Rasga Coração, o filme,  fiel a peça de Vianinha

Francisco Ribeiro 
           O conflito de gerações, tema central da peça Rasga coração – escrita por Oduvaldo Viana Filho (1936-1974), o Vianinha, nos anos de chumbo da ditadura militar –, ganha atualização na adaptação fílmica de Jorge Furtado sem, contudo, perder o vigor do texto original. Vianinha escreveu Rasga coração nos dois últimos anos de sua curta vida, abreviada por um câncer pulmonar. Morreu sem vê-la encenada.
A peça compreende um período histórico de 40 anos. Dos anos 1930 ao começo da década de 1970. Da era Vargas ao pós-1968. Um abismo de tempo, mas onde ainda era fácil uma geração entender a precedente. Assim, Custódio Manhães, ou melhor, Manguari Pistolão, um comunista old school no estilo do velho partidão tem problemas de relacionamento com o filho, Luca, um adolescente neo-hippie, adepto da macrobiótica e para quem o único engajamento possível é a defesa do meio ambiente.
A peça, devido à censura, só foi liberada em 1979, já em plena “Abertura” e volta dos exilados. Teve a sua primeira montagem em 1979, com atuações, entre outros, de Raul Cortez e Vera Holtz. Foi um arraso. Ficou um tempão em cartaz, apresentações por vários palcos através do país, marcando, como Furtado, todos que a viram, graças, principalmente, a exuberante performance de Cortez no papel de Manguari Pistolão. Inesquecível.
O filme
           
Há vários tipos de adaptação, da mais fidedigna, quase uma ilustração da concepção original – romance, conto, peça – a outras (tipo baseado em, ou inspirado em) que de tão livres só tem de comum com a fonte o título, às vezes nem isso. Furtado, além de respeitar as intenções de Vianinha manteve, algo comum na adaptação de textos teatrais, boa parte dos diálogos da peça. Também utiliza a mesma estratégia do autor para viajar do presente ao passado através das comparações que Manguari (Marco Ricca) faz entre ele e Luca (Chay Suede) em situações análogas. Seja através dos conflitos com o pai (Nélson Diniz), ou do contraponto efetuado pelo amigo morto, Lorde Bundinha (George Sauma), um ser anárquico, pândego, devasso, artista, meio dândi, meio lúmpen.
Respeitado o essencial, Furtado contextualizou as ações para entre a virada dos anos 60-70 do século passado (flashback) à segunda década deste. O mundo é outro, a cidade ficou violentíssima e a cena, vista da janela, do corpo e do sangue na calçada de Copacabana passa longe de ser uma simples metáfora do Rio de Janeiro atual. Mas o mundo continua cheio de boas causas para lutar: sociais, caso de Manguari; ambientais, no de Luca, que passou de macrobiótico a vegano na versão cinematográfica.
Há outras mudanças. Não escapou da atualização de Furtado um certo  olhar sobre a polêmica questão de gênero. Nisto, Luca tem como cúmplice Mil (Luisa Arraes), a namorada, que se veste como homem, enquanto ele, ao longo da história, vai adquirindo cada vez mais trejeitos femininos, pinta as unhas e termina vestido num saiote oriental. Esta “transgressão” indumentária substitui o cabelo comprido de Luca no texto de Vianinha como origem do futuro confronto.
A conduta “desviante” segue a repressão institucional, pois, segundo a visão reacionária, conservadora do diretor da escola, a “licenciosidade” dos alunos – roupas, drogas, sexo – conduzirão, se continuar, o estabelecimento aquilo que a geração de Manguari chamava de frege, bagunça. O protesto estudantil eclode e o velho Manguari, mesmo sem imaginar que o filho se torne um bolchevique, vê com simpatia o movimento e adere como braço auxiliar, embora discorde das táticas.
Soa sempre engraçado a maneira como as novas gerações olham as velhas. No filme, Manguari escreve um plano de ações que lido por Mil na assembléia estudantil é caçoado por parecer um roteiro turístico. Não importa, vale a postura combativa, a capacidade imorredoura da sociedade, ou uma parte dela, de num determinado momento mandar a classe dirigente a merda, se organizar, sair para as ruas.
Furtado, numa entrevista, disse ter percebido que Rasga coração ganhara atualidade durante as Jornadas de Junho, em 2013, quando jovens de todo o país saíram às ruas, inicialmente, em protesto contra o aumento de 20 centavos da passagem de ônibus. O movimento ganhou amplitude e serviu de batismo político para muita gente. Mostrou que a capacidade de contestar não estava anestesiada.
Mas em Rasga coração o quesito alienação versus conscientização é mais complicado. Luca, de uma postura reivindicatória e radical, muda para outra, alternativa. Ela é incompreensível para Manguari que, humildemente, quer apenas entender o filho. Este, entretanto, já não considera o pai como um revolucionário, mas sim um acomodado, gado, como os demais, pegando o ônibus para ir ao trabalho.
Ponto de vista de Luca: fora à revolta dos Cabanos e da guerra de Canudos (onde morreu todo mundo) a história do Brasil é um eterno “arriar de calças”.
A posição de Manguari: (…) “eu sempre estive ao lado dos que têm sede de justiça, menino. Eu sou um revolucionário, entendeu? (…) Você é o covardezinho que quer fazer do medo de viver um espetáculo de coragem”.
O conflito se estabelece e já que o diálogo foi abolido, Luca, mesmo contra a sua vontade, é posto para fora do ninho. Adeus adolescência. Sem rancor. Será? Conflitos de geração e do tempo. O novo às vezes parece velho, e o antigo pode continuar a ser revolucionário. Não se trata de ter ou não razão e os dois pontos de vista são plausíveis desde que não termine num diálogo de surdos. Rasga coração.
Marco Ricca veste bem a pele de um funcionário público que não jogou a toalha, onde ainda vive o Manguari que conservou seus ideais, ou parte deles, os sonhos de quem já quis mudar o mundo. Utopias que aos olhos de Luca podem parecer doentes como o ar, a água, a comida, as cidades. Resistir. E Manguari, mesmo pra lá de escaldado, não se tornou um conformista, mesmo que não transe mais com a mulher, Lena (Drica Morais) ou que se masturbe, sexo voyeur, olhando a vizinha na janela do prédio da frente.
Entre Luca e Manguari, o amor incondicional da mãe, mulher, Lena, cujo horizonte vai pouco além da lista, sempre sujeita a cortes, do supermercado, ou o desejo, sempre postergado, da reforma do apartamento. Ela retrata bem aquilo que o escritor João Antônio (1937-1996), outro ex-morador da princesinha do mar, denominou de classe mérdea (sic).  “O sol já não bate no parapeito da janela (…) não queima o cotovelo”, comentam, cena final, Lena e Manguari. Não foi só isso que mudou. A luta continua.
Vianinha
 
De volta ao texto de Vianinha, percebe-se que no discurso de Luca, Vianinha antecipa, em parte, o pensamento de Fernando Gabeira, ex-guerrilheiro, que em sua volta ao Brasil, 1979, fará da política do corpo, da ecologia, da alimentação natural, algumas de suas bandeiras. Isto culminará, na década seguinte, com a criação do Partido Verde. Assim, Luca pode ser considerado um “verde” avant la lettre.
Isto é uma prova das antenas superligadas de Vianinha que como ator e autor viveu, profissionalmente, algumas das mazelas expostas em Rasga Coração. Como ator, o processo de conscientização do jornalista Marcelo em O desafio (1965, de Paulo César Sarraceni). Ou  o de Flávio, um desempregado, também em conflito com o pai, de Um homem sem importância (1971, de Alberto Salva).
Por fim, como um dos criadores da primeira versão de A grande família (Rede Globo, 1972-1975), onde o personagem Tuco (Armando Queiroz), também um neo-hippie, lembra Luca, mas num período onde a discussão política, por causa da censura, era proibida.  O comportamento de Tuco era uma das poucas transgressões “permitidas” numa época em que boa parte da sociedade brasileira – anestesiada pelo consumo, graças “milagre econômico” – esquecia as prisões, a tortura, os “desaparecimentos”.
Mas não faltavam focos de resistência, e a arte – música, cinema, teatro, literatura – apesar da censura era um deles. Como dramaturgo Vianninha expôs em Rasga coração o conflito, as contradições que conhecia muito bem por tê-las vivido, como muita gente, em casa. Manteve-se politicamente engajado até o fim num tempo onde isso era risco de vida. Tempo também onde a música era boa, cheia de poesia como a existente nas letras das belas canções do filme – Tom Zé, Capinan, Macalé, etc – que trazem um pouco da atmosfera da época em que Vianinha escreveu a peça. Uma justa homenagem.
 
 
 

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