A insanidade de pedir golpe militar

MILTON SALDANHA                                           
De vez em quando tenho a paciência de ler o oceano de asneiras escritas por pessoas que pedem a volta do regime militar. Elas não têm a mínima noção do que aconteceu antes, durante, e nem depois do regime que durou de 1964 a 1985, num total de 21 anos.
São pessoas que nunca leram um livro de História, nunca ouviram uma palestra séria sobre o tema, nunca conversaram com quem viveu o período, colhendo versões dos dois lados, de quem foi contra e de quem apoiava.
Este é o assunto que mais conheço. Acompanhei e vivi todas as tensões do pré-1964, o golpe, e os anos seguintes. E perdi a conta dos livros que li sobre tais acontecimentos, além de reportagens de jornais e revistas. Vi os filmes, documentários. Permitam-me dizer que estou com 72 anos e já aos 15 anos fazia política estudantil, com foco ideológico, no auge da Guerra Fria. Aos 17 anos comecei a escrever em jornais estudantis e da cidade onde morava, Santa Maria (RS), sede de uma das mais poderosas guarnições militares do País.
Filho de oficial do Exército, meu pai um profissional legalista e apreciador do diálogo, muito cedo me acostumei com os hábitos da caserna e do pensamento militar que ouvia na intimidade doméstica. E como todo filho de militar, cheguei a pensar na carreira, algo natural na infância, quando a gente se encanta com o aparato, a farda, e os desfiles com bandas executando hinos heroicos. Claro que não era minha vocação, descoberta e decidida precocemente, aos 14 anos, pelo jornalismo.
A vida em família militar me dotou do respeito à classe, pelos muitos homens honrados que conheci, de sargentos a generais, colegas do meu pai. Poderia declinar aqui dezenas de nomes de oficiais notáveis, como os generais Henrique Lott, Ladário Telles, Machado Lopes, Oromar Osório, Pery Bevilacqua, Osvino Ferreira Alves (que esteve mais de uma vez na minha casa), entre muitos outros. Geração de carreira, apegada ao respeito constitucional, à legalidade. Contra golpes.
E isso só ampliou a rejeição aos doentes mentais que lá também existiam, transformados em torturadores e assassinos. Estes representaram zero vírgula algo por cento do efetivo das Forças Armadas, mas o estrago que fizeram foi moralmente devastador.
Será equivocado imaginar que a chamada comunidade de informações, que aglutinava o aparato repressivo, tinha a simpatia geral na categoria. Não foi assim. Muitos militares não concordavam com os métodos que eles utilizavam para obter confissões e punir, menos ainda com assassinatos de presos, sendo que havia um tribunal militar para cuidar disso.
Quando acabou a ditadura e o aparato repressivo foi desmontado, teve ex-torturador transformado em bicheiro, portanto, transgressor da lei, e membro do crime organizado, no Rio de Janeiro. Outros sumiram no mundo, vivendo numa espécie de clandestinidade voluntária, com medo e vergonha do passado. O que comprova que nada fizeram de nobre. E teve casos de suicídios.
O cardeal Paulo Evaristo Arns contou, numa entrevista, que numa tarde encontrou um homem sozinho, na catedral da Sé, em São Paulo. Foi em sua direção e falou: “Dom Paulo, fui torturador. Existe salvação para a minha alma?”.
O episódio conta mais que mil discursos. E ilustra o quanto de dramático foi a aventura do regime opressor, muito além do que imagina a turma dessa raiva irracional e primitiva destilada em redes sociais.
Quando se fala na vida humana, e no sofrimento, só mesmo a doença mental explica que alguém aprecie a violência. Que sempre será inerente a qualquer regime de força, quando as leis e instituições ficam extintas.
Regredindo ao tempo das cavernas, quando matar era a única forma de disputar o alimento, a irracionalidade não admite a organização social construída para lidar com o contraditório.
Ainda que a corrupção seja uma forma de violência, pelos danos que causa, não pode ser combatida pelo linchamento, como no velho Oeste, enforcando-se os corruptos em postes. Tem que existir lei. Direito de defesa. E a forma de punição  compatível com o mundo civilizado.
Nada disso se resolve com golpe militar. O que se viveu no Brasil foi uma longa e tenebrosa história, que provocou radicalizações e ensejou erros de todos os lados.
Falando claramente, não vale a pena.
Não se pode querer isso de volta. É regressão. O Brasil teve duas longas ditaduras, pela via dos golpes de 1937 e 1964. Somando, foram 36 anos de ditadura. Nenhuma resolveu as crises econômica e social. Nenhuma nos legou um país e uma vida melhor. Se a gente não aprende com a História, não vai aprender nunca.
Os militares exercem uma função técnica nobre, de defender nosso território. E de ajudar a população nas tragédias. Fora disso, não é tarefa deles, inclusive por falta de capacitação. Basta lembrar que o governo Figueiredo, o último general no poder, encerrou com a inflação em 280%. Um fracasso retumbante.
Não havia assaltos? Que piada é essa? Peguem os jornais da época, em arquivos e bibliotecas. Não havia corrupção? Outra piada. Mesmo com a censura que tentava barrar as denúncias, a lista dos escândalos é longa, e montou a bilhões.
Vamos estudar gente.
E basta ver que todo grande país, como o Canadá e a Suécia, para não citar os mais polêmicos, tem uma organização democrática, com um ordenamento jurídico que impede a barbárie e o mando insano de algum ditador, que fatalmente mergulhará na corrupção.
Tudo foi ruim? Sendo honesto, não. Por exemplo, Getúlio criou a CLT, o salário mínimo, e a base para a industrialização. O grupo de 1964 não privatizou a Petrobrás, nem a Vale do Rio Doce. Investiu-se nas telecomunicações e petroquímica.
Mas para nada disso precisaria ditadura.
Alguns apontam o crescimento econômico. De fato, aconteceu, mas não como um fenômeno isolado, do Brasil, decorrente da ditadura. Era um momento de oferta mundial de crédito. Muitos países recorreram a isso para investimentos. Mas o detalhe que não contam é que foi causa da degradação urbana, com as favelas crescendo em progressão geométrica, sem que ninguém se importasse. Para entender: quando se planta uma grande fábrica, numa metrópole ou cidade média, vem junto uma favela.
A distorção está em promover crescimento econômico sem programa social simultâneo.
O País sempre terá problemas a resolver. Investir em educação e aprimorar suas instituições democráticas é a única fórmula sensata.

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