Borges: não gostava de futebol nem reclamava da ditadura

Por Enio Squeff
Apesar da satisfação por sua obra – é ela quem faz o artista respirar e justificar a própria existência – Jorge Luis Borges deve ter experimentado não poucos momentos de angústia com seu país, a Argentina.
Sua visão política, ele mesmo dizia, limitava-se à ética individual: reclamava dos peronistas que, quando Perón assumiu como ditador, o perseguiram de todas as maneiras.
Mas se omitiu quando do assassínio em massa de seus compatriotas por uma das piores ditaduras militares que se instalaram na América Latina nos últimos anos.
Os genocidas argentinos diziam-se, claramente, anti-peronistas e é previsível que isso os tornasse menos criminosos para Borges: várias vidas por uma reabilitação pública, depois da execração peronista – seria isso?
Se Borges continuou a ser admirado por muitos intelectuais, inclusive na Argentina, não se safou do juízo de seus compatriotas: o que Borges reclamava dos argentinos – de serem individualistas e omissos perante a própria comunidade – ele mesmo parece ter incorporado como um procedimento normal.
Fugiu do presente como um nefelibata que sonha com as nuvens douradas de um passado glorioso e que criou um mundo paralelo, simplesmente genial, mas que nem por isso o livrou da acusação de ter dado as costas a seus compatriotas.
Fosse na Alemanha pós guerra, talvez Borges não se livrasse de uma citação em Nürenberg – o que, para seus admiradores, seria também uma tragédia.
Num de seus inúmeros diálogos com vários intelectuais, Borges disse que tinha dificuldade de partilhar da opinião de Schopenhauer, que não acreditava na história como um fim.
Achava que, mesmo que a história não interferisse na obra de arte e vice-versa, seria inadmissível que pudesse não ter algum sentido. Sob o ponto de vista ético, por exemplo, ele defendia que ela, a história, haveria de ter uma resposta convincente.
Foi, exatamente na ética individual, entretanto, que ele falhou. Não se posicionou, clara e inequivocamente, contra o massacre perpetrado pelos militares argentinos.
E isso não lhe deve ter sido compensador, pelo menos ao saber que muitos, principalmente os parentes e conhecidos dos assassinados ( mais de trinta mil), passaram a abominá-lo desde então.
Digamos, com todo o exagero possível, “uma glória feita de sangue”.
No entanto, parecer impossível contar a história da literatura ocidental sem uma menção especial ao grande escritor argentino.
LER E RESPIRAR
Borges deve ter conhecido o livro “Auto-de-Fé” ( tradução do ‘gaúcho’ Herbert Caro) de Elias Canetti. É uma obra que lhe diz respeito em boa parte.
Conta a história de um bibliófilo encerrado em sua biblioteca que se mete, involuntariamente, em confusões de todo o tipo e que, ao cabo de muitas aventuras que o aproximam de um Dom Quixote mais trágico do que satírico, deixa-se queimar com seus mais de vinte mil livros.

Elias Canetti
Elias Canetti

O título português “Auto-de-Fé”, diz bem do livro. É uma fábula que, provavelmente, agradasse ao grande escritor.
Mas vestiria a carapuça? Talvez não, alegadamente pelo diferencial de não ser um leitor passivo, como Kien, o personagem sinólogo de Elias Canetti: Borges transformou sua obsessão pelos livros numa criatividade em que cabe sempre a palavra “maravilhoso”. Criou histórias e poemas, baseado em livros. Sua ficção são ensaios sobre a ficção.
Foi o mestre que encarnou a realidade de nosso mundo em que o ler é uma outra forma de respirar. Borges descobriu uma característica do nosso mundo, mais que de outros tempos, quem sabe.
ARQUETIPOS DE LIVROS
São Jerônimo, tido como o maior leitor de seu tempo, lá pelos anos 300 D.C., não imaginaria jamais em se jactar por devorar livros. Borges não fez isso evidentemente. E não foi um Kien. Talvez se pensasse uma criatura de biblioteca – uma espécie de traça ou cupim pensante e, mais que tudo, um produtor de livros a partir de livros.
são  jeronimo 2
Borges pensa como os livros e pelos livros, como os arquétipos de livros. E fez de sua obra uma bíblia no sentido etimológico, onde os personagens são muitas vezes os livros dos livros, mas sempre também os seus personagens.
Mesmo seus heróis míticos – gaúchos analfabetos – são sempre referências literárias. Há um ou mais livros a espreitá-los. São sempre referenciais dentro da literatura.
Aproximá-lo de Gustav Mahler, talvez só o desagradasse pela sua indiferença em face da história da música. Borges sempre apreciou tangos e milongas, mas confessava uma real ignorância em relação à música maiúscula – a que, afinal, tem a ver com grande cultura de que ele, Borges, foi um dos maiores protagonistas em nosso tempo.
TRIBUTO OU CRÍTICA
Mahler, como Borges, também se notabilizou como um criador historicista: toda a sua criação viceja em meio à produção musical de seus antecessores. Foi um compositor que se expressou em torno da própria música, da sua história. Suas referências, mesmo quando cantadas, com poemas, alguns de sua própria autoria, não são fora do estrito campo da música.
Gustav Mahler 2
Difícil, entretanto, que como judeu ( Borges encontrava judeus na gênese do seu nome), Mahler se alienasse das tragédias de seu tempo. E ele não se alienou: o referencial das quatro notas da quinta, em dó menor de Beethoven, que ele acrescenta à sua quinta são, é certo, uma “hommage” a Beeethoven, como diz Leonard Bernstein – mas ele as usa menos como tributo do que como crítica.
É audível que fez da história o tema para a sua música e que, ao se referir a Beethoven, o trágico sobressai no que se sucede às quatro notas conhecidas: o drama que põe em xeque a própria música, como que esplende na impossibilidade do prosseguimento da história, já que, em Beethoven, a música é um protesto com plena ressonância na história, enquanto que, em Mahler é uma dolorosa interrogação que tende a não admitir respostas.
Se fizesse o mesmo, Borges talvez tivesse de se endereçar compulsoriamente à trágica contemporaneidade de seu país nos últimos anos. Mas teria de reavaliar também sua própria trajetória e pensar as feridas ocasionadas pelo peronismo – para ele um período recheado de vulgaridades que o atingiram justamente por seu intelectualismo, seu onipresente respeito à cultura, à grande cultura.
Assim, o que em Mahler é a previsão da hecatombe, inclusive o nazismo – um processo cultural que desembocaria necessariamente na rejeição da tradição em forma de progresso, em Borges se faz como um afastamento parcial do presente. Não houve nada do que ele não quis ver, mas que aconteceu.
DOM QUIXOTE
É tudo, na verdade, muito paradoxal. Se tivesse atentado para o historicismo que marca a cultura ocidental, sua admiração por Cervantes e especialmente por seu Dom Quixote, seria um caminho, quem sabe, que o levaria a superar as feridas da perseguição que sofreu sob o peronismo. E a sua radical rejeição à questão política, da forma que assumiu na Argentina nos últimos anos.
Cervantes 3
Não se pode esquecer que seu admirado Dom Quixote sofre o diabo, mas persiste em seu ideal maluco e santo, de esperar muito dos homens apesar de tudo. Borges não o fez e não o fez conscientemente, aliás. São numerosos seus argumentos em favor da valentia individual do gaúcho, estribado na sua cultura, na sua tradição.
Fica a pergunta se não era, afinal, o mesmo povo ao qual ele não voltou seus olhos mortos; e que contemporaneamente não mereceram dele senão um profundo desprezo – justamente por sua aproximação com o peronismo. É a eles que Borges reserva sua indiferença, enquanto os trata como meras expressões da vulgaridade manobrada.
Pode, enfim, ser apressada a conclusão de que se explicam duas de sua ojerizas. A primeira, pela música de Astor Piazzola. Borges nunca entendeu a sua música – se é que alguma vez entendeu dos tangos mais que as letras. E condenou explicitamente o futebol. Para ele era a expressão da vulgaridade do povo. Fica a outra questão, se alguma vez se inquiriu sobre qualquer coisa que, afinal, seus olhos nunca viram. E que seu intelecto genial jamais abarcaria, justamente por não constar dos livros, de seus amados livros.
 

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