Categoria: Análise&Opinião

  • CARLOS FERREIRA / Um basta ao racismo estrutural!

    África.

    Eu  não vivi os dias que o preto em mim foi escravizado, mas tenho a memória e carrego a dor e a tristeza disso todos os dias com esta tatuagem orgânica que faz a minha pelo ser preta. Todo o santo dia que vivi em Porto Alegre, sem ao menos um descanso por dia eu fui rebaixado pelo branco. Todos os dias da casa grande arrogante, a cada olhar, a cada palavra, para a senzala. Mas houve o basta e libertação para o quilombo. Engana-se você que acha que estes lugares são apenas físicos, são também geografias humanas. O branco a casa grande, o preto inferiorizado pelo branco habita a senzala em sua mente de racismo estrutural. Esta a perspectiva quando cada branco abre a boca, abre o olho para descrever o preto. Não há branco sem racismo estrutural. Sinto, como eu sinto. Na pele, na boca de lábios, grossos, no cabelo grosso que já não tenho.

    A Senzala (A palavra tem origem africana e significa morada. Mas ganhou novo significado com a escravidão significando jaula.)

    Vale dizer que os escravizados não eram considerados homens, nem animais, mas peças. O idealizador sistema da escravidão africana foi a Igreja Católica, o principal financiador a realeza portuguesa e demais países europeus.

    A senzala foi uma forma de alojamento destinado aos escravizados vindos da África. As senzalas estavam diretamente relacionadas à casa-grande. Enquanto os senhores e suas famílias viviam sob a casa-grande, escravizados serviam e habitavam esses alojamentos com raros recursos e nada de conforto.

    A experiência das senzalas existe desde o início da experiência da escravidão na América Portuguesa. Desta forma o alojamento em questão esteve presente do século XVI ao XIX, ou seja, dos engenhos de açúcar, das minas de ouro às fazendas do cultivo de café. Elas foram a principal forma de aprisionamento dos escravizados dos períodos colonial e imperial. As senzalas inspiram o sistema presidiário neste país.

    Com as Senzalas preveniam fugas colocando grades nas poucas janelas existentes e instalando à frente da senzala o pelourinho – tronco destinado aos castigos físicos da população escravizada. Essa estratégia era utilizada a fim de utilizar a tortura como forma exemplar aos demais e inseria as sevícias na vida cotidiana e na morada desses homens e mulheres

    A senzala fez parte da vida cotidiana de sujeitos escravizados, envolvendo formas de organização social, resistência e convívio social.

    A divisão interna da senzala é bastante diferente de como são organizadas as moradias atuais. A divisão interna que prevê espaços individuais (quartos, banheiros) não existia, nem mesmo a divisão por unidades familiares, tendo em vista que a própria noção de família se alterou com o tempo. Não havia divisão de cômodos e dormiam todos juntos, num mesmo espaço, apenas com separações entre homens e mulheres e crianças. Lembrando muito as condições dos antigos e atuais presídios brasileiros onde a maioria de presos são homens e mulheres pretos.

    Para dormir o chão era o destino. Diretamente na terra ou sobre palhas eram as formas que os escravos encontravam para se acomodar para a noite de sono.

    A vida na Casa-grande e nas senzalas traz aspectos da formação social brasileira e está presente nos debates atuais. A PEC das domésticas, aprovada em 2013 é exemplo deste debate. Os direitos garantidos aos trabalhadores pela CLT são bastante difundidos, entretanto, somente em 2013 que o trabalho doméstico assalariado passa a ter tais garantias. Isso acontece pois o fator doméstico – ou a intimidade e as relações pessoais que surgem desta relação – implicam outras regras. A ideia desta suposta proximidade entre patrão e empregado (ou entre senhor e escravo, no mundo colonial) faz do direito trabalhista das domésticas uma questão sensível. A proximidade e a intimidade fizeram com que a ideia de que a empregada doméstica “é quase da família” seguisse os padrões patriarcais e escravocratas da experiência na Casa-grande e nas senzalas. Que horas ela volta? filme de Anna Muylaert de 2015 retrata essas relações.

    Cinema 
    A origem da palavra “cinema” deve-se à circunstância de ter sido o cinematógrafo o primeiro equipamento utilizado para filmar e projetar. Por metonímia, a palavra também se refere à sala onde são projetadas obras cinematográficas. A invenção da fotografia, e sobretudo a da fotografia animada, foram momentos cruciais para o desenvolvimento não só das artes como da ciência, em particular no campo da antropologia visual.

    Cinema (do em grego: κίνημα, kinema “movimentos” e γράφειν, graphein “registrar”), também chamada sétima arte, ou, em certos contextos cinematografia, pode ser definida como a técnica e a arte de fixar e de reproduzir imagens que suscitam impressão de movimento, assim como a indústria que produz estas imagens. As obras cinematográficas (mais conhecidas como filmes) são produzidas através da gravação de imagens do mundo com câmeras (câmaras) adequadas, ou pela sua criação utilizando técnicas de animação ou efeitos visuais específicos. Mais especificamente, pode ser descrita como o “conjunto de princípios, processos e técnicas utilizados para captar e projetar numa tela imagens estáticas sequenciais (fotogramas) obtidas com uma câmera especial, dando impressão ao espectador de estarem em movimento”. O diretor de arte pode ser descrito como o principal colaborador visual de um diretor de cinema. Também se usa a palavra ‘cinegrafia’, estando dicionarizada.

    Os filmes são assim constituídos por uma série de imagens impressas em determinado suporte, alinhadas em sequência, chamadas fotogramas. Quando essas imagens são projetadas de forma rápida e sucessiva, o espectador tem a ilusão de observar movimento. A cintilação entre os fotogramas não é percebida devido a um efeito conhecido como persistência da visão: o olho humano retém uma imagem durante uma fração de segundo após a sua fonte ter saído do campo da visão. O espectador tem assim a ilusão de movimento, devido a um efeito psicológico chamado movimento beta.

    O cinema é um artefato cultural criado por determinadas culturas que nele se refletem e que, por sua vez, as afetam. É uma arte poderosa, é fonte de entretenimento popular e, destinando-se a educar ou doutrinar, pode tornar-se um método eficaz de influenciar os cidadãos. É a imagem animada que confere aos filmes o seu poder de comunicação universal. Dada a grande diversidade de línguas existentes, é pela dublagem (dobragem) ou pelas legendas, que traduzem o diálogo noutras línguas, que os filmes se tornaram mundialmente populares.

    Cinema de Senzala 

    É possível debater o racismo estrutural sem tochas e cabeças cortadas? Noto que em Porto Alegre ergueu este debate com a live da APTEC (Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do RS). Estamos nós, pretas e pretos, mais ativos em revisitar as questões sociais ligadas a abdução de uma cultura preta para um contexto escravista e diante disto há um oceano de distância em embate onde a configuração agora é de dizer basta.

    Faço parte da associação, sou diretor cinematográfico, sou preto, mas confesso que não tenho demanda ativa de contestação e participação em suas pautas. Mas recebi uma mensagem sobre essa questão que polemizou racismo estrutural e machismo.

    Com a atenção devida assisti o videolive e formei a minha opinião sobre o ocorrido. Antes de qualquer coisa, digo isto como homem preto, há que debater o racismo estrutural, na minha opinião sem tochas, sem fogueira, mas lanternas de conscientização em alertas críticos porque tochas, fogueiras é o jeito do homem branco extremo. O Europeu que ascendeu o criacionismo e fomentou o nazismo, antes disso a escravidão senzala aportada pelos navios negreiros. A superioridade branca então nunca foi apenas em um período das grandes guerras do século XX. A superioridade branca é fácil de ver. Perpetua em uma linha de narrativa da história onde agora despertadas as minorias em movimentos de basta atuam para baixar a curva da perversidade humana.

    Porto Alegre é uma cidade racista. O Rio Grande do Sul é extremo estado racista e perverso, mas há movimentos de gente que quer aprender a deixar essas raízes profundas do racismo estrutural.
    Como diretor de cinema, como autor de quadrinhos eu tenho consciência prática em dizer isso para todos que estavam nessa live que foi importante o debate, o embate e a onda que vem com isso. Por que me citei como autor de quadrinhos? Porque fui processado por uma editora que quis que eu abrandasse o final do meu livro Zumbi- Guerreiro dos Palmares mostrando o negro na sociedade de hoje considerando o Quilombo dos Palmares como um assunto superado. Isso me fez por 5 anos lutar na justiça e me defender, defender o meu livro em co-autoria com outro autor negro e depois de 5 anos vencer o processo que foi sim um fomento de racismo estrutural.

    Li o pedido de desculpas por parte de quem cometeu os erros. Racismo estrutural não há como desculpar, as pessoas envolvidas acredito que precisam sim receber a aprendizagem necessária para achatar a curva dessa arma genocida que é o racismo em um país que ainda segue escravista. Essas pessoas precisam ser educadas no mundo anti-racistas e sou humanista e percebo que o debate deve servir sim em fazermos como foi feito no Quilombo dos Palmares, acolhermos não apenas pretos, mas índios e até gente branca que não estavam a favor do sistema escravista.

    Você, branco, realmente não é a favor do racismo estrutural? Então faça o seu pedido de desculpas e revisa a sua história e a história para o seu despertar. Nós, pretos, conscientes armados com as nossas lanças, espadas, escudos representados com as nossas artes e discursos precisam ser mais bombeiros que policias. Não podemos reverberar violência, mas justiça.

    Há outra questão que preciso falar. Mercado. Não existe essa coisa de mercado em Porto Alegre, no RS quando se fala de audiovisual, quando se fala em cinema. Existem iniciativas, vontades, lutas. Querendo ou não estamos todos não mesmo barco, no mesmo balde. Somo siris ou caranguejos tentando sair do balde. Esta é a configuração de Porto Alegre, a POAWOOD.

    Não me falem de mercado. Mercado precisa ter bases, estações empresariais de veículos de massa para fomentar séries, filmes, animações, bases financeiras e de industrializações para as série e filmes. Aqui em POAWOOD são todos artesãos do audiovisual. Puxadinhos. Somos uma comunidade, uma favela de profissionais, e é nas artes que afloram os egos (os egoicos não dando espaço pra perdão pra ninguém aqui). Todos acreditam um uma certa dinastia das artes. Só que isso uma ilusão. Dá-lhe bolha sombria de Porto Alegre Poawood!

    Olhando a live falta a mea culpa neste sentido. Cada um faz a história e a narrativa errada quando o assunto é sim, preciso aparecer, não contestar ou a auto análise.

    Isso de Porto Alegre ter as panelinhas, isso de Porto Alegre apontar para o caminho da EXTREMA DIREITA ESQUERDA MACHISTA FASCISTA não pode ir para a polaridade da EXTREMA FACA DECAPITAR COM ÓDiO. Repudiar, barrar, orientar educar sim.

    Há um movimento estranho dentro dos movimentos autênticos que vai trazer uma consequência de ainda mais ódio. Isso se não aproveitarmos este exato momento para debater e revisar tudo.

    Há que cuidar ao máximo esta energia de o dedo na cara do outro, vão todos acabar matando um aos outros por tamanha hipocrisia.

    Há que também entrar na lista dos Anti o preconceito aos velhos. Tá rolando isso também. Te cuida que na velhice chegamos todos. Artista envelhece, mas a sua arte, como real arte não. A arte do artista não é apenas o seu passado, mas o presente e futuro. Para perpetuar no tempo o artista sempre tem que está aberto a escutar, aprender e expandir a sua vivência. Seja um jovem, seja um velho.

    APTEC, por favor, seja mais coerente e seja ponte com o diálogo. GRAFAR, aprenda com a APTC em reconhecer os seus limites.

    Mesmo que eu já não pertença mais a esta cidade, esta cidade é pertinente em mim. E desejo que ela volte a brilhar arte consciente e com um plural das suas divergências.

    Arte preta, feminina e GLBT se precisa sim. Cuidar da nossa trajetória até aqui também.

    Queimamos as casas grandes e senzalas, mas salvamos vidas, ok?

     

    *Carlos Ferreira nasceu em Porto Alegre em 1970. Artista gráfico, diretor e roteirista, já teve histórias em quadrinhos publicadas no Brasil, Argentina e Japão. É roteirista da biografia em quadrinhos Kardec, desenhista e roteirista de O castelo e da revista Picabu, e diretor dos curtas-metragens Phil (2001), Pessoas incertas (2003), Castigo (2009), Os cafalhões (2009) e Bacantes (2019).

  • GUILHERME CARVALHO / Inteligência artificial no Jornalismo

    O dilema entre seres humanos e máquinas é, sem dúvida, um dos mais instigantes temas da modernidade. Seja por instrumentos movidos por força mecânica, a vapor, carvão, ondas eletromagnéticas, eletricidade, bytes ou algoritmos, este assunto é motivo de medos e, ao mesmo tempo, fascínio. Filmes como “Blade runner” (1982), “Matrix” (1999), “A.I. Inteligência Artificial” (2001), “Eu Robô” (2004) e “Ela” (2013), além da série “Black Mirror” (2019) não fizeram sucesso à toa. Além dos efeitos especiais, são produções que tocam na ferida e apontam para um futuro possível na convergência humana e tecnológica, geralmente retratada de modo conflituoso.

    Como é característica de toda polêmica, este assunto é permeado por um dualismo. Parafraseando Umberto Eco, os “apocalípticos” tendem a traçar um futuro sombrio, no qual o trabalho humano se torna obsoleto. Para muitos destes, as máquinas são inimigas e o discurso soa conservador, percepção que remete aos tempos de ludismo, quando operários resolveram quebrar máquinas de tear no início do século XIX ao notaram que estavam sendo substituídos.

    Esta percepção muitas vezes pessimista é confrontada pelos “integrados”, que tendem a ver os benefícios do desenvolvimento científico e tecnológico, sobretudo para o mundo dos negócios. Para estes, o uso de máquinas, robôs, e outras tecnologias é imperativa e um caminho sem volta que deve ser considerado como o futuro da humanidade. Temos então uma visão mais otimista que se referencia nos benefícios que isto pode trazer.

    Eu, que não gosto de ditados populares, principalmente aqueles que reforçam o senso comum, me rendo em busca de uma frase que possa explicar de forma simples meu pensamento. “Nem tanto ao céu, nem tanto à terra”, meus amigos.

    O jornalismo, atividade profissional como poucas que trabalha no tratamento da informação, vive intimamente uma relação de amor e ódio com as tecnologias. De um lado, acelerou a produção de conteúdos, facilitou o acesso a dados e fontes de informação, diversificou as atividades destes profissionais, expandiu de forma ilimitada a circulação de produtos jornalísticos, comprimiu tempo e espaço aumentando a produtividade. Ninguém negaria que estes são bônus colecionados ao longo dos anos para o jornalismo. Entretanto, vemos também as demissões de jornalistas, o esvaziamento das redações, a explosão de notícias falsas e desinformação, o cenário de hiperconcorrência midiática, o fim do monopólio da informação e as crises do modelo de negócios, entre tantos fatores que impactam negativamente a profissão.

    A mais recente fronteira tecnológica atravessada pelo jornalismo é a do uso de inteligência artificial (IA) para a produção de notícias. Acontece que comparado a outras áreas como a indústria, o mercado financeiro, a medicina e a engenharia, o negócio jornalístico está ainda engatinhando. Apesar que devemos reconhecer as iniciativas que já circulam em nosso meio. É o caso da Narrative Science, empresa norte-americana que processa dados e os transforma em textos noticiosos. A agência Associated Press utiliza a ferramenta Automated Insights. O Washington Post, o Heliograf. O Los Angeles Times, o Bot Quake, que produz pequenas notas sobre tremores de terra.  CNN, Forbes e The Wall Street Journal também já utilizam estes recursos. Em um nível intermediário, encontramos iniciativas como a Local Labs que opera pequenos jornais regionais e oferece edições locais e outros serviços para jornais de metrôs nos subúrbios. Também a ProPublica, que inspira vários projetos brasileiros, já utiliza um aplicativo de notícias, a Opportunity Gap. Estes exemplos são empregados desde 2009.

    No Brasil, tirando alguns poucos casos (um exemplo é o Aos Fatos, que oferece aos leitores um robô checador de informações chamado “Fátima”), o assunto ainda é um tabu entre muitos jornalistas e pesquisadores. Parte deste silêncio se deve ao desconhecimento sobre o assunto. Termos como Machine learning e NLG e mesmo a utilização de algoritmos são pouco tratados no meio. Talvez, seja esta a sina expressa naquela velha máxima jornalística de que o jornalismo fala de tudo, menos de jornalismo.

    É o que explica porque notícias que apontam a adoção de Inteligência artificial no jornalismo causem ainda arrepios. O episódio mais recente foi o anúncio da Microsoft Notícias e da MSN e que estaria demitindo 50 jornalistas para substituí-los por IA. Casos semelhantes já haviam sido publicados em outros lugares. A editora portuguesa MotorPress já havia sido denunciada pela demissão de 28 funcionários em 2009 pelo mesmo motivo.

    Um dos desafios atuais, portanto, daqueles que vivem o meio jornalístico, seja profissional ou academicamente, é justamente o de entender o uso destas ferramentas e compreender de que maneira podem ser utilizadas para o bem do próprio jornalismo. Se partirmos da premissa descrita pelo pesquisador finlandês Carl-Gustav Linden, ou seja, de que se trata de um sistema regido por “um conjunto de operações autossuficientes a serem desempenhadas passo-a-passo, como cálculos, processamento de dados e raciocínio automatizado – um conjunto de regras que definem precisamente uma sequência de instruções que serão compreendidas por um computador”, perceberemos que a ação humana é insubstituível. Afinal, quem programa estes sistemas, quem define o que é mais ou menos relevante, qual estrutura hierárquica de informações deve ser considerada na elaboração do conteúdo?

    Não perceber esta realidade pode relegar os jornalistas a um papel secundário neste processo, enquanto programadores, engenheiros, gestores e tecnólogos da informação, entre outros profissionais, assumirão este posto.

    A partir de uma compreensão mais técnica, podemos vislumbrar o uso destas tecnologias no processamento de grande volume de dados, a busca de informações em bases restritas ou segmentadas, o acesso a informações de arquivos históricos, na checagem de informações e declarações de autoridades, na produção de notas complementares que podem ser somadas a reportagens e outros conteúdos. Enfim, são várias as possibilidades.

    Estou convencido de que ponto fundamental deste debate deve seguir no sentido de compreender os aspectos técnicos da IA associado aos princípios éticos do jornalismo e seu caráter de interesse público, que incluem a honestidade para com os consumidores de produtos jornalísticos. Nesse sentido, é preciso superar o dualismo entre humanos e máquinas e começar a pensar sobre as aplicações e implicações desta associação, reconhecendo o papel do trabalho humano, crítico, criativo, sensível às condições sociais e aos mais variados contextos.

    A superação destas limitações pode não apenas apontar a superação da crise de legitimidade do jornalismo aberta com a difusão da internet, mas colocar o jornalismo de fato no século XXI, associando precisão, volume e rapidez, aspectos que caminham de braços dados com a sustentação financeira e relevância social dos veículos.

    *Guilherme Carvalho é pós-doutor em Jornalismo e coordenador do curso de Bacharelado em Jornalismo do Cento Universitário Internacional Uninter.

     

  • LUIZ-OLYNTO TELLES DA SILVA / Adiós Nonino

    Há tempos não vejo ressaltada a importância da ascendência familiar. Não faz muito, quando alguém se aproximava da casa, logo vinha a pergunta sobre sua origem. Ainda que não houvesse nenhuma garantia, pois ovelhas negras existem até nas melhores famílias de Boston, o conhecimento da estirpe era sempre uma referência. Na falta de uma grande fortuna, os pais esforçavam-se para legar aos filhos um bom e honesto nome, buscando assegurar-lhes uma nobre profissão.

    Não sei bem por quê, mas esse questionamento parece não ter mais a mesma importância. Verdade que cada um tem que vencer por si mesmo e isso desde sempre. Mas, para tanto, não se pode reconhecer a contribuição dos pais?

    Interrogações que me foram despertadas quando me caiu nas mãos a biografia de Eric Clapton. Não conheceu o pai e tornou-se um dos maiores guitarristas de todos os tempos.

    Filho de uma mãe adolescente, foi criado pelos avós, pensando que sua mãe fosse apenas a irmã mais velha. De qualquer modo, e isto é o importante, durante a infância acreditava ter pais, e o fato de os avós o terem adotado não foi sem consequências, pois foi o avô quem o iniciou, desde criança, na flauta doce. Quando sua mãe biológica teve outros casamentos e a verdade veio à tona, tudo indicava ter-se aberto um vazio, um buraco na vida desse músico notável, e veio o período das drogas. Depois, quando perdeu seu filhinho, Conors, de quatro anos, em um acidente, salvou-se no trabalho compondo Tears in heaven, Lágrimas no céu. É depois disso que, tendo visto nos olhos de seu filho os olhos de seu pai, desse pai que jamais vira e que jamais soube quem era, ele compõe uma de suas melhores músicas, se não a melhor, My father’s eyes, Os olhos de meu pai. Pareceu-me não haver forma melhor de expressar a nostalgia pela ausência do pai. O curioso é que seu pai, mesmo sendo músico, e por certo tendo tomado conhecimento da fama de Eric Clapton, jamais suspeitou fosse ele seu filho, uma relação vinda à tona somente após a morte desse pai.

    A partir daí comecei a interessar-me pela infância de outros gênios da música, todos tão precoces como Eric Clapton.

    Tomando por critério a data de nascimento, minha lista inicia com Vivaldi, em 1678. Seu pai, de profissão barbeiro, foi também um ótimo violinista e, tendo reconhecido a aptidão do filho, incentivou-o desde muito cedo. Bach, nascido em 1685, logo considerado o Pai da Música, veio também de uma família de músicos e seu pai iniciou-o precocemente nos instrumentos de corda. Mozart nasceu quase um século depois, em 1756, e era filho de um compositor, cantor e violonista profissional. Quando percebeu a extraordinária habilidade do menino, ao cravo, ainda aos quatro anos, passou a dar-lhe as primeiras aulas que lhe possibilitaram compor e tocar, aos cinco anos, alguns minuetos. Beethoven, de 1770, graças à insistência de seu pai, um respeitado Mestre-Escola e também um bom músico amador, aos sete anos, deu seu primeiro concerto e, aos dez, conforme uma carta de seu mestre, Christian Gottlob Neefe, dominava todo o repertório de Johan Sebastian Bach. Chopin, que veio à luz em 1810, era filho de uma pianista polonesa e de um francês expatriado, professor de literatura francesa na Polônia. Aos sete anos já havia composto duas polonaises e aos vinte mudou-se definitivamente para a França, terra de seu pai.

    Como vemos, a presença e o incentivo paterno são sempre marcantes. Mas não quero terminar minha lista dos clássicos europeus, à qual teria muitos nomes ainda a serem acrescentados, sem mencionar, pelo menos, Richard Wagner, vindo ao mundo em 1813. Seu pai, um chefe de polícia, morreu um ano após seu nascimento e sua mãe, alguns meses depois, casou-se com Ludwig Geyes, um artista da pintura, da literatura e do teatro. Foi ele quem percebeu, antes dos oito anos de Richard, seu talento ao piano e o incentivou aos estudos musicais, embora ele preferisse, na ocasião, o teatro e a literatura; foi só aos quinze anos que passou a dedicar-se inteiramente à música, fazendo da literatura sua aliada. Entre tantas óperas, compôs Os Mestres Cantores de Nuremberg, cujas figuras principais são os mestres artesãos de distintas profissões que se juntam para cantar. Sejam joalheiros ou sapateiros, as pessoas valem por sua aptidão na profissão, o mais das vezes aprendidas com os pais.

    Do lado de cá do Atlântico também nasceram gênios. Um deles foi Heitor Villa-Lobos, em 1887, também incentivado pelo pai desde os primeiros anos de vida. Diretor da Biblioteca do Senado e músico amador, tendo logo percebido a vocação musical de seu filho, iniciou-o ao violão e ao violoncelo. Aos seis anos, o pequeno Heitor já havia composto uma peça para violão e aos oito começou seu interesse por Bach. Entre tantos músicos precoces, talvez o que tenha dado mostras de amadurecimento mais cedo, tenha sido Nelson Freire. Aos três anos tocava de ouvido as peças executadas pela irmã mais velha ao piano. Nascido em Boa Esperança, no interior de Minas Gerais, em 1944, seus pais, reconhecendo o extraordinário dom de seu filho, mudaram-se para o Rio de Janeiro para que Nelsinho pudesse ter bons professores.

    Pessoalmente, permitam que lhes conte, também estive próximo da genialidade. Quero dizer, tive um vizinho de minha idade, lá pelos quatro anos, que era um violonista excepcional. Certa tarde fui brincar em sua casa e lá estava ele, junto dos pais, tocando violão. Era um instrumento feito sob medida para seu tamanho, e seu pai havia-lhe acoplado, na lateral superior, uma gaitinha de boca. Enquanto ele tocava ambos, ao mesmo tempo, eu ficava abismado com aquela cena inusitada. Foi quando seu pai perguntou-me se eu também tocava violão. Imediatamente respondi que não, e acredito ter me sentido muito diminuído com minha resposta, tanto que, tendo visto, em um dos cantos da sala, um cavaquinho que, à minha ignorância ab ovo, era apenas um violão pequeno, um brinquedo para crianças, bem menor do que o do meu amiguinho, logo acrescentei: – Mas aquele ali – e apontei para o violãozinho –, acho que toco. Poderia ter feito pior? Experimentei uma vez, duas vezes e, não tendo saído um som que dissesse algo a outro, só me restou sacudir a cabeça, os olhos baixos, para um lado e para outro, em sinal de frustração. De volta, em casa, muito envergonhado, meu pai salvou-me mostrando-me não haver motivo para tanto, pois, afinal, em casa não tínhamos instrumentos musicais; em nossa família ninguém se voltara para a música. Contudo, ele acrescentou: -Temos livros. E em seguida aprendi a ler.

    O apoio paterno mostra-se sempre muito importante no desenvolvimento de um filho, mesmo quando o pai não é do mesmo sangue, como se diz. Depois de anos trabalhando com essas relações, estou convencido de que pai é aquele que adota o filho, seja ou não da mesma consanguinidade. Além desse vizinho, que depois se tornou diretor de uma orquestra famosa, conheci muitos que, incentivados pelos pais, estão hoje completando suas formações na música erudita.

    E, entre tantas biografias, há uma que ainda preciso mencionar. É de outro vizinho, não da mesma rua, mas um vizinho nosso, de um país muito próximo, que é a Argentina. Trata-se de Astor Piazzolla, nascido em 1921. Seu pai apercebeu-se de sua vocação ainda em tenra idade e, ao completar oito anos, presenteou-o com um bandoneon. Morando em Nova Iorque desde os quatro anos, aos doze teve a oportunidade de participar de um filme, contracenando com ninguém menos que Carlos Gardel em El dia en que me quieras. Pois durante um intervalo das filmagens (em que fazia o papel de um jornaleiro), por trás dos cenários, exibiu suas habilidades ao bandoneon para o grande astro das ribaltas. Gardel gostou e pediu-lhe para tocar um tango, ao que Astorzito teria respondido não haver ainda entendido direito o tango. – Pois então, vaticinou Gardel, tão logo o entendas, não o largarás jamais! Nesta época, sempre incentivado pelo pai, teve aí os melhores professores de música clássica, a começar pelo húngaro Bela Wilde, que fora aluno de Rachmaninoff. Já adulto, foi a Paris estudar com Nadia Boulanger, considerada, na época, a melhor professora de música do mundo. Foi ela quem lhe disse: – Seu instrumento é o bandoneon! E durante todos esses anos de estudos clássicos, com participações em grandes orquestras, como a de Aníbal Troilo, teve sempre junto a si o apoio do pai, seu grande amigo. Quando ele se foi, em 1959, Piazzolla compôs, em sua homenagem, aquele que considerou seu melhor tango, Adiós Nonino. Nonino – diminuitivo de nono, avô em italiano –, era como seu filho carinhosamente o chamava. E quando escuto essa música, estou certo de que o adeus aí expresso não é aquele adeus dito a quem se vai para sempre. O adiós de Piazzolla, ao seu pai, significa que ele ficará para sempre no seu coração.

  • CARLOS HENRIQUE MENCACI / Os jovens precisam de oportunidade!

    Ao ser eleito o novo presidente da Abres, perguntaram-me sobre as expectativas para os próximos dois anos. Estamos em um momento extremamente desafiador para o jovem no Brasil. Segundo o IBGE, no primeiro trimestre de 2020, antes de iniciar a Covid-19,  27,1% deles já estavam sem uma oportunidade de trabalho. Entretanto, eles são fundamentais para contribuir com a inovação nas empresas e a superação da crise! Por isso, devemos estimular os empresários: invistam no estágio e na formação dos mais novos!
    Nesse cenário de pandemia e dificuldade econômica, a Abres tem um papel ainda mais decisivo em preservar a Lei do Estágio! Afinal, ela é extremamente moderna e eficaz para inserir estudantes no mundo corporativo e, ao mesmo tempo, mantê-los na escola, seja na universidade, no ensino médio ou técnico, com uma carga horária limitada em 6 diárias e 30 semanais.
    O estágio proporciona renda, experiência, chance de efetivação, acaba com a evasão escolar e prepara a juventude para o futuro. Esse porvir está cada vez mais complicado devido à situação da saúde pública a qual gerou um volume altíssimo de desemprego e pobreza. Por isso, é preciso aumentar os níveis de estudo e pesquisa para as empresas e brasileiros conseguirem competir mundialmente, ou teremos um país focado em produzir commodities com altíssimo subemprego.
    Contudo, quando falamos em educação, temos um triste cenário. Apenas 21% dos cidadãos brasileiros de 25 a 35 anos possuem ensino superior completo, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A média dos demais países analisados é de 44%! Necessitamos mudar essa realidade urgentemente.
    Se você é empresário, faça a sua parte! Abra vagas de estágio e auxilie os educandos a iniciarem suas carreiras e se qualificarem. Ao contratar alunos, as corporações ainda têm como vantagem a isenção de tributos como INSS, FGTS, 13º salário e multas rescisórias. É o formato ideal para treinar e efetivar alguém sem vícios prévios de mercado.
    Mesmo com o distanciamento social, as tecnologias atuais permitem realizar todo processo seletivo remotamente. Além disso,  os estagiários também podem fazer home office! Isso foi previsto pela Medida Provisória 927/2020:
    “Art. 5º  – Fica permitida a adoção do regime de teletrabalho, trabalho remoto ou trabalho a distância para estagiários e aprendizes, nos termos do disposto neste Capítulo.” 
    Portanto, vale a pena investir nesses talentos. A Abres está disposta a ajudar empresas, jovens e o país a superarem essas dificuldades e, cada vez mais, garantir um futuro brilhante a quem mais precisa!
    Carlos Henrique Mencaci é presidente da Associação Brasileira de Estágios
  • OMAR RODRIGUES / Holofotes voltados à ciência

    Comunicar ciência é sempre um grande desafio, pois exige do profissional de comunicação trabalhar sob duplo rigor: o científico e o jornalístico – ambos calcados na necessidade de se investigar e apurar informações e dados até o ponto em que não haja mais dúvida sobre a veracidade do que é dito.
    A informação científica de qualidade, que sempre foi de extrema importância, tornou-se ainda mais imprescindível no cenário provocado pela pandemia do novo coronavírus. Desde que a doença começou a se espalhar pelo mundo, temos visto uma profusão de notícias disseminadas nem sempre com o devido cuidado, em detrimento daquilo que deveria ser o objetivo de tudo o que deriva da produção científica: o esclarecimento da sociedade.
    Para combater isso, criou-se no debate público uma movimentação em favor do fortalecimento da ciência. Veículos de mídia contam hoje com editorias criadas para informar exclusivamente sobre os diversos aspectos da pandemia, com pesquisadores como fontes em programas jornalísticos ao longo de toda a programação e com intensos debates em torno de assuntos antes restritos às rodas acadêmicas. Tudo para esclarecer a população em relação a uma doença que pegou todos de surpresa e causou grandes impactos sociais, culturais, econômicos e ambientais.
    Aos poucos, a sociedade aumenta a percepção do valor da ciência e da importância das informações que ela produz. No início de maio, a Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência divulgou manifesto no qual ressalta que “divulgar pesquisas científicas ajuda a tornar as pessoas mais informadas sobre como a ciência e a tecnologia estão em nosso cotidiano. Trata-se também de inspirar crianças e jovens para um mundo onde o conhecimento abre portas”.
    No âmbito da comunicação científica, a conservação do meio ambiente é um tema que pauta de forma recorrente grandes debates, tangenciando, inclusive, aspectos relevantes para se evitar novas pandemias, como a redução do desmatamento e o combate ao tráfico de animais silvestres. Neste caso, comunicar bem significa demonstrar à população a conexão entre a proteção da natureza e o bem-estar social, a saúde e o desenvolvimento sustentável. Parte essencial dos mais diversos projetos de pesquisa e preservação da biodiversidade, desenvolvidos ou apoiados por organizações que atuam há décadas com este propósito, está em comunicar o conhecimento e as conquistas para a sociedade, demonstrando a importância do nosso patrimônio natural.
    De pouco adianta a produção científica se os resultados por ela obtidos não ajudam no esclarecimento das pessoas. Assim, comunicar ciência também faz parte da ciência. Em meio ambiente, reforçamos que “é preciso conhecer para preservar”. Significa dizer que somente a partir do momento em que as pessoas conhecem a biodiversidade, têm contato com a sua beleza, vivenciam experiências e entendem os riscos a que está sujeita é que terão ferramentas e motivações adequadas para preservá-la.
    Sem dúvida, a crise do coronavírus criou uma oportunidade para a comunicação científica se fortalecer no mundo e no Brasil, principalmente por despertar maior respaldo da população em relação ao trabalho científico. Jornalistas e profissionais de comunicação corporativa, assim como empresas e outras organizações, têm agora um compromisso ainda mais forte em produzir conteúdo de qualidade, baseado em informações confiáveis e endossados por fontes especializadas. Esse é o caminho para que a comunicação científica se fortaleça e para que o esforço empenhado na validação da ciência durante a pandemia não sucumba com a disseminação de más práticas.
    *Omar Rodrigues é gerente de Comunicação e Relações Institucionais da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e gerente de Programas Sociais e Comunicação do Instituto Grupo Boticário
  • MIRIAM GUSMÃO / O velho e o mar da pandemia

    A incompetência brasileira para enfrentar a pandemia do coronavírus produz a singular necessidade de prolongamento infinito da quarentena dos mais vulneráveis. Tende a ser a quarentena mais longa do mundo, por conta de um país que não teve a capacidade de fechar temporariamente a economia e a vida social, a fim de frear a velocidade de transmissão do vírus e torná-lo controlável. Governos irresponsáveis, empresários gananciosos e um grande contingente de pessoas egoístas, que se aglomeram teimosamente em locais públicos e se recusam a usar a máscara de proteção, sustentam o quadro desolador. Dentre tantas características observáveis nesse contexto, a situação dos idosos vem à tona, tanto como atestado da sociedade injusta e decaída em que vivemos, quanto como possibilidade de alguma reflexão sobre a condição humana. É nesse sentido que tentamos descortinar, na incompletude deste breve texto, a condição de uma pessoa idosa que vive sozinha numa casa ou apartamento de uma cidade brasileira e que se encontra em tão prolongado isolamento social. Para isso, recorremos ao livro O velho e o mar, do escritor norte-americano Ernest Hemingway, situando a condição do idoso brasileiro na pandemia como análoga à do velho pescador Santiago, isolado na imensidão das águas.
    Santiago havia sido um grande pescador, admirado pelos seus colegas contemporâneos e pelo seu assistente Manolín, que desde criança aprendia o ofício com ele. Contudo, no presente da narrativa, fazia 84 dias que Santiago não conseguia pescar um peixe sequer. Passou a ser motivo de chacota dos jovens pescadores locais e perdeu o assistente, já que a família de Manolín ordenara que ele fosse buscar o sustento, trabalhando com um profissional mais exitoso. Assim, Santiago lançou-se sozinho ao mar, e ao alto mar, em seu pequeno e desgastado barco. Enfrentando a fúria das águas, em absoluta solidão, com uma das mãos machucada, o velho falava sozinho, o que poderia parecer caduquice, ao senso comum, mas que era um monólogo – a conversa possível – e era puro pensamento sobre as marés da vida, os esforços, os infortúnios e o sonho de vencer. O velho inventava sua estratégia de resistência e sobrevivia, sem perder o objetivo de pescar, de superar o fracasso. Finalmente conseguiu capturar um peixe, mas foi um peixe enorme, gigante, realmente descomunal, que lhe exigiu redobrada habilidade, numa verdadeira luta de muitas e muitas horas. Conseguiu prender o peixe à embarcação e começou a se dirigir para a costa, mas os tubarões, pouco a pouco, devoraram sua presa e Santigo chegou à costa apenas com a carcaça do peixe presa ao barco. Atracou, enrolou as velas, colocou o mastro nos ombros e, com muita dificuldade pelo cansaço e o sofrimento do corpo, conseguiu chegar até a cabana humilde em que vivia, onde se jogou na cama rústica para dormir. Sobrou-lhe um amigo: Manolín veio com a caneca de café quente e com amparo, dizendo-lhe que gostaria de voltar a ser seu assistente, que ainda tinha muito o que aprender com ele. “Venceram-me, Manolín. A verdade é que me venceram”, disse o velho. E Manolin, que havia chorado de emoção quando buscou o café, tentou ajudar o amigo a ponderar: “O peixe não; o peixe não te venceu”.
    Mesmo que Hemingway, já no ano de lançamento desse livro – 1952 – tenha insistido que sua narrativa não era uma metáfora da vida real e sim uma simples história de um pescador e o mar, a obra sugere, inevitavelmente, uma reflexão que a transcende. É o segredo dos grandes textos, em que a aparente simplicidade sabe abrigar densidade e profundidade. As narrativas excelentes, por abordarem questões fundamentais da vida humana, são obras permanentemente abertas e conversam com diferentes circunstâncias. Assim é que podemos pensar, a partir de O velho e o mar, a solidão de uma pessoa idosa, sozinha, no alto mar da pandemia do novo coronavírus. A chacota dos pescadores jovens diante da frustração do velho pescador, desconsiderando tudo o que ele tenha realizado no passado, transporta-nos para o preconceito com os idosos nos dias atuais, que tem assumido a forma de grosseira intolerância. São recorrentes nas redes sociais as gracinhas contra os velhos, as piadas de mau gosto e precária elaboração. Nas ruas e locais públicos das cidades, são frequentes os desaforos, os insultos, sempre usando pejorativamente a palavra velho(a). Muita gente já observou a cena de um idoso que, ao pagar uma conta numa lotérica e, eventualmente, reclamar de alguém que ali está tagarelando com a máscara no queixo ou no pescoço, ouvir como resposta uma frase usual: “Vai pra casa, véio”. Ou seja: os velhos que se recolham, que fiquem fechados em casa infinitamente, que sequer paguem contas ou deem uma pequena caminhada necessária à saúde, enquanto os mais novos usufruam de tudo o que bem entendam e descumpram as medidas sanitárias.
    O descumprimento das medidas sanitárias por pessoas jovens e de meia idade, que são as que, via de regra, aparecem nas fotografias e filmagens de locais de aglomeração, impõe o prolongamento do confinamento das pessoas de grupos de risco, em especial os idosos. É a irresponsabilidade de uns penalizando outros, numa sociedade em que o egoísmo impera e onde a empatia faz parte de um discurso vazio. Assim como o velho Santiago, na solidão do alto mar, vivia a incerteza dos dias vindouros, os velhos do mar da pandemia no Brasil, sozinhos em suas quarentenas, vivem a dolorosa incerteza, sem saber até quando perdurará essa situação. Todos os prognósticos do tão falado “achatamento da curva” do monitoramento dos contágios foram sucessivamente descartados e não há uma perspectiva confiável quanto a alguma data para que as portas possam ser abertas e os convívios possam ser retomados com segurança.
    Como o sol que queimava a pele indefesa de Santiago, ou os ventos que fustigavam seu rosto, as notícias e análises que colocam os velhos de hoje como estorvo, como despesa insuportável da Previdência Social, açoitam seus ouvidos e sua alma. Eles sabem que é pura injustiça e ingratidão, pois trabalharam a vida toda e descontaram de seus vencimentos as contribuições que hoje compõem sua geralmente parca aposentadoria. E muitos desses velhos ainda ajudam, com boa parte desses diminutos vencimentos, filhos desempregados ou netos. Como o prenúncio de morte que os tubarões, rondando o barco, representavam para Santiago, os critérios “técnicos” para uso dos insuficientes respiradores nos hospitais lotados são prenúncios de morte para os velhos da quarentena. Os foliões dos bares, das praias, dos parques, das festas nos casarões, os agentes das aglomerações, terão a primazia, serão os escolhidos para viver, por serem mais jovens e pela ausência de comorbidades. Ninguém saberá das riquezas das trajetórias dos velhos da pandemia, do que fizeram e aconteceram, do que lutaram, do que superaram, do que ajudaram, do que cresceram, do que criaram, do que sonharam, do que ainda aguardavam. Seus anos de vida respondem a quesitos de descarte, são pontos negativos. As marcas da genética e das vivências em seus corpos nada mais são do que comorbidades. A consciência de estar na última etapa da vida, inerente à velhice, que pode ser uma consciência relativamente serena, que pode fazer parte dos pensamentos e sentimentos maduros, é abalada pela possibilidade de um vírus mal combatido abreviar essa fase de modo abrupto.
    Mas há muitos velhos na quarentena a buscarem força interior que possa suplantar a maré ruim. Há velhos que leem, que escrevem, que meditam, que cozinham, ou que regam plantas, ou que pintam, ou que moldam, ou que costuram, ou que criam objetos e que transformam sua casa em redoma que os possa salvar das hostilidades. Há velhos que ainda cantam; doces vozes que, às vezes, permeiam, quase inaudíveis, o concreto das cidades. O velho Santiago não cantava mais, desde que ficara sozinho no mar. Ele apenas tecia seu monólogo interior e, por vezes, falava alto. Não lembrava desde quando adquirira o hábito de falar em voz alta consigo mesmo, mas achava que era desde que deixara de contar com a companhia do amigo Manolín. Deve haver muitos velhos falando consigo mesmo nas quarentenas das cidades do Brasil. Deve haver muitos que deixaram de cantar e que deixaram de sorrir. Santiago mencionou que seu barco não tinha os rádios de comunicação dos barcos das pessoas de posses. Hoje as facilidades de comunicação das modernas tecnologias não estão acessíveis para alguns velhos, num país tão desigual como o Brasil, mas principalmente não são muito usadas por boa parte dos familiares que poderiam atenuar a solidão dos velhos no mar da pandemia. Nada parecido com as sociedades primitivas, em que os anciãos eram encarados como sábios e conselheiros, respeitados e queridos por todos. Nesta sociedade hostil de nossos dias, sorte do velho que tiver um amigo como Manolín, a aguardar por ele e a enconrajá-lo a seguir, após a longa quarentena. Sorte do velho que venha a ouvir alguém dizer-lhe que ainda tem muito a aprender com ele, mesmo que seus esforços, suas façanhas e o gigantesco produto de seu dedicado trabalho saiam em carcaça do mar da pandemia.

    *Miriam Gusmão é professora aposentada e jornalista.

     

  • LUIZ-OLYNTO TELLES DA SILVA/Do Caos à Desordem

    Luiz-Olyntho Telles da Silva

    Uma vez um Dalai-lama disse só haver dois dias no ano em que não se pode fazer nada. Um se chama ontem e o outro amanhã.

    Uma premissa retórica para dizer da importância do dia de hoje para crescer, amar, fazer e, principalmente, viver. É assim. Mas temos de lembrar que uma das coisas importantes a fazer no hoje é historiar o ontem e planejar o amanhã.

    A grande mensagem desse líder espiritual é destacar a importância destes três momentos, o passado, o presente e o futuro. E o interessante é que essas palavras não são atribuídas nem a Gedum Truppa, nem a Tenzin Gyatso, quer dizer, nem ao primeiro nem ao último Dalai-lama.

    A afirmação soa como uma simples emanação da sabedoria oceânica de sua posição, a qual consiste, antes de tudo, em pôr ordem nas coisas.

    Pela busca da ordem começa também o Gênese. Primeiro separou o céu da terra, depois a luz das trevas, as águas acima do firmamento das águas abaixo do firmamento, os mares dos continentes e, com todas essas realizações, o Criador estava muito empolgado.

    No dia seguinte, fez um pomar, com todas as frutas, e crescia sua empolgação. Mais um dia e fez aparecer as estrelas, o sol e a lua, para iluminar o dia e a noite, sempre contente.

    No quinto dia fez os peixes e as aves, e no dia seguinte os animais e o homem, sendo este último – já pleno de júbilo, como uma espécie de assinatura, para garantir sua autoria –, feito à sua imagem e semelhança.

    Enfim, estava pronto! E tomou todo o sétimo dia para descansar. O descanso, contudo, não estava na frase do Dalai-lama e minha mãe, muito prática, justificava dizendo que se descansa de uma coisa fazendo outra. Thomas Hobbes, por exemplo, como quem puxa as brasas para sua sardinha, preferia pensar no ócio como sendo a mãe da filosofia.

    Seja por isto, ou por aquilo, a questão é que a felicidade do Criador, depois de ter parado para descansar, e pensar, já não foi a mesma, a completude estava perdida. Suas reflexões levaram-no a perceber que algo não estava bem.

    Quer dizer, ao olhar para trás, para o que tinha feito no ontem, historiando-se pela primeira vez, pensou que, para o futuro, seria melhor que o homem tivesse uma auxiliar que lhe correspondesse.

    É aí que, provavelmente no primeiro flashback da literatura universal, o narrador volta no tempo para dizer como tinham sido feitos os animais e conduzidos ao homem para serem nomeados; mas, como em nenhuma dessas feras encontrou a tal da auxiliar que lhe correspondesse, isto é, aquela com quem, de forma conjunta, pudesse responder às emergências da vida, o Criador fez cair um torpor sobre o homem, que dormiu e, ao sonhar, forneceu um modelo a partir do qual sua companheira foi feita.

    Depois de pronta, o Grande Arquiteto, vendo-a pelos olhos de Adão, por certo sorriu, com aquele ar de satisfação, e lá com seus botões pensou: – Este, sem sua história, nunca terá futuro!

    Cerca de mil anos depois desse primeiro livro do Pentateuco, o evangelista João, com os recursos críticos de sua época, tendo percebido a criação do mundo como efeito de discurso, como efeito do Fiat, e convencido de ter feito uma descoberta importante, já não teve dúvidas em afirmar que no princípio era o verbo. Foi seu modo de pôr um pouco mais de ordem na narrativa.

    Todo o trabalho da cultura, no final das contas, é uma tentativa de colocar ordem no caos cotidiano. Cada vez que um historiador reescreve a história, ele o faz a partir de dados encontrados no seu próprio tempo, na sua contemporaneidade. Quando não há dados disponíveis para saber da história, inventam-se mitos.

    Assim que, quando Hesíodo, por exemplo, nos diz que no começo do mundo havia o Caos, precisamos fazer um esforço para lembrar que ele não é um repórter, que ele não é uma testemunha ocular da história: ele não estava lá. Aliás, no decantado começo, não estava ninguém que pudesse vir mussitar esse segredo.

    Conheçamos um pouco de Hesíodo. É um poeta que faz poiesis, que cria a partir do que lhe inspiram as Musas helicônias, quer dizer, cria a partir do que está no seu cotidiano.

    Vale dizer que no cotidiano de Hesíodo estava o Caos – e também as Musas; necessariamente, tinham que estar porque, se não, como poderia Hesíodo falar deles? E com tal inspiração? E o que era para ele esse Caos?

    Posso pensar em algo parecido com a minha mesa de trabalho, no início de cada novo texto, mas por certo não seria apenas algo tão superficial. O que move um poeta precisa passar por suas entranhas, causando-lhe aquela sensação de vazio, de escuro, a partir do qual se pode inventar todo um mundo.

    Sabemos que Hesíodo nasceu na antiga Ascra, na Beócia, bem próximo ao golfo de Corinto. Na época de seu nascimento, seus pais haviam mudado recentemente para aí, vindos de Kainé, na Eólia, do outro lado do mar Egeu e por trás da ilha de Lesbos.

    Parecia-lhes que nesse lugar estariam melhor e, na verdade, tudo indica que nele tenham prosperado, pois mais tarde o poeta teve muitas disputas com seu irmão Perses, por causa da divisão das terras e dos bens herdados.

    Suponho que essa seja uma maneira de dizer que o caos renova-se a cada dia. Na minha mesa de trabalho, pelo menos, é assim. De modo que Hesíodo nasceu aí, junto ao monte Hélicon – onde diz viverem as Musas inspiradoras.

    Já velho, conta-se, foi assassinado. Mesmo tendo sido criado em um ambiente agrícola, ele abandonou a agricultura para dedicar-se à poesia, provavelmente devido às disputas com o irmão, julgando que este teria sido beneficiado na divisão das terras.

    De certo modo, é como se ele tivesse aprendido com Caim e Abel que, quando um irmão se dedica a alguma coisa, no caso do irmão de Hesíodo à agricultura, o melhor que o outro tem a fazer é dedicar-se a outra atividade.

    Caim, a propósito, também estava ocupado com a organização de seu caos; para garantir seu futuro, queria ser amado por Deus e, para isso, em suas oblações, oferecia em sacrifício uma amostra de sua messe. Mas o cheiro que alcançava as narinas de Zeus era de palha queimada, quer dizer, nada aromático, ainda mais, perto do perfume das oferendas de seu irmão, criador de gado. E comparar o odor da palha carbonizada ao aroma da carne assada? Não dá! Nem sempre é fácil organizar nosso caos.

    Para Hesíodo, dedicar-se à poesia, honrando os deuses imortais com sua genealogia e ocupando-se da organização do mundo dos mortais, desde sua origem, limitações e deveres, parece ter sido a sua maneira de encontrar seu próprio caminho, seu próprio domínio, buscando assim colocar ordem nos seus sentimentos fraternos transformados em um caos pelas desavenças. Em todo o caso, longe de casa, não consegue começar um poema sem antes invocar as Mousai de sua infância.

    É verdade também que dizer Caos, hoje, já não é o mesmo que no século VIII (ou VII) a.C., época em que Hesíodo viveu; se, para ele, o Caos era apenas uma desordem passível de organização, uma desordem capaz de comportar uma organização, organização esta, quem sabe, já compreendida no próprio Caos, a cultura de nossa época, quando se começa a investigar as leis da desordem, e tendo alcançado a segunda lei da termodinâmica, confirma-nos a previsão aristotélica de  que a desordem parece ser o destino de tudo que nasce. Daí a busca da ordem cotidiana ser uma luta que não parece ter fim.

  • DIEGO PAUTASSO/ Made in China 2025

    Os processos nacionais de desenvolvimento são, via de regra, construídos a partir de uma complexa estrutura intergeracional, cujo caminho é repleto de percalços e contradições.

    No caso da China, a longa estrada rumo ao desenvolvimento pleno da nação entrelaçou, em suas origens, a confluência de processos de descolonização, de revolução anti-sistêmica e de reconstrução nacional a partir de heranças imperiais milenares.

    Assim, o desenvolvimento resulta, pois, da combinação de processos globais com políticas nacionais, pragmaticamente adequadas às oportunidades conjunturais.

    Absolutamente todos os países hoje considerados desenvolvidos se utilizaram amplamente de políticas industriais, comerciais e tecnológicas (ICT) para atingirem tais condições.

    Em outras palavras, atingem-nas a partir de uma intrincada rede de interações e conhecimento mobilizada em prol da potencialização da economia nacional, com o progressivo aumento de produtividade se vinculando aos mecanismos de agregação de valor, de conhecimento e de inovação que, por sua vez, vinculam-se ao aumento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

    O avanço de qualquer projeto nacional consistente tende, em última instância, a se defrontar com os limites impostos pelas estruturas hegemônicas de poder de sua era, formados por mecanismos de dominação que direta e indiretamente respaldam a supremacia de determinados países e a legitimação de certas organizações internacionais.

    Daí a importância da plena articulação de uma estratégia de inserção internacional consequente e a afirmação de um projeto nacional de desenvolvimento de longo prazo para a superação do gap produtivo-tecnológico que sustenta tais estruturas de poder.

    Por isso, não é possível compreender as questões concernentes ao desenvolvimento das nações quando as dissociando da dialética da forma como se refletem no deslocamento dos centros decisórios globais.

    Afinal, são os resultados da contenda entre polos dominantes e ascendentes que acabam por determinar os respectivos graus de autonomia e lugar dos países nas configurações hierárquicas de poder no mundo.

    Dito isso, para compreender no que consiste o Made in China 2025, cabe recuperar a trajetória mais ampla da China, emblemática da tensa e contraditória relação entre desenvolvimento e inserção internacional.

    A política de Reforma e Abertura, de Deng Xiaoping, visava superar contradições do ciclo de reconstrução nacional iniciado em 1949. O ajuste nas estratégias tanto de desenvolvimento nacional quanto de inserção internacional incluíram movimentações bruscas, como a aproximação político-diplomática entre China e Estados Unidos da América na década de 1970, em plena Guerra Fria, num contexto de recém superação dos sobressaltos da Revolução Cultural.

    Atos como esse demonstram, com exatidão, que a política é, na maioria das vezes, mais sinuosa do que pareceres pautados por juízos morais podem fazer crer.

    Nesse quadro de aproximação sino-americana, a expansão financeira estadunidense potencializou o progressivo deslocamento do epicentro produtivo global do Atlântico Norte para a Ásia Oriental.

    Esse resultou, nas décadas seguintes, num perceptível e vigoroso renascimento do papel protagonista da Ásia a partir da liderança da reemergente civilização chinesa, e da reconstituição do sistema sinocêntrico.

    Hoje, enquanto as potências ocidentais endossam a crescente desregulamentação financeira e atrofiam setores fundamentais de suas economias, a China aprofunda a condição de epicentro da produção mundial.

    No âmbito das exportações, os valores passaram de 16,8 bilhões de dólares, em 1980, para 82 bilhões em 1990, 370 bilhões em 2000, 1,680 trilhão em 2010 e 1,980 trilhão em 2016.

    Entre 2007 e 2017, os superávits comerciais acumulados da China totalizaram quase 3,5 trilhões de dólares.

    Na década de 1980 as exportações chinesas praticamente se restringiram ao petróleo e seus derivados, alimentos e outros produtos primários; durante os anos 1990 passaram a ter importante composição de calçados, vestuário, brinquedos e outros bens manufaturados de baixo valor agregado; já na atualidade, predominam os equipamentos eletroeletrônicos, motores, veículos, materiais de construção, dentre outros bens sofisticados.

    A atuação das empresas chinesas no âmbito global reflete a amplificação do poder do país oriental na esfera internacional. Tal fato pode ser bem ilustrado pela rápida expansão do número de suas multinacionais entre as grandes corporações do mundo.

    Não obstante as dificuldades de mensuração, devido aos dados variáveis de controle acionário e perfil das empresas, é evidente a ascensão ocorrida: dentre aquelas listadas como as 500 maiores empresas do mundo pela revista Fortune, a China detém hoje cerca de 120, quando eram apenas 18 em 2005;

    Nesse mesmo período os EUA reduziram o número de suas empresas na lista, passando de 176 empresas, em 2005, para 126 empresas, em 2018. Ressalte-se: não se trata apenas de empresas ligadas a setores tradicionais, vinculados à exploração de minérios, petróleo, alimentos, têxteis, por exemplo, mas muitas empresas de tecnologias de ponta, incluindo setores de informática, comunicação, energia limpa, entre outros.

    O país, que nos anos 1990 se notabilizou por exportar produtos de “1,99”, tornou-se um polo protagonista de inovação produtiva e tecnológica.

    Durante a política de Reforma de Abertura, do final da década de 1970, a ênfase chinesa recaiu sobre o desenvolvimento da capacidade produtiva nacional, com atração de investimentos estrangeiros voltados para a internalização de capital e de tecnologias; a partir dos anos 1990, a China já ensaiava a projeção de seus investimentos para o exterior, priorizando os países periféricos como destino; desde 2005, entretanto, a China tem expandido ainda mais seus investimentos no exterior, ensejando uma evidente transformação qualitativa da expansão dos seus negócios internacionais.

    Alinhada a essa dinâmica, foi elaborada, em 1999, a estratégia Going Global, justamente no contexto de ingresso do país na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, voltada para a ampliação da segurança em recursos naturais, alimentares e energéticos, via controle das cadeias de valor desses setores em outros países.

    Atualmente, a China desenvolve a Going Global 2.0 com o objetivo central de promover demanda à economia nacional, alavancando-a por meio da Nova Rota da Seda.

    Diante do exposto, pode-se compreender e abordar os principais aspectos do Made in China 2025, que sinaliza o aprofundamento da sinergia entre desenvolvimento nacional e potencialização da inserção global da China.

    É um caso exemplar da capacidade estatal de promover políticas de ICT em favor da indústria nascente. Ou seja, o governo chinês tem impulsionado a interação entre Estado e setor privado e financiado a fusão de setores, conformando oligopólios (“campeões nacionais”) com vistas a aprofundar a produtividade e a socialização do investimento.

    O planejamento estatal inclui financiamento barato oferecido por bancos públicos nacionais, produção de insumos básicos com preços baixíssimos e estímulo da demanda por meio de compras governamentais.

    Como já abordado, políticas de ICT têm sido historicamente cruciais para possibilitar processos de desenvolvimento das nações.

    No entanto, num segundo momento, após a consolidação destes processos, costumam combinar a manutenção de seus principais sustentáculos com uma retórica de defesa de políticas liberais no âmbito global multilateral.

    Assim, é “chutada a escada” para evitar a ascensão de competidores que queiram trilhar o mesmo caminho, e o país desenvolvido passa a alimentar ações e empreendimentos voltados à garantia da monopolização de seus domínios (patentes) e a inibição destas mesmas políticas públicas, que lhes deram origem, em terceiros países.

    Trata-se, portanto, de uma estratégia ciclicamente adotada por potências mundiais em prol da reafirmação de suas vantagens e, por extensão, das assimetrias globais expressas na divisão internacional dos processos produtivos – ou seja, na estrutura que rege o lugar que cada país ocupa nas cadeias de valor e riqueza.

    Com efeito, o caminho ao desenvolvimento combina, portanto, a execução de um projeto nacional com a paralela construção da capacidade política para romper estruturas internacionais hegemônicas, voltadas para a cristalização das configurações globais de riqueza e poder.

    No caso da China, entrelaçam-se as políticas de reafirmação da soberania, integridade territorial e reconstrução nacional da Era Mao com as reformas modernizantes desencadeadas pela Era Deng.

    No caso atual, falamos das múltiplas políticas públicas governamentais voltadas para a promoção da complexidade econômica chinesa, englobando a abertura comercial gradual, com complexo sistema de tarifas, barreiras não-tarifárias e licenças; a atração de investimentos condicionados às transferências tecnológicas e joint ventures, o encadeamento dos distintos segmentos da indústria nacional; os fortes estímulos à engenharia reversa e a aplicação branda das leis de proteção intelectual; a criação de clusters nacionais por meio de requisitos de conteúdo local; além de uma política econômica capaz de combinar câmbio desvalorizado, juros baixos, controle de capitais, dentre outros mecanismos.

    Nesse quadro de acirramento da competição interestatal e corporativa, a China mira o que se convencionou chamar indústria 4.0 – conceito criado em 2011, na feira de Hannover, na Alemanha, para se referir à produção de manufatura avançada.

    São inovações tecnológicas ligadas à inteligência artificial, robótica, internet das coisas, Big Data, veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia, biotecnologia, armazenamento de energia, novos materiais (grafeno) e computação quântica.

    A política Made in China 2025 (MIC 2025), inspirada no plano “Indústria 4.0” da Alemanha (adotado em 2013), foi aprovada pelo Conselho de Estado da China em 2015, voltada ao desenvolvimento da manufatura inteligente.

    Trata-se de um aprofundamento de outro estudo, de 2010, intitulado China’s drive for ‘indigenous innovation’, cujo objetivo era valer-se do poderoso regime regulatório chinês para forçar a diminuição da dependência de tecnologia estrangeira, por meio da promoção de inovações nacionais.

    O MIC 2025 se propõe a impulsionar a liderança da China nas redes globais de produção e inovação, conferindo eficiência e qualidade aos produtos nacionais.

    O plano foi elaborado pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT), com a contribuição de 150 especialistas da Academia de Engenharia da China.

    Este documento governamental destaca 10 setores prioritários de atuação: 1) nova tecnologia de informação avançada; 2) máquinas e ferramentas automatizadas e robótica; 3) equipamentos aeroespaciais e aeronáuticos; 4) equipamento marítimo e transporte de alta tecnologia; 5) equipamento moderno de transporte ferroviário; 6) veículos e equipamentos de nova energia; 7) equipamentos de energia; 8) equipamentos agrícolas; 9) novos materiais; e 10) biofármacos e produtos médicos avançados.

    Para tanto, o governo chinês não está focado apenas na inovação, mas em toda a cadeia de produção e serviços modernos.

    O objetivo central é aumentar o conteúdo de componentes e materiais nacionais primeiramente para 40%, até 2020, e posteriormente para 70%, até 2025. A estratégia do governo chinês inclui políticas cujos objetivos são acelerar os esforços de transferência de tecnologias e de requisitos de licenciamento e aquisição de empresas estrangeiras estratégicas, bem como de diversas atividades de engenharia reversa.

    É interessante observar as metas na indústria automotiva, setor em que se entrelaçam tecnologias da informação, veículos autônomos, novas formas de energia, dentre outros.

    O Made in China 2025 é, definitivamente, um ambicioso plano para afirmar a liderança industrial e tecnológica da China, em compasso com um robusto processo de substituição de importações.

    Entre 2016 e 2020, o MIIT e o Banco de Desenvolvimento da China executaram programas de financiamento – incluindo empréstimos, títulos e leasing – para os grandes projetos, com um financiamento estimado em mais de 45 bilhões de dólares.

    Trata-se de uma escalada produtiva que tende a recrudescer a competição interestatal e interempresarial internacional, típicas dos contextos de reorganização do poder mundial.

    E é por isso que nem a ‘guerra comercial’ desencadeada pelos Estados Unidos contra a China em 2018, nem a detenção de Meng Wanzhou, diretora financeira da gigante de telecomunicações chinesa Huawei, resumem-se a litígios deslocados desse quadro geopolítico mais amplo.

    Consequentemente, não restam dúvidas quanto a veracidade de que o desenvolvimento nacional e a projeção global de um país se entrelaçam e se fortalecem mutuamente – e a trajetória da China é emblemática dessa sinergia.

    O projeto Made in China 2025 é causa e consequência desse processo, cujas origens remontam à reconstrução nacional iniciada em 1949, dinamizada e potencializada após as reformas empreendidas nos anos 1970.

    Se é fato que a 3ª Revolução Industrial e a assim chamada “indústria 4.0” trarão mudanças estruturais na produção e no trabalho, estas não se dissociam do desenvolvimento e poder das nações e, com efeito, de suas políticas públicas voltadas à produção de riqueza (complexa e tangível). Consequentemente, o maior poder geoeconômico da China torna imperativa uma maior assertividade geopolítica, tensionando as estruturas hegemônicas de poder lideradas pelos Estados Unidos.

    É, sem sombra de dúvidas, dessa resultante que surgirão as novas configurações de poder internacionais, a serem estruturadas a partir de rupturas com maior ou menor escala de violência, a depender dos rumos que suas dinâmicas assumirem.

    Diego Pautasso*

    *É doutor e mestre em Ciência Política e graduado em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é professor de Geografia do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) e professor convidado da Especialização em Relações Internacionais – Geopolítica e Defesa, da UFRGS. Autor do livro China e Rússia no Pós-Guerra Fria, ed. Juruá, 2011. E-mail: dgpautasso@gmail.com

     

  • MIRIAM GUSMÃO / O Santo Ofício esquerdista nas redes sociais

    O que querem nas redes sociais os esquerdistas que se ocupam da condenação e execração pública de pessoas arrependidas de terem votado em Jair Bolsonaro? Que serviço estão prestando, a que causa servem, esses diligentes integrantes de uma espécie de tribunal da inquisição? À beira de novas eleições, em lugar de oferecerem alguma contribuição minimamente eficiente para tentarmos reverter o desastre dos desmandos da extrema-direita no país e do desmonte das políticas públicas empreendido pelo neoliberalismo tardio tupiniquim, esse contingente de ativistas da Web prefere ações deletérias contra indivíduos.
    Sem o mesmo porte do aparato das Fake News utilizado pelos bolsonaristas para enxovalhar biografias nas últimas eleições, a investida desse arremedo de Santo Ofício contra os denominados “arrependidos” é análoga. Ainda que, às vezes, menos agressiva, é uma ação da mesma natureza, do ponto de vista ético e moral.
    No que concerne à prática política, observa-se ausência de inteligência em ações de intolerância que só alimentam a aversão fomentada pelos conservadores contra as esquerdas. E, estranhamente, ao invés de computarem como positiva a debandada de apoiadores da candidatura Bolsonaro, e de atuarem no sentido de ampliar essa debandada, os ativistas da inquisição perdem precioso tempo tentando desacreditar os arrependidos.
    O afã com que se dedicam a apontar culpados aleatórios pela ascensão da extrema-direita ao poder, e a sentenciar que os arrependidos não terão perdão, substitui a necessária análise mais aprofundada do revés histórico e situa como meras vítimas muitos protagonistas da derrota. Trata-se de um conhecido procedimento de transferência de culpa de quem não consegue assumir responsabilidades. O lamentável é que a análise rasa do cenário político e dos papéis dos diferentes agentes não habilita a correção de rumo e não oferece perspectivas de superação.
    É um entretenimento tão fácil quanto gratuito ficar se deleitando a tripudiar famosos que se arrependem do voto, seja através dos usuais memes, seja com textos debochados ou arrogantes (mesmo com frequentes erros de Português que desautorizam a empáfia!). Difícil é se debruçar no exame de fatores anteriores ao momento do voto, como, por exemplo, a desastrosa tática eleitoral de flertar com o fascismo, buscando polarização com Bolsonaro nos momentos iniciais da disputa, quando ele era ainda um candidato inexpressivo. A hipótese de que ele seria um candidato mais fácil de derrotar no segundo turno não mediu o risco irresponsável.
    Duas características notórias das ações do tribunal esquerdista da inquisição, e que as tornam muito próximas das ações bolsonaristas, são o preconceito e a despreocupação com a verdade. Em palavras ligeiras, tentam reduzir a pó toda uma vida e o trabalho, muitas vezes vasto, de uma pessoa. Um exemplo disso foi o que disseram, nos últimos dias, sobre a escritora Lya Luft. No entanto, apenas tentam desmerecer, pois a grosseria e a inconsistência das agressões – boa parte delas demonstrando que esses detratores nem leram os livros que se atrevem a desqualificar – depõem muito mais contra quem fez a crítica do que contra quem foi alvo dela.
    Romancista traduzida em diversos países, poeta e ensaísta, Lya Luft é também tradutora de obras em Inglês e Alemão, incluindo livros de autores complexos como Virgínia Wolf, Doris Lessing e Rainer Maria Rilke. Seus livros são constantes objetos de estudo no meio acadêmico, havendo teses sobre eles em universidades federais e outros estabelecimentos de ensino superior de todo o país, dentre os quais a UFMG, a UFSC e a FURG.
    Vários recortes de suas obras possibilitaram estudos sobre a condição humana, a temporalidade e a memória, a situação da mulher, as opressões domésticas nas famílias tradicionais, as situações limites da vida, as perdas e a solidão, a condição de famílias imigrantes, as técnicas narrativas e muitas outras temáticas. Um de seus livros inovadores em termos formais é O ponto cego, pelo que experimenta quanto ao foco narrativo e por ter como narrador uma criança.
    Todo esse trabalho foi reduzido a supostos “livros de autoajuda” numa das postagens de um desses ativistas do Santo Ofício (que, aliás, escreveu autoajuda com hífen. É preciso destacar o erro para constranger a soberba). Outros comentários, desconhecendo o grande público heterogêneo da autora, suas enormes filas de autógrafos e a superlotação das salas de suas conferências para jovens e adultos, trataram a escritora como uma mera senhora que agrada “tiazinhas” (frases que denotam vários preconceitos). Ainda outros comentários reiteraram aqueles simplórios jargões das parcelas desavisadas da esquerda, depreciando a autora por ser “da elite branca”, por ser “de direita”. Com essas simplificações, jamais conhecerão um pouco da rica diversidade, da pluralidade de autores e obras da literatura nacional e universal. E com essas posturas demonstram falta de habilidade, de sensibilidade, para angariar adeptos na militância política.

  • ALDO REBELO/Padre Vieira na mira dos iconoclastas

    Aldo Rebelo*

    O filósofo Hegel (1770-1831), em sua obra Filosofia da História, censurava nos historiadores de seu tempo a apreciação que faziam do imperador Alexandre O Grande. Hegel, admirador de Alexandre, dizia: “Não seria justo para essa figura maior da história mundial se Alexandre fosse avaliado pelos princípios modernos, por exemplo, os da virtude ou da moralidade subjetiva, como fazem os mais recentes historiadores menos preparados.”

    O filósofo alemão enaltecia em Alexandre o seu favorecimento às ciências e às artes, para ele tão importantes quanto as conquistas.

    A verdade, porém, é que além de fundar cidades e levar os feitos da civilização helênica para o Oriente, Alexandre também cometeu violências e crimes que se julgados à luz dos padrões identitários de hoje justificariam a remoção de seus bustos e de sua memória logo após suas conquistas, de tal forma que atualmente pouco restaria e pouco conheceríamos de sua presença na história.

    Alexandre, ao ocupar a cidade de Tiro, localizada hoje às margens do Mediterrâneo no Líbano, mandou executar todos os seus habitantes jovens e adultos e ordenou a venda das crianças e mulheres como escravas. E assim o grande general procedeu em vários episódios de suas conquistas.

    Após a revolução socialista de outubro na Rússia, militantes radicais tentaram destruir relíquias do Museu Hermitage na cidade de São Petersburgo, a pretexto de que seriam símbolos do Czarismo.

    Lênin, o chefe da Revolução, protegeu as antiguidades com o argumento de que seriam representações da cultura e dos artistas e artesãos russos. Provavelmente, pelo critério das seitas identitárias contemporâneas, as obras deveriam desaparecer para que com elas cessasse o passado mórbido do regime dos czares.

    O que ocorre é que formas de produção que se sucedem, ao construir seus novos sistemas de poder, procuram apagar a memória imediatamente anterior, por vingança, narcisismo ou insegurança. O capitalismo contra o feudalismo, o socialismo contra o capitalismo, de tal sorte que não restaria passado comprometedor.

    Mesmo a Revolução Francesa, o rebento político mais celebrado do Iluminismo, nasceu banhada em sangue e na esteira da destruição. Ocupa lugar destacado na crônica da sordidez a obra do chefe de polícia de Napoleão Bonaparte, o sinistro Joseph Fouché, na execução de inocentes, na destruição de igrejas e símbolos religiosos. Fouché bem caberia no figurino de patrono da horda identitária da atualidade.

    O odioso assassínio de George Floyd por um policial branco nos Estados Unidos desencadeou o justo protesto em todo o mundo, expondo as entranhas da sociedade racista e segregacionista construída à sombra da prosperidade material da América.

    O paradoxo é que a onda contra a intolerância racial nos Estados Unidos produziu uma outra onda de similar intolerância em relação à história, à memória e ao passado. Nos próprios Estados Unidos, a estátua de Thomas Jefferson (1743-1826) foi sacudida de seu pedestal e atirada ao solo na cidade de Portland. Jefferson é considerado o principal redator da Declaração da Independência, o mais influente dos pais fundadores da Nação e foi o terceiro presidente dos Estados Unidos. Mas Jefferson era proprietário de escravos em uma sociedade escravocrata, o que à luz do identitarismo é o suficiente para bani-lo das praças do país que ele ajudou a libertar do colonialismo e a guiar para a ciência e a cultura.

    Em Londres, o Poder Público foi obrigado a proteger uma estátua de Winston Churchill, líder, junto com Roosevelt e Stálin, da resistência ao nazismo e um dos responsáveis pela derrota de Hitler. Mas Churchill foi chefe de um império colonial decadente, o que ao juízo identitário é o suficiente para varrê-lo das praças de Londres, cidade que ele salvou da tirania nazista.

    Na mesma Londres, identitários de “direita” já haviam vandalizado o busto do filósofo alemão Karl Marx, localizado em seu túmulo no cemitério Highgate. Em Londres, Marx viveu boa parte de sua vida e escreveu sua monumental obra filosófica e econômica.

    Mas foi em Lisboa que a seita identitária, pretensamente “progressista” revelou sua face mais reacionária e intolerante, ao vandalizar uma estátua do Padre Antônio Vieira, defensor dos índios, dos pobres, dos judeus, do Brasil e de Portugal, as duas pátrias que adotou por toda a vida.

    Denominado pelo poeta Fernando Pessoa imperador da Língua Portuguesa, tido por muitos como homem mais culto de seu tempo, autor de sermões consagrados pela literatura portuguesa, pregador convidado pelo Papa para a convertida ao catolicismo rainha Cristina da Suécia, prisioneiro da Inquisição, acusado de ligações com o judaísmo, expulso do Maranhão por defender os índios contra a escravidão, Vieira teve sua estátua atacada por militantes identitários em Lisboa.

    Segundo os agressores, Vieira justificou a escravidão africana, o que tornaria justa a remoção de sua memória da Lisboa na qual pregou sermões imortais, e do Portugal que ele defendeu contra os inimigos de Castela e de Holanda.

    Ao ensejo dos 400 anos do pregador, celebrados em 2008, a Universidade de Lisboa e a Santa Casa de Misericórdia de Portugal organizaram um consórcio para a publicação em 30 volumes das Obras Completas de sua autoria. Do empreendimento participaram dezenas de instituições portuguesas e brasileiras, entre elas as mais importantes universidades do País. Atentar, portanto, contra a memória de Vieira é afrontar também a memória do Brasil.

    No Brasil, a estátua de outro pregador, o Santo José de Anchieta foi alvo da fúria identitária no Espírito Santo. Anchieta celebrou a missa considerada o marco fundador da cidade de São Paulo em 1554. Destacou-se e é reconhecido por sua obra de evangelização e de proteção dos índios contra a escravidão. Ajudou a convencer o chefe indígena Araribóia a se aliar aos portugueses para expulsar os franceses do Rio de Janeiro. Seu nome batiza o Palácio do Governo e uma cidade no Espírito Santo e se chama Palácio Anchieta a sede da Câmara Municipal de São Paulo.

    O identitarismo é uma corrente originária nos Estados Unidos e que colonizou com ideias e dinheiro parte importante do movimento progressista no Brasil e no mundo. Foi denunciado pelo professor norte-americano Mark Lilla, da Universidade Columbia, como cúmplice pela ascensão da direita na América, ao dividir o povo.

    Uma marca da ideologia identitária colonizada é a seletividade de suas campanhas e denúncias. O silêncio quando o motor do protesto não nasce nos Estados Unidos. Não se protestou, por exemplo, contra o massacre de 800 mil integrantes da minoria Tutsi, pelos Hutus em Ruanda, na África, na década de 1990. Centenas de milhares de crianças iraquianas pereceram vítimas do bloqueio norte-americano logo após a primeira Guerra do Golfo (1990-1991), sem que o identitarismo erguesse sua voz indignada, reproduzindo apenas o que o centro de difusão determina e orienta.

    O identitarismo precisa ser contido e derrotado no Brasil como uma corrente reacionária que divide o povo, fratura a luta em defesa do interesse nacional e dos objetivos coletivos que desafiam o futuro de retomada do desenvolvimento, redução das desigualdades e construção da democracia. A luta contra o racismo e em defesa dos direitos sagrados das minorias só avançará quando integrada a uma plataforma mobilizadora dos mais amplos interesses coletivos e da nacionalidade.

    O identitarismo importa modelo de sociedade estranho à formação social brasileira, miscigenada na sua origem, na sua cultura, na sua religiosidade marcada pelo sincretismo das Iemanjá e dos São Jorge, dos terreiros das mães de santo e dos pais de santo, tão distinto da religiosidade absorvida diretamente de pastores brancos pela população negra dos Estados Unidos.

    *Aldo Rebelo é jornalista, foi presidente da Câmara dos Deputados; ministro da Coordenação Política e Relações Institucionais; do Esporte; da Ciência e Tecnologia e Inovação e da Defesa nos governos Lula e Dilma.