Categoria: Geral

  • Beckett pelas ruas do Centro Histórico

    A riqueza de um dos principais escritores do “teatro do absurdo” vai tomar conta das equinas de Porto Alegre nesse mês de maio. Samuel Beckett inspirou os artistas do Núcleo de Pesquisa Beckett-we a criarem e lançarem, em parceria com a Ato Cia Cênica, o #7xBeckett, um espetáculo de teatro de rua que invade o centro da capital a partir de 15 de maio.
    O formato é inusitado: são sete diferentes cenas, interpretadas em sequência em sete pontos da Rua da Praia (veja o serviço abaixo), entre a ESquina Democrática e a Praça Brigadeiro Sampaio. É possível assistir cada uma separadamente ou a obra completa – mais atenção, pois aí serão necessárias três horas.
    A poética do autor também será retratada ao público através de situações inquietantes como a colocação de figuras imóveis em uma das esquinas mais caóticas da cidade, uma boca gigante e discursos cheios de caos e fúria.
    A peça estreia na sexta-feira, 15 de maio e terá mais nove apresentações: dias 17, 18, 19, 22, 24, 26, 27, 29, 31 de maio.
    Grupo surgiu em 2012
    A atriz Luciana Tondo conta que o núcleo surgiu em 2012 como uma proposta de pesquisa no curso de Teatro da UFRGS. “O eixo principal da pesquisa – que já está vinculada ao mestrado da UFRGS – são as possibilidades de diálogo poético entre o autor Samuel Beckett e as pulsações contemporâneas”, explica.
    Em sua primeira produção profissional, o Núcleo Beckett-we conta com a participação de alguns integrantes da pesquisa, juntamente com artistas convidados, para a realização do espetáculo #7xbeckett.
    A peça tem direção de Mauricio Casiraghi, e o elenco é formado por Luciana Tondo, Marcelo Mertins, Mariana Hörlle, Mariana Rosa e Paulo Roberto Farias.
    Para dar conta da loucura que é apresentar em sequência na rua, o espetáculo traz também com um elenco de apoio formado por Fernanda Fiuza, Guilherme Faller, Rafael Domingues, Renan Barão, Valentina Cury e William Andrius.
    A preparação corporal é de Daggi Dornelles, a cenografia de Mauricio Casiraghi e os figurinos de Fabrízio Rodrigues. O espetáculo foi contemplado nos editais Fumproarte e Funarte – Artes Cênicas na Rua.
    Serviço
    #7xbeckett – teatro de rua
    Dias 15, 17, 18, 19, 22, 24, 26, 27, 29, 31 de maio, a partir das 18h30
    Começo na Esquina Democrática – o espetáculo segue por diversas esquinas do Centro Histórico
    Entrada franca
     
    Cena 01
    Esquina Democrática
    Duração: 20 min
    Horário da ocorrência: 18h30 -18h50
    Cena 02
    Esquina Democrática até cruzamento entre Rua General Câmara e Rua dos Andradas (calçadão)
    Duração: 25 min
    Horário da ocorrência: 18h50 – 19h15
    Cena 03
    Travessa dos Cataventos/CCMQ
    Duração: 20 min
    Horário da ocorrência: 19h30 – 19h50
    Cena 04
    Escadaria Igreja das Dores
    Duração: 30 min
    Horário da ocorrência: 20h – 20h30
    Cena 05
    Escadaria Igreja das Dores
    Duração: 15 min
    Horário da ocorrência: 20h30 – 20h45
    Cena 06
    Praça Brigadeiro Sampaio
    Duração: 15 minutos
    Horário da ocorrência: 21h – 21h15
    Cena 07
    Praça Brigadeiro Sampaio
    Duração: 15 min
    Horário da ocorrência: 21h15 – 21h30

  • Sob protestos, Câmara aprova torres no cais do Recife

    Foi aprovado às pressas pela câmara de vereadores do Recife – e sancionado no mesmo dia pelo prefeito, Geraldo Júlio (PSB) – o projeto que permite a construção de 13 torres de 18 andares na zona do antigo cais da capital pernambucana, que será demolido.
    A oposição se retirou do plenário e o projeto foi aprovado por 22 votos a zero na primeira votação e por 23 votos na segunda, após passar pelas comissões da Casa.
    O projeto é polêmico e enfrenta resistência de um movimento denominado Ocupe Estelita, referência ao Cais José Estelita, área histórica do Recife onde serão erguidos os prédios.

    Projeto prevê a construção de 13 torres com até 18 andares na área histórica da cidade | Reprodução
    Projeto prevê a construção de 13 torres com até 18 andares na área histórica da cidade | Reprodução

    Após a votação de emergência no Legislativo, que não previu a apreciação em plenário na agenda pública da Casa, o prefeito, que estava em São Paulo, sancionou imediatamente a decisão.
    A pressa decorre de uma Ação Civil Pública que ao Ministério Público estava preparando para rever o projeto denominado Novo Recife.
    Sessão tumultuada
    A sessão na Câmara, que ocorreu na segunda-feira, 4, foi tumultuada e a polícia teve que intervir para conter os manifestantes. O batalhão de choque foi convocado para o local. Os manifestantes cercaram o prédio e tentavam impedir a saída dos vereadores depois da votação.
    O prédio da Câmara foi fechado durante a votação, apenas alguns manifestantes ocuparam as galerias e bateram boca vereadores. Eles chegaram a jogar um chinelo no plenário.
    “Quando decidimos fechar as portas um grupo de pessoas já havia entrado. Por precaução, por segurança, não permitimos que mais ninguém entrasse”, disse o presidente, Vicente André Gomes (PSB).
    Câmara barrou a entrada de manifestantes durante a sessão que aprovou a construção de 13 edifícios | ABr
    Câmara barrou a entrada de manifestantes durante a sessão que aprovou projeto | Agência Brasil

    As manifestações continuaram nesta terça-feira (5) com passeatas pela cidade e a ocupação da área, que abrange três cais do antigo porto. Cerca de 500 manifestantes estariam no local.
    No grupo Direitos Urbanos, no Facebook, os manifestantes pedem que simpatizantes levem água, comida e lençóis.

  • Cpers promete "fazer tremer as paredes do Piratini" a partir de sexta

    O Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul, Cpers, está convocando a categoria para um sinetaço na próxima sexta-feira (8). O objetivo do protesto é dar um ultimato ao governo do Estado sobre a instalação da mesa de negociações com os educadores.
    O Cpers considera “um descaso” da atual gestão a demora em iniciar o diálogo sobre as reivindicações trabalhistas da categoria. Os professores exigem o pagamento imediato de um aumento de 13,01%, fixado pelo Ministério da Educação em janeiro, além de uma proposta para a efetiva incorporação ao salário de um completivo concedido pelo ex-governador Tarso Genro, em caráter emergencial, sobre o qual não incidem os benefícios – férias, 13º salário, etc.
    O sinetaço ocorrerá nos três turnos nas escolas (11h, 16h30min e 21h) e os professores aposentados deverão se manifestar batendo sinetas ou campainhas de suas casas nos mesmos horários.
    A presidente do Cpers, Helenir Aguiar Schürer, considera o 8 de maio como “o dia D”. Após essa data, a categoria iniciará a “construção da greve”.
    “Vamos construir uma greve forte, que lembre os bons tempos do nosso sindicato, em que fazíamos tremer as paredes do Piratini”, alerta a dirigente.
    Sindicato denuncia ato falho de Sartori
    Não bastando o mal-estar com o governo pela demora no início das negociações com a categoria, o sindicato denunciou o que teria sido um ato falho do governador José Ivo Sartori: ao passar por uma manifestação de professores – diante da Assembleia Legislativa, nesta terça-feira (5) – que prestava solidariedade aos colegas do Paraná, Sartori teria dito que “a culpa tinha sido dos professores”.
    Na última quarta-feira, dia 29, educadores do Paraná sofreram brutal repressão da polícia estadual ao protestar contra um projeto de lei que modificava o regime de previdência do funcionalismo público. O confronto resultou em mais de 200 educadores feridos, 11 em estado grave.
    Segundo o Cpers, no início do protesto de hoje, em Porto Alegre, Sartori teria dito, diante de diversas testemunhas: “A culpa daquilo tudo foi dos professores”, explicando em seguida, os motivos pelos quais apoia a atuação do governador Beto Richa.
    A assessoria de comunicação do governador negou ao jornal Sul21 que tenham sido essas as palavras empregadas pelo chefe do Executivo. Sartori, segundo a versão do Piratini, disse: “Vocês sabem de onde eu venho e quem eu sou”, dando a entender que não se manifestaria sobre ações de governo de outro estado.

  • Walter Lídio encara o grenalismo

    GERALDO HASSE
    Com a arrancada da nova fábrica de Guaíba no primeiro domingo de maio de 2015, a Celulose Riograndense passa a fazer parte do clube gaúcho do bilhão de dólares por ano.
    Está ao lado da Gerdau, Lojas Renner, Sicredi, Braskem, Randon, Marcopolo, Tramontina, Grendene, Getnet, Bianchini, SLC e Vonpar, segundo o ranking 2014 da revista Amanhã, com as 500 maiores do Sul.
    Até agora, por causa de sua turbulenta trajetória ambiental e sua baixa expressão econômica, a empresa química guaibense não se arvorava a ter voz no seleto grupo dos grandões do Estado.
    Com a quadruplicação de sua capacidade – de 450 mil toneladas para 1,8 milhões de toneladas ao ano -, a empresa parece disposta a perder o medo de ser grande, pois deverá causar um impacto de 1,1% no Produto Interno Bruto gaúcho, segundo estimativa da Fundação Getúlio Vargas.
    Esse novo status combina com a postura mais assertiva do seu principal executivo, o engenheiro Walter Lídio Nunes, que liderou as obras de expansão da empresa, na qual foram investidos US$ 2,2 bilhões.
    No encontro com os jornalistas convidados para conhecer a fábrica, no último dia 30 de abril, ele foi taxativo: “Se o governo quer mesmo acabar com a corrupção, que é endêmica entre nós, o primeiro passo é reduzir a burocracia”.
    Segundo Nunes, é preciso acabar com as “exigências cartelizantes” que permeiam os editais de empresas estatais e órgãos públicos.
    Como exemplo de comportamento propiciador da formação de cartéis, citou a Petrobras, que está na ordem-do-dia desde 2014, graças à Operação Lava Jato, do Ministério Público da Polícia Federal.
    estágio em guaíba
    O depoimento de Walter Lídio Nunes é significativo porque se trata de um engenheiro nativo de Porto Alegre que fez a maior parte de sua carreira fora do Rio Grande do Sul.
    Formado na engenheira mecânica da PUC, ele lembra com detalhes de seu estágio estudantil na fábrica de celulose de Guaíba, na primeira metade dos anos 1970:
    “Minha obrigação era passar 4 horas por dia na fábrica, mas eu cheguei a dormir no alojamento dos trabalhadores para acompanhar tarefas que me interessavam”.
    Após cada jornada, sua roupa fedia, impregnada pelo cheiro de enxofre emitido pela fábrica daqueles tempos pioneiros.
    Mesmo olhado com estranheza pelos colegas, que caçoavam da sua “catinga de gambá”, ele teria começado sua carreira em Guaíba. Mas as desavenças da indústria Borregaard com as autoridades ambientais, que fecharam duas vezes a fábrica, o afugentaram.
    Em busca do primeiro emprego, Nunes foi parar no Espírito Santo, contratado pela Aracruz Celulose, que começou a produzir em 1978.  Nos seus mais de 30 anos de experiência no Espírito Santo, Walter Lídio se defrontou mais de uma vez, como gerente e/ou diretor, com um braço do famoso cartel burocrático que “cria dificuldades para vender facilidades.”
    Nos anos 1980, a Aracruz ensaiou expandir sua fábrica mas foi proibida de aumentar suas plantações de eucalipto no Espírito Santo. O projeto acabou sendo implantado no sul da Bahia.
    Hoje, passados tantos anos daquela desavença político-ambiental, Walter Lídio Nunes acredita que as exigências capixabas daquela época faziam parte de um esquema de achaques que tinha como expressão maior, no âmbito parlamentar, o deputado José Carlos Gratz, que emergiu do jogo do bicho para o comando da Assembleia Legislativa do Estado. Mais tarde, Gratz seria cassado e preso.
    repatriação
    Como principal executivo da Aracruz Celulose, o engenheiro gaúcho comandou a compra da fábrica de Guaíba, controlada pelo grupo paranaense Klabin, que elevara sua capacidade de produção a 450 mil toneladas anuais de celulose, quase o dobro da original.
    Em 2005, depois de considerar a hipótese de investir no Uruguai, no Paraguai e em outros estados, a Aracruz decidiu expandir sua produção em Guaíba.
    O projeto foi aprovado pelo governo de Germano Rigotto, que atraíra outros dois investimentos em celulose: Votorantim e Stora Enso.
    Depois de entrar em atrito com os adversários do cultivo maciço de eucalipto, a melhor matéria-prima para a fabricação de celulose de fibra curta, os três megaprojetos foram suspensos por causa da crise financeira de 2008, que provocou o desaparecimento da Aracruz Celulose, absorvida pela Fibria, novo nome do segmento de papel/celulose do grupo Votorantim.
    No ano seguinte, a Fibria Guaíba foi vendida para o grupo Matte, que possui três fábricas de celulose no Chile.
    Nunes participou de todas essas operações, ao fim das quais ganhou carta branca de Eleodoro Matte para auditar e refazer o projeto de quadruplicação da planta de Guaíba.
    Mais de 30 anos depois de se formar, o ex-estagiário da engenharia da PUC é o presidente da ex-Borregaard. Em Guaíba, provavelmente, ele encerrará sua carreira.
    credenciado
    A experiência profissional de Walter Lídio o credencia a falar com propriedade do comportamento dos empresários do Espírito Santo e do Rio Grande do Sul.
    Talvez por conviver há séculos com baianos, fluminenses e mineiros, que concorrem para usar a infraestrutura portuária do Espírito Santo, os capixabas são abertos a negociações e fazem acordos com facilidade.
    Um dos orgulhos de Walter Lídio é ter ajudado a viabilizar em torno da Aracruz Celulose, no Espírito Santo, cerca de 70 empresas que nasceram de contratos simples de fornecimento de um ou dois itens.
    Uma dessas empresa, chamada Frioar, cresceu tanto que se tornou fornecedora de equipamentos de ar dos jatos da Embraer.
    No Rio Grande do Sul, ao contrário, Nunes encanzinou-se ao verificar o quanto é arraigado o costume de investir na contenda.
    No afã de proteger a própria empresa, alguns empresários acabam inviabilizando muitos negócios. “O índice de omissão social é muito alto no Rio Grande do Sul”, diz Nunes.
    Um dos resultados do cultivo exacerbado do conflito – que alguns chamam de “grenalização da vida” – é a descontinuidade administrativa, expressa no descarte quadrienal de governadores que não conseguem reeleger-se ou eleger o sucessor.
    Em consequência, o Estado não possui um projeto de futuro.
    Conclusão de Walter Lídio Nunes: “No fim das contas, para resgatar a autoestima, o gaúcho se volta para o passado e cultiva lendas distorcidas”.

  • Eleição 2016: três mulheres no caminho de Fortunati

    A pesquisa do Instituto Paraná, divulgada nesta segunda feira, 5, abre o debate sobre a eleição municipal de 2016, revelando um cenário difícil para a administração de José Fortunati: 60,9% dos portoalegrenses desaprovam sua gestão, quase o mesmo percentual que o elegeu no primeiro turno em 2012 (de 65,22%).
    O prefeito não pode ser candidato, mas fazer o sucessor é decisivo para sua aposta mais alta ao governo do Estado em 2018.
    Entre os 686 eleitores entrevistados – nos dias 26 a 29 de abril – 34,5% acredita que o prefeito está se saindo pior do que o esperado; 48,5% situam o governo na média e apenas 10,3% acham que o mandato supera as expectativas.
    O vice-prefeito, Sebastião Melo (PMDB), que tem o apoio de Fortunati para ser  cabeça de chapa da situação, está na parte de baixo da tabela: entre 11 candidatos apresentados, Melo aparece no 7º ou 8º lugar na preferência dos eleitores, dependendo dos nomes sugeridos.
    Em três cenários diferentes, o percentual máximo de Melo é de 4,9%, quando o nome do atual secretário estadual de Educação, Vieira da Cunha, companheiro de partido de Fortunati, é retirado. Nos outros dois, Melo consegue somar 3,9% de preferências.
    Entre os nove partidos que se coligaram na chapa do prefeito, em 2012 – PRB / PP / PDT / PTB / PMDB / PTN / PPS / DEM / PMN – cinco aparecem com candidatos na pesquisa e os percentuais que atingem somam entre 24,2% e 27,6%.
    oposição lidera
    Por outro lado, partidos que fazem oposição ao prefeito na Câmara Municipal – PCdoB, PSOL e PT – lideram as intenções de voto e somam 39,6%. Nos três casos, os partidos aparecem com representantes femininas na lista da Paraná Pesquisa.
    A deputada estadual mais votada em 2014, Manuela D’Ávila, lidera todos os cenários, variando a porcentagem de 19,4% a 20,5%. Em segundo, aparece – também em todas as simulações feitas pelo Paraná Pesquisas – Luciana Genro, que foi candidata à presidência da República: ela tem 11,4% das intenções de votos nas diferentes listas propostas.
    A representante do PT é Maria do Rosário – que já foi candidata pelo partido em 2008, quando perdeu para José Fogaça.
    A deputada federal varia entre a 3ª e 4ª posição, alternando a colocação com Vieira da Cunha. No cenário em que o nome do atual secretário de Educação é substituído por Afonso Mota ela atinge o percentual de 9,2%, mas permanece como quarto nome, pois neste caso a terceira colocação passa a ser de Onyx Lorenzoni (DEM), que nos demais cenários aparece em 5º, com 8,4%.Avaliação da Câmara é desastrosa
    O trabalho dos vereadores de Porto Alegre é considerado ruim por 73,3% dos entrevistados – apenas 18% das pessoas pesquisadas aprovam as ações dos mandatários da Câmara Municipal enquanto 8,7% não tem opinião formada.
    Abaixo, veja os principais números da pesquisa, que foi financiada pelo próprio instituto – cuja intenção é lançar-se no mercado gaúcho, onde ainda é pouco conhecido.

  • Redenção: há muito que fazer antes de cercar

    Elmar Bones
    Não dá para entender essa insistência em cercar a  Redenção.
    Será só preocupação pela segurança dos frequentadores e transeuntes?
    Se é, por que só a Redenção?  Vamos então cercar o Largo Glênio Peres, a rua Siqueira Campos,  a Voluntários da Pátria, o centro todo, onde as quadrilhas de punguistas e “mãos grandes” agem diuturnamente.
    ***
    Parece que a única preocupação da Câmara de Vereadores  em matéria de segurança é com a Redenção.
    Digamos que seja uma preocupação pertinente: trata-se do maior,  mais frequentado e o mais querido parque da capital.
    Quem vai ao centro já sabe que vai a uma área conflagrada, mas quem vai ao parque espera poder relaxar, descontrair, fazer sua ginástica ou simplesmente caminhar tranquilo sob as árvores. Seria, então, justificável a preocupação enfática com a segurança no parque.
    Mas aí cabe perguntar: por que a única solução apontada para melhorar a segurança no parque é o cercamento?
    O parque tinha dez guardas próprios, hoje tem três, dois a caminho da aposentadoria.
    O policiamento ostensivo, que já teve  regularmente brigadianos a cavalo, de bicicleta ou moto, agora só é efetivo nos fins de semana.
    Nesta segunda feira, 4 de maio, por exemplo, havia um único brigadiano de bicicleta no parque.
    Seriam dois, mas um trabalhou no Grenal, domingo e está de folga. A dupla a cavalo também não apareceu. Os cavalos estavam no policiamento do Grenal, também precisam  descansar.
    A décima delegacia da Policia Civil, que atende as ocorrências no parque, tem oito policiais para atender oito bairros com mais de 200 mil moradores…
    Até o quadro  de  funcionários que fazem a manutenção diária do parque está reduzido à metade.
    Enfim será que não há muita coisa a fazer antes de pensar no cercamento, que além de tudo não vai prescindir dos investimentos em pessoal e equipamentos?
    Perguntinha para reflexão: cercar o parque vai eliminar os grupos de trombadinhas que operam por ali?. Ou vai apenas deslocá-los para as ruas no interior dos bairros do entorno?
    Publicado no JÁ Bom Fim de maio, que já está circulando.

  • Lições da Borregaard

    Elmar Bones
    Eram 15 horas do domingo (03), quando entrou em operação a nova unidade da Celulose  Riograndense, em Guaíba.
    O primeiro fardo de celulose vai se materializar dois dias depois, tempo em que se completa o circuito da produção – da entrada da madeira (cavacos de  eucalipto) até a saída da pasta de celulose na ponta final do processo industrial.
    Quando estiver operando a pleno, em setembro, será uma das maiores e mais modernas fabricas de celulose do mundo, capaz de produzir dois milhões de toneladas por ano.
    Ao preço de hoje, em torno dos 700 dólares a tonelada, terá um faturamento de 1,4 bilhões de dólares por ano.
    Um projeto exemplar no capitalismo brasileiro: investimento privado, sem isenção de imposto, relações de trabalho evoluídas, integração com a comunidade.
    E, no entanto, tudo começou com um fracasso.
    ***
    O projeto de uma grande fábrica de celulose à margem do Guaíba foi apresentado aos gaúchos em 1971, sem chance para discussão.
    Era um projeto privado de um grupo norueguês, Borregaard, com financiamento do governo militar brasileiro.
    Dizia-se que  a grande fábrica ia funcionar como uma alavanca para a industrialização do Rio Grande do Sul. Era o grande projeto que o regime militar devia ao Estado.
    Mais tarde se soube que a fábrica entrou em funcionamento sem qualquer estudo de impacto ambiental.
    Um relatório técnico alertava para o risco de poluição das águas que abastecem Porto Alegre e toda a região metropolitana, mas foi engavetado.
    Quando o cheiro de enxofre exalado da chaminé na outra margem do lago passou a tomar Porto Alegre nos dias de vento sudeste, os moradores da capital gaúcha se assustaram.
    Passaram a dar ouvidos aos militantes do movimento ambientalista, que tinha à frente José Lutzenberger e sua aguerrida Agapan.
    O pior não era o cheiro, insistia Lutzenberger. O pior era o que estavam lançando na água que abastece a cidade: resíduos de madeira num caldo químico altamente tóxico. Estudos da universidade identificaram indícios de dioxinas na deformação em peixes.
    A campanha dos ambientalistas ganhou a adesão da Associação Médica , da Ordem dos Advogados e do Correio do Povo, o jornal mais influente do Estado na época.
    Jair Soares, então secretário da Saúde, obteve na Justiça  autorização para fechar a fábrica, até que ela colocasse filtros para eliminar o mau cheiro e reduzir a descarga no Guaíba.
    Fato inédito na história do Estado, em pleno regime militar, 1973.
    José Lutzenberger que fundara a Agapan dois anos antes, mendigando notinhas nos jornais para suas reuniões, tornou-se uma referência nacional.
    A Celulose Borregaard virou símbolo do mau comportamento empresarial. Reabriu,  foi fechada outra vez três meses depois.
    Nesse meio tempo, revelados detalhes do negócio, com excessivos benefícios fiscais, ficou insustentável a situação dos noruegueses.
    O governo mais uma vez injetou dinheiro para que o Montepio da Família Militar, um condomínio de coronéis, comprasse a fábrica. Um general assumiu a presidência e empresa passou a chamar-se  Rio Grande Celulose Ltda (Riocell).
    O “general desodorante”, diziam, que faria sumir o mau cheiro que seguia assolando a cidade quando soprava o sudeste.
    A indústria, no entanto, tinha dois pilares. Um processo produtivo bastante moderno e eficiente (menos na parte ambiental) e um modelo de gestão bem avançado, com um corpo técnico altamente qualificado.
    Foram os técnicos que perceberam: por mais força que tivessem os generais na época, a questão das emissões de gases e de lançamento de organoclorados nas águas do Guaíba tinham que ter soluções técnicas.
    Em 1984, quando já pertencia a um terceiro dono, a Klabin, a empresa havia resolvido a questão dos gases. Naquele ano estava inaugurando uma Estação de Tratamento de Efluentes, na qual havia investido 3,5 milhões de dólares.
    José Lutzenberger foi o único do movimento ambientalista presente à inauguração. Ali conversou com ao engenheiro  Aldo Sani, superintendente da fábrica.
    O circuito de recuperação das águas estava resolvido, atingira níveis satisfatórios. Mas havia os resíduos sólidos, os restos de madeira contaminados que ficariam empilhados a céu aberto – uma fonte de contaminação do solo e das água.
    Ali, Lutzenberger se sentiu desafiado. Ele já discutia com seus seguidores da Agapan sobre como e quando passar da crítica à prática, do discurso à ação.
    Aceitou o desafio. Suas pesquisas permitiram à empresa chegar hoje a quase 100% de recuperação dos resíduos sólidos, transformados em solo orgânico e adubo. É um caso exemplar de crítica construtiva, uma das muitas lições que o “caso Borregaard” tem ensinado  ao Rio Grande do Sul.

  • Sem tinta, Lanceiros ganham homenagem a carvão

    Geraldo Hasse
    No último sábado (25), um grupo de três artistas plásticos liderado pelo professor Marcos Sari fez uma série inicial de desenhos no muro principal da Passagem Lanceiros Negros, o rico beco que liga os bairros Auxiliadora e Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
    Três carantonhas negras, cada uma com dois metros de altura, foram gravadas para lembrar a participação dos escravos na Guerra dos Farrapos (1835-1845). Com a promessa de ganhar a liberdade, os negros cativos formaram batalhões de choque contra as forças do Império.
    A pé ou a cavalo, só tinham uma arma: as lanças de três metros de comprimento. Mesmo sendo considerados “valentes como o diabo”, os lanceiros perderam a guerra, sofreram um massacre no final e não ganharam o prometido passe livre.
    Apesar do bom resultado final, a empreitada artística na Passagem dos Lanceiros foi frustrante porque o grupo – formado além de Sari por Paulo Correia, Leandro Machado e Fabriano Rocha – teve de trabalhar com recursos muito escassos, como no final da guerra que ensanguentou “esta bela província”, expressão deixada pelo general Netto.
    Contrariando o que havia prometido ao presidente da Associação dos Moradores do Bairro Auxiliadora (AMA), uma grande loja de material de construção situada na rua Silva Jardim não entregou aos artistas o material necessário (tinta) para o mural – a explicação só viria dias depois: os herdeiros da loja não tinham sido avisados do compromisso assumido pelo fundador da ferragem…
    Numa alegoria à penúria dos guerrilheiros farroupilhas nos últimos anos de sua aventura político-militar, os artistas fizeram o mural com carvão (de fazer churrasco) e duas caixas de giz doadas pela Papelaria Bambi, da mesma rua Silva Jardim, que honrou a promessa feita à AMA. O quarteto artístico trabalhou sem pró-labore, cachê ou ajuda de custo. Só na moral.

  • Celulose dá partida na fábrica de 2 bilhões de dólares

    Geraldo Hasse
    A Celulose Riograndense, que já se chamou Borregaard, Klabin e Aracruz inicia no domingo, 3 de maio, às 19 horas, a operação de sua nova planta industrial de Guaíba.
    A capacidade de produção foi ampliada de 450 mil toneladas/ano para 1,8 milhões de toneladas/ano de celulose de eucalipto, usada para fabricar papel higiênico e lenços descartáveis, principalmente.
    O investimento final foi estimado em US$ 2,2 bilhões (mais de 6 bilhões de reais) pelo presidente Walter Lídio Nunes, engenheiro mecânico gaúcho que cumpriu toda sua trajetória profissional na indústria brasileira de celulose.
    Estagiário da primeira fábrica guaibense nos anos 1970, quando estudava na PUC de Porto Alegre, Nunes fez a maior parte de sua carreira na Aracruz Celulose, no Espírito Santo, mas nos últimos dez anos envolveu-se profundamente com o redesenho da ex-Borregaard, a indústria que mais motivação deu ao movimento ambiental brasileiro, liderado por José Lutzenberger (1927-2002).
    Fechada duas vezes por poluir quando pertencia aos investidores originais vindos da Noruega com incentivos fiscais do governo militar, a indústria de Guaíba mudou de dono oito de vezes até cair na mão do grupo chileno Matte, logo após a crise financeira mundial de 2008.
    Além de dar andamento ao projeto de quadruplicação pilotado por Nunes a serviço da Aracruz e, em seguida, da Fibria, os chilenos mostraram-se sensíveis ao modo gaúcho de ser, tanto que mandaram trocar o nome inicial da empresa – de Celulose do Brasil para Celulose Riograndense.
    Para Nunes, era um sinal de que ele mesmo, com todo seu know how, tinha carta branca para tocar o que acabou sendo o maior projeto de sua vida.
    “Esta é a quinta fábrica que eu ajudo a construir, mas as inovações que implantamos aqui só existem em cinco ou seis plantas do mundo”, diz ele.
    Por exemplo, o tratamento da água passa por três estágios, enquanto na maior parte das fábricas de celulose só existem dois estágios.
    Com a tecnologia empregada no manejo da água, a Celulose Riograndense vai produzir quatro vezes mais gastando 40% menos água do que antes.
    No campo crítico dos gases, foram gastos US$ 40 milhões de dólares extras para evitar o risco da liberação do fedor que provocou a revolta dos gaúchos em 1972.
    E mais, a fábrica promete uma reciclagem de 99,7% dos resíduos sólidos.
    A partir de 2016, a empresa deve faturar cerca de US$ 1 bilhão por ano, admitindo-se que o preço de tabela da celulose esteja acima de US$ 600 por tonelada.
    Atualmente, está acima de US$ 700.
    “LICENÇA SOCIAL” FOI O MAIOR DESAFIO
    O maior desafio da nova planta de Guaíba não foi técnico nem financeiro, mas socioambiental. “Nós fizemos mais de 500 reuniões para obter a licença social para implantar o projeto, que fica dentro da cidade”, conta Nunes.
    “Licença social” é o termo usado pelo engenheiro Nunes para expressar a busca de um acordo operacional com a comunidade, as autoridades, os fornecedores e os trabalhadores. “Sem um dia sequer de greve”, salienta o chefão – trabalharam na obra 9.700 pessoas, parte das quais ainda continuam dando os acabamentos finais em pisos, jardinagem e outros detalhes secundários.
    Na operação da fábrica devem trabalhar 3 mil pessoas, incluindo a parte florestal e de transporte de matéria-prima. A logística de abastecimento continuará sendo predominantemente rodoviária, mas a partir de 2016, quando a fábrica estiver em plena carga, as barcaças transportadoras de celulose para o porto de Rio Grande voltarão carregadas de toras de madeira embarcadas no porto de Pelotas, que está sendo adaptado para atender á Celulose Riograndense.
    O transporte lacustre de madeira adquirida nos eucaliptais do extinto projeto da Votorantim/Fibria na zona sul do Estado deverá responder por 30% das necessidades da indústria, que tem base florestal própria nos eixos da BR-290 e da BR-116.
    A concretização do projeto da Aracruz provoca um impacto de 1,1% no Produto Interno Bruto do Rio Grande do Sul, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas. Quando alcançar a plenitude operacional, dentro de seis meses – “tentaremos fazer a curva do aprendizado em menos tempo do que a média mundial”, diz Nunes – a indústria de Guaíba produzirá mais do que as três fábricas do grupo Matte existentes no Chile.

  • Um corpo, sem o tampo do crânio

    Por Renan Antunes de Oliveira, em Araquari (SC)
    A Polícia Militar de Santa Catarina tentou encobrir o sumiço do deficiente mental Wesley Lopes, de 25 anos.
    Ele foi visto, pela última vez, sendo metido à força num camburão do 27º Batalhão da Polícia Militar (BPM), na noite de 27 de setembro de 2013.
    Ele foi apelidado de “Amarildo catarinense” pela semelhança do ocorrido com aquele pedreiro sumido na UPP da Rocinha.
    Se nas favelas do Rio de Janeiro é difícil identificar e punir policiais que cometem crimes em serviço, nos grotões do Brasil é quase impossível – Araquari fica a 180 km de Floripa, no litoral norte catarinense.
    O delegado da cidade, Rodrigo Aquino Gomes, agiu no primeiro dia pós sumiço e indiciou dois policiais militares do 27º BPM como responsáveis pelo desaparecimento de Wesley.
    Em seguida, Gomes deu inicio à busca pelo cadáver: eram poucas as chances dele ser encontrado vivo.
    Para encobrir o caso e proteger os PMs suspeitos, a corporação e a Secretaria de Segurança Pública produziram e mantiveram uma farsa continuada por um ano e três meses, até janeiro.
    O balé das mentiras começou na primeira versão oficial do comandante dos soldados envolvidos: ele disse que eles não estiveram no local do sumiço, não prenderam Wesley e nem o levaram no camburão – naquele dia ainda não se falava em morte.
    Mas uma testemunha viu Wesley ser levado da rua Santo Antônio. Anotou a placa do camburão e descreveu os soldados – com base nesta testemunha o delegado Gomes desentocou os dois.
    A PM então mudou a versão: admitiu que os soldados X e Y prenderam Wesley – os nomes deles foram protegidos pela corporação. O delegado exigiu que o preso fosse entregue na delegacia, mas a PM já não pode apresentá-lo: era o sumiço total.
    Para dar jeito de verdade, a PM usou a desculpa padrão: os dois PMs teriam ido ao local (uma casa branca, no número 602 da rua Santo Antônio) investigar denúncia anônima de narcotráfico.
    Os soldados disseram que soltaram Wesley “numa esquina”, perto de casa, “minutos depois” da abordagem.
    Soltar nunca aconteceu: do alto da Santo Antônio é possível saber qual dos moradores está na rua – todos se conhecem e Wesley era o louquinho do pedaço. Jamais ficaria incógnito nela. Ninguém o viu, nunca mais.
    O delegado Gomes continuou as buscas, mesmo sem apoio da PM. Montou volantes com amigos e familiares. Procurou por todos os becos e matagais do bairro, sem sucesso: pelo faro do policial, Wesley estaria morto e desovado por ali.
    Três dias depois a PM deu mais uma versão mentirosa: Wesley teria sido visto num carro, com traficantes, também perto de casa, mas não teria descido porque não queria voltar .
    O objetivo da versão número 4 era fazer cessarem as buscas do delegado.
    O pai de Wesley, Jair, motorista de uma pedreira, disse no primeiro dia após o desaparecimento que “a PM está mentindo, tenho certeza que mataram meu filho” – e manteve a mesma versão até o dia em que o cadáver foi encontrado, quase um ano depois, em 17 de setembro de 2014.
    Jair deu uma explicação simples para sua certeza enfim confirmada: “Eu sabia que eles estavam mentindo porque a doença mental de Wesley não lhe permitiria viver nas ruas sozinho. Ele nunca saia de perto de casa porque não saberia fazer nada, nem voltar”.
    Na fase sem o corpo, o inquérito policial militar conduzido pela PM absolveu os soldados e os reintegrou à tropa. A juíza Nayana Scherer, que deixou a comarca no final de 2014, afirma que, antes de sair, tentou “de todas as formas saber quem deu sumiço no ‘nosso Amarildo’ “.
    Ela disse que inicialmente suspeitou de violência policial. Para apurar o caso, interrogou o comandante do destacamento onde atuavam os PMs: “Ele me garantiu que eram dois soldados novos, um deles muito sério, e que ninguém do comando estava encobrindo o sumiço” – lembrando que naquela altura o corpo ainda não aparecera.
    Sobre o não-sério dos dois PMs ela nada sabe. O capitão não dá mais entrevistas sobre o caso. O inquérito interno da PM subiu à Corregedoria. Os dois soldados acusados levaram apenas um peteleco, anotado na folha disciplinar de cada um, pela mentira sobre meter Wesley no camburão.
    No fim, também foram inocentados: “Não há elementos suficientes (para condenação) na investigação” foi a conclusão dos corregedores, em Florianópolis.
    Não satisfeita, a juíza Nayana chamou a força de elite da Delegacia de Desaparecidos da Polícia Civil.
    Uma equipe de Floripa assumiu o caso na pequena cidade, hoje notável por sediar a fábrica da BMW.
    A juíza fez sua parte autorizando escutas telefônicas e decretando sigilo no processo “para proteger as testemunhas dos supostos autores”.
    Ela esperou em vão pelos resultados: “Crimes assim não são comuns em Santa Catarina, eu queria dar uma satisfação à família, estava curiosa para saber quem teria feito aquilo”.
    A investigação classe A concluiu que Wesley estava vivo e bem. Numa descrição muito colorida, os agentes afirmaram que ele fora visto passeando em Balneário Camboriú em agosto de 2014, a 90 km de Araquari.
    A Secretaria de Segurança deu o caso por encerrado, louvando o trabalho de seus policiais das duas forças, civil e militar.
    “Não acredito que isto tenha acontecido, não fazia sentido”, disse a juíza. “A testemunha que vira Wesley era ligada a policiais, mas eles não o pegaram, quando àquela altura lhes convinha apresentarem Wesley vivo para acabar com as suspeitas (sobre os PMs)”.
    Um dos investigadores agora acredita que Wesley morreu na mesma noite em que sumiu.
    Em setembro do ano passado um lavrador encontrou a ossada num matagal perto da rua Santo Antônio.
    O exame de DNA bateu, mas o resultado não foi revelado pela Secretaria de Segurança até o início deste ano.
    O perito do IML de Joinville que examinou o cadáver não conseguiu saber a causa da morte.
    O corpo, mesmo decomposto, não tinha marcas de tiros, nem pauladas, nem facadas.
    Entretanto, faltava um pedaço de osso do crânio.
    “Já vi casos assim. Foi como se alguém tivesse dado um tiro na boca e arrancado o tampo. O pedaço de osso faltante poderia mostrar a passagem da bala, seu calibre e outras evidências. Quem o matou, levou só o osso, apagando as provas”, disse o perito.
    Quem se daria tanto trabalho para matar e esconder o louquinho da rua Santo Antônio?
    Quando o corpo apareceu o delegado Gomes indiciou os PMs também pelo assassinato – mas, talvez assustado com a repercussão na cúpula da Secretaria de Segurança, não quis mais falar sobre o caso.
    Ele mandou seu inquérito para o fórum de Araquari em fevereiro. O processo rola lá dentro como uma batata quente. Já está no terceiro promotor em menos de dois meses.
    Uma mulher viu o sumiço – é a testemunha número um – e não teve medo. O nome dela foi preservado pela juíza Nayana “porque foi ela que deu origem à investigação”. A testemunha-chave acordou com gritos na rua naquela noite de 27 de setembro: “Wesley estava no meu portão me chamando, ele queria entrar”, fugindo da abordagem de PMs.
    Ela espiou pela janela: “Vi quando ele foi puxado pela camisa para a calçada e arrastado para a rua pelos soldados”.
    A mulher ouviu então o curto diálogo que selaria a sorte de Wesley:
    PM 1: “Você é irmão do Robson?”
    WL: “Sou”.
    PM2: “Qual é o teu nome”
    WL: “Wesley”.
    PM1: “Soletre!”
    Foi aí que a coisa pegou: Wesley era analfabeto. Tinha óbvias dificuldades de fala. Sabia dizer apenas meia dúvida de respostas essenciais. Soletrar era demais pra ele e então ele se calou.
    “Acho que os PMs acreditaram que ele estava tentando enganá-los e se enfureceram”, disse a testemunha. “Aí eles começaram a bater nele e o meteram no camburão”.
    A mulher da janela anotou as placas e correu para a casa do pai dele com a notícia. Seu Jair levou o caso ao delegado Gomes, que fez o serviço de acordo com a lei.
    O delegado exigiu o GPS localizador das andanças do camburão dos PMs na noite do sumiço – isto ajudou a desmontar a primeira versão mentirosa do comando, indicando que a viatura permanecera estacionada na rua Santo Antônio bem na hora indicada pela testemunha (só então a PM admitiu que eles pegaram Wesley).
    Faltava a comprovação de que o mesmo camburão estivera naquele matagal (onde mais tarde o corpo foi encontrado) na mesma noite.
    O GPS mostrou que a dupla de PMs que sumiu com Wesley no ponto A da rua Santo Antônio esteve, naquela noite, no ponto B do matagal onde ele seria encontrado um ano depois.
    Isto não significa que os PMs deram sumiço e mataram Wesley – eles são inocentes até prova em contrário.
    Para culpá-los será preciso que o MPE aceite as provas do inquérito, faça a denúncia, que a Justiça a aceite e que os dois sejam condenados pelo júri.
    Por segurança, seu Jair, que já demonstrou certa capacidade de farejar mentiras, mudou-se da cidade com a família.
    Os dois soldados suspeitos ainda estão na tropa, cumprindo sua missão diária de proteger o povo catarinense.