Cargas muito pesadas

Mesmo sob intensa manipulação por jornais, revistas, veículos de rádio-TV e da mídia digital, a maioria dos brasileiros sabe: o transporte rodoviário de cargas é feito não apenas por caminhoneiros autônomos, mas por milhares de motoristas que são empregados (ou prestadores de serviços sem vínculo formal) de grandes empresas proprietárias de frotas de caminhões.
Os brasileiros também sabem, porque isso faz parte do seu cotidiano, que os motoristas viajam quase sempre sozinhos, e apenas na entrada das cidades fazem embarcar os “chapas”, que atuam como guias e auxiliam na entrega das cargas (os chapas estão sendo dispensados pelo uso do GPS nos caminhões).
Apenas nos caminhões de entregas urbanas os motoristas têm companheiros de jornada.
Essa heterogeneidade do pessoal envolvido no transporte de cargas potencializou as demandas previamente anunciadas e surpreendentemente desdenhadas pelo governo federal, que não deu a devida atenção aos avisos, pedidos e advertências das entidades de representação dos “caminhoneiros” descontentes com os preços do óleo diesel.
Será que o governo apostava numa greve de curta duração, após o que as autoridades federais apareceriam como magnânimas salvadoras da pátria?
Impossível compreender qual o cálculo feito ou qual a estratégia prevista, tanto que a maioria dos analistas concluiu que foi uma mistura de incompetência com negligência.
Falhou o governo ao não dar escuta nem abrir um diálogo com os “caminhoneiros”. Ou, seja, foi o próprio governo quem deu combustível para os grevistas, que se revelaram extremamente organizados, obedecendo a comandos múltiplos não identificados pelas autoridades.
Uma das questões que ficaram da greve é saber quais as fontes de informação dos “caminhoneiros”?
Em outras palavras, quem os manteve a par das “negociações” com os representantes do governo? Os clientes? Os colegas de profissão? As emissoras de rádio-TV? As redes sociais mantidas por meio de PCs, note books e tabletes com sua multiplicidade de recursos de comunicação on line?
Também se pode supor que “caminhoneiros” de longo curso dispõem de instrumentos sofisticados para se comunicar on line com suas matrizes e sucursais – e até para sintonizar freqüências de rádio operadas pelas forças de vigilância das estradas e de segurança do patrimônio das pessoas.
Não há dúvida de que a greve dos caminhoneiros foi manipulada de cima para baixo, de fora para dentro, dos lados para o centro, do centro para fora, mas cabe ao governo federal a maior parte da responsabilidade — inclusive por não revelar quem são os “infiltrados” que coagiram “caminhoneiros” a retardar o fim da greve.
Mas não foi por acaso ou descuido que o presidente-tampão botou na direção da Petrobras um economista sintonizado com a onda neoliberal que varre o mundo.
Há cada vez mais pessoas convencidas de que a colocação do ‘global’ Pedro Parente na BR faz parte de um plano de alienação do patrimônio nacional.
Se Parente pode ser apontado tranquilamente como o verdadeiro pivô da greve dos transportes rodoviários, a responsabilidade por esse movimento sem precedentes na história recente cabe a seu chefe.
Se este não é Michel Temer, deve ser alguém situado numa mesa grande fora do Brasil. Alguém interessado na instauração do caos neste país rico em recursos invejáveis.
Se não fosse pelo interesse da desorganização da economia brasileira, bastaria portanto a Petrobras maneirar na política de preços para fazer arrefecer a greve.
Mas não se ouve um pio sobre isso, de parte do governo, o que sinaliza uma rebordosa em tempos vindouros.
Se a petroleira nacional se mantiver atrelada às cotações internacionais e às variações do dólar, a rosca vai se apertar novamente sobre os segmentos mais diretamente dependentes dos combustíveis fósseis, cujos reflexos pesam sobre toda a população.
Vale a pena a Petrobras trabalhar para remunerar regiamente acionistas particulares e fundos de pensão situados mundo afora, enquanto 200 milhões de brasileiros pagam o pato? Não foi para isso que a estatal foi criada.
A BR conseguiu colocar o Brasil num patamar da independência energética. Não é hora de entregar os pontos conquistados. O nome dessa capitulação é entreguismo, substantivo que define a disposição mental para a alienação da soberania, a subserviência aos colonizadores. Uma vergonha, enfim. Um mau exemplo para os jovens que acreditam na própria capacidade.
O empresariado e a mídia estão irmanados numa campanha pela privatização da estatal do petróleo e de hidrelétricas.
Segundo essa campanha, os ativos estratégicos do Brasil deverão ir para mãos de capitalistas dos EUA, da China e de outros países mais adiantados e aptos a administrar as riquezas alheias.
Quem poderia conter essa onda privatista? O Congresso, se não for venal. O Ministério Público, se for menos elitista. A mídia, se olhar o interesse público. No fim das contas, a resistência final cabe ao povo por meio de manifestações políticas, inclusive nas eleições de outubro.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Era meia-noite e meia quando Getúlio enfim deu ordem para que todos fossem chamados. Enquanto esperava a chegada dos colegas, Tancredo Neves se aproximou de Getúlio, que estava fumando o tradicional charuto.
‘Presidente, como vamos conduzir a reunião ministerial? Qual deve ser a nossa posição?’
‘Iremos ouvir os ministros militares e tomaremos uma decisão’, respondeu o presidente, que apanhou a caneta-tinteiro sobre a mesa e a entregou a Tancredo.
‘Guarde isso, como lembrança desses dias…’
O ministro o olhou com ar de surpresa.
‘Não se preocupe, tudo vai acabar bem’, comentou Getúlio.”
(Lira Neto, na página 334 do terceiro e último volume da biografia de Getúlio Vargas (Cia das Letras, 2014), em que narra um episódio da madrugada de 24 de agosto de 1954 no Palácio do Catete, oito horas antes do suicídio do gaúcho de São Borja.)

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