ELMAR BONES/ Quem corre atrás de clics acaba longe dos fatos

Quando fui repórter em Brasilia no início da Nova República, conheci um motorista do, então, Ministério da Fazenda que, naquele momento, servia o ministro  Dilson Funaro, o autor do Plano Cruzado.

Veterano na condução de figurões, esse motorista tinha em bem pouca conta os repórteres, como eu, que corriam atrás de declarações do ministro.

“Catadores de palavras”, dizia ele vendo aquele bando de repórteres desatinados enquanto Funaro corria do elevador para o carro na garagem do Ministério.

Antes de fechar a porta, já com meio corpo para dentro, o ministro dizia duas ou três frases estudadas que seriam as manchetes do dia seguinte e que vagamente coincidiam  com o que havia sido decidido no gabinete do ministro durante a tarde, enquanto os repórteres comiam pizza na sala de imprensa.

O jornalismo dos “catadores de palavras” está atualíssimo.

Com o agravante do instantaneismo e a disputa por clics que assolam o jornalismo à esquerda e à direita, na vereda da internet.

O que interessa é a frase chocante, a denúncia bombástica, a fumaça que geralmente encobre o que realmente acontece.

Os “catadores de palavras” agora levam bananas. Mas continuam lá, correndo atrás de declarações, que rendem clics, sempre longe dos fatos que realmente interessam.

 

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