A organização ou a morte

WALMARO PAZ
No ano de 2015 acompanhei o processo eleitoral do Haiti pessoalmente durante três meses. Tive a graça de conhecer a cultura riquíssima daquele povo e a erudição de diversas de suas lideranças.
Quem mais me impressionou foi o lider do Mouvement Paysan Papaye, Chavanes Jean Baptiste, que coordena as atividades de 60 mil famílias de camponeses na região do Platô Central.
Suas lutas vão desde a briga pela terra que ocupam, passando pela pesquisa aplicada em agroecologia, até a educação das crianças assumida pelo movimento que constrói e mantêm escolas.
Ao analisar a conjuntura em sua primeira entrevista Chavanes confessou não acreditar no processo eleitoral, para ele uma farsa ( une mascarade), mas que participaria da campanha para denunciar exatamente isso. “Estamos passando por um processo de recolonização que deverá se estender por toda a América Latina”.
Ele me fez entender a política neoliberal em sua experiência mais radical. No Haiti tudo foi privatizado, até a água potável e suas praias. Um trabalhador haitiano recebe cerca de 4 dólares por dia de trabalho e se for comprar água tratada gastara cerca de um dólar por litro.
No ensino publico se um pai não tiver 500 dólares não consegue matricular seu filho. Nos postos de saúde para se ter uma consulta médica é necessário dar ao médico plantonista cerca de 40 dólares.
A previdência social praticamente inexiste. Conheci uma pedagoga, diretora de escola aposentada que depois de 45 anos de trabalho vive da caridade de seus amigos e vizinhos e quase morreu de inanição depois do terremoto.
Conversei com ela, amarga, mas ao mesmo tempo com esperança nas lutas da juventude, Bobol, este é o seu apelido vive seus últimos dias num cortiço no meio de cabritos e porcos em Delmas, Porto Príncipe.
A energia elétrica é privada e a mesma empresa que gera e fornece energia durante cerca de dez horas na capital, vende geradores para quem tiver a necessidade de usá-la permanentemente.
São fatos que deixaram claro para mim, onde iremos com este processo. Mas porque estou falando nessa vivência? É simples, porque o processo de recolonização chegou ao Brasil e está sendo alavancado pelos golpistas de plantão.
Querem aprovar com rapidez medidas que terminarão com a previdência social trocando-a por uma privada sem a menor garantia; querem derrocar a CLT, colocando o contratado acima do legislado; já começaram a privatizar a água no Estado do Rio de Janeiro; já privatizaram a energia elétrica e estão entregando o que restou para as transnacionais abrindo o Pré-sal.

No Rio Grande do Sul entregarão o carvão mineral, o gás resultante de seu aproveitamento e o que restou da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE). O Banrisul está sendo negociado e não demora serão a CORSAN ( Companhia Riograndense de Saneamento) e o DMAE ( Departamento Municipal de Águas e esgotos).

Isso me assusta, por isso , no início lembrei-me do Haiti e da previsão de seu líder camponês para o restante da América Latina. Mas resta a esperança que também vem da Pérola das Antilhas: a resistência de seu povo, sua organização em movimentos populares e camponeses. Por isso gostaria de lembrar o lema do MPP: “Loganization ou lamort” ( A Organização ou a morte).

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