Hora do PT matar a mosca azul

Geraldo Hasse
Depois do aluvião de denúncias levantadas pela Operação Lava Jato nos seus primeiros dois anos e meio, soubemos recentemente que não foram apenas petistas que prevaricaram, mas membros de praticamente todos os principais partidos brasileiros. Portanto, a começar pelo PT, impõe-se um saneamento geral para higienizar a vida partidária no Brasil.
Para clarear o panorama, precisamos recordar que, logo em sua fundação em 1980, o PT criou uma fórmula original da sobrevivência partidária: estabeleceu uma mensalidade para os filiados e uma contribuição compulsória para os militantes eleitos para cargos públicos. Cada mandatário tinha que dar ao partido 30% dos seus honorários.
Para coroar seu sucesso como partido de massa, só faltava ao PT filiar um número próximo de um milhão de sócios. Essa era sua meta explícita. Sob o comando do deputado José Dirceu, o partido passou a fazer filiações pela internet. Consta que chegou a 700 mil sócios.  Uma espécie de Coringão ou Flamengo entre os partidos.
Além dos pioneiros adeptos do socialismo democrático (“sem medo de ser feliz”), o partido passou a contar com levas de adesistas de última hora, alpinistas de ocasião, carreiristas sem vergonha e oportunistas loucos para ser governo.
No final do século XX, com apenas vinte anos de existência, o PT havia conquistado centenas de mandatos de vereador, prefeito, deputado, senador e governador. Cada um desses eleitos tinha direito de nomear um número considerável de pessoas para cargos de confiança, os chamados CCs, que também deviam dar o seu quinhão para o sustento da estrutura partidária.
Foi nessa convivência forçada entre os revolucionários de primeira hora e os recém-chegados famintos pelo poder que o PT perdeu a pureza original. Frei Betto escreveu um livro dizendo que seus amigos petistas se deixaram picar pela mosca azul do poder.
Alguns acreditam que o vacilo se deu durante a redação da Carta ao Povo Brasileiro, assinada por Lula em 22 de junho de 2002, portanto, alguns meses antes da eleição que colocou o ex-operário do ABC no Palácio do Planalto.
O pragmatismo petista no exercício do governo do Brasil rendeu a metáfora do presidente violinista: enquanto segurava o instrumento com a mão esquerda, Lula acionava o arco do violino com a direita (a troca de mãos não alterava o resultado final, considerado bom para pobres e ricos).
Sucesso de crítica e de público, o concerto petista foi bem até que, por ambição demasiada, erro de cálculo, soberba ou falta de melhor alternativa, o PT achou por bem (ou por mal?) fazer como os outros partidos no exercício do poder.
Aparentemente, não precisava ser assim, pois se todos os petistas seguissem a norma de contribuição ao partido, o PT poderia viver sem depender de doações de empresas interessadas em favorecimentos.
Tudo indica que o toma lá-dá cá começou na campanha eleitoral e se aprofundou perigosamente no jogo do(s) partido(s) no Congresso, sem o que não seria possível aprovar programas, projetos e políticas de interesse da maioria da população – e também de setores empresariais.
Deu no que deu. Mesmo sem provas, a Justiça condenou o chefe do partido José Dirceu a mofar na cadeia por conta do Mensalão, nome moderno de uma prática ancestral na administração pública do Brasil. Também foram condenados dois tesoureiros do partido. Há quem diga que José Dirceu é um preso político condenado por sua “extrema periculosidade”.
Em consequência das evidências dos delitos, o PT perdeu grande parte de sua credibilidade e a presidenta Dilma Rousseff foi tirada do Planalto por uma conspiração de políticos, procuradores e jornalistas com aval do Supremo Tribunal Federal.
Nas eleições de 2016 o PT perdeu um monte de votos e de cargos. Se fosse uma empresa, estaria no vermelho e sua diretoria seria substituída.  Por ser um partido, a democracia interna é sufocada pelas camangas de cúpula.
De uma forma ou de outra, o PT contribuiu para a degradação política ao fazer acordos e alianças com escroques, farsantes, traidores e pilantras protegidos por membros da baixa, média e alta magistratura.  Por isso, após a Operação Lava Jato, é indispensável passar um bombril nas panelas do partido e promover a volta ao caminho inicial, sem medo de ser feliz.
Até agora, quem andou mais próximo dessa prática foi o ex-governador gaúcho Olívio Dutra. Adepto da limpeza, ele é aplaudido onde quer que vá em Porto Alegre, mas provoca desconforto na cúpula nacional do partido.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Há outro caminho possível. É o caminho do crescimento econômico com estabilidade e responsabilidade social. As mudanças que forem necessárias serão feitas democraticamente, dentro dos marcos institucionais. Vamos ordenar as contas públicas e mantê-las sob controle. Mas, acima de tudo, vamos fazer um Compromisso pela Produção, pelo emprego e por justiça social. O que nos move é a certeza de que o Brasil é bem maior que todas as crises. O país não suporta mais conviver com a ideia de uma terceira década perdida. O Brasil precisa navegar no mar aberto do desenvolvimento econômico e social. É com essa convicção que chamo todos os que querem o bem do Brasil a se unirem em torno de um programa de mudanças corajosas e responsáveis.”
 Luiz Inácio Lula da Silva no final da Carta ao Povo Brasileiro em 22 de junho de 2002

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