Bodas reais

Cláudia Rodrigues
Pedro Bandeira em “O fantástico Mistério de Feiurinha” conseguiu fazer uma crítica tenaz ao status quo dos contos de fada em um livro infanto-juvenil escrito em 1986.
Apesar de ter sido escrito por um homem, é uma leitura feminista em que todas as princesas reveem seus papéis.
Branca de Neve aparece como a escrava dos anões que trabalha sem ganhar um vintém, Chapeuzinho Vermelho, a única que não é princesa porque não casou, é a pessoa mais livre de toda a história e não deixa de reclamar do caçador.
O livro, escrito em plena Era lady Di, quando a princesa estampava a capa das revistas do mundo inteiro como a primeira princesa plebeia, ainda que Ana Bolena já tivesse estreado o mesmo papel em 1533; deveria ser leitura obrigatória para todas as mulheres adultas que ainda se encantam com casamentos reais e fantasiam suas filhas como princesas.
Mais do que isso, ao sintonizarem a TV logo ao amanhecer de um dia de bodas reais, essas jovens mães que se dizem feministas, não sabem, mas investem pesado na fantasia de suas rebentas que nascem e crescem achando que podem tirar a sorte grande tornando-se princesas.  Buenas, a chance de uma cidadã inglesa virar princesa é menor do que a de qualquer uma de nós acertar sozinha na loteria. O sucesso da realeza bebe o poderoso elixir de vida eterna made in aplausos de uma plebe mundial.
Entra século, sai século, a monarquia se mantém de maneira cada vez mais confortável, afinal hoje não existem guerreiros para tomar palácios à base de força, armadura e cavalos. A concentração de terras diminuiu, as colônias se libertaram ficando na miséria, mas a concentração de renda e o sistema financeiro multiplicador do capitalismo dão garantia ad eternum aos monarcas.
É bem verdade que a corte cresceu, hoje além dos artistas escolhidos pela corte, entraram as celebridades e claro, os banqueiros, as famílias da alta burguesia, mas desde sempre os grandes proprietários de terra tiveram acesso aos bailes na côrte, como ocorreu com Ana Bolena já em 1533.
Cena midiática semelhante a de lady Di, aconteceu com Kate Midleton, a mídia falou de títulos e não títulos, parentescos antigos com a monarquia, que Diana teria e Midleton não. Essa sim finalmente seria uma princesa realmente plebeia. E finalmente chegamos a uma princesa americana, negra e feminista; Meg, a nova Anastácia, a mais plebeia das princesas entra pela porta da frente dos palácios ingleses e renova as esperanças dos vassalos.
Infelizmente foi assim que parte importante da população mundial, incluindo mulheres feministas e de esquerda, o que é espantoso, está vendo a cena atual e bradando mil vivas à monarquia. Essa atual monarquia inglesa estaria se abrindo para o futuro, fazendo inclusão e reparem, o vestido, de alta costura, teve como adjetivo mais comentado pela mídia, a simplicidade. Foi exatamente assim com o vestido de Midleton e também de lady Di. Como a onda na década de 1980 era pompa e fru frus e não minimalismo, como agora, o termo utilizado para as vestes de Diana foi romântico, ela optara por um modelo que remetia às antigas damas românticas, praticamente um vestido de camponesa!
Da mesma forma a mídia se referiu à escolha do anel de noivado de Diana, que teria sido por uma joia simples de joalheria comum e não uma encomenda ao ourives exclusivo do palácio. Um mimo de 18 kilates, uma safira oriental rodeada por 14 diamantes.
Tudo, incluindo a opção de cada donzela por essa ou aquela coroa usada no casamento é simples, sempre foi simples, porque para manter a plebe com bandeirinhas em punho sonhando com o dia em que terá uma ou outra filha introduzida na côrte real é preciso fazer crer que a simplicidade real está ao alcance de todas.
Para que guerra de classes se todas as mulheres do mundo podem sonhar com o dia em que virarão princesas, não é mesmo? Todas as inglesas ainda vá lá, todas as moças das eternas colônias inglesas, ainda vá lá, afinal ainda há de chegar o dia em que um desses filhos da nobreza vai casar com uma indiana e as manchetes falarão sobre a primeira indiana a entrar para a realeza inglesa. Agora, o que é difícil mesmo de entender é como a realeza de um país europeu pode atingir tão fartamente a plebe brasileira, mas tive a sorte de descobrir como: na padaria ontem quando uma senhora estava comentando sobre a saudade da princesa brasileira. Qual, senhora? Aquela nossa princesa gaúcha, da serra. Eu, de olhos arregalados, a Bündchen? A Xuxa?
Não, a do acidente, mãe do menino que está casando, a Djiana, que morreu de acidente, que deus a tenha, era tão caridosa a nossa princesa!
É verdade, em tempos globalizados, aquela princesa que morreu com o namorado egípcio em um carro alemão, dirigido por um motorista britânico em um túnel na França, bem poderia ser brasileira porque era simples, romântica e fazia caridades.

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