Gerdau vai pra São Paulo

A mudança do Grupo Gerdau para São Paulo, depois de 116 anos em Porto Alegre, fez rebrotar na minha cachola a imagem de Helio Gama Filho no início da década de 1970 em plena redação paulistana da Veja, enfileirando argumentos para me convencer da pujança da economia do Rio Grande do Sul.
Com sua vivência em Porto Alegre e a experiência de quatro anos operando na editoria de economia, negócios e investimentos da Veja, ele possuía dados que eu, foca, desconhecia naqueles idos de 1972. Ele era triotimista sobre o potencial econômico do Rio Grande do Sul. Como não fazer uma leitura positiva da macroeconomia gaúcha? Ora, pois.
Embalados pelo incentivo governamental à formação de grupos econômicos, os Gerdau haviam assumido a estatal Aços Finos Piratini, em seguida compraram a Siderúrgica Guaíra, a Cosígua (no RJ) e também assumiriam a Usina, da Bahia.
Em poucos anos, comprando pequenas usinas que logo reformavam, os Gerdau formariam um agudo grupo nacional no setor de aço, mas ainda não chegavam a constituir o maior grupo econômico gaúcho, como se tornariam nas décadas seguintes (em São Paulo, ascendeu na época a Corporação Bonfiglioli, formada pela indústria de tomates Cica e o Banco Auxiliar: não durou uma década).
Além dos Gerdau, havia no Rio Grande do Sul outros grupos fortes: A. J. Renner, Varig, Ipiranga e o Maisonnave, que atuava no mercado financeiro e controlava a indústria de tratores Massey Ferguson.
E ainda (citando de cabeça, sem recorrer a um dos anuários econômicos da época) os grupos Eberle, JH Santos, FrasLe; a Cotrijuí, a Fecotrigo; o Joaquim Oliveira…
E os agentes financeiros: Banrisul, Província, Nacional do Comércio, Sulbanco e Crefisul. Mais a Aplub e o GBOEx.
Na área química, a Refinaria Alberto Pasqualini e a Borregaard. No setor energético, a CEEE. No setor de transporte, a VFRGS.
Posso ter esquecido um ou outro grupo empresarial, mas a suposta pujança daquele tempo – o ‘milagre econômico brasileiro’ perto de dar com os burros n’água diante do shock oil da OPEP em 1973 – esvaiu-se nas décadas seguintes.
A maior parte dos principais grupos/empresas de 45 anos atrás ou parou de funcionar, ou foi vendida ou se transformou em outra coisa, ainda que mantendo o mesmo nome.
A Varig quebrou, a Renner morreu como indústria e virou uma multinacional de lojas com sede em Porto Alegre, o grupo Ipiranga desapareceu nas mãos de 60 herdeiros agraciados com US$ 4 bilhões pelo grupo paulista Ultra, a Maisonnave d’ont have (o que era Massey virou Agco), a FrasLe sobrevive no grupo Agrale, a Cotrijuí se esfacelou, a Fecotrigo desmantelou-se, o agrocomercial Joaquim Oliveira virou a industrial-mercantil Josapar  e, na área financeira, que parecia promissora, resta o Banrisul fazendo sombra a pequenas instituições financeiras, entre as quais floresce o Sicredi.
No lugar dos primitivos grupos nativos, temos uma constelação de empresas estrangeiras e/ou multinacionais como a Braskem, a GM, a Dell, a John Deere, a Pirelli, a Ventos do Sul e…
A CEEE foi dividida para mais duas empresas, EAS e RGE. A Viação Férrea virou ALL Logística. Depois de décadas a norueguesa Borregaard virou Celulose Riograndense, controlada por capitais chilenos.
De capitais gaúchos temos Panvel, Zaffari e alguns frigoríficos e/ou cooperativas agropecuárias.
Por tudo isso a transferência da cabeça do grupo Gerdau para São Paulo provoca um baque nos observadores da conjuntura econômica gaúcha. Sim, trocar Porto Alegre por Sampa faz parte de uma conjuntura mutante, mas para compreender tamanha mudança talvez seja preciso recorrer ao positivismo de um Helio Gama Filho, que sempre calçou suas análises em dados concretos, como ensinou o mestre Aloysio Biondi.
A esta altura da desagregação da economia do RS, talvez ele tenha argumentos para explicar o que houve, o que se passa e o que vem por aí.

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