ELMAR BONES / O que está em crise é o negócio

Um artigo do presidente da Associação Nacional de Jornais, Marcelo Rech, na ZH, no dia da liberdade de imprensa, quase me fez tirar da gaveta uma velha manchete: “Vende-se este jornal. Motivo: o dono vai mudar de profissão”.

Rech reduz uma crise estrutural a uma questão de pontos de vista, um tiroteio ideológico em que o “jornalismo profissional” por sua postura impoluta sofre ataques de todos os lados.

Como diria o saudoso Belmiro Southier: OPN (Obrigado por nada).

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O que está em crise é um modelo, que nasceu quando alguém há 200 anos teve a ideia colocar anúncios no meio das notícias.

Os jornais populares, a internet da época, viviam da venda avulsa de seus exemplares por jornaleiros que gritavam suas manchetes nas ruas das cidades que cresciam no ritmo da industrialização.

Notícias e anúncios foram os ingredientes desse modelo bem sucedido que fez impérios pelo mundo afora.

No início os anúncios representavam uma  receita complementar, mas com o crescimento da influência política e do alcance dos jornais a equação foi se invertendo.

O anúncio, que era complemento, tornou-se a base do negócio.  Na grande indústria de notícias, que resultou desse modelo, a  venda dos exemplares foi reduzindo seu peso, até tornar-se quase supérflua.

Nesse caminho, o grande anunciante, governos entre eles,  percebendo a importância de seus aportes para o lucro das empresas jornalísticas, passou a exigir contrapartidas cada vez maiores, até efetivamente subordinar o noticiário aos seus interesses.

Desde os anos 1970, esse jornalismo sustentado por anunciantes está em cheque.

Com o advento da internet, ele começou a perder o sentido.

O leitor, que já desconfiava dele, encontrou outros canais para buscar informação e o anunciante, que precisava dele para chegar aos leitores/consumidores, descobriu caminhos muitos mais eficazes no meio digital.

O jornalismo, claro, ficou num limbo.  Ele era produto de um modelo empresarial que se esgotou. Mas não foi o modelo que gerou o jornalismo, ele é um instrumento da democracia. O modelo apenas fraudou-o.

A necessidade e a importância do jornalismo numa sociedade democrática não se alteraram, talvez até tenham aumentado frente à complexidade do processo de comunicação.

Mas como sustentar uma atividade que viveu os últimos dois séculos de um modelo de negócios que agora não precisa mais dela para fazer seus lucros?

O jornalismo continua sendo essencial para a cidadania, mas tornou-se supérfluo para os anunciantes que o financiavam. Para eles, o jornalismo só interessa como um meio de manipulação.

Esse é o impasse.

Ou o jornalismo volta às origens e vive dos leitores ou vira uma linha auxiliar  do marketing, como induz modelo fanado.

 

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