Cartas marcadas

PINHEIRO DO VALE
A tradição da raposice política mineira diz e o ex-presidente Tancredo Neves gostava de repetir: “Só se faz reunião depois que tudo está decidido”. Mais uma vez se confirmou o axioma.
Este cronista esteve fora do ar nos últimos dias, deixando passar a enxurrada que inundou o noticiário com a votação do relatório da Comissão Especial da Câmara que propôs ao Senado a abertura de um processo de impeachment da presidente da República, dona Dilma Vana Rousseff.
Seria um anticlímax sugerir, naqueles momentos, que não haveria surpresa, pois se tratava de um jogo de cartas marcadas.
Dizia o então vice-presidente dos Estados Unidos, Gerald Ford, às vésperas da renúncia do presidente Richard Nixon: “Se não tiver a base parlamentar mínima, de nada vale haver ou não responsabilidade comprovada”.
O impeachment que tentavam aplicar em Nixo, também  era baseado em acusações duvidosas, pois não se poderia dizer que mentir para a Imprensa fosse um crime de responsabilidade.
Mais ou menos isto, o que se repete no Brasil: não há crime, mas as forças políticas estão apeando uma presidente eleita. Têm os ¾ dos votos e basta. Assim pensam e fazem.
Uma comprovação desta afirmação é que já havia um acordão, como se chamam no Brasil os grandes conluios. A antiga “base aliada”, a formidável coligação de partidos que apoiava a presidente, roeu a corda e aplicou um golpe no PT, que perde a cadeira da mandatária, mas ganha um espaço mais confortável para se bater nas próximas campanhas eleitorais.
O quadro político ainda é instável, volátil, como dizem os cientistas do ramo. Uma previsão sensata, ou melhor, realista, de realpolitik, diria que Dilma será afastada pelos 180 dias, mas não inteiramente derrubada.
Tudo vai depender das próximas eleições municipais, para se avaliar como se comporão as forças políticas após o pleito.
Assim, tanto ela pode voltar como ser mandada embora, conforme as conveniências dessas forças políticas majoritárias, que se movimentam para ocupar o Palácio do Planalto: PMDB e a corriola de partidos pequenos e nanicos. O chamado “novo centrão”.
Na verdade, nada têm de centro, mas de direitona.
Enfim, hoje em dia, em política, as palavras valem o que se quiser.
Os dois grandes antagonistas, PT e PSDB, ficam de fora. Todos de olho em 2018.
Ninguém quer pagar o preço da crise. Também não querem amargar o efeito do purgante.
Sorrateiramente vão esperar que a economia se ajeite, com Temer ou com a volta de Dilma, para assumir um país melhor arrumado em 2019.
Ainda há muito pano para essas mangas. Mas, por enquanto, basta falar desse acordão, que nos próximos dias vai se explicitar para espanto de muita gente.

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