Inter x Noia, a final da década

Geraldo Hasse
Vi-o jogar uma única vez, ao vivo, num sábado à tarde de setembro de 1958, no Estádio dos Eucaliptos. Jogavam Internacional x Floriano, de Novo Hamburgo, e fomos em comitiva, um grupinho do curso de admissão ao ginásio do Roque de Cachoeira. Era nossa primeira viagem à capital e quem nos ciceroneava era um irmão-professor colorado.
A partida terminou em 6 x 1 e o artilheiro colorado marcou cinco gols, municiado por um alemãozinho driblador chamado Sapiranga. Esse ponteiro-direito de cabelo amarelo trabalhava furiosamente no espaço que lhe cabia e, quando se aproximava da pequena área, ouvia o berro impositivo (“Dá!”) do centro-avante postado de frente para o gol. Inesquecível para um guri de 11 anos.
Mais de 50 anos depois, o antigo craque passa por mim na rua e o identifico. Impossível não reconhecê-lo. Magrão, o topete grisalho arrumado na testa e a ginga de ex-atleta. Puxei assunto, disse que gostaria de entrevistá-lo, que achava sua história muito interessante. Ele esboçou um sorriso resignado, mas não mostrou entusiasmo: “Minha história é pública, não há novidades a meu respeito”.
Não era esnobação. Afinal, Larry Pinto de Faria não fora apenas um atleta vencedor, festejado onde quer que andasse. Depois de marcar quase 200 gols pelo colorado, ele fez uma carreira como mandatário do povo junto às altas esferas do poder. Foi vereador, deputado, secretário municipal. Se no futebol jogava pelo centro, na política atuou pela direita. Começou na UDN, terminou na Arena. Uma figura pública que, no entanto, podia passear livremente pelas ruas.
Usando abrigo de esportista, ele caminhava diariamente de casa até o Parcão, reduto triarborizado que sequer existia quando ele chegou a Porto Alegre, emprestado pelo Fluminense, em meados de 1954. No lugar do atual parque, funcionava o Hipódromo dos Moinhos de Vento, ao qual se podia chegar de bonde, subindo do centro pela Independência e a Mostardeiro. Naquele tempo Larry não frequentava o prado porque, nos dias de corrida dos cavalos (em pista areia), ele também tinha de correr no (gramado do) Estádio dos Eucaliptos, sede do SC Internacional.
Correr é modo de dizer. Larry não corria atrás da bola. Ele a chamava e ela vinha. Era impressionante como se adonava dos espaços do campo para exercer a rara arte de fazer gols. Dava a impressão de que era fácil colocar a bola dentro dos três paus. Por isso levou muita pancada dos zagueiros adversários, especialmente de Airton e Ortunho, do Grêmio.
No seu primeiro Gre-Nal, em 1954, marcou quatro na vitória por 6 x 2. Em 1956, fez parte da Seleção Gaúcha que representou o Brasil no Pan Americano. Naquele que foi um dos melhores ataques do Inter, teve ao seu lado Luizinho, Bodinho, Chinesinho e Canhotinho. Eram cinco no ataque, mas só dois recuavam para ajudar o volante, outrora chamado de centro-médio.
Dada sua “escassa movimentação” (expressão do “professor” Ruy Carlos Ostermann, que marcou época como comentarista de futebol), Larry foi chamado de “O Cerebral”. Nascido em Nova Friburgo, afeiçoou-se ao clube gaúcho, arranjou namorada na cidade, casou e ficou para sempre em Porto Alegre.
Agora que o Estádio dos Eucaliptos não existe mais e o prado dos Moinhos de Vento há mais de 50 anos se mudou para o Cristal, um cronista mundano diria que o maior centroavante da história do Inter nunca perdeu o aplomb nem depois que parou de jogar bola.
E sempre foi fiel ao Internacional. Nos anos 60, quando o time viveu um jejum de títulos enquanto o clube construía o BeiraRio, Larry chegou a trabalhar de graça por algumas semanas como uma espécie de consultor técnico. Desistiu porque, mais do que recursos financeiros, faltava harmonia. “Ninguém se entendia”, ele me disse.
Naquela década perdida o time colorado permitiu que o Grêmio fosse heptacampeão, mas nunca correu o risco de cair para a segunda divisão, como acabou acontecendo em 2016 — coisa que Larry não chegou a ver. Ele faleceu em abril de 2016, com 80 e poucos anos.
Se Larry tivesse sobrevivido à pneumonia que o atacou pelas costas, talvez viesse a ver o ex-Floriano ser o campeão gaúcho de 2017. Com seu bom-humor, certamente diria: “O título ficou em boas mãos”. É difícil, mas o Noia merece.

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