Dilma, largue o Zé!

andres vince*
Desde sempre tive o péssimo hábito de acompanhar a vida política do país. Tudo começou quando eu tinha uns sete anos e enquanto administrava o trânsito da minha gigantesca frota de carros miniaturizados escutei o presidente falar na TV sobre sua preferência ao odor de um estábulo ao cheiro do povo. Não eram essas as palavras literais, mas, o sentido, como eu constatei na prática, até uma criança percebia.

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Até uma criança entendia o general Figueiredo

É o primeiro pensamento do tipo “mas que porra é essa?” o qual tenho lembrança. Muitos outros vieram depois desse. Talvez milhares. Tanto o Executivo, como o Legislativo, e mais recentemente o Judiciário (atraído pela luz dos holofotes), alimentam com fartura esse pensamento. Desde que o então presidente general João Figueiredo proferiu aquela infeliz declaração, muita coisa absurda já aconteceu e já foi dita neste país.
Porém, nunca uma figura pública me chamou tanto a atenção pela incapacidade de produzir algum resultado concreto como o atual advogado de defesa da presidenta eleita Dilma Rousseff. Nunca vi alguém primar tanto pela neutralidade, ineficiência e teatralidade.
Seu desempenho como ministro da Justiça foi abaixo da linha do medíocre. É inexplicável como se manteve no cargo por tanto tempo. Se um ministério pudesse ser comparado a uma equipe de futebol, ele seria aquele jogador aipim, que fica plantado esperando os outros jogar a bola pra ele. Só que quando alguém passava a bola, ele devolvia. O passe era bonito e refinado, mas, inútil.
Fez um golaço de bicicleta quando estava no cargo. Só que foi contra. Como pôde não cair depois de ser flagrado num grampo afagando um governador que foi preso pela PF por porte ilegal de arma durante uma operação de busca e apreensão por suspeita de corrupção? Só conseguiu manter-se no time porque o jogador da equipe adversária, ministro Gilmar Mendes, também fez o mesmo golaço contra. “Que loucura!”, afirmaram os dois ministros no grampo onde eles referiram-se ao fato de o governador ter sido preso depois de sua casa ser vasculhada. Pois é, que loucura mesmo ministros, que loucura. Toda a preocupação que o Zé não teve com a Justiça, ele teve com a “injustiça” praticada naquele episódio. Pobre governador.
Quando a sua inutilidade foi reclamada até pela oposição, foi retirado do cargo de ministro indo parar na AGU. Com o novo cargo, uma nítida transformação ocorreu. De jogador aipim da equipe ele foi promovido à categoria de raivoso Poddle Toy da Dilma. Sabe aquele cachorro que late do quinto andar quando alguém abre a porta do prédio no térreo? Sabe aquele cachorro que todo mundo odeia, menos a dona? Essa foi a imagem do Zé Cardozo como advogado geral da União. Só serviu pra irritar as pessoas, enquanto a dona achava tudo muito lindo.
Agora como defensor pessoal da presidenta não poderia ser diferente. A mesma linda e rebuscada ineficiência de sempre. Não me entendam mal, não acho que ele seja uma pessoa inepta. Que pessoa seria capaz de citar o senador romano Cícero enquanto um pitbull morde suas partes pudendas? Pois nesta quinta (02/06), durante a defesa de Dilma na comissão do especial do impeachment no Senado, ele foi capaz disso. Fantasticamente incrível. E inútil.
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“Tchau, querido”: Sob forte ataque do senador Moka, o Zé disse não ser Catilina

É o que os especialistas poderiam chamar de reação desproporcional, só que ao contrário. Enquanto sofria o ataque desrespeitoso do senador Waldemir Moka, foi um perfeito gentleman, porém, quando o trator passou por cima e enfiou goela abaixo o parecer “isento” do relator senador Anastasia, aprovando e desaprovando os requerimentos de acusação e defesa como bem entendeu, ele não foi capaz de nenhuma reação. Deixou o trator passar por cima sem nem sair da frente. Patético.
Os senadores, da agora oposição, tiveram que praticamente arrancá-lo da mesa, de onde  retirou-se com muitas vênias, sem nem ao menos chamar o senador Moka lá fora, onde poderiam resolver as diferenças sem ferir o decoro da casa, saindo sob gritos debochados de “tchau querido!”. Duplamente patético.
Desculpem pelo sexismo, mas a senadora Vanessa Grazziotin teve mais hombridade que ele, indo bater na mesa do presidente da comissão, senador Raimundo Lira, depois de tão descarada manobra processual. Atitude também inútil, mas, já que é teatro, vamos quebrar uns vasos pelo menos, pra deixar a peça mais dramática.
E a Dilma não abre mão dele. Isto me lembra muito a cena epíloga do filme Titanic, certamente a maior geradora de lágrimas em cascata da história do cinema: quando a mocinha acorda segurando a mão do mocinho, nessas alturas já transformado num picolé.
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Paradoxo de Dilma: “largar ou não largar o Zé?, eis a questão!”

Esse deve ser o paradoxo de Dilma que, com certeza, nutre algum afeto por ele: “largar ou não largar o Zé?, eis a questão!”. Só tem essa explicação. Nem vou julgar se esse sentimento é maternal ou não. Sei que muitas mulheres têm apreço por ele. Outras tantas também têm pelo DiCaprio. Só que o Zé já cumpriu o seu papel no filme. Já colocou a mocinha sobre a tábua de salvação e ficou ali segurando na mão dela, congelando, muito embora, há suspeitas que os dois cabiam na tábua. Agora a Dilma está lá, sozinha, no meio dos destroços, esperando resgate. Viu como até comparado ao filme, o Zé não se sai bem? E ele lá, que nem um picolé de DiCaprio, segurando a mão de Dilma, esperando pra ir direto pro fundo.
Então, por tudo isso, se desse o acaso de eu esbarrar com a presidenta eleita na esquina democrática, sexta-feira passada, eu só iria conseguir dizer: “Dilma, largue o Zé!”.

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