento no bairro Petrópolis.
    Apenas cinco anos após ajudar a construir a lei que regulamenta a ocupação e o desenvolvimento urbano de Porto Alegre, Hagemann havia se tornado um crítico do texto. Para o jornalista, apesar da fama de ser uma cidade organizada, a Capital gaúcha estava crescendo de forma desequilibrada. “Isso aqui parece um pé de mandioca! Sai uma raiz para cada lado”, criticou.
    Era a deixa para fazer a reflexão que deu origem ao título da matéria. “Esse desequilíbrio é de origem econômica”, observou.
    “O setor interessado em valorizar cada vez mais o território urbano predomina na reformulação da cidade. E isso não é bom, porque a cidade não é propriedade de uns poucos, ela deve ser apropriada por todos. É duro dizer, mas deram o galinheiro para o gambá cuidar”, lamentou.
    Hagemann, entretanto, preferiu ser diplomático ao ser provocado pelo repórter para explicar melhor sua insatisfação. “Não quero agredir ninguém. Entenda quem quiser”, provocou.
    pressão da construção civil
    Segundo seu relato, durante a elaboração do Plano Diretor na Câmara Municipal, houve grande pressão do setor da construção civil – o que não o surpreendia. “Esse campo é muito propício a isso, cada centímetro quadrado de terreno nessa cidade vale uma fortuna, imagina os interesses que movem essa divisão”, pontuou.
    Sua tarefa, como relator, foi escutar as demandas da construção civil – encarnadas na pressão organizada do Sinduscon – e buscar uma solução conciliatória. “Que (se) faça concessões para os interesses imobiliários, mas que esses interesses imobiliários revertam alguma coisa em favor das massa populacional”, pregou, ilustrando em seguida, os diálogos que tinha com os dirigentes da área.
    “Vocês vão levar o pedaço que cabe a vocês. Mas o pedaço que cabe a população vocês têm que respeitar”.
    Hagemann admitiu que “muitas concessões foram feitas, em termos de números, volumetria”. “Isso tudo era negociável”. Mas tinha fé que essas negociações haviam trazido vantagens também para a cidadania.
    Porém, sua impressão sobre o processo de revisão – que começava naquele ano de 2005, mas só seria concluída em 2008 – era bastante pessimista. “Agora receio que o desequilíbrio seja tão grande, que a correlação tenha mudado tanto que não se consiga impedir mais as modificações estruturais que vão nos levar para o brete”, avaliou.
    população está a parte
    Seu temor, segundo confidenciou na entrevista, era que a cidade acabasse refém de um debate sobre planejamento urbano centrado em interesses privados – tantos da categoria política, que nas suas palavras “vive de interesses imediatos”, focada na reeleição, como dos empresários “aproveitadores”. “A cidade pode ficar liquidada por ação da pressa ou da inépcia”, alertou na ocasião.
    A saída para evitar um conchavo que unisse interesses de ambos seria trazer a população para o centro do debate – coisa que Hagemann sabia que era difícil. “É um tema árido! Todo cheio de pontas e muito técnico”.
    Por isso,  o comunista alertou para o grande trunfo da informação sobre o que ocorre na cidade. “Já imaginou se cada cidadão de Porto Alegre soubesse exatamente o que é o Plano Diretor? Estes grandes construtores não iriam a lugar nenhum. Eles precisam desta ignorância”, concluiu.
    A íntegra da entrevista pode ser lida neste link.

  • Burocracia trava encontro nacional de clubes negros

    Naira Hofmeister
    O último final de semana (9 e 10 de maio) deveria ter marcado a realização do terceiro Encontro Nacional de Clubes Sociais Negros do Brasil. O evento, que não acontece desde 2010, seria realizado pela primeira vez em Porto Alegre.
    Mas apesar de ter R$ 335 mil garantidos para a sua realização, burocracia e falta de interesse obrigaram os organizadores a – pelo menos – postergarem o projeto. “Gera uma certa inquietude no movimento, porque é um projeto de mais de dois anos que na reta final está devagar”, lamenta o presidente da Executiva Nacional dos Clubes Sociais Negros, Luis Carlos de Oliveira.
    Segundo Oliveira, em 2013 a entidade conseguiu encaminhar via Fundação Cultural Palmares (FCP) – vinculada ao Ministério da Cultura – um projeto para a realização do encontro nacional. O valor (R$ 300 mil), viria de uma emenda do deputado federal Paulo Ferreira (PT).
    Em dezembro do ano passado, foi assinado um convênio entre a FCP e a Prefeitura de Porto Alegre – que se comprometeu com uma contrapartida de R$ 35 mil para o evento.
    Mas para a concretização da parceria, o Executivo da Capital precisaria fazer um Termo de Referência (TR) – que ainda não foi entregue – discriminando o orçamento: gastos com passagens, hospedagem, locação de equipamentos, etc. “O prazo dado era de 120 dias, que se esgotam em 31 de maio”, revela Oliveira.
    A secretária adjunta da Secretaria Adjunta do Povo Negro (SAPN) – uma subpasta dos Direitos Humanos – Elisete Moretto, garante que não há motivos para temer um eventual cancelamento. “Será preciso adiar as datas para o final do ano, mas prometemos a realização de um evento de grande qualidade como merece a comunidade negra de Porto Alegre e do Brasil”, afiança.
    Segundo Elisete, o Termo de Referência não havia sido enviado até agora porque as liberações de emendas parlamentares estavam represadas pelo Planalto. “Mesmo que tivéssemos encaminhado a documentação, a verba não teria chegado”, explica..
    A confirmação de que o recurso poderia ser entregue teria chegado ao gabinete poucos dias atrás e, desde então, a equipe retomou o trabalho de cálculos dos custos do evento e de redação do TR. “Estamos correndo para ter tudo concluído até a sexta-feira (15)”, anuncia.
    A conta para o depósito já está criada e o recurso da Prefeitura, disponível. “Queremos muito que esse evento aconteça, pois sabemos da importância para o movimento negro”, completa.
    Encontro regional será no sábado
    Enquanto o aguardado Encontro Nacional de Clubes Sociais Negros não tem sua realização confirmada, integrantes do clubismo negro gaúcho se preparam para a realização de um evento regional, neste sábado (16), em Santa Cruz do Sul.
    “Escolhemos essa localidade para facilitar a chegada do pessoal da região Sul do Estado, ao mesmo tempo em que fica central para quem vem de Santa Maria ou de Porto Alegre, por exemplo”, justifica Oliveira.
    A programação inicia às 10h e se estende até o fim da tarde, com debates e a eleição da coordenação estadual do movimento. Uma galinhada será servida ao meio-dia, mas como este evento não tem patrocínio algum, os participantes precisarão desembolsar R$ 15,00 para o almoço.
    A inscrição, entretanto, é gratuita e aberta a todos os interessados – embora Oliveira frise que só terão direito ao voto presidentes ou vices das sociedades. Para participar, basta enviar um e-mail com os dados pessoais para scbuniao@gmail.com
    Clubes temem a especulação imobiliária

    Floresta Aurora se viu obrigada a entregar antiga sede, na beira do Guaíba | Giane Vargas Escobar / Divulgação
    Floresta Aurora se viu obrigada a entregar antiga sede, na beira do Guaíba | Giane Vargas Escobar / Divulgação

    O encontro vai se pautar pelas dificuldades de manutenção que essas instituições – a maioria centenária – enfrentam. Obviamente financiados por sócios negros, que segundo o IBGE ganham em média 60% menos do que os brancos no Brasil, sociedades como o Floresta Aurora, em Porto Alegre – a mais antiga do Estado, com 143 anos – tem sua sobrevivência ameaçada.
    “Quase todas tem dívidas em litígio por falta de pagamento de IPTU”, revela Oliveira.
    O problema, prossegue o dirigente, é que criados em áreas periféricas, o desenvolvimento urbano levou os clubes negros a ocuparem hoje regiões centrais das cidades. “São locais valorizados, que sofrem com a especulação imobiliária”, explica.
    Some-se à isso o fato de que a precariedade das finanças não permite que os clubes renovem fachadas ou promovam melhorias estruturais em suas sedes. O resultado é que o poder público propõe, geralmente, em troca do perdão da dívida, a entrega do terreno.
    Há ainda outras formas de pressão, como o que ocorreu com o Floresta Aurora e o Satélite Prontidão, ambos da Capital: os clubes se viram obrigados a mudar suas sedes para locais distantes das originais em troca do encerramento de processos porque não possuíam vedação acústica adequada. “Mas pode ser por falta de pagamento do Ecad ou por qualquer outra razão. Na verdade, a questão racial é muito forte no Rio Grande do Sul”, lamenta Oliveira.
    Uma saída para a situação seria o tombamento dos clubes sociais negros, o que no caso do Rio Grande do Sul já está sendo negociado com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Estadual (Iphae). “Precisamos encontrar meios de salvaguardar esses espaços que são importantíssimos”, clama o dirigente.
    Dúvida sobre Pontos de Cultura também preocupa
    Outro tema a ser levado para o debate no sábado, em Santa Cruz, é o resultado dos editais dos Pontos de Cultura de 2014, nos quais alguns clubes negros foram contemplados com verbas do Ministério da Cultura.
    Entretanto, com a troca de gestão no Governo do Estado – responsável por firmar os convênios com as entidades – não houve tempo hábil para formalizar os contratos e o processo paralisou. “Não sabemos se ainda podemos contar com os recursos”, lamenta Oliveira.
    O Rio Grande do Sul é o estado com o maior número de clubes sociais negros do Brasil: são 53, espalhados por diversas regiões.

  • Movimento em Defesa do Morro Santa Teresa organiza caminhada

    Ocorre no próximo sábado (16), a partir das 9h30, a XI Caminhada no Morro Santa Teresa, organizada por moradores, ambientalistas e movimentos pela habitação popular.
    O trajeto de pouco mais de 3 quilômetros vai apresentar aos participantes os campos de mata nativa, a saibreira, as comunidades da região e a vista da cidade e da orla do Guaíba – uma das mais emblemáticas de Porto Alegre.
    A intenção é conquistar a atenção de moradores de outras áreas da cidade para o patrimônio natural, arquitetônico e social da área – o grupo pede a regularização fundiária e a criação de um parque no loca, além da preservação dos prédios históricos. O Ministério Público e a Defensoria do Estado assessoram o movimento em suas demandas junto ao Governo do Estado e à Prefeitura de Porto Alegre.
    Em caso de chuva a caminhada ocorrerá no sábado seguinte. Veja no mapa abaixo o trajeto que será feito.
    caminhada

  • Kleiton e Kledir cantam Caio Fernando Abreu e Verissimo

    Geraldo Hasse
    Os irmãos Kleiton & Kledir Ramil estão, desde a noite de domingo (10), no Hotel Everest, nos altos do Viaduto Otávio Rocha, em Porto Alegre.
    Voltaram à Capital (e estarão em Pelotas na quinta-feira) para o lançamento do seu último trabalho: um CD com 10 músicas cujas letras foram escritas por dez escritores gaúchos, de Caio Fernando Abreu a Luis Fernando Verissimo.
    Além das apresentações, os ex-Almôndegas pretendem explicar em bate-papos com o público – que terão entrada gratuita – como esse trabalho começou: Caio Fernando Abreu ainda estava vivo, eram os anos 1990, e todos – Caio, Kleiton e Kledir moravam no Rio. O contista escreveu uma letra (Canção e Purpurina) e deu para os irmãos musicarem. Rolou mas não muito.
    O trabalho foi interrompido com a morte de Abreu em 1996 e só retomado meses atrás, quando Kleiton e Kledir, nas suas vindas ao Sul para shows, passaram a visitar escritores e pedir que participassem da parceria.
    Além de Caio Fernando Abreu, cuja canção contou com a voz de Adriana Calcanhotto, os parceiros são Luis Fernando Verissimo, Martha Medeiros, Fabrício Carpinejar, Leticia Wierzchowski, Daniel Galera, Paulo Scott, Claudia Tajes, Alcy Cheuiche e Lourenço Cazarré – este, o único que não mora no Sul, mas em Brasilia. São todos ficcionistas que nunca haviam escrito letra para música. Alguns saíram do casulo em que vivem.
    O reservadíssimo Verissimo topou tocar sax na gravação de sua canção, na qual se pode notar seu profundo vínculo com o jazz. Com os outros autores, os músicos também fizeram questão de respeitar o gosto musical de cada um. Enquanto Daniel Galera tocou violão e guitarra, Paulo Scott soltou a voz num texto falado. É justamente essa miscelânea autoral e de estilos que confere originalidade ao trabalho da dupla surgida em Pelotas nos anos 1970.
    Financiado pelo Grupo Josapar via Lei de Incentivo à Cultura, o CD Com Todas as Letras exigiu criatividade, paciência e muito tempo. Produzido por Christiaan Oyens e editado pela Biscoito Fino, o disco é acompanhado por um DVD dirigido por Gustavo Fogaça mostrando cenas das gravações, depoimentos e os encontros com os escritores durante o processo de criação. O projeto contou com a curadoria de Luís Augusto Fischer, escritor, ensaísta e professor do Instituto de Letras da UFRGS.
    O CD e o DVD estão à venda e os shows serão realizados em Pelotas, Porto Alegre, São Leopoldo e Novo Hamburgo, conforme a agenda abaixo. Kleiton & Kledir estarão acompanhados pelos músicos Adal Fonseca (bateria), André Gomes (baixo e sitar), Dudu Trentin (teclados) e Marco Vasconcellos (guitarra e violão). O espetáculo terá iluminação e projeções de Marcelo Linhares.
    Agenda
    PELOTAS
    13 de maio (quarta-feira) – bate-papo com K&K
    Local: Casarão 6 da Praça Cel Pedro Osório
    Horário: 18h
    Entrada franca mediante lotação
    14 de maio (quinta-feira) – SHOW
    Local: Theatro Guarany (Rua Lobo da Costa, 849)
    Horário: 21h
    Ingressos: R$ 40,00 inteira e R$ 20,00 meia
    Ingressos à venda na Livraria Vanguarda Matriz (Gonçalves Chaves, 374)
    PORTO ALEGRE
    15 de maio (sexta-feira) – bate-papo com K&K
    Local: Foyer do Theatro São Pedro
    Horário: 18h
    Entrada franca mediante lotação
    16 e 17 de maio (sábado e domingo) – SHOWS
    Local: Theatro São Pedro
    Horário: Sábado às 20h e domingo às 18h
    Ingressos: entre R$ 40,00 e R$ 60,00 (meias R$ 20 e R$ 30)
    Ingressos à venda na bilheteria do Theatro
    SÃO LEOPOLDO
    18 de maio (segunda-feira) – bate-papo com K&K
    Local: Teatro Municipal de São Leopoldo
    Horário: 20h
    Entrada franca mediante lotação
    19 de maio (terça-feira) – SHOW
    Local: Teatro Municipal de São Leopoldo
    Horário: 20h30
    Ingressos: R$ 40,00 inteira e R$ 20,00 meia
    Ingressos à venda na Karisma Papelaria Matriz (Rua Independência, 900 ou 346 – Centro)
    NOVO HAMBURGO
    20 de maio (quarta-feira) – bate-papo com K&K
    Local: Teatro Municipal Paschoal Carlos Magno
    Horário: 20h
    Entrada franca mediante lotação
    21 de maio (quinta-feira) – SHOW
    Local: Teatro Municipal Paschoal Carlos Magno
    Horário: 20h30
    Ingressos: R$ 40,00 inteira e R$ 20,00 meia

  • PT de Porto Alegre em busca de uma saída

    Geraldo Hasse
    No seu terceiro encontro preparatório para o congresso nacional do partido (11 a 14 de junho em Salvador), o PT de Porto Alegre reuniu mais de uma centena de militantes e simpatizantes no sábado (9) para debater como sair do impasse em que se encontra.
    Com o auditório do Sindicato dos Bancários quase lotado, o PT da capital gaúcha elogiou o legado de Olívio Dutra e avançou na ideia de renovar a direção nacional do partido, controlada por paulistas, reduzindo a influência pessoal de Lula, apontado como responsável pela indicação do economista Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda.
    O encontro privilegiou as manifestações dos deputados federais Paulo Pimenta e Maria do Rosário, além do ex-prefeito e ex-deputado estadual Raul Pont.
    Cada um deles teve 15 minutos para expor seus pontos de vista. Em seguida, manifestaram-se 17 pessoas, cada uma com três minutos.
    No final, o trio Pimenta, Rosário e Pont teve mais de cinco a dez minutos para uma síntese das propostas levantadas na reunião, considerada bastante convergente e produtiva. A seguir, uma síntese das falas, por ordem de entrada em cena:
    RAUL PONT: “PRECISAMOS REVER NOSSAS ALIANÇAS”
    Começou recomendando a leitura de um documento de Samuel Pinheiro Guimarães (Impeachment, golpe de Estado e ditadura de “mercado”) publicado em março; e de uma entrevista de Leda Paulani, economista da USP, que se declarou “bastante decepcionada” com os rumos do segundo governo de Dilma.
    “Depois de 12 anos vividos no comando do país, eu partilho da tese de que o partido precisa mudar principalmente em relação ao delineado em 2003 quanto ao pragmatismo em favor da governabilidade”, introduziu.
    “As alianças feitas com o centro e a direita não nos atendem e cobram um preço programático e ideológico. Acredito que vivemos uma transição da qual precisamos sair com uma alternativa para 2018”, defendeu.
    Segundo Pont, a experiência dos governos petistas de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul mostra que é possível executar o que classificou como “uma nova política”. “Nem precisamos fazer orçamentos participativos bonitinhos, mas não podemos depender do PMDB, essa federação melequenta com quem não é possível tocar nenhum projeto de futuro”, alfinetou.
    O ex-deputado foi duro com o sistema de alianças à direita: “são danosas” e sugeriu formar uma frente o PSol e o PCdoB – “sem abandonar o centro trabalhista e mantendo conversas com esses partidos republicanos que estão por aí meio sem rumo”.
    Lembrou que o partido enfrenta um momento delicado, “só com fatos negativos contra nós”: a crise internacional, “a tragédia” da Petrobras, derrotas na Câmara e no Senado, as dificuldades com a opinião pública.
    “E temos de agir logo porque a companheirada do interior já está ligando para saber com quem poderá se aliar para as eleições de 2016”.
    Para Pont, os pontos básicos da retomada das origens do PT devem ser a retomada do sistema congressual de consulta às bases e o voto direto para todos os filiados, que também deveriam ter uma contribuição financeira obrigatória (pelo menos semestral).
    Ocupantes de cargos públicos ou em comissão deveriam pagar uma mensalidade à sigla e ao sistema de arrecadação que mantém o PT precisa ser desburocratizado. “Hoje está excessivamente centralizado na direção nacional”.
    Pont clamou ainda pela aplicação do estatuto que prevê o afastamento de todos os dirigentes indiciados em inquéritos policiais/judiciais. “Precisamos considerar que o foco é o PT, que vem sendo apontado como culpado de tudo. Sangramos dez anos com o Mensalão e agora estamos arcando com a desgraça da Petrobras. Temos de ser exemplares no combater a quaisquer privilégios que o Estado burguês criou para nos cooptar”, finalizou.
    ROSÁRIO: “NOSSOS ALIADOS SÃO INIMIGOS”
    A deputada federal Maria do Rosário iniciou sua fala referindo-se à uma “semana dura em Brasília”, com o debate sobre a crise, que tem um viés econômico e outro político – mas que é também uma crise ética.
    Rosário concordou com Raul Ponto sobre alianças inadequadas. “A direita não vai desistir. A aliança estratégica do PMDB é contra o PT. Os nossos aliados de governo são nossos adversários estratégicos”.
    A deputada notou que “há uma crise de confiança em relação às conquistas obtidas pelos governos petistas. Ninguém fez mais políticas sociais nem criou infraestrutura para o desenvolvimento do que o PT, mas só elegemos dois senadores em 2014 –sendo governo!”.
    Ela fez também uma referência às manifestações de 2013 – sua leitura é de que o PT não soube escutar corretamente as ruas, que “mostraram o esgotamento de nossa relação com a sociedade”
    Para piorar o cenário, há as medidas provisórias referentes ao seguro-desemprego e direitos dos trabalhadores, editadas pelo Planalto. “Mas elas não fazem ajuste econômico”, criticou.
    Pelo contrário, prosseguiu Maria do Rosário, “as metas do governo nos isolam”.
    Mais uma vez seguindo linhas parecidas com a de Raul Pont, a deputada lembrou do distanciamento com a base do partido e questionou a fala de preocupação com a fomração de novos militantes.
    “Não criamos associações de bairros nos locais onde construímos casas. Fizemos uma renovação da política educacional e não temos canais com os estudantes. E temos de engolir um ministro Mangabeira nos apresentando uma baboseira sobre a Pátria Educadora!”
    PAULO PIMENTA: “a direita domina”
    O também deputado federal Paulo Pimenta iniciou sua participação com um questionamento: “Os governos petistas tiraram 36 milhões de pessoas da miséria e agora estamos numa crise que nos coloca diante da pergunta: ainda é possível construir uma democracia socialista num só país?”
    Embora tenha também tecido críticas à aliança PT-PMDB, Pimenta foi mais conciliatório. “A coalizão feita por Lula em 2003 resultou numa política econômica que não apenas tirou milhões da pobreza, via criação de empregos, distribuição de renda e investimentos em inclusão social. Ela beneficiou o agronegócio, os bancos, a construção civil, empresários da infraestrutura, e de outros setores industriais e de serviços, que foram, beneficiados com o fomento do BNDES, e financiamentos do Banco do Brasil e da Caixa”.
    Apesar disso, Pimenta acredita que esse modelo de crescimento via incentivo ao consumo chegou ao limite em 2014, apesar da influência da crise financeira global de 2008.
    “Embora tenha aproveitado as medidas de Lula e Dilma, a verdade é que o capital não nos enxerga como aliado, tanto que apostou no Aécio”, recordou, acrescentando que mesmo derrotada, a elite financeira “continua na ofensiva atrás de suas metas: reduzir os custos da mão-de-obra via terceirizações, diminuir o papel do Estado na economia, incentivar a privatização de ativos estatais”.
    “Não nos iludamos, a direita tem 80% do Congresso. Além disso, tem a mídia, o empresariado e o Judiciário”, anotou ainda.
    Pimenta também abordou a organização de base, assim como seus colegas que o antecederam ao microfone. “Precisamos admitir que o erro não foi do governo. Quem errou foi o partido ao desconstituir-se como organizador da sociedade. Nossos quadros foram todos para dentro dos governos”, lamentou.
    Porém, agora, com o PT assumindo um “papel secundário” no governo federal, a situação está ainda pior. “Corremos o risco de perder nos próximos três anos o que construímos nos últimos trinta anos”.
    Juventude teme caminhar para trás
    Uma das integrantes da Juventude Petista, Rossana Prux, fez coro à Maria do Rosário, criticando a falta de ações diante das manifestações de 2013. “O partido ficou perplexo”, lamentou.
    “A direita soube capitanear melhor 2013 melhor do que o PT. Após cinco meses de governo, a juventude teme caminhar para trás”.
    Lembrou de projetos que tramitam no Congresso Nacional com forte apelo conservador, como a terceirização dos contratos de trabalho, a redução da maioridade penal, a abolição do T das embalagens dos transgênicos.
    “Seguindo assim, em 2018 não vai ter Lula que resolva. Nossa agenda não pode ficar restrita a segurar a onda conservadora”, clamou, completando que é preciso “empurrar o partido mais para a esquerda”.
    O militante Pedro Loss concordou. “Sabemos o que precisa ser feito: retomar as bandeiras históricas e virar protagonista outra vez”
    O economista Ubiratan de Souza, também seguiu na mesma linha, lembrando que a política econômica que está sendo implementada não tem coerência com as propostas eleitorais de 2014.
    “O problema não é a Dilma. O problema é que ela foi pressionada a nomear Joaquim Levy para a Fazenda. Essa política está criando inflação e desemprego. E aumentando os ganhos do rentismo. A última elevação em 0,5% dos juros do Banco Central significa um ganho de R$ 12 bilhões/ano para os rentistas. É um ajuste fiscal ao contrário, em favor do sistema financeiro. Tudo isso começou com a política de coalizão criada por Lula em 2003”, apontou.
    A escritora Tania Jamardo Faillace atribuiu as dificuldades atuais à uma postura ainda mais anterior do partido. “A atual situação do PT começou lá atrás quando Zé Dirceu promoveu filiações on line, abrindo as portas do partido para um monte de vagabundos”.
    Para a militante, Dilma está sozinha e o ministro da Defesa, Jacques Wagner “é homem do Pentágono”. Lula tampouco merece a confiança da base.
    Já Mamão lembrou que o mesmo modelo de coalização que foi alvo de diversas críticas ao longo do sábado foi adotado em estados e prefeituras administradas pela sigla. “Mas o PT não sabe usar a burocracia”, observou.
    O presidente da primeira zonal do PT de Porto Alegre, Erick da Silva lamentou a falta de consultas às bases. “O PT não foi consultado sobre a nomeação dos ministros Levy,
    Katia Abreu, Kassab e outros representantes de um lado da dicotomia que vem desde o primeiro governo Lula. Portanto, digo desde já que o 5º congresso do PT não vai resolver porque os delegados já foram eleitos há anos. O PT se desidrata a cada eleição. Precisamos mudar a direção do partido”, provocou.
    Rodrigo Campos concordou. “O 5º congresso dificilmente vai mudar algo no PT, que se acomodou demais no poder e deixou de se ocupar com as atividades partidárias de base. Agora, com Eduardo Cunha na Câmara, as reformas ficaram mais difíceis. Além disso, o que informa e influencia o governo são os colunistas da mídia conservadora”, lamentou.
    Retomada das bandeiras é imperativo
    Reginete Bispo, do Movimento de Mulheres Negras estava pessimista. “Acho que já perdemos esse governo. Lamento dizer que o fortalecimento do neoliberalismo fascista tem como base a intolerância, o machismo e o racismo”, introduziu.
    Para ela, a saída é recuperar a relação com os beneficiados pelas políticas públicas dos governos petistas.
    O advogado Luiz Augusto Waschburger relembrou o senador João Paulo Bisol.
    “Vi na TV Senado um depoimento comovente dele, dizendo que o PT foi a coisa mais fantástica que já aconteceu no Brasil. E que só o amor poderá recuperá-lo”.
    Pediu que o PT não se envergonhe de suas bandeiras, pois na sua opinião, só vai retomar seu caminho se “buscar coisas como a regulamentação da mídia e a reforma política”.
    A professora Sueli Mousker abordou as razões para o afastamento da militância. “Não queremos deixar de defender Dilma, mas como defender esse governo”?
    Ela também aposta em um reencontro com ideias pregados no passado, especialmente focados na ecologia. “A energia solar era nosso tema, alimentação orgânica era nossa bandeira”, resumiu.
    O servidor público Ademir Medeiros Rodrigues relatou que há seis meses tenta reunir militantes.
    “Venho lá da zonal 160, na Vila Nova. No primeiro de maio, fui pra Volta do Gasômetro com um vizinho. Assamos uma carne. Não vi petista por ali, apesar da questão duríssima que representa a terceirização da mão-de-obra. Estou me sentindo bastante solito, mas marquei para o dia 26 de maio às 20 horas uma reunião lá na sede do CTG Inhanduí, na Vila Nova”, anunciou
    União é a palavra de ordem
    O professor Assis Brasil Olegário Filho também fez sua análise sobre as jornadas de junho de 2013. “Há alguns anos, André Singer anunciou em livro o fim do modelo lulista. Hoje sabemos que o reformismo social desmobilizou os movimentos de base. Ao incorporar consumidores, o partido não fez politização”.
    Militante antigo, Sylvio Nogueira culpou a atual direção da sigla. “Qual a orientação do partido para atuar junto aos movimentos sociais? Onde está aquela estrutura de participação? Precisamos voltar aos núcleos de atuação”, defendeu.
    Jussara Dutra, utilizou seu tempo para falar sobre uma recente viagem ao Chile, onde participou de uma reunião da Internacional da Educação. Segundo seu relato, a presidenta Michelle Bachelet apareceu no meio da reunião – no mesmo dia em que havia demitido todo o seu ministério.
    “Ela foi lá conversar com o presidente do sindicato nacional dos professores, comunicar a decisão de desprivatizar escolas que haviam sido desestatizadas pelo general Pinochet. Portanto, o que eu trouxe dessa viagem do Chile foi a lição da unidade. Unidade, essa é a palavra do momento para o PT e para a esquerda”.
    Militância cobra coragem para agir
    A advogada Tâmara Biolo Soares queria saber se o debate feito no sábado vai significar alguma ação objetiva. “Foram muito boas falas aqui entre nós, diante de dois deputados federais, mas eu pergunto: quando o conteúdo exposto nesses debates vai se transformar em ações e medidas do partido”?
    O servidor público Luiz Borba narrou sua surpresa ao se deparar, nas eleições de 2014, com eleitores do PSDB que haviam ingressado em universidades graças ao ProUni, programa criado na gestão de Lula na Presidência da República.
    “Infeliz o dirigente de esquerda que não entende que o modelo de governo de coalizão criado por Lula começou a vazar em 2005. Todos fazem boas análises, mas o que falta mesmo é coragem para agir”, avaliou.

  • Congresso sobre engenharia do vento tem mais de 500 inscritos

    O Centro de Eventos da PUC, em Porto Alegre, será palco do 14ª edição do Congresso Internacional de Engenharia do Vento (ICWE, na sigla em inglês), que acontece pela primeira vez na América do Sul.
    O evento já conta com mais de 500 inscritos de 37 países. Os chineses, por enquanto, são os maiores interessados, com mais de 120 confirmações.
    Também está assegurada a participação de delegações do Canadá, Estados Unidos, Japão, Austrália, Inglaterra e Alemanha.
    O congresso acontece de 21 a 26 de junho de 2015. As inscrições para o público participante permanecem abertas no site.
    Esta será a oportunidade para engenheiros, arquitetos, meteorologistas, estudantes e demais profissionais participarem do fórum de discussões e resoluções dos problemas relacionados à interação do vento com o ser humano e o meio ambiente.
    O evento acontece a cada quatro anos e está sendo organizado pelo diretor do Laboratório de Aerodinâmica das Construções (LAC) da UFRGS e presidente do comitê organizador do evento e também da Associação Brasileira de Engenharia do Vento, Acir Mércio Loredo-Souza.

  • Porto Alegre recebe companhia russa de balé

    Com 40 solistas conhecidos como “as joias do balé russo”, dirigidos pelo premiado Viacheslav M.Gordeev, do Bolshoi de Moscou, o Russian State Ballet desembarca em Porto Alegre nos dias 27 e 28 de de junho.
    O grupo, que sobe ao palco do Teatro do Bourbon Country, apresenta duas obras em uma única noite: o conto de Sheherazade e a fábula de Dom Quixote.
    “É um espetáculo grandioso, que estará percorrendo dezenas de cidades brasileiras e países vizinhos, do Uruguai ao México, incluindo o Suriname e as Guianas Francesa e Inglesa”, explica o produtor Augusto Stevanovich, responsável pela turnê latino-americana do grupo.
    Os ingressos ainda não estão à venda.
    Reis e fidalgos
    Embora muito populares, as obras que o balé russo traz à Capital são montagens incomuns para a dança.
    Sheherazade narra a história do rei da Pérsia, que descobre a infidelidade de sua mulher. Decepcionado e furioso, ele mata a mulher e o amante, um escravo, convencendo-se por este e outros casos de infidelidade que nenhuma mulher do mundo é digna de confiança. Decide então que, daquele momento em diante, dormirá com uma mulher diferente cada noite, mandando matá-la na manhã seguinte: desta forma não poderá ser traído nunca mais.
    Já a clássica Dom Quixote conta as desventura do fidalgo castelhano que perdeu a razão por muita leitura de romances de cavalaria. Imbuído de um espírito de justiça e nobreza, e em companhia de Sancho Pança, sai em incursão por terras de La Mancha, de Aragão e da Catalunha.

  • Babel on line: comunicação digital e capitalismo

    Geraldo Hasse
    Quando a TV chegou ao Brasil, décadas atrás, alguém tentou vender um televisor a um próspero agricultor, homem razoavelmente bem informado, assinante de jornais e radiouvinte contumaz.
    Meio de má vontade, já sabendo que o novo brinquedo tecnológico começava a ornar a sala dos ricos da cidade, o bom homem rural aceitou ir a uma loja.
    Diante do caixote luminoso, foi informado de que era preciso dispor de uma certa infraestrutura para usar o aparelho: uma mesa perto de uma tomada de luz e – o mais difícil – uma antena no telhado, para captar as imagens.
    Naquele horário vespertino, na loja, clientes e vendedores podiam assistir a um filme no principal canal disponível. Em outro canal, rolava uma novela, mas a imagem estava com chuviscos. Na terceira emissora, arrastava-se um xaroposo programa de estúdio.
    O agricultor ficou decepcionado:
    – Se a televisão é só isso, não me interessa.
    O vendedor e outras pessoas presentes lhe perguntaram qual era sua expectativa em relação à novidade. Ele explicou:
    – Me falaram tanto da TV que eu imaginei assim: a gente vai girando um botão e escolhe um programa. Pode ser a paisagem de um país distante, uma partida de futebol, uma corrida de cavalos, um filme, uma orquestra, um programa de notícias e assim por diante – tudo muito rico e mais variado do que um cinema, mas de acordo com meu desejo, não com a vontade da estação de TV.
    Encurtando o causo, o agricultor morreu com mais de 80 anos em 1994, o ano em que a internet entrou timidamente no Brasil. Portanto, ele não teve a oportunidade de acompanhar o que vivenciamos hoje em dia: boa parte do mundo está conectada, é como se vivêssemos numa torre de Babel em que as pessoas (as que podem, claro) se comunicam e se entendem, ou brigam.
    Imaginemos aquele agricultor, hoje centenário, diante de um moderno televisor ligado num provedor de TV a cabo e zapeando à vontade entre uma centena de canais de TV. Será que ele se sentiria satisfeito e realizado por poder ver tantos filmes, e jogos, e jornais, e musicais, e programas de aventuras nas paisagens mais exóticas?
    Simplificando, podemos dizer que chegamos perto do ponto imaginado pelo agricultor de nossa história. De uma forma ou de outra, hoje podemos desfrutar de facilidades semelhantes àquelas imaginadas meio século atrás por nosso matreiro personagem.
    Fruto do casamento da informática com a telecomunicação, a internet revolucionou a vida moderna.
    É claro que é preciso dispor de certa infraestrutura técnica, mas basta acionar o mouse de um computador ou as teclas de um controle de TV ou de um telefone celular para ter acesso a 1001 imagens de diversas partes do mundo.
    Fácil e divertido, não? Barato não é, mas o que é barato no mundo moderno? (Um cafezinho no bar da esquina custa mais do que um quilo de açúcar no supermercado).
    Muito mais rápida no gatilho do que jornais e revistas, a internet não é apenas um meio de comunicação. É uma ferramenta de múltipla utilidade e com alta capacidade de interação com as fontes de informação e a massa de internautas.
    O meio que mais se aproxima da mídia digital, em rapidez, é o rádio, mas a este falta a imagem, o grande trunfo da televisão, naturalmente mais lerda porque depende do deslocamento de equipamentos pesados e equipes numerosas. E de patrocínios consistentes. A infraestrutura que garante a qualidade das imagens/palavras está montada.
    O que importa lembrar aqui é o seguinte: diante do avassalador poder de comunicação dos meios digitais, as emissoras de rádio e TV, os jornais e revistas reduziram seu raio de investigação, contentando-se em ser instrumento de lobbies que se especializaram na produção de dicas, dossiês e releases – tudo com um viés substancialmente mercantil.
    Esse perfil comercial, submisso a quem paga mais, transformou a maioria dos profissionais da comunicação em meros serviçais acríticos e aéticos.
    De uma forma ou de outra, como refletiu o agricultor de nossa história, todos nós consumidores/usuários continuamos submissos à vontade dos donos dos meios de comunicação.
    Mas não é somente aí que mora o perigo.
    O perigo maior está na cartelização e na oligopolização dos meios de comunicação. Em alguns países, essas deformações são proibidas por lei. Em outros, caso do Brasil, a própria mídia dominante argumenta que controlar a (de)formação de redes tentaculares seria impor a censura e ferir a liberdade de expressão.
    O governo se intimida e não ousa propor nada. E segue o baile dirigido pelos grupos que transformaram a comunicação social num negócio altamente rentável. O interesse público foi colocado de lado.
    Bem ou mal, enquanto os profissionais da comunicação de massa seguem manuais técnicos e códigos morais que têm como norte o compromisso com os valores democráticos e os direitos humanos, os donos dos negócios midiáticos estão severamente subordinados ao pensamento único ditado pelas leis do mercado ou, seja, “para vender mais, fazemos qualquer negócio”.
    Veja, a propósito, o que escreveu em seu último artigo na Carta Maior o ensaista Emir Sader: “O estilo de consumo ‘shopping  center’ se globalizou de maneira aparentemente avassaladora. É uma espécie de ponta de lança do neoliberalismo, materializando seu principio geral, de que tudo é mercadoria, tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra”.
    Sim, sempre houve um conflito entre a liberdade de expressão dos comunicadores profissionais e a necessidade de sobrevivência material dos empreendimentos midiáticos, mas nunca talvez na história da humanidade se viveu uma crise tão intensa e larga como a atual. Nesse contexto, o vigor da mídia digital é enganoso.
    O estar conectado (ao mundo digital) é uma espécie de droga. Quem se sujeita à conexão permanente por meio dos diversos instrumentos de comunicação digital está inexoravelmente submetido às pautas do mercado, que se orienta pela razão mercantil.
    O mercadejar insano que acompanha todos os movimentos em torno da modernização tecnológica conspira contra a vida em harmonia com a natureza, entendida como um contato amigável com animais, vegetais, terra, mar e ar.
    Observe como muitas pessoas se tornaram, mais do que usuárias, dependentes, viciadas em aparelhos digitais, que servem à comunicação pessoal mas estão infiltrados por mil estratégias de mercantilização.
    Esses instrumentos diabólicos que condensam telefonia, informática, eletrônica, máquina de escrever, canal de correio e notícias, aproximam as pessoas distantes e isolam quem está próximo.
    Em qualquer lugar, podemos ver diversas pessoas juntas fisicamente, mas dispersas espiritualmente, graças ao uso das vias digitais disponíveis.
    Até na rua as pessoas caminham de olho nos seus aparelhinhos de comunicação digital, buscando nutrir-se de informações superficiais e apressadas.
    Aparentemente, a alienação sustentada pela mídia alimenta a robotização das pessoas. Tem-se a impressão de que a rede mundial de computadores assumiu efetivamente a liderança do processo de comunicação de massa, sobrepondo-se aos meios tradicionais – jornais, revistas, rádio, TV.
    Está pendente de confirmação o vaticínio segundo o qual os meios impressos (jornal, revista, livro) vão morrer nas garras da mídia eletrônica, mas a verdade é que, atualmente, a comunicação de massa parece depender mais do tiroteio vigente na rede mundial de computadores do que da modorra dos meios convencionais de informação.
    Diante dessa parafernália midiática, o que diria o agricultor da nossa história? Acredito que ele juntaria suas tralhas de pesca e diria:
    “Minha gente, tô sartando fora!”
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “Para mim a política é a luta para que a maioria das pessoas tenha uma vida melhor. Viver melhor não é apenas ter mais: é ser feliz, e isso tem a ver com as carências materiais, mas também com outras coisas.”
    Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, que continua usando um fusca 1973 e morando numa chácara nos arredores de Montevidéu.

  • Zaffari banca obras em troca de área pública

    Patrícia Marini
    A Companhia Zaffari está desembolsando R$ 6,8 milhões para financiar obras em sete praças e parques de Porto Alegre. O valor é a contrapartida da empresa à Prefeitura, pela autorização para um novo empreendimento do grupo na rua Alcides Cruz, no bairro Santa Cecília. Será um Bourbon Shopping, com inauguração prevista para março de 2017.
    Os R$ 6,8 milhões correspondem à conversão de uma área pública de 3,3 mil m² decorrente do parcelamento do terreno, que tem 16 mil m².
    Doada ao sindicato dos eletricitários em 1925, a área abrigou durante 80 anos a sede e o campo de futebol do Grêmio Esportivo Força e Luz. Em 2006, o Zaffari comprou o terreno dos sócios remanescentes do clube por R$ 9,5 milhões.

    Estádio Força e Luz
    Terreno do Força e Luz abrigará um Bourbon Shopping em 2017 | Tânia Meinerz/Arquivo JÁ

    O termo de compromisso entre o Zaffari e a Prefeitura, definindo as contrapartidas pela conversão da área pública, foi assinado em outubro de 2014.
    No início deste ano começaram a ser projetadas as obras, que no momento estão em andamento.
    Redenção é investimento principal
    São sete obras de portes diversos em praças e parques da cidade. A principal é a revitalização do eixo central do parque da Redenção, cujo custo está orçado em R$ 1,8 milhão.
    Os trabalhos no parque envolvem um novo sistema de drenagem no entorno do eixo central, recuperação do calçamento e ajardinamento.
    A previsão é ter tudo pronto em agosto, a tempo das comemorações dos 80 anos do Parque Farroupilha, nome oficial da Redenção desde 1935, quando foi o palco das celebrações do centenário da “grande revolução”.
    Há ainda outras obras, como a recuperação do Largo Adair Figueiredo, que fica ao lado do Zaffari Ipirangão, na rua Vicente da Fontoura..
    A área recebeu equipamentos de ginástica, parquinho infantil e quadra poliesportiva. Também foi derrubada uma falsa seringueira, que escurecia a passagem pela escadaria que com saída para a rua Lucas de Oliveira.
    Outra praça que está sendo recuperada pelo programa é a João Paulo I, no bairro Santana – que estava praticamente abandonada. Além do ajardinamento, a área verde vai receber bancos, brinquedos e nova iluminação.
    Outras contrapartidas
    Também cabe ao Zaffari a reforma da sede da administração do Parque Maurício Sirotsky Sobrinho e a implantação de um eixo viário interno do parque, tudo com projeto da empresa, a partir de referências e de um estudo preliminar da Secretaria de Meio Ambiente (Smam).
    No belvedere Ruy Ramos, na rua das TVs, no Morro Santa Teresa, é compromisso do Zaffari o projeto executivo de reurbanização, a partir de um projeto urbanístico-paisagístico da Prefeitura. Ali, a companhia vai projetar e construir um prédio comunitário.
    No Parque Chico Mendes, na Zona Norte da Capital, o grupo providenciará o cercamento com gradil de concreto vazado de um trecho de um quilômetro no perímetro da área do parque. A reurbanização da Praça Visconde de Taunay, no bairro Santana, também segue projeto da Smam.
    Esta matéria está publicada no jornal JÁ Bom Fim de maio, que já está circulando.