JORGE BARCELLOS/A morte como estratégia de governo

Jorge Barcellos*
Havia algo de verdade no gesto da arminha de Jair Bolsonaro. Os dois dedos simulando a arma, adotado por uma imensa maioria de adeptos do pensamento de direita, estava ali para simbolizar exatamente o cerne das políticas que seriam adotadas. A ideia de que matar é uma forma de governo, assumia simbolicamente no gesto, sua verdade.
A virada fascista neoliberal no Brasil adota o símbolo da arminha, dos dedos em riste, porque guardamos em nossa forma de governar nossas origens escravagistas coloniais. O gesto é a expressão do mais arcaico da política brasileira, signo evidente da morte que se apresenta como efeito da exploração do capital em seu estágio financeiro como objetivo de Estado.
A ideia de gestão da morte como objetivo de Estado chega a nós pela tradição dos estudos de Michel Foucault e Achille Mbembe. Nesta narrativa, a vida é último objeto de poder, nelas os corpos são vigiados, normatizados e disciplinados, tudo deve entrar na linha de produção. Hospitais, escolas, prisões foram apenas o ensaio geral das formas de poder do capital. No advento da fase neoliberal do capitalismo, a propagação da disciplina e do controle dá-se agora para toda sociedade, a prisão se tornou o modelo para a sociedade e o governo neoliberal, seu gerente. É por isso que nossas liberdades de escolha são cada vez mais reduzidas: como trabalhar, onde trabalhar, que direitos posso possuir? Vivemos no mundo da liberdade de empreender, desde que o fracasso seja individualizado, e os lucros socializados com a elite financeira.
Essa ideia é o cerne do capítulo “Matar como arte de governo”, integrante da obra Ruptura (n-1 Edições, 2019), escrita pelo Coletivo Centelha. O coletivo é anárquico-revolucionário, não se identifica seus membros como estratégia de luta e seus argumentos atingem o centro das políticas ultra neoliberais. É esse “governo das liberdades de escolha” que faz com que a única opção do desempregado seja, como afirmou Lula em seu discurso, a de ser motorista de aplicativo ou de bicicleta; que faz com que cada vez mais nos aproximemos das regiões coloniais da África do Sul pelo aumento da pobreza extrema. Pois existem muitas formas de propagar a execução sumária, a tortura e o desaparecimento de cidadãos: pode-se executar fisicamente os que de alguma forma incomodam, como foi o caso de Marielle; pode-se impor a tortura sem tocar o corpo, como no caso do parcelamento salarial; pode-se impor o desaparecimento de cidadãos, simplesmente pela adoção de políticas higienistas pelos governantes.
Para os autores de Ruptura, nas regiões do planeta marcados pela catástrofe, governar é gerir mortos, tratar setores da população – via de regra os mais pobres – como mortos potenciais “governar é produzir zumbis”. Não é a melhor figura para identificar os que defendem o governo de Jair Bolsonaro: não basta a reforma trabalhista e previdenciária, seus defensores continuam, mesmo vítimas de sua política, a adorá-lo. Não é exatamente os zumbis de que fala o coletivo Centelha? A diferença é que aqui não se trata de decidir sobre cadáveres anônimos que se produzem enquanto o Estado garante a concentração de renda para as elites; aqui, os cadáveres estão ainda em vida: você vê isso no olhar do professor que luta por sua sobrevivência mês a mês; você vê isso no pesquisador que vê sua pesquisa ameaçada. Por todo o lado, chega-se ao limite da morte do desejo, da vida, da política, dos direitos. Afirma o coletivo Centelha que nada disso seria possível sem uma vasta rede de práticas de produção otimizada da morte e esquecimento. Nas regiões de extrema pobreza, assassinatos são mantidos em silêncio; no Brasil, uma população miserável vai as sinaleiras pedir uma moeda. Eles também estão morrendo. Otimizamos e esquecemos dia a dia todas as imagens da superexploração.
O que há é uma estreita ligação entre as vitimas da violência das políticas governamentais no Brasil com as vítimas da violência de estado de regiões periféricas do capitalismo. O que isso quer dizer? Que o Brasil caminha, a passos largos, para voltar a ser uma região periférica – já o havíamos sido no período colonial, lembram-se? É como se o latifúndio escravagista jamais tivesse nos abandonado – abandonou-nos como forma econômica, mas como espiritualidade de nossas elites, nunca saiu de onde estava. Nossas elites financeiras atuais possuem em seu DNA o mesmo gene de nossas elites escravagistas, qual seja, o gene da extração da mais valia, seja bens de exploração ou juros do cartão de crédito. O coração do capitalismo atual brasileiro é predador.
O extrativismo das sociedades coloniais europeias foi o primeiro capitalismo predador que conhecemos. Moveu populações, apoiou-se na violência, transformou o Brasil no país que mais recebeu negros escravizados do mundo e o último a abolir a escravidão. Neste ponto o coletivo Centelha, mesmo tão radical, não é capaz de avançar, reconhecer que a escravidão assume diversas formas, de que se trata sempre de impor a relação sujeito – objeto. Primeiro o escravo, objeto inteiro; depois o trabalhador, cuja mão de obra é vendida a preço de banana. Abolir a escravidão como forma de governo não significa que nossas elites abandonassem sua ideia por inteiro: voltamos a receber trabalhadores negros imigrantes que vivem em nosso pais pelas ruas em situação análoga à escravidão; estabelecemos formas de trabalho via uberização de serviços que retomam a ideia de que o trabalhador tem sua mão de obra disponível a preço de banana.
Essa relação de objeto, seja do senhor de escravos ou do capitalista financeiro com o Outro, é que faz com que hoje estejamos vendo práticas predatórias na política: o governo Jair Bolsonaro, Eduardo Leite e Nelson Marchezan Jr não fazem outra coisa se não a de reafirmar brutalmente que sua existência está aí para a defesa das minorias do que das maiorias. Não é exatamente assim, como escravos, que são tratados servidores públicos, policiais, professores e agentes culturais por nossos governantes? Não se reafirma que há, por um lado, os defensores da pátria que a direita encarna frente aos marginais representados pela esquerda? Por que são escravagistas nossos governantes? Porque tudo o que fazem em suas políticas públicas implica em desumanização, extermínio, apagamento e esquecimento “Aqui, a ordem é sinônimo de guerra civil, e a função do Estado é torna-la permanente”, dizem os autores de Ruptura.
Não acredita nesta hipótese? O coletivo Centelha acrescenta dados. Em 2017, dos 65.601 homicídios no Brasil, 75,5 das vítimas são negras. Em 2018, a polícia cometeu 6.160 assassinatos. Na visão do coletivo os dados mostram que há uma politica estrutural de morte “políticas e grupos paramilitares assumem o lugar dos capitães do mato contra setores da população, objeto de fobia social por amplas parcelas das classes média e alta”. Para o Coletivo, é a velha conciliação de classes que desde a escravidão unifica os de cima contra os de baixo, a prática da desumanização, esquecimento “sempre que os despossuídos começam a se organizar, liberais e conservadores, que antes se xingavam ferozmente nos plenários, se unem para destruir as centelhas de poder popular”.
A obra é chamada Ruptura porque seus autores têm como proposta a luta contra a ideia de conciliação de classes, contra a ideia de pacto de classes, algo defendido inclusive por setores de esquerda. Para os autores, contra as políticas de compromisso, nossa história é marcada por guerras, guerrilhas e revoltas populares. Desde a Conjuração Baiana, passando pela Cabanagem e Revolta da Chibata, até as greves do ABC, sempre foram as formas de resistência dominação com certo uso da força que enfrentaram a política de morte dos governos. O grupo defende o retorno ao espírito dos ideais das greves de 1917 e 1952, da Coluna Prestes e resistências sob outras formas, contrapartida dos movimentos sociais na história do conformismo a que nos acostumamos e que é necessário para sair da anestesia que toma conta do pais. Caberá a esquerda fazer o diagnóstico de que ponto estamos: se a possibilidade de uma frente de esquerda for real, e os partidos de esquerda se associarem nas próximas eleições, a possibilidade de reversão do quadro político e um retorno ao estado de bem-estar tem mínimas chances, mas tem. Mas se não houver frente alguma de esquerda, estamos todos largados a sorte de resistências individuais, partidárias das quais  não conhecemos as consequências. Mas sabemos que, se no centro do estado atual está a ideia de gestão de morte, as consequências só podem ser nefastas.
(*) Historiador, Mestre e Doutor em Educação. Autor de O Tribunal de Contas e a Educação Municipal (Editora Fi, 2017) e “A impossibilidade do real: introdução ao pensamento de Jean Baudrillard “(Editora Homo Plásticus,2018), é colaborador de Sul21, Le Monde Diplomatique Brasil, Jornal do Brasil, Carta Maior, Jornal Já, Folha de São Paulo e do Jornal O Estado de Direito. Mantém a página jorgebarcellos.pro.br.  
 

4 comentários em “JORGE BARCELLOS/A morte como estratégia de governo”

  1. Eu não sabia que Mussolini era liberal. A gente sempre aprende algo com uma pessoa formada bacharel em história e que defende alguma tese qualquer para apossar-se ao título de “Doutor”. Interessante também notar como este douto escrivinhador defende uma luta de classes. Um homem desses com um exército nas mãos faria inveja à Stalin. Seu sonho deve ser algum dia ter uma Barcelogrado às margens de algum rio famoso.

  2. Lamento que sua leitura tenha se fixado apenas no inicio do segundo parágrafo. Ter dificuldades de interpretação de texto é algo natural, todos vivemos para aprender todos os dias, não é mesmo? Não tem problema, volto gentilmente ao texto aqui especialmente para lhe dar atenção que você merece como leitor do Jornal Já, ilustre crítico. A expressão “A virada fascista neoliberal no Brasil ” combina uma descrição política de um governo autoritário, personalista, anti-democrático que faz prevalecer a ideia de pátria, como é o atual governo, associando a ele uma descrição econômica onde domina o favorecimento ao capital financeiro, as elites industriais e a retirada de direitos. Aponto para que você possa fazer a auto-avaliação de sua crítica, que seu pensamento contém um elemento essencial do fascismo que aparentemente você não se deu conta, a saber, o anti-intelectualismo, o mesmo hoje adotado pelo governo Bolsonaro em sua rejeição à universidade, aos intelectuais e ao pensamento crítico. Eu sugiro que faça uma auto-análise e o rejeite porque ele tende a se torna condutor de uma violência discursiva vazia, rasteira, o faz perder a oportunidade de usar argumentos novos para rebater os meus, o que constitui o verdadeiro debate de ideias, a construção de um discurso argumentativo. Darei a você, no entanto, o benefício da dúvida: parabéns, é isso mesmo, você acertou, nem tudo está perdido, é luta de classes sim o que vivemos na atual política. Você sem querer acertou, obrigado por isso, é exatamente do que se trata nestes tempos de obscurantismo, tempos de análises superficiais, tempos de críticas baseadas no vazio da emoção e que se resumem ao mais baixo nível do que se é capaz de fazer com o pensamento, aquele que se nivela a espuma a beira do mar.

    1. Muito obrigado, JORGE BARCELOS. Seu artigo me ajudou muito, me esclareceu mesmo. Estou escrevendo um artigo sobre performance de rua, e arte pública e procurando contextualizar cada época, Falo dos movimentos dos anos 60 e 70 no começo da ditadura, e da ocupação militar em monumentos históricos, estátuas, etc. E a contestação por artistas que procuram trazer vida e liberdade a hierarquia imposta pelo estado por meio do seu aparato repressivo. E ao buscar governo e morte pela Internet eu me deparei com o seu excelente artigo. Meu livro chama-se Outro Teatro: do ritual à performance.Ainda não sei quando sai. Boa sorte.

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