Cais Mauá, a maior tapera do Rio Grande

A ânsia de transformar o cais Mauá num meganegócio imobiliário levou muita gente a acreditar que a atividade portuária havia sido extinta em Porto Alegre. Ledo engodo. Contribuiu para essa crença o então governador Ivo Sartori ao incluir a discreta Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH) no rol de nove instituições estaduais extintas em 2017, sob o pretexto de enxugar a máquina pública. Extinguiu em parte, enxugou um pouco.

No entanto, o mais antigo cais da capital, construído em pedra no início do século XX, está inteiro em meio ao caos reinante desde  a concessão da área histórica a um grupo particular mutante. Já com os telhados despencando, os armazéns centenários estão vazios e sem manutenção, os guindastes inativos, mas o prédio de quatro andares na Avenida Mauá segue abrigando os funcionários remanescentes da SPH, amparados por uma liminar judicial.

Mesmo semivazio, o edifício marrom de quatro andares da Av. Mauá  resiste como uma espécie de baluarte pronto para impedir que a cidade descarte o melhor de sua memória portuária, armazenada não apenas nas pedras do cais e nos armazéns, mas na biblioteca do 1º andar, onde um guardião improvisado cuida de um patrimônio histórico de valor inestimável. Desenhista naval admitido em 1980, Ademir Machado é o nome do herói solitário.

De sua mesa junto à janela, esse voluntário do cais avista os grandes cascos em trânsito no canal de navegação e torce para que cumpram suas rotas levando suas cargas sem percalços. A situação é kafkiana. A manutenção precária da hidrovia gera riscos de acidentes cuja prevenção cabe ainda ao pessoal da extinta SPH, alojado na Superintendência do Porto de Rio Grande, mas na prática trabalhando no prédio da Avenida Mauá.

Limpa e bem cuidada, a biblioteca do Cais Mauá é uma das mais completas do Brasil em assuntos de navegação e transporte hidroviário. É frequentada sobretudo por estudantes e técnicos, mas também pode atender o público leigo eventualmente interessado na história das hidrovias. Possui tantos documentos, estudos e projetos que poderia se tornar o núcleo central de um museu do porto, assunto que está longe de figurar na ordem do dia dos gestores públicos ancorados na capital.

 Com o lamentável encalhe do projeto de revitalização do Cais Mauá, a ex-SPH está na iminência de retomar a área concedida à iniciativa privada, que sequer pagou os aluguéis da área em uso ao longo dos anos do contrato. Um dos pivôs do imbróglio da concessão, a SPH é que deveria receber o dinheiro do aluguel do cais, segundo um acordo firmado entre os entes públicos responsáveis, anos atrás. Extinta por um lado, a pobre autarquia portohidroviária levou calote do outro. Agora, no entanto, sua resistência em abandonar o prédio começa a fazer sentido.

Sim, enquanto o Cais Mauá vazio corre o risco de transformar-se na maior tapera do Rio Grande, o porto da capital opera alegremente em outros cais sob a supervisão do pessoal da ex-SPH. Por causa do Muro da Mauá, a população não vê que os navios seguem em atividade no Cais Marcilio Dias, no Cais Navegantes, no rio Gravataí, no terminal Santa Clara da Copesul no Jacuí em Triunfo e, claro, em Pelotas e Rio Grande, a grande porta de entrada e saída de cargas.

Com seu quilômetro de cais íntegro, o Mauá poderia receber outras embarcações além dos catamarãs da Catsul, do barco de turismo Cisne Branco e das chatas de serviço da SPH. Para acolher navios de carga, bastaria uma dragagem de aprofundamento do calado. Nesse caso, seria preciso resolver o nó viário que seria criado pelo congestionamento de caminhões na Mauá, se bem que esse problema foi completamente negligenciado no caso do projeto de revitalização. E se o Puerto Mauá estivesse operando pra valer? A mídia estaria condenando os trombos viários?

O Cais Mauá é um dos maiores emblemas da história de Porto Alegre e do Estado. Um pedaço da alma da cidade, como o Mercado Público, o Gasômetro, a Rua da Praia, o Theatro São Pedro, a Santa Casa. Esse nome, Cais Mauá, tem apenas um século e homenageia o gaúcho Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá (1813-1889), fundador da Estrada de Ferro Central do Brasil (1854).

Como aconteceu em muitas cidades ribeirinhas, foi na beira do Guaíba que a capital começou no século XVIII, Desde as origens a cidade foi dominada pela horizontalidade. A água sempre foi o denominador comum. Guaíba, em tupi, é sinônimo de muita água.

Quem chega de avião ou se aproxima pela BR-290 ou pela BR-116 não consegue ficar indiferente ao mundaréu de água que circunda a capital gaúcha. De qualquer foto ou vídeo é impossível excluir a imensidão líquida em contraste com o aglomerado de construções que abrigam residências, escritórios e repartições públicas.

A razão mais forte para tanta edificação é que o porto era o lugar mais rico da cidade. Por ali passavam os melhores produtos, as grandes cargas. Não foi por acaso que na curtíssima Avenida Sepúlveda, com apenas um quarteirão entre o pórtico do porto e a Praça da Alfândega, foram construídos frente a frente dois prédios monumentais.

De um lado, a Alfândega federal, do outro, a Secretaria da Fazenda do Estado — duas fortalezas fiscais à espreita da riqueza que passava por ali e, a partir dos anos 1950, passou a circular, principalmente, nas rodovias, hoje responsáveis por 80% do transporte de cargas do RS, paradoxalmente o estado mais bem provido de vias navegáveis, depois do Amazonas.

Enquanto durou o vai-não vai do empreendimento turístico-imobiliário enfim encalhado, a capital confirmou sua vocação portuária ao construir com uma frota mínima de três catamarãs uma ponte hidroviária com Guaíba, o maior sucesso logístico da administração pública gaúcha nos últimos anos. Além disso, de Guaíba para Rio Grande, a Celulose Riograndense intensificou o uso da Laguna dos Patos como canal de transporte de celulose; no retorno, suas barcaças voltam carregadas de toras de madeira embarcadas no porto de Pelotas, que retomou as atividades que fazem parte de sua história bicentenária.

Embora mudem os locais de atracagem dos navios e movimentação de cargas, a navegação continua viva no Rio Grande do Sul e mantém Porto Alegre nas suas rotas. A quem duvidar dessa informação, recomenda-se uma visita ao edifício da SPH na Avenida Mauá, 1050.

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