GERALDO HASSE/ Fora da casinha

Uma amiga brasileira que viveu 30 anos em NY me pergunta por que Bolsonaro não cai, se está aparentemente na corda bamba.

Respondo que o principal fio a sustentá-lo é a legitimidade dos votos que o elegeram até 2022. Em outras palavras, ele é sustentado por Dona Democracia da Silva.

Frágil mas respeitável, essa senhorinha tem a sustentá-la um monte de instituições: o STF, o Congresso, o MP, as Forças Armadas, a PF, todas de olho na Constituição.

Complementarmente, trabalham pela mesma causa a ABI, OAB, a Igreja, a Mídia e até os chamados Mercados, nome genérico das forças do Capital, naturalmente amplas, abrangentes, variáveis e volúveis, mas sempre focadas na estabilidade institucional.

Entonces, esclareço a amiga, o presidente só poderá ser impedido ou substituído caso incorra em crime comum ou de responsabilidade.

Ou se cometer algum ato que possa levá-lo a ser considerado inapto para o cargo. Por exemplo, “dar um tiro na cuca”, como sugeriu o general João Figueiredo, ao ser indicado para ocupar o cargo em que agora está seu ex-colega de farda, que foi excluído do Exército por comportamento “fora da casinha”.

E aqui chegamos ao tema recorrente nos últimos dias, quando todo mundo assiste às diatribes presidenciais contra ministros e outras autoridades, incluindo a Polícia Federal.

Há indícios de que JB teria envolvimento com grupos fora-da-lei, dirigidos por ex-militares, mas até agora não foram juntadas provas judiciais disso.

Supostamente, poderia estar implicado em crimes de extermínio como o da vereadora carioca Marielle Franco, mas esse caso, por alguma razão, parece insolúvel.

De concreto se sabe que, sem dúvida, fez apologia pública da tortura e do estupro, dois crimes hediondos, mas nada disso lhe rendeu algum problema. Até a Mídia agiu complacentemente em relação a esses temas.

Fora daí, no final das contas, tudo se resume a opiniões, desabafos, ataques, fofocas e manifestações – contra e a favor — que não surpreendem nem escandalizam ninguém, desde que se popularizou o emprego das diversas ferramentas de comunicação social via tecnologia da informação, a endeusada TI.

O uso dos computadores e dos telefones celulares equipados com câmara fotográfica e diversos aplicativos banalizou a denúncia, o escracho, o humor etc.

Tudo é passível de “viralizar”. Há nas redes sociais uma pandemia de estupidez.

Assim, chegamos a esse ponto: sem ser médico, o presidente se acredita no direito de dar orientação técnica na área da saúde em plena crise do vírus covid-19.

Mal comparando, isso equivale a colocar militares nas redações de jornais e revistas, rádios e TV com a ordem de “escrevam isso” ou “é proibido falar daquilo”.

Ex-tenente voluntarista, hoje orientado pelos filhos parlamentares e aconselhado por sabe-se lá que amigos, ele se mostra desesperado para dar ordens sem ter se preparado para tal.

É nitidamente movido por ímpetos juvenis. Dias atrás, a psicóloga Rita de Almeida escreveu no GNN que a idade emocional dele é 5 anos.

Agressivo, autoritário, neurótico, montou um séquito de fanáticos que põem em polvorosa cidadãos, eleitores, professores, cientistas, países vizinhos e distantes.

Por motivos óbvios para alguns, conta com o apoio de empresários, políticos e militares. Sem projeto explícito de governo, sua meta é reeleger-se em 2022.

Não faz sentido, mas é parte da Democracia.

LEMBRETE DE OCASIÃO

“Trate seu povo como trata a uma mulher”

Benito Mussolini, ditador italiano enforcado em 1945

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