GERALDO HASSE/ O lixo e o jornalismo

Geraldo Hasse
Dias atrás o Jornal do Comércio de Porto Alegre publicou interessante matéria sobre reciclagem de lixo. O repórter ouviu os responsáveis oficiais pela gestão dos trabalhos, levantou alguns valores, falou de custos e de volumes movimentados, mas não foi ao fundo da questão, presente em qualquer cidade grande ou pequena.
Para chegar ao fundo da lata do lixo, seria preciso seguir os catadores individuais em seu trabalho pelas ruas. Feito formiguinhas, eles vasculham contêineres e juntam material reciclável separado por zeladores generosos ou interessados num quinhão dos “desvios” citados pela autoridade ouvida pela reportagem.
Ora, desvios! A reportagem mostrou o viés econômico e descartou o aspecto social da reciclagem. Também ignorou o lado ambiental. Aliás, tem sido assim a maior parte do trabalho apresentado em jornais, rádios e TVs: só se focaliza o lado econômico exibido pelos donos dos negócios. E o “outro lado”, o que está por trás do negócio?
Para dar o serviço completo, com tempo e paciência, o repórter teria de chegar ao chão batido dos galpões particulares de reciclagem, que pagam merrecas por quilo de latinhas, papelão e plástico — os três materiais mais comuns na reciclagem de lixo.
Sim, o negócio é grande, como o das carnes, mas dele faz parte também o osso manipulado pelos sem emprego, os desvalidos, os desgarrados, os carentes, os entregues-à-própria-sorte. “Esses vagabundos…”, como são definidos por muita gente. Como se fosse por opção que eles estejam nessa M.
Quando havia cinco milhões de desempregados no Brasil, a reciclagem do lixo mobilizava um exército estimado de 600 mil a 1,6 milhões de pessoas. Agora que os desempregados são 12 milhões, podemos talvez dizer que o número de catadores dobrou. Ou não?
Há uma lógica nesses números. Na mesma época dos 5 milhões de desempregados, havia 1,6 milhões de trabalhadores em segurança privada, desses que tomam conta de portarias, fazem ronda noturna, trabalham como zeladores de patrimônios públicos ou privados etc. Será que o número de seguranças aumentou? Pela lógica, sim. Nos galpões da iniciativa privada estabelecida no ramo da reciclagem, também há guardas pois, apesar de feios, sujos e mal cheirosos, esses locais são um elo da economia e não podem ser ignorados.
Daí a conclusão: se quisermos manter acesa a chama do jornalismo, precisamos mandar os repórteres às ruas e deixar de publicar press releases que chegam à redação pela internet. No mínimo, devemos reciclar os releases, produzidos para atender a interesses particulares.
LEMBRETE DE OCASIÃO
Jornalismo é uma atividade de interesse público, faz parte da cadeia de sustentação da democracia.

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