Categoria: Análise&Opinião

  • LIDIANE KLEIN / Solidão atrelada ao desamparo pode gerar depressão nos idosos

    Em meio a pandemia do Coronavírus muitos sentimentos estão emergindo neste momento, mas existe um que ao meu ver, precisa de uma atenção especial, que é o sentimento de solidão. Em tempos normais, a solidão é o medo mais preponderante na faixa etária dos idosos, de acordo com uma pesquisa realizada pela sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em parceria com a Bayer, seguido pela preocupação com a incapacidade de enxergar ou se locomover e o desenvolvimento de doenças graves em terceiro lugar.

    Seguindo este raciocínio, podemos pensar que neste momento muitos idosos estão justamente vivenciando o seu maior medo. E, será que estão tendo recursos internos para enfrentar essa situação? Será que os familiares têm os feito sentirem-se amparados?

    A solidão é um estado de quem se sente só, provocado por um sentimento de vazio interior, que na maioria das vezes, é proveniente da falta de interação, de diálogo e de convívio com outras pessoas, ou seja, sentimento propício para emergir neste momento que estamos vivenciando.

    Independente da causa, se pelo coronavírus ou não, é fato que a solidão afeta, e muito, o bem-estar, a autoestima e a rotina de quem sofre com ela. Os sentimentos de vazio e tristeza são comuns a pessoas que se sentem solitárias e, com eles, dificilmente há motivação para reverter o caso. A solidão apesar de ser universal, é complexa e única a cada indivíduo.

    A solidão se torna mais grave quando está atrelada ao sentimento de desamparo. O desamparo desperta a sensação de não proteção e abandono, a pessoa passa a ficar desorientada porque sente que não tem um ponto de referência e um apoio em sua vida.

    A solidão é uma  condição que se conecta fortemente com a depressão podendo ser uma de suas consequências, sendo que o contrário também é verdadeiro, a depressão também é uma das possíveis causas do sentimento de solidão, já que ela pode levar a pessoa a um estado de isolamento, ainda maior que este momento exige, sensação de desesperança e a ideia de que a vida não vale a pena.

    Para muitos idosos estar só não é problema, pois veem o tempo que se está sozinho como um momento de dedicação pessoal, ou seja, um período no qual se pode fazer coisas de que gosta, que lhe trazem bem-estar. Mas isto normalmente acontece quando o idoso tem certeza da força dos seus vínculos sociais. Apoio e presença de familiares e amigos, mesmo que virtualmente, são um forte fator de proteção contra o sentimento de solidão. Uma vez que o idoso se percebe amparado e bem atendido, ele sente mais confiança em estar sozinho.

    Neste cenário que estamos vivendo, o ideal seria que desenvolvêssemos a solitude. Solitude é o estado de privacidade de uma pessoa, não significando, propriamente, estado de solidão. Pode representar o isolamento e a reclusão, voluntários ou impostos, porém não diretamente associados a sofrimento. Quem encontra a solitude, não sente receio de estar sozinho, no prazer de sua própria companhia.

    É nesse momento que podemos desenvolver o autoconhecimento, de nos encontrar ao invés de tentar fugir e de nos aceitarmos como realmente somos, independentemente da aprovação do outro. Todos os dias, procure marcar um encontro com você mesmo. Ter um tempo sozinho é essencial para seu desenvolvimento. É um momento onde conseguimos ouvir pensamentos que se escondem quando estamos com muitas pessoas ao nosso redor.

    Dicas para vencer a solidão e manter a saúde mental em tempos de Coronavírus:

    -Manter uma rotina diária, pois ela é estruturante para o nosso psiquismo;

    -Ler um livro (muitas editoras estão disponibilizando versões em ebook);

    -Assistir um bom filme;

    -Escutar música e porque não dançar junto;

    -Escrever sobre os sentimentos da quarentena;

    -Realizar atividade física dentro de casa (tem muitos vídeos disponibilizados de exercícios);

    -Acessar informação de forma ponderada;

    -Se familiarizar e utilizar a tecnologia para se aproximar das pessoas através de ligações ou vídeo chamadas;

    -Se dedicar a alguma atividade que goste (artesanato, culinária, jardinagem, etc);

    -Praticar meditação, sua prática melhora os sintomas de ansiedade, diminui o estresse, melhorando inclusive o seu sistema imunológico (tem vídeos na internet de meditação guiada, pra quem ainda não é praticante);

    – Manter-se intelectualmente ativo pois estudos evidenciam que a solidão está ligada a piora das funções cognitivas;

    -E por fim cultivar pensamentos positivos, pois os pensamentos pessimistas são os maiores responsáveis pelo nosso adoecimento psíquico.

    Este período complicado vai passar, seguiremos nossas vidas, porém cada um precisa fazer a sua parte, que é se cuidar. A prevenção segue sendo o melhor remédio.

    “A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho” (Tillich)

    Lidiane Klein é psicóloga, especialista em Neuropsicologia, mestre em Psicologia e Saúde, doutoranda em Ciências da Reabilitação.

  • ALDO REBELO / O desenvolvimento segundo Celso Furtado

    Em 1997, já afastado da vida acadêmica e política, o economista Celso Furtado gravou uma saudação ao Encontro Nacional dos Estudantes de Economia, que acontecia em Campinas, São Paulo.

    Na oração aos futuros economistas Celso Furtado fez um breve balanço dos desafios do Brasil, dos sonhos de sua juventude, da difícil conjuntura internacional e da necessidade da confiança no País.

    Ele disse que, quando jovem, pensar o futuro era pensar o desenvolvimento e pensar o desenvolvimento era pensar a industrialização. A ideia parece plenamente atual uma vez que o Brasil vive o duplo processo de perda de dinamismo de sua economia acompanhada da rápida desindustrialização.

    Ao abordar os obstáculos ao desenvolvimento, Celso Furtado apontou a baixa capacidade de investimento do Estado, resultado de sua reduzida poupança, e o elevado endividamento público carreando recursos crescentes para pagamento de uma dívida agregada a juros determinados fora do País.

    O tema é contemporâneo e questiona a orientação do grupo que dirige hoje a economia do Brasil, atrelado aos paradigmas fiscalistas e a uma ortodoxia deletéria já aposentados em todo o mundo.

    Celso Furtado faria 100 anos em 2020 e o seu nome deve ser reverenciado pelo Brasil e pelos brasileiros. Historiador, intérprete do Brasil, acadêmico, pensador original, sofisticado e cosmopolita, foi um homem do mundo, mas sua alma permaneceu na Pombal onde nasceu na Paraíba, e forjou seu ethos de sertanejo, nordestino e brasileiro que o orientou e sustentou por toda a vida.

    Avesso a arroubos nacionalistas, seu patriotismo genuíno está na trajetória intelectual dedicada aos problemas brasileiros, no sotaque que nunca abandonou apesar de décadas em Paris, no afeto quase filial com que se referia ao Brasil, à sua história e cultura.

    Homem de ciências e homem de Estado, sua vida foi uma constante preocupação com o Brasil, sempre apontando soluções carregadas de audácia e coragem para os obstáculos ao desenvolvimento nacional.

    Cassados os seus direitos políticos em 1964, recebeu convite como pesquisador nas melhores universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra. O presidente Charles de Gaulle assinou pessoalmente o decreto que o tornou o primeiro estrangeiro admitido como professor titular da cátedra de Desenvolvimento Econômico da Faculdade de Direito e Economia da Sorbonne em Paris.

    Ao Nordeste dedicou a Sudene, sua criação intelectual e de administrador. Ao Brasil destinou toda uma obra que permanece atual e o patriotismo capaz de educar gerações e oferecer referências seguras contra os que buscam orientações nas extravagâncias importadas pelo identitarismo pretensamente progressista e pelo neocolonialismo conservador.

    Aldo Rebelo é jornalista, foi presidente da Câmara dos Deputados; ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Esporte; da Ciência e Tecnologia e Inovação e da Defesa nos governos Lula e Dilma.

  • VERA GARCIA / Os adversos Brasis da pandemia

    O consenso científico mundial sobre a prevenção do novo coronavírus, até que chegue a vacina, inclui três medidas básicas: uso constante de álcool gel para higienizar as mãos, uso de máscaras e o isolamento social. Parte da sociedade, temerosa com a possibilidade de contaminação, tenta seguir à risca essas orientações. Outra parte, negacionista, faz de conta que nada está acontecendo e opta por não aderir aos meios de proteção.

    Entretanto, também existe uma grande parte da população brasileira que, por circunstâncias, permanece à margem de qualquer orientação e invisível aos olhos do governo, dos noticiários e da maioria dos seus compatriotas. São as pessoas que vivem nas 13 mil comunidades carentes espalhadas pelo Brasil.

    Segundo dados atualizados da Agência Brasil, 89% dos moradores de favelas estão em capitais e regiões metropolitanas. As regiões Norte e Nordeste registraram maior percentual de pessoas vivendo em comunidades, de 5% a 10%. Os Estados do Amazonas, Pará, Maranhão e Pernambuco têm mais de 10% da população em favelas.

    A pesquisa revela que há 13,6 milhões de brasileiros vivendo em aglomerados subnormais, privados de saneamento básico, com acesso restrito à água e a condições básicas de higiene. Sem condições financeiras, o álcool gel é artigo de luxo para estas pessoas que convivem de forma muito próxima com familiares e vizinhos, sem qualquer possibilidade crível de fazer isolamento social.

    Relatos de alguns moradores de comunidades indicam que não houve isolamento social em nenhuma fase da pandemia, pelo simples fato de que não há planejamento urbano, a partir das normas exigidas de construção e convívio. Onde o governo não entra com sua parte, não há como impor regras.

    Os moradores nascem e crescem sabendo que não podem contar com promessas de políticos. Sendo assim, a linguagem, os valores e a noção de normalidade são totalmente diferentes do asfalto. Essas pessoas sobrevivem corajosamente a todos os infortúnios, desenvolvem soluções criativas e são extremamente solidárias. Por outro lado, são mais expostas a doenças físicas e mentais.

    Quando as mídias mostram de forma vigilante os muros lotados da Urca ou os transeuntes andando inadvertidamente aglomerados e sem máscara, de certa forma, esquecem ou preferem não mostrar que existem muitos Brasis com regras próprias, submetidos a leis locais (adaptadas às suas condições peculiares) e regidos por modelos mentais forçosamente enquadrados a esses ambientes. E, mais importante, na vigência de uma pandemia, não adianta aplicar regras e limites a uma parte da sociedade, e ignorar que milhões de brasileiros não vão seguir as mesmas regras por total falta de planejamento urbanístico, de políticas públicas de moradia e de profundas desigualdades sociais.

    Vale lembrar que essas pessoas prestam serviços importantes à sociedade, em todos os segmentos. Portanto, se o país pretende avançar em índices de desenvolvimento social e humanitário, e conter a pandemia, é fundamental assumir a responsabilidade pelas necessidades dos mais vulneráveis, projetar a mesma indignação ferrenha que sente pelos aglomerados nas praias ou nos bares e à falta de políticas públicas efetivas de moradias populares e dignas para esses 13 milhões de brasileiros.

    Por Dra. Vera Garcia, psiquiatra pela UFRJ, com MBA de gestão em saúde pela FGV e observership no Jackson Mental Health Hospital, da Universidade de Miami.

  • BEN SMITH / Garanta jornalistas. Deixe as cadeias de jornais morrerem

    Por Ben Smith 

    Você poderia, neste domingo, comprar a Gannett, a maior cadeia de  jornais do país, por meros US $ 261 milhões – cerca de um quarto do que Michael R. Bloomberg gastou em sua campanha presidencial.

    Elizabeth Green, fundadora da organização de notícias educacionais sem fins lucrativos Chalkbeat , é uma das poucas pessoas que podem arrecadar dinheiro para fazer um acordo como esse.

    Mas ela rapidamente percebeu que Gannett não valia a pena: comprá-lo significaria se inscrever para pagar um empréstimo com juros altos de uma gigante empresa de private equity de Nova York e confiar em um modelo de negócios de publicidade que pode estar em sua morte por causa do coronavírus.

    É um momento de profunda crise para o setor de notícias local, que poderia ter sido derrubado por uma brisa leve e agora está enfrentando um furacão.

    Mas também é um momento de grande promessa para uma nova geração de publicações locais sem fins lucrativos.

    Agora é a hora de fazer uma mudança dolorosa, mas necessária: abandone os jornais locais com fins lucrativos, cujo modelo de negócios não funciona mais, e vá o mais rápido possível para uma rede nacional de novas e ágeis redações online.

    Dessa forma, podemos resgatar a única coisa que vale a pena nas empresas de jornais locais estripadas e amplamente mal administradas da América – os jornalistas.

    “Precisamos aceitar que as notícias locais de hoje já estão morrendo”, disse Green, 35 anos.

    Ela percebeu isso há 12 anos quando era repórter de educação local. Seu jornal, The New York Sun, faliu e ela criou uma nova organização sem fins lucrativos para se manter no ritmo que amava.

    Agora, sua visão se expandiu. Ela co-fundou o American Journalism Project , que visa criar uma enorme rede de agências sem fins lucrativos, algumas organizadas em torno de assuntos como educação ou justiça criminal, outras focadas em cobrir um bairro, uma cidade ou um estado.

    Ela quer substituir as centenas de jornais locais agora pertencentes a fundos de hedge que estão sendo lentamente secados.

     “Precisamos manter os valores, manter as pessoas, manter as lições aprendidas – e nos livrar dos acionistas e obter um melhor modelo de negócios”, disse ela.

    Green tem trabalhado para expandir uma área de cobertura obviamente necessária, a saúde pública, para todos os 50 estados dos EUA, trabalhando com o serviço de notícias sem fins lucrativos Kaiser Health News.

    E no nível local, ela e John Thornton, outro fundador do American Journalism Project, estão trabalhando em um novo projeto: apoiar uma agência sem fins lucrativos na Virgínia Ocidental.

    Será liderado por Greg Moore, ex-editor executivo do Charleston Gazette-Mail, e Ken Ward, repórter do jornal, que ganhou uma bolsa MacArthur “Genius” por sua cobertura dos danos causados ​​pelas indústrias de carvão e gás à vida das pessoas.

    A nova agência ainda não nomeada (os candidatos incluem “Mountain State Muckraker”) começará com uma equipe de cerca de 10, sete deles jornalistas, uma equipe de notícias na mesma escala do jornal local diminuído.

    “Existe toda essa ‘desgraça e tristeza para as histórias de jornalismo local’ que aconteceram na última semana, e espero que outras pessoas vejam o que estamos fazendo e entendam que o importante é o jornalismo – são as histórias, são as investigações – é isso que importa ”, disse Ward.

    Ele também estará na equipe da potência investigativa sem fins lucrativos ProPublica, e terá o apoio do Report for America, outra organização sem fins lucrativos em crescimento que envia jovens repórteres para redações em todo o país.

    O setor de notícias, como todo negócio, está procurando toda a ajuda que pode obter nessa crise.

    Os analistas acreditam que o novo pacote de auxílio federal ajudará por um tempo e que o setor tem um forte argumento. Os governos estaduais consideram o jornalismo um serviço essencial para divulgar informações de saúde pública.

    Os repórteres empregados por todos, desde o grupo sem fins lucrativos mais valioso até a cadeia cínica de fundos de hedge, estão arriscando suas vidas para obter para os leitores fatos sólidos sobre a pandemia e estão responsabilizando o governo por suas falhas.

    Praticamente todos os meios de comunicação informam que o número de leitores está no máximo de todos os tempos. Todos precisamos saber urgentemente sobre onde e como o coronavírus está afetando nossas cidades, bairros e vizinhança.

    Mas o negócio de publicidade que sustentou os jornais locais – revendedores de automóveis, varejistas e cinemas que, por gerações, encheram suas páginas de anúncios – passou do lento declínio para a queda livre .

    Portanto, os líderes que tentam levar a indústria de notícias local através desse choque econômico precisam enfrentar a realidade. A receita da publicidade impressa e do envelhecimento dos assinantes já estava desaparecendo. Quando a crise acabar, é improvável que volte. Alguns semanários locais fecharam recentemente para sempre .

    Muitas das respeitáveis sugestões para salvar o setor de notícias evitam esse problema central. Margaret Sullivan, do Washington Post, sugeriu um amplo “plano de estímulo coronavírus”, e uma coluna no The Atlantic pedia um enorme gasto do governo em anúncios de saúde pública.

    Sem restrições cautelosas, grande parte desse dinheiro do governo será destinada a cadeias de jornais condenadas, para as quais um objetivo importante, como disse o executivo-chefe da Gannett em sua última demonstração de resultados no final de fevereiro, é pagar dividendos aos acionistas imprudentes o suficiente para investir em seu negócio condenado. (Os executivos da Gannett se recusaram a falar comigo para esta coluna.)

    Então, o que vem a seguir? Essa decisão será tomada nos próximos meses – por funcionários públicos, filantropos, Facebook (que deverá anunciar outra onda de financiamento de notícias locais em breve)* e outras empresas de tecnologia e pessoas como você.

    A decisão certa é olhar consistentemente para o futuro, que vem de várias formas. O mais promissor agora é o sonho de Green de uma grande e nova rede de organizações de notícias sem fins lucrativos em todo o país, segundo o modelo do The Texas Tribune , que Thornton co-fundou.

    Existem também algumas agências de notícias locais com fins lucrativos, como The Seattle Times, Los Angeles Times e Boston Globe, com proprietários ricos e de espírito cívico, e The Philadelphia Inquirer, que é de propriedade do Instituto sem fins lucrativos Lenfest Institute para jornalismo. E há uma geração de sites pequenos e independentes de associação ou assinatura e boletins como o Berkeleyside .

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    Centenas de jornalistas locais dedicados estarão procurando emprego assim que puderem pensar em algo que não seja o que o coronavírus está fazendo nos lares e hospitais locais.

    Deveríamos ajudá-los e pagar por eles para construir essas novas instituições, grandes e pequenas.

    O apoio do governo, como sugere Steven Waldman, co-fundador do Report for America, poderia dar uma gorjeta para as novas organizações sem fins lucrativos e pequenas empresas. O Facebook e o Google poderiam focar em apoiá-los, em vez de pagá-los para criar vídeos do YouTube.

    Um grupo de jornalistas da Califórnia está agora trabalhando em um “Plano Marshall” para levar as agonizantes publicações do estado a fazer “transições imediatas de força bruta” para um modelo digital sustentável, disse Neil Chase, ex-editor executivo do San Jose Mercury News que agora lidera o CalMatters sem fins lucrativos.

    As pessoas que dirigem as grandes redes de jornais – Gannett, Tribune, McClatchy, falida, mas ambiciosa , e o implacável Media News Group – discordam, é claro.

    Eles argumentam que o sonho da publicidade digital em uma escala que pode competir com o Google, um argumento original para fusões, ainda está ao alcance; e que eles podem cortar e centralizar seu caminho para a estabilidade.

    Eles também apontam que esses novos modelos carregam riscos reais, e estão certos quanto a isso. Eu aprendi em primeira mão. Eu era presidente do conselho da redação sem fins lucrativos de Nova York, The City – uma das mais promissoras da nova guarda – enquanto tentava ler suas histórias. Eu assisti minha esposa construir um pequeno canal de notícias do zero no solo difícil de publicidade e assinaturas locais na Bklyner. Os recém-chegados terão que se esforçar para manter as equipes do tamanho das redações locais mais estripadas. E o jornalismo sem fins lucrativos pode ser chato, mais atento aos doadores do que ao público.

    “É uma má ideia deixar o governo e as pessoas ricas assumirem o negócio de notícias e deixar os distribuidores completamente fora do gancho”, disse David Chavern, presidente e diretor executivo da News Media Alliance, o principal grupo de lobby da indústria jornalística, que representa redes e pequenos editores locais e está buscando ajuda do governo. (Um ativo legado do setor de jornais é ter um bom lobista em Washington.)

    Ele argumenta que a melhor política pública e a salvação para seus membros é forçar o Google e o Facebook a pagar pelas notícias em suas plataformas.

    Nada disso é resolvido ou fácil. O debate mais acalorado em locais onde os executivos de notícias sem fins lucrativos se reúnem – atualmente, principalmente uma discussão inesperada sobre o Slack – é se é sempre seguro ou ético receber financiamento do governo. O nome do canal do Slack? #apocalypsenow.

    Ben Smith é o colunista da mídia. Ele ingressou no The Times em 2020, depois de oito anos como editor-chefe do BuzzFeed News. Antes disso, ele cobriu política para Politico, The New York Daily News, The New York Observer e The New York Sun. E-mail: ben.smith@nytimes.com @benyt

    • Extraído do New York Times. Uma versão deste artigo aparece impressa em 30 de março de 2020, Seção B , página 1 da edição de Nova York, com a manchete “Bailing Out Publishers Is Pure Folly” (Afiançar os editores é pura loucura). 

     

  • IVANIR JOSÉ BORTOT / BC tem sido negligente no combate à volatilidade cambial

    O Banco Central (BC) tem sido no mínimo negligente em sua política cambial. A volatilidade cambial com variações diárias de 1% a 2% para cima ou para baixo tem provocando muita dor de cabeça aos exportadores e importadores. Se as pessoas errarem de mão nestas operações poderão arcar com um prejuízo equivalente à inflação de um ano, trazendo consequências para rentabilidade do seu negócio.

    Sem falar que o câmbio tem papel fundamental na formação de todos os preços da economia e na relação de trocas entre o Brasil e o exterior. De fevereiro a junho de 2020 o dólar passou de R$ 4,20 para R$ 5,30. Um remédio, um insumo agrícola, matérias-primas e industriais estão cada vez mais impactados pela valorização do dólar. É verdade que quem está ganhando neste momento é o exportador, mas esta valorização do dólar terá reflexo sobe o comportamento da inflação.

    O presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse há poucos dias que ainda não há uma causa clara para as oscilações e desvalorização do real. Sem um diagnóstico preciso fica difícil a autoridade atuar no mercado para acabar com essa volatilidade.

    Mesmo sem saber os fundamentos, a autoridade monetária deveria seguir o mercado que atua na lógica da oferta e da procura. É simples: se está faltando dólar no mercado e o preço está subindo, a área de câmbio do BC deveria entrar vendendo papel moeda ou fazendo operações com seus papéis cambiais. Se tiver caindo muito, entra comprado.

    O nível de reservas internacionais atual do Brasil, de US$ 350 bilhões, divisas a custos elevados para fazer frente a crises econômicas como esta da covid-19, deveria ser usado para conter as especulações do mercado. São recursos que deveriam ser usados para honrar compromissos externos e evitar que este tipo de especulação cambial que vem ocorrendo seja mais um fator de insegurança aos agentes econômicos, empresários e consumidores.

    O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a dizer que a venda de US$ 70 bilhões poderia ser realizada para abater parte da dívida pública federal, sem que isso deixasse o Brasil vulnerável em suas reservas. O preço de hoje, a venda destes dólares, que foram comprados a um preço muito mais baixo pelo bancos centrais, sem falar no lucro da operação, daria para o Tesouro Nacional abater pelo menos RS$ 35 bilhões.

    Estudos internos feitos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2019 indicavam que o Brasil poderia vender até U$ 150 bilhões sem comprometer a capacidade do País honrar seus compromissos externos. A regra é de que um País precisa ter reservas internacionais equivalente a 12 meses de suas importações.

    Tudo indica que a autoridade monetária tem evitado fazer operações mais fortes no mercado de câmbio, não por desconhecer os fatores que têm provocado depreciação do real, mas sim pelo temor dos reflexos na sua política monetária. É que houve um encurtamento nos prazos  da dívida pública com a crise do Covid-19 e hoje os volume de rolagem dos papéis do Tesouro nacional equivalem a 1,7 vezes apenas ao saldo das reservas internacionais do País.

    Ivanir José Bortot é jornalista.

  • MIRIAM GUSMÃO / O Jornalismo entre o cultivo da desinformação e o interesse público

    Um alento: ficamos sabendo, nos últimos dias, que estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco realizam um trabalho social, na periferia de Recife, colaborando com as comunidades que inventam meios próprios para combater o novo coronavírus. O projeto que desenvolvem chama-se “Manda no zap” e consiste na produção de breves mensagens para celular, em que traduzem, em linguagem clara e simples, as orientações científicas para evitar a propagação do vírus e enfrentar as infecções. Algumas pessoas atuam como contatos, nas comunidades, recebendo as mensagens e se encarregando do compartilhamento em grupos de whatsapp. É uma iniciativa aparentemente pontual, que dá resposta a uma circunstância específica. No entanto, além de atender a uma necessidade coletiva momentânea e localizada – o que, por si só, é importante – a produção da informação, com as devidas fontes e a serviço de todos, reveste-se de um simbolismo maior, no momento em que tantos jornalistas dedicam-se à desinformação. A atitude desses futuros profissionais da comunicação nos traz esperança de dignidade, em meio à canalhice vigente. Podemos colocar em contraste atitudes como essa e a ação experiente de jornalistas sem qualquer compromisso social, que adquirem prestígio servindo a interesses inconfessáveis em jornais, portais e emissoras de TV e rádio. O auge da manipulação tem ocorrido nos espaços jornalísticos supostamente dedicados à análise das notícias, com pretensas interpretações especializadas. É nesse palavreado enganoso que fatos são omitidos ou distorcidos, declarações são descontextualizadas e ocorrem juízos de valor com ausência do necessário posicionamento equidistante em relação aos envolvidos. Sem desconsiderar que há exceções respeitáveis, podemos dizer que a desinformação vem sendo cultivada por dentro dos veículos que teriam a função social de informar. Um exemplo gritante desse fenômeno é o programa  Os pingos nos is, da Rádio Jovem Pan de São Paulo. Um desalento.

    Desde o nome, o programa engana o ouvinte desavisado. A conhecida expressão “colocar os pingos nos Is” (que, em linguagem mais rigorosa, seria colocar os pontos nos ii) dá ideia de clarear informações; resolver questões duvidosas, obscuras ou incompletas; esclarecer. E o formato, com um âncora (apresentador) e três comentaristas, presumidamente de alta competência, tenta indicar que o ouvinte terá, sem qualquer esforço, as informações dissecadas, analisadas, com objetividade e credibilidade, doa a quem doer. Não é o que ocorre ao longo dos seis anos de existência desse arremedo de jornalismo que, na verdade, mesmo com as trocas de elenco, sempre esteve a serviço de ideologias, fazendo verdadeiras campanhas, dissimuladas ou não. No momento, esses agentes da manipulação da informação (cujos nomes não merecem referência)  estão empenhados na defesa do governo Bolsonaro e da presença de militares em áreas técnicas do governo, bem como na execração pública de quem levantar algum questionamento sobre a dramática situação do país na pandemia. O alvo dos ataques, tradicionalmente no âmbito dos políticos de esquerda e dos movimentos sociais, agora abrange também o Supremo Tribunal Federal, bem ao gosto do presidente da República e de sua família.

    Ainda no dia 22 último, o programa voltava a fomentar, sempre partindo de informação distorcida, a pretendida crise entre o ministro Gilmar Mendes e as Forças Armadas. Com arrogância e falso moralismo, os comentaristas voltaram a adjetivar – chamando de leviana – a suposta afirmação do ministro, que teria ofendido a instituição militar, associando-a à prática de um genocídio. Nem mesmo a transcrição, na íntegra, por outros veículos de comunicação, das afirmações de Gilmar Mendes serviu para colocar os verdadeiros pontos nos is. As referidas afirmações ocorreram no dia 11 de julho, quando da participação do ministro e de especialistas em Saúde Pública numa live da revista Istoé, mas seu conhecimento integral em nada mudou a campanha manipuladora. Igualmente não motivou ponderação a nota que o ministro publicou no dia 14 de julho, contextualizando suas afirmações e afastando a hipótese de pretender ofender as Forças Armadas. Os comentaristas preferiram continuar sua pregação, usando como dado novo, sem alterar a linha de abordagem, um vídeo em que o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, falava do empenho da instituição no combate à pandemia. Não chamou a atenção desses “dedicados” analistas uma frase importante desse vídeo: o laboratório químico e farmacêutico do Exército aumentou significativamente a produção de cloroquina e de álcool em gel e distribuímos para as nossas organizações militares de saúde, colocando-os à disposição dos médicos e pacientes. Não era o intuito, mas eis que o vídeo traz mais uma comprovação da ação dos militares em sintonia com Bolsonaro e em dessintonia com a Ciência e com as orientações da Organização Mundial da Saúde. Como se sabe, a cloroquina não se mostrou adequada ao combate da covid19 e seu uso atestou incidência de efeitos colaterais graves, com risco e até ocorrência de morte.

    O ponto central do debate promovido pela revista Istoé havia sido a preocupação de todos os participantes com os números alarmantes de infectados e mortos pela covid19 no Brasil, sem que exista uma política nacional integrada para o enfrentamento da pandemia. Os debatedores, na ocasião, apontaram como um dos grandes problemas a não nomeação, desde maio, de um ministro da área médico-sanitária para a Saúde, assim como o fato de o general que assumiu interinamente o ministério ter nomeado nove outros militares para cargos-chave da pasta, que deveriam ser ocupados por técnicos. Os debatedores refutaram, como tática politica inaceitável, a alegação de Bolsonaro de que o STF retirou o poder de ação da União e o entregou aos estados e municípios. Nesse contexto, o ministro Gilmar Mendes lembrou que o STF, na linha do modelo tripartite previsto na Constituição, reiterou a corresponsabilidade da União, estados e municípios, admitindo ações dos poderes estaduais e municipais, desde que pautadas por critérios científicos. A constatada negligência de Bolsonaro, sua falta de atenção à vida dos brasileiros, e a mencionada entrega de cargos a militares levaram o ministro do Supremo, nesse debate, a alertar que as Forças Armadas são instituição de Estado e não podem ser requisitadas para políticas de governo, e que o Exército não pode ser associado a um genocídio. Ainda na ocasião, defendendo a postura do STF diante da crise sanitária, Gilmar Mendes lembrou que foram suspensas normas relativas à Lei de Responsabilidade Fiscal, a fim de viabilizar a ação do governo na emergência. O ministro, além disso, levantou questões interessantes a serem pensadas, como o direito à boa governança, muito reconhecido na União Europeia. À luz desse direito, não seria aceitável o vazio no Ministério da Saúde. Também mencionou a desatenção às condições sanitárias da periferia, no Brasil, e, citando o economista José Roberto Afonso, com quem conversou a respeito, defendeu uma necessária Lei de Responsabilidade Social, talvez a ser pensada no pós-pandemia.

    Como se pode constatar, é enorme a distância entre os acontecimentos e os comentários dos supostos analistas. Boa parte do público, que não acompanhou o referido debate, adotará como verdade a manipulação da informação feita por quem, supostamente, coloca os “pingos” nos is. Um dos três comentaristas, no dia 22, chegou a sustentar que o STF teria, de fato, impedido que o governo federal concretizasse seu plano de ação contra o coronavírus. Faltou dizer em que consistiria o plano de ação interrompido, algo além da inútil carga de hidroxicloroquina vinda dos Estados Unidos, da demissão intempestiva de dois ministros da Saúde, do foco único nos interesses empresariais, da incitação à desobediência às normas sanitárias, da destinação, por longo tempo, de apenas 29% do dinheiro disponível para as ações de combate à pandemia (conforme relatório do Tribunal de Contas da União), das afirmações desrespeitosas e insensíveis do presidente da República diante do luto de milhares de famílias. No entanto, os comentaristas manipuladores  prescindem dos fatos, não têm qualquer compromisso com a verdade. Não fazem jornalismo, apenas servem a jogos de interesses. Desse modo, negam à população o direito à informação, previsto na Constituição Federal de 1988. É o exercício desse direito que possibilita a democracia e a cidadania, com a inserção de cada indivíduo, como sujeito de suas ações, em questões coletivas. É com a informação que se torna possível o conhecimento de protocolos e a civilidade da população. A informação é também ferramenta de controle social, capacitando o monitoramento das atuações de governantes, permitindo a escolha consciente de representantes, a compreensão mínima dos contextos, a expansão dos projetos de vida.

    Por isso é alentador saber que estudantes de Jornalismo, em Pernambuco e, possivelmente, em outros lugares do Brasil, não seguem o mau exemplo da canalhice vigente e mantêm vivo o compromisso com a informação. Aliados a voluntários, nas comunidades da periferia de Recife, realizam um trabalho social de extrema importância neste momento grave de pandemia. É a dignidade do jornalismo preservada, dentro da luta maior pela dignidade dos seres humanos, particularmente dos abandonados pelo Estado, em localidades pobres deste país tão desigual. No momento em que a rádio Jovem Pan e outros veículos manipuladores põem no ar os seus farsantes, é alentador saber que há ciclistas circulando por bairros, vilas e favelas, com aparelhos de som adaptados nas bicicletas, levando as necessárias informações aos moradores. E, driblando as Fake News do whatsapp, uma rede de informação valiosa consolida-se, ao mesmo tempo em que alicerça a formação de jornalistas que poderão recuperar a ética e fazer a diferença.

    Miriam Gusmão é professora aposentada e jornalista.

  • ALDO REBELO/ Cobiças sobre a Amazônia

    Aldo Rebelo

    Ao comentar a carta de 38 executivos de grandes empresas nacionais e multinacionais com pedido de providências do governo contra o desmatamento na Amazônia, o vice-presidente Hamilton Mourão ponderou que a região é alvo de disputa geopolítica e que incomoda os críticos o fato de o Brasil despontar em breve como a maior potência agrícola do mundo. E acrescentou que os incomodados com a ascensão do Brasil buscam impedir que a produção agropecuária do País evolua.

    Não há uma única inverdade nem uma só novidade nas observações de Mourão. A Bacia do Amazonas é cobiçada desde o Tratado de Tordesilhas (1494) e a presença das três antigas Guianas – francesa, holandesa e inglesa – na fronteira setentrional do Brasil é o testemunho da história de cobiça de todos os impérios coloniais pela natureza exuberante da região. debate sem precisar ter razão, que parece orientar integrantes do atual governo do Brasil e parte dos seus críticos.

    Mas a declaração foi suficiente para desencadear uma tempestade de críticas contra ele e o governo. Aqui mesmo, nesta Folha, um articulista chegou a atribuir os argumentos de Mourão à geopolítica de general de pijama, ufanismo de liberal gagá e ignorância do que se passa no mundo. Não fosse o articulista em questão crítico do atual governo, seria de se imaginar que se inspirara na obra Como vencer um debate sem precisar ter razão, do filósofo alemão Schopenhauer, livro de cabeceira do ideólogo da hora no Palácio do Planalto.

    Cobiça, inveja, curiosidade e interesse são substantivos que movem tantos quantos no mundo manifestam opiniões sobre a Amazônia. A indiferença foi o único sentimento que não percebi em relação à Amazônia nas viagens oficiais internacionais como presidente da Câmara dos Deputados, ou ministro em quatro pastas que ocupei.

    O governo erra ao adotar uma atitude defensiva ou beligerante quando trata do tema Amazônia. Está certo ao repudiar qualquer tese de limitação da soberania do Brasil, mas peca ao não promover um esforço que reúna competência diplomática e científica para explicar a Amazônia, esforço que carece de autoridade e credibilidade, infelizmente em declínio no Itamaraty.

    O estado do Amazonas isolado tem mais florestas do que os territórios somados da França, Alemanha, Noruega, Holanda e Dinamarca, campeões do ambientalismo interesseiro. Em que país da Europa o agricultor destina 80% da área de sua propriedade para proteção ambiental? Em nenhum, no mundo isso só acontece na Amazônia brasileira. A lei europeia não obriga seus fazendeiros a destinarem um mísero hectare para a proteção do meio ambiente. Aqui, 80% do Amapá e 70% de Roraima estão imobilizados em unidades de conservação e terras indígenas, e do que resta com potencial de aproveitamento para a agricultura ou pecuária 80% são reserva legal.

    Em resumo: a Amazônia está protegida por terra, mar e ar e não se pode confundir atividades ilegais com a ocupação laboriosa e secular de brasileiros honrados e trabalhadores que vivem e produzem na região mais abandonada, mais pobre e mais incompreendida da Pátria.

    *Aldo Rebelo é jornalista e foi presidente da Câmara dos Deputados, relator no Novo Código Florestal e ministro de Estado da Secretaria de Coordenação Política e Relações Institucionais; do Esporte; da Ciência Tecnologia e Inovação e da Defesa.

  • LUIZ-OLYNTHO TELLES DA SILVA / Divide et impera

    Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não poderá subsistir.

    Marcos, 3:24.

    O mundo, visto pelo ângulo de cada um, é sempre diverso. Frente a uma mesma paisagem, a um chamar-lhe-á a atenção as nuances do verde; a outro, uma pequena casinha, entrevista em meio ao arvoredo, de onde exala, suave, uma bucólica fumacinha branca; um outro ficará embevecido com a luz do lugar; um Cèzanne olhará para as casinhas e pensará nas pessoas que vivem nela; alguém, com os olhos fechados, dirá da energia do ambiente; e sempre haverá aquele que não verá aí graça nenhuma, antes pelo contrário. A pluralidade de pontos de vista e de opiniões sempre foi a base de nossa riqueza cultural.

    Por outro lado, se, sob o efeito de experiências diferentes, cada um vê o mundo à sua maneira, na escola, entretanto, somos levados a vivenciar experiências comuns e assim aprendemos a tabuada, muitas vezes cantando e dançando, as regras da gramática, a biologia e a história dos feitos de nossos antepassados. Aos poucos vamos construindo uma identidade, tanto pessoal como social, fruto de nossas aprendizagens.

    Hoje, contudo, a diversidade de compreensão do mundo não parece tão simples. Nosso povo parece dividido em dois – apenas dois – grandes grupos. Divididos como se fossem inimigos. Não se falam e, quando o fazem, ou não discutem suas opiniões, na busca de preservar as amizades, ou então se xingam. As opiniões, isso que é o mais próprio do ser humano, porque a certeza – diziam os gregos – pertence aos deuses, tendem a ser discutidas apenas entre os que pensam igual (como se isso fosse possível).

    Foi ao perceber isso, em desacordo à minha premissa, que me lembrei deste antigo ditado latino, Divide et impera. Investigando sua origem, encontrei que, a rigor, ninguém sabe de onde veio. Há quem o atribua a Filipe da Macedônia, mas as referências são incertas. Não há dúvidas, porém, quanto a tratar-se de um recurso maquiavélico para administrar o poder, pondo uns contra os outros. Prosper Mérimée atribuiu-o ao rei Luís XI, da França, que, no século XV, teria criado o slogan Diviser pour régner, dividir para reinar, enquanto o jesuíta Thomas Fitzherbert, de origem inglesa, em seus estudos sobre Maquiavel, que viveu praticamente na mesma época de Luís XI, registrou a variante Si vis regnare divide, se queres reinar, divide. Seja como for, estavam sempre apoiados no princípio de que os meios justificam os fins. A verdade é que há muitas maneiras de dizer o pretendido e talvez nenhuma absolutamente satisfatória. Em todo o caso, quando Mérimée fez essa citação, ele estava ocupado com o reinado do jovem Carlos IX, na França, no momento em que este, querendo libertar-se da tutela de sua mãe, Catarina de Médicis, se une aos protestantes do almirante Coligny para intervir nos Países Baixos em apoio aos adeptos da Reforma. Contudo, frente ao fracasso da intervenção e não tendo como opor-se à sua mãe, nem às lideranças católicas, o rei termina por renegar esses protestantes reformistas, os huguenotes, e permite, ainda que não oficialmente, seu massacre na Noite de São Bartolomeu, uma noite que durou de 24 de agosto de 1572 a meados de outubro do mesmo ano. Embora o número de mortos varie de dois mil a setenta mil, dependendo de quem conte a história, o que se sabe é que depois disso, por causa dos corpos desaguados nos rios, por muito tempo não se pôde comer peixe.

    Quer dizer, dividir para imperar não é o melhor dos recursos para quem pensa no povo, e quando digo povo, antes que às multidões, não raro tomadas como massa de manobra, estou me referindo ao coletivo de pessoas, cada um com seus sonhos. Em sua propaganda, o que os pretendidos imperadores não dizem é que dos fins só sabemos depois e que, para jogar uns contra os outros, tanto os uns como os outros precisam estar unidos entre si, seja em torno de alguma religião, de alguma cloroquina, seja do que for, mas cada um para o seu lado.

    Em minhas investigações, também encontrei que Goethe, por certo com a melhor das intenções, propôs ao aforismo uma contrapartida: Vereinund leite, Une e guia. Mas talvez já fosse tarde.

  • DIEGO PAUTASSO / A China na África

    A densificação das relações sino-africanas remonta ao quadro de forças emergido no Pós-Guerra Fria. A China buscava evitar o isolamento internacional após os eventos da Praça da Paz Celestial (1989) e o sequencial colapso do campo socialista. Assim, mobilizou esforços para garantir fontes de recursos (hidrocarbonetos, alimentos e matérias-primas) e a paralela abertura de novos mercados, capazes de contribuir com seu acelerado processo de modernização. O panorama de marginalização do continente africano no ciclo de globalização neoliberal foi percebido pela China como oportunidade, e permitiu a conformação daquilo que os chineses intitularam de diplomacia zhoubian (periférica).

    Desde então, são ascendentes as relações entre a China e os países do continente africano, como bem evidenciam os números. Se em 1996 o fluxo comercial era de US$ 4 bilhões, em 2000 já chegava em US$ 10 bilhões, e mais contemporaneamente, em 2018, em quase US$ 185 bilhões – bem acima dos US$ 61,8 bilhões do fluxo comercial do continente com os Estados Unidos da América (EUA) no mesmo ano. Nesse mesmo sentido, os investimentos externos diretos (IED) chineses na África vêm aumentando constantemente. Entre 2003 e 2018, o número passou de US$ 75 milhões para US$ 5,4 bilhões – ultrapassando o montante dos EUA desde 2014, já que estes têm diminuído seus investimentos na África desde 2010.

    Ressalte-se que a China tem instituído Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) no continente africano, impulsionando a geração de empregos, a industrialização e a consequente redução da pobreza em muitos de seus países.  Entre 2003 e 2015, a ajuda ao desenvolvimento prestada pela China ao continente africano aumentou constantemente, passando de US$ 631 milhões em 2003 para quase US$ 3,3 bilhões em 2018.

    Ainda mais importante, a cooperação multilateral se multiplicou e se institucionalizou. Seu mais relevante mecanismo é o Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), criado em 2000, que realiza Conferências Ministeriais a cada três anos, sediadas de forma alternada entre a China e os países africanos, elaborando complexos Planos de Ações. Além disso, com a cooperação China-África em constante expansão e aprofundamento, vários fóruns foram estabelecidos no âmbito do próprio FOCAC, tais como o Fórum do Povo China-África, o Fórum de Jovens Líderes China-África, o Fórum Ministerial de Cooperação em Saúde China-África, o Fórum de Cooperação Mídia China-África, a Conferência de Desenvolvimento e Redução da Pobreza China-África, o FOCAC-Fórum Jurídico, o Fórum sobre a China Cooperação entre governos locais, entre outros. As relações da China com a União Africana ou mesmo o papel da África do Sul no BRICS intensificam ainda mais estas interações

    Traçados esses parâmetros empíricos, é possível refletirmos sobre as abordagens ocidentalistas voltadas a configurar a presença da China na África como imperialista ou neocolonial. E nisso reside o entrelaçamento entre a má-fé patrocinada pelo centro do sistema com certas tendências etnocêntricas e até mesmo profundas incompreensões teóricas acerca dessas dinâmicas. Por um lado, atribuir perfil neocolonial à atuação chinesa na África significa assumir o desconhecimento acerca da história do imperialismo do século XIX e mesmo das práticas atuais das grandes potências norte-atlânticas, notadamente dos Estados Unidos da América, pautadas nas mais diversas ingerências externas diretas e indiretas em diversas regiões do globo.

    Por outro lado, é preciso considerar que, apesar das assimetrias, há importantes pontos de convergência entre os países emergentes e os países periféricos, em razão das disputas pela distribuição de poder no mundo. Ou seja, o relacionamento Sul-Sul se torna uma alternativa crucial para resistir aos constrangimentos que os países periféricos e emergentes estão submetidos ao adotarem seus projetos de desenvolvimento nacionais não alinhados aos interesses norte-atlânticos. Assim, não raramente estes mobilizam suas estruturas de poder e seus princípios legitimadores, como a defesa da “democracia”, dos “direitos humanos” e da “liberdade” para impor seus interesses.

    Em outras palavras, o imperialismo não pode ser reduzido ao processo de exportação de capitais, e de fato nunca foi, afinal a soberania política, a autodeterminação e o desenvolvimento nacionais conformam, conjuntamente, uma complexidade infinita de variáveis. Se as relações interestatais estão impregnadas de interesses nacionais e corporativos, de conflitos e assimetrias, é preciso compreender os padrões de relacionamento levando em conta a correlação de forças e as alternativas políticas em questão. Não se pode, pois, negligenciar que as relações sino-africanas não têm sido baseadas em qualquer imposição de modelos político-institucionais e de ajustes macroeconômicos; não recorrem às práticas de desestabilização e ingerências políticas e militares; têm proporcionado vantajosas condições de financiamento e disposição para a cooperação tecnológica; e ainda possuem uma agenda diplomática em muitos aspectos convergentes no que se refere à reorganização da governança do sistema internacional.

    Aliás, segundo Deborah Bräutigam, uma das maiores especialistas nas relações entre China e África, os recorrentes argumentos anti-chineses não se sustentam quando confrontados com a realidade: cerca de 75% dos trabalhadores em obras chinesas no continente são africanos; longe de atenderem a interesses especulativos, 70% dos empréstimos servem às obras de infraestrutura energética e de transporte, com taxas de juros baixas e longos períodos de pagamento; e, apesar de setores midiáticos anunciarem com tom catastrofista que empresas chinesas já teriam adquirido “6 milhões de hectares” de terras africanas (que na verdade não ultrapassam a marca de 1% de todas as terras agricultáveis da África), sequer o dado é verdadeiro, afinal pesquisas indicam a compra de apenas 240.000 hectares (ou seja, apenas 4% da porção relatada).

    Isto não quer dizer que a presença da China e dos demais países emergentes na África esteja isenta de problemas e contradições. Ou seja, de modo algum se deve negligenciar as agendas conflitantes das distintas nações, os conflitos sociais intra e interestatais ou os embates entre os interesses governamentais e de certas corporações. No entanto, o dado central dessa questão reside no fato de que a presença dos emergentes – especialmente da China, mas também do Brasil, Índia e demais – têm ocorrido em prejuízo das grandes potências norte-atlânticas, sobretudo das antigas detentoras de vastos impérios coloniais (França, Reino Unido, Bélgica e Portugal), dos “desinteressados” e “altruístas” países nórdicos e da grande superpotência mundial, os EUA. A mesma carga dos frágeis argumentos que ataca as relações dos países africanos com a China também já foi utilizada quando do crescente adensamento dos vínculos entre o Brasil e os países africanos e até mesmo com seus vizinhos sul-americanos. Como exemplo, foi amplamente estimulada por veículos midiáticos franceses e ativistas políticos desorientados para obstruir relevantes iniciativas como a cooperação trilateral Brasil-Japão-Moçambique para a implementação do ProSavana em Moçambique, que teria crucial participação da Embrapa.

    Assim, distintamente do que vem sendo apontado pelos formuladores do “neocolonialismo chinês” (ou até mesmo do “subimperialismo brasileiro”), essas relações têm se constituído, de forma geral, num flagrante elemento de promoção da estabilidade e desenvolvimento – e endossadas sem mecanismos de imposição político-militar ou técnicas de regime change. Isso ocorre porque se apresentam como alternativas para os países africanos na busca por melhores condições de crédito, pela atração de investimentos, pela obtenção de cooperação técnica, pelo fortalecimento de suas soberanias e, consequentemente, por maior convergência diplomática nas articulações em prol das reformas dos principais organismos multilaterais globais. Longe de representarem anseios imperialistas ou predatórios, atuam no sentido contrário, e exatamente por isso se tornam alvo predileto daqueles que, por detrás da retórica da liberdade e de um denuncismo de frágil sustentação empírica, visam sustentar as apodrecidas estruturas de dominação que lhes garantem um lugar ao sol.

    *Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política e graduado em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor de Geografia do Colégio Militar de Porto Alegre e professor convidado da Especialização em Relações Internacionais – Geopolítica e Defesa, da UFRGS. Autor do livro China e Rússia no Pós-Guerra Fria, ed. Juruá, 2011. E-mail: dgpautasso@gmail.com

  • LUCAS ALVARES / Não há positivistas no governo federal

    O general Benjamin Constant, ministro da Instrução Pública durante o governo republicano provisório do Marechal Deodoro, nasceu em Niterói em 18 de outubro de 1836. Sua contribuição aos generais brasileiros formados após a Guerra do Paraguai (na qual teve destacada performance como engenheiro militar) na Escola Militar da Praia Vermelha e na Escola Superior de Guerra, foi inestimável.

    Pela eloquência de Constant nas salas de aula floresceram no Brasil as primeiras manifestações da apropriação nacional do ideário positivista de Augusto Comte, que aqui tomou (como bem lembra o acadêmico José Murilo de Carvalho) cores próprias, antropofagizando-se à realidade brasileira e contribuindo para a construção de iniciativas pioneiras e generosas de progresso social e inclusão social pela educação, especialmente no Rio Grande do Sul de Júlio de Castilhos e no Pará de Lauro Sodré.

    Decisivo para a queda da monarquia, o positivismo de Benjamin Constant, calcado no aperfeiçoamento do Estado, na profissionalização dos militares (dentro do princípio do soldado-cidadão, semeador da Razão, da Ciência e da Soberania), na inclusão pela instrução pública, na matriz industrial com divisão do trabalho social, na crítica ao individualismo e às práticas ocultas, com o princípio do “viver às claras”, tornou-se contra-hegemônico durante a República Velha, uma democracia de fachada marcadamente liberal.

    Muito embora recebido post mortem o epíteto de “Fundador da República Brasileira”, por intermédio da Constituição Federal de 1891, e oferecendo seu nome ao Instituto Benjamin Constant (antigo Imperial Instituto dos Meninos Cegos, por ele dirigido), Constant em particular e os positivistas em geral permanecem esquecidos, escamoteados que foram em vida pelos liberais e, perante a História, diminuídos pela historiografia de esquerda, que os reputa “autoritários” e “conservadores”.

    Foram, pelo contrário, os maiores promotores da inclusão em seu tempo: com Nísia Floresta, da participação política da mulher. Com Benjamin Constant, do ensino aos excluídos. Com Júlio de Castilhos, da proteção ao trabalho. Com Rondon, da cidadania do indígena.

    Quando lemos uma personagem como a deputada Carla Zambelli, de rasas convicções e nenhum conhecimento de causa sobre os problemas do Brasil, afirmar que “os positivistas são o pior câncer do Brasil”, como hoje fez, lembramos que não há um único ministro como Constant em um governo permeado, do presidente da República ao mais modesto comissionado, por liberais globalistas, anti-nacionais e de costumes fúteis e mercadológicos.

    Não há, lamentavelmente, positivistas no governo, deputada.

    A Benjamin Constant, por sua contribuição à Educação pública com a inclusão dos cegos e a formatação das primeiras escolas de professores (especialmente da Escola Normal da Corte, atual ISERJ), as nossas homenagens. À contribuição dos positivistas, heróis nacionalistas, os nossos respeitos.

    Lucas Alvares é do Movimento de Resgate Nacional (MORENA), doutor em memória social pela Unirio e diretor cultural do Instituto da Brasilidade.