CRISTIANO GOLDSCHMIDT
Quarenta anos após a morte de Simone de Beauvoir (9 de janeiro de 1908 – 14 de abril de 1986), descubro que sua ausência não é propriamente um vazio — é antes um rumor contínuo, uma espécie de presença indireta que se infiltra nas conversas, nos livros, nas pequenas insurgências do cotidiano. Há autores cuja partida inaugura o silêncio; a dela, ao contrário, parece ter multiplicado vozes. E não quaisquer vozes: sobretudo aquelas que, por tanto tempo, mal podiam nomear a própria experiência. Beauvoir não foi apenas filósofa ou romancista; foi uma consciência em vigília, dessas que não se permitem o luxo do repouso. Havia nela uma recusa quase obstinada do conforto das certezas — como se pensar fosse, antes de tudo, aceitar o desconforto de não concluir.
Ler Beauvoir hoje, digo isso como quem a reencontra mais do que a descobre, é encarar uma lucidez que não se desgasta com o tempo. Sua escrita jamais buscou neutralidade; ao contrário, ela parece ter entendido muito cedo que pensar exige assumir um lugar — e, mais ainda, expor esse lugar sem proteção. Há algo de quase físico nisso: uma escrita que não abdica da experiência, mas também não se rende a ela. Entre a vida e a ideia, entre o vivido e o conceito, Beauvoir construiu uma tensão fértil, dessas que não se resolvem — e talvez seja justamente por isso que permanecem.

É difícil evocá-la sem voltar àquele gesto inaugural que deslocou uma evidência milenar: nomear a opressão das mulheres não como destino, mas como construção. Hoje, a frase ecoa com familiaridade, quase como um axioma — mas houve um tempo em que foi ruptura. Ao afirmar que não se nasce mulher, torna-se, Beauvoir abriu uma fenda no pensamento ocidental. E certas fendas, penso eu, não pedem reparo: são por onde a luz insiste em entrar.
Mas há um risco em fixá-la apenas nesse ponto, como se sua obra pudesse ser contida numa única formulação. Beauvoir é mais vasta, mais inquieta. Percorre romances, ensaios, memórias, diários — e em todos eles retorna à mesma pergunta, dita de modos diferentes: o que significa existir em liberdade quando o mundo, de tantas formas, nos constrange? Seus romances, frequentemente relegados a um segundo plano, me parecem laboratórios morais, espaços onde os personagens se debatem com escolhas que nunca se deixam purificar. Não há heroísmo fácil ali. Há, antes, uma ética da ambiguidade — essa zona incômoda em que toda decisão cobra um preço.
Talvez seja essa recusa da pureza que a torne tão próxima. Beauvoir não idealiza — nem seus personagens, nem a si mesma. Em suas memórias, há hesitações expostas, contradições admitidas, zonas de sombra que não são apagadas em nome da coerência. E nisso reside uma honestidade rara: como se a verdade só pudesse emergir quando desistimos de parecer inteiros. Ela compreendeu, com uma clareza que ainda me desconcerta, que viver é negociar permanentemente com o inacabado.
Quarenta anos se passaram, e o mundo — sim — mudou. Mas não o suficiente. As estruturas que Beauvoir analisou não desapareceram; apenas aprenderam a disfarçar-se melhor. Tornaram-se mais sutis, às vezes mais difíceis de nomear — o que, paradoxalmente, as torna mais persistentes. A liberdade que ela reivindicava segue sendo, para muitos, uma promessa adiada. Por isso, sua obra resiste a ser arquivada: não é apenas objeto de estudo, é ferramenta. Ensina a desconfiar do que se apresenta como natural, a interrogar os papéis que nos oferecem, a reivindicar — com todas as hesitações que isso implica — a autoria da própria vida.
E há, ainda, uma dimensão que me parece menos comentada, talvez por ser menos ruidosa: a delicada relação que Beauvoir estabelece com o tempo. Em suas memórias, não há refúgio na nostalgia. O passado não é abrigo; é interrogação. Há ali uma espécie de ternura vigilante, como se olhar para trás fosse um ato de responsabilidade, não de consolo. Aquilo que fomos não nos abandona — continua a nos pedir contas. E essa consciência histórica de si, tão exigente, talvez seja uma das formas mais rigorosas de liberdade.
Também o amor, em Beauvoir, recusa a facilidade. Longe das idealizações, ele aparece como um campo de tensão — entre autonomia e vínculo, entre desejo e risco de anulação. Amar, para ela, não é dissolver-se no outro, mas sustentar uma relação em que duas liberdades coexistam sem se destruir. É um ideal exigente, por vezes quase inatingível — e, justamente por isso, revelador. Há aí uma recusa firme de aceitar afetos moldados pela dependência ou pela dominação.
Quando penso em sua morte, em abril de 1986 (em setembro eu completaria 10 anos de idade), não me detenho tanto na data quanto na medida que ela nos impõe: que mundo construímos desde então? Há conquistas inegáveis, marcas de um pensamento que ajudou a deslocar estruturas. Mas há também resistências que persistem, silêncios que se reinventam, retrocessos que nos lembram que nenhuma conquista é definitiva.
Talvez o maior tributo a Beauvoir não seja a reverência — essa forma elegante de domesticar o que nos inquieta —, mas a continuidade crítica. Lê-la não é concordar, é aceitar o convite ao risco de pensar. É permitir que suas perguntas nos desloquem, que suas análises nos incomodem, que sua coragem nos atravesse — não como modelo, mas como impulso.
Quarenta anos depois, Simone de Beauvoir permanece menos como figura do passado e mais como uma interlocutora ainda incômoda do presente. Sua voz não se apagou; mudou de lugar. Às vezes sussurra, às vezes insiste — mas sempre retorna à mesma exigência: a liberdade não é um dado. É uma tarefa. E, como ela bem sabia, uma tarefa que nunca se conclui, nunca se cumpre sozinho, nunca deixa de ser urgente.
