ELMAR BONES/ O crescimento sempre adiado, as reformas nunca suficientes

O comentário de Valdo Cruz, no G1, sobre o pífio desempenho da economia brasileira em 2019, agora revelado, é texto exemplar da versão governista para o malogro.
Ele diz em síntese: a frustração do crescimento ocorre porque a dose do remédio é insuficiente. É preciso aumentar a dose, o ajuste.
Não cogita que o remédio pode estar errado, resultado de um diagnóstico errado e que o tratamento pode matar o doente.
Eis o que diz o abalizado jornalista:
A prévia do Produto Interno Bruto (PIB) de 2019 divulgada nesta sexta-feira (14) pelo Banco Central, registrando alta de 0,89%, aponta dúvidas sobre a capacidade de recuperação da economia brasileira depois da severa recessão de 2015 e 2016.
Se o índice for confirmado pelo dado oficial do IBGE, mostrará que o Brasil está sem tração para um crescimento mais forte e precisa de ajustes mais profundos para voltar a ter um ritmo mais veloz.
Na avaliação de assessores presidenciais, o recado é claro.
Primeiro, é necessário seguir com as reformas estruturais. A da Previdência foi importante, mas não suficiente para garantir a retomada dos investimentos.
Segundo, o governo precisa acelerar seu ajuste fiscal para abrir espaço para o investimento público, principalmente em infraestrutura e saneamento, além de vitaminar programas sociais.
No ano passado, a frustração pelo crescimento ocorreu por fatores fora do controle da equipe econômica, como o acidente da Vale em Brumadinho (MG), que afetou a mineração, e a recessão econômica na Argentina.
Se esses eventos não tivessem ocorrido, o país poderia ter um crescimento adicional de 0,7 ponto percentual.
Mas um outro fator poderia ser manejado pelo governo, a votação da reforma da Previdência Social.
Os conflitos entre o Palácio do Planalto e o Congresso no primeiro semestre do ano passado atrasaram a votação da mudança nas regras da aposentadoria no país.
Com isso, o ânimo dos investidores foi afetado nos seis primeiros meses de 2019.
O clima mudou apenas depois de setembro, depois que a Câmara concluiu a votação da proposta e a encaminhou para o Senado, que encerrou a votação antes do final do ano.
Agora, a equipe econômica vai monitorar de perto os indicadores dos primeiros meses de 2020 para checar se a economia está realmente num ritmo que garanta um crescimento acima de 2% neste ano.
A previsão do Ministério da Economia aponta uma alta na casa de 2,5%, mas se as reformas forem aprovadas. Economistas já começam, porém, a rever suas previsões para a casa dos 2%.
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Aí está a versão, que vem de  “assessores presidenciais” e que será massiva e reiteradamente a difundida: o crescimento não aconteceu porque as reformas (leia-se o ajuste fiscal) não foram suficientes.
É preciso mais arrocho, para que o Estado recupere a capacidade de investir “principalmente em infraestrutura e saneamento, além de vitaminar programas sociais”.
Esse argumento não contradiz o argumento central do ministro Guedes  de que é só retirar o Estado do cangote das empresas privadas que o mercado resolve a questão do crescimento?
Quem sabe tirar as empresas privadas do cangote do Estado? Recuperar receita de que o fisco abre mão para estimular negócios privados não ajudaria a recuperar a “capacidade de investimento público”?
E a dívida? No orçamento de 2020, o primeiro do governo Bolsonaro o valor consignado para pagar os juros e amortizações da dívida pública representa 45% de todas as despesas da União. Quase metade do que o Tesouro Nacional arrecada é para rolar a dívida.  É 1,6 trilhão de reais.
O governo não teria credibilidade para chamar os credores e mostrar a situação do país, a gravidade de uma recessão que vai para o sexto ano e conseguir melhores condições para pagar essa dívida?
Enfim, há caminhos, que poderiam ser complementares ao ajuste, mas a ortodoxia ideológica não admite nada além da marcha batida rumo ao Estado mínimo.
 
 
 
 
 
 

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