A Expointer e o mito do oeste

Geraldo Hasse

Economistas começam a dizer que a recessão econômica chegou ao fundo do poço e que, na realidade, já teve início a retomada do crescimento, só não se sabe quando vão se juntar todos os fatores que alimentam positivamente a dinâmica da economia.
Não se deve esquecer que nem sempre os tais fatores se coadunam. Há momentos em que uns empurram pra frente e outros puxam para trás. Faz parte da dialética da História.
Entrementes, há um setor da economia que passou incólume pela recessão e, segundo a voz geral dos comentaristas de plantão, ajudou a atenuar a crise em que o Brasil mergulhou a partir de 2013/14, como reflexo do tsunami financeiro global de setembro de 2008.
É a agricultura, hoje chamada de “agronegócio”, expressão que prioriza apenas o aspecto financeiro de uma atividade que tem dimensões ecológicas e socioculturais.
Seja como for, na safra 2016/2017, recém-concluída, o IBGE registrou um crescimento de 30% no volume de produção, quando comparado com o período 2015/2016.
Extraordinário! “Nunca antes neste país…”, diria Lula, se ainda estivesse no timão da nau brasileira. Tamanho sucesso tem dois lados. Nem todo mundo saiu ganhando com a megassafra.
Não há uma contabilidade visível, mas é certo que o crescimento dos valores não acompanhou o dos volumes físicos, pois a maioria dos preços caiu, como é normal durante as grandes safras.
Pode-se até argumentar que os produtores estão chorando de barriga cheia, mas muitos andam gritando que os bolsos não se encheram, ou que ficaram só pela metade, ou que estão furados.
Entidades de representação dos agricultores como a Farsul estão alertando para o problema do endividamento rural, o que prenuncia desde um tratoraço como em 1995 (sob o governo FHC) até mais uma rolagem das dívidas, como ocorre periodicamente no país.
Quanto a esse vaivém das safras e dos ganhos dos agricultores, cabe registrar aqui o extraordinário papel das migrações que desde sempre estiveram por trás de fazendas, lavouras e cidades do Brasil.
É uma história que tem muito a ver com a 40ª Expointer (de 26/8 a 3/9), no parque de Esteio, onde estão presentes os sustentáculos das roças modernas: os trabalhadores, os produtores familiares, os empresários de médio e grande porte, os fabricantes de máquinas, os pesquisadores e os financiadores das atividades agropecuárias.
Muitos deles já participaram de aventuras migratórias para outros estados ou têm amigos e parentes nas novas fronteiras agrícolas, que continuam sendo abertas no Centro-Oeste, no Nordeste e na Amazônia.
Quem quer que visite a Expointer percebe o orgulho dos que se dedicam às lidas rurais, mesmo que tenham residência nas cidades. A raiz agrícola está viva em boa parte dos habitantes do Brasil.
Se brasileiro é todo aquele que chegou ao litoral atlântico da América do Sul depois de 1500 e ficou neste imenso território, pode-se dizer que há cinco séculos os habitantes deste país não fazem outra coisa senão avançar para ocupar as terras do oeste.
Quinhentos anos depois a aventura continua, agora contando com instrumentos ultramodernos e máquinas muito especiais.
Recapitulando: a barreira da Serra do Mar levou 50 anos para ser vencida. A partir da vila de São Paulo, fundada em 1554 no planalto de Piratininga, tentou-se sistematicamente a conquista do oeste brasileiro por caminhos terrestres e fluviais.
Na busca de ouro e pedras preciosas os bandeirantes percorreram vastos territórios, mas não os ocuparam realmente. Para apoiar o garimpo e a mineração, construíram-se vilas e cidades nos sertões inóspitos. E assim se passaram 300 anos.
A ocupação efetiva mediante a construção de casas, currais e lavouras aconteceu somente a partir de 1800, quando acabou a febre do ouro. O processo de colonização foi lento, executado pela pata do boi e as tropas de burros. Acelerou-se com as ferrovias no final do século XIX e primeiras décadas do século XX. Mas só se intensificou mesmo depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) graças à abertura de estradas e ao uso de caminhões e tratores.
Os colonizadores modernos contam hoje com máquinas orientadas por satélites artificiais, mas a conquista definitiva ainda está por se fazer.
Pode parecer exagero dizer que a pedra fundamental da colonização do oeste brasileiro foi lançada em três momentos que marcam a construção de três cidades planejadas: Belo Horizonte em 1897, Goiânia em 1933 e Brasília, inaugurada em 1960, mas não estamos longe da verdade histórico-geográfica.
A essas três capitais se poderiam acrescentar Campo Grande, transformada em capital do Mato Grosso do Sul em 1978; e Palmas, capital do Tocantins, desmembrado de Goiás em 1988.
Resumindo: enquanto a costa atlântica está apinhada de gente, no miolo do Brasil ainda se abrem novos caminhos, iniciam-se novas lavouras e inauguram-se novas cidades – tudo numa velocidade sem precedentes na história da humanidade.
Uma das atividades mais primitivas dos seres humanos, a derrubada de matas para a implantação de lavouras, é documentada via satélite por organismos internacionais. Os protestos dos ambientalistas são produzidos e acompanhados via internet.
Os brasileiros, financiados por consumidores de outros países, são os protagonistas centrais de uma das últimas e decisivas aventuras humanas na conquista de espaço para sobreviver e produzir alimentos, especialmente a soja, leguminosa que está fazendo pela agricultura nacional o mesmo que fizeram, em outros ciclos históricos, o café e a cana-de-açúcar. E ainda tem chão para essas e outras culturas agrícolas.
Fora a Amazônia, considerado o último pulmão verde da Terra, o Cerrado é a maior reserva de terras agricultáveis do planeta. No norte e no centro do Brasil se encontram esses dois imensos ecossistemas que guardam as maiores reservas de água doce da Terra. Manejando o fogo, tratores, sementes transgênicas, computadores e satélites, joga-se no Cerrado o futuro de uma parcela considerável da humanidade.
Nessa aventura sobre a última grande fronteira virgem da Terra, os brasileiros se apossam não apenas do oeste geográfico, mas de todo um oeste mítico. Para o bem e para o mal, a conquista do oeste é uma metáfora poderosa em todo o continente americano. Nela cabe inteirinha a lenda do eldorado e sobra espaço para a construção de um país sem igual.
 

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