JOSÉ ANTONIO PINHEIRO MACHADO: O incrível Severo

Outubro de 1972. Madrugada gelada em Roma, onde eu estudava e trabalhava como correspondente da Folha da Manhã, um dos jornais da então poderosa Caldas Júnior.

De repente o telefone. Atendo. Era o José Antônio Severo, nosso Diretor de Redação, aflito, na ligação interurbana:

“Alô, Pinheiro! Tens que ir para Paris, urgente! Pega um avião e te manda. O Kissinger está lá para assinar a paz do Vietnam.”

Ponderei que era impossível. O aeroporto estava fechado. As empresas aéreas em greve.

“Então, vai de trem! Precisamos estar lá de qualquer maneira!”

E lá fui eu para uma viagem Roma-Paris, que na época durava 24 horas. Consegui chegar em tempo. Fiz contato com um amigo do Partido Comunista ligado ao pessoal do Vietcong e consegui uma entrevista exclusiva com “Madame Binh”, a elegante Nguyen Thin Binh, “Madame Ministre” do Vietcong, oficialmente  chamado “Governo Revolucionário Provisório”. Ela me garantiu que, ao contrário do que anunciavam os porta-vozes dos Estados Unidos, a paz só seria assinada nos termos e nos prazos que a delegação do Vietnam havia estipulado. O que realmente aconteceu. E o desmentido foi a manchete do Correio do Povo e da Folha da Manhã, com uma longa entrevista de Madame Thi Binh, absolutamente exclusiva. Tudo graças ao empenho do nosso diretor José Antonio Severo, um jornalista absolutamente fora de série, capaz de “farejar” as grandes notícias ainda que estivessem do outro lado do oceano.

Numa longa entrevista que fiz com Breno Caldas, proprietário e filho de Caldas Júnior, fundador do Correio do Povo, o “Doutor Breno” (todos nós o chamávamos assim) publicado em 1987 pela L&PM (“Meio Século De Correio do Povo – Glória e Agonia de um grande Jornal”), ele, que foi o proprietário e o poderoso diretor do Correio do Povo durante meio século, e também da Folha da Tarde e da Folha da Manhã, declarou:

“O Severo foi um grande elemento, um ótimo jornalista que tivemos lá, e que, de certa forma, foi desperdiçado, não se aproveitou devidamente…”

Além da valiosa contribuição que deu como jornalista brilhante ao Correio do Povo dos bons tempos e dos outros jornais da Caldas Júnior de Breno Caldas (Folha da Tarde, Folha Esportiva e Folha da Manhã), Severo teve intensa participação na imprensa, rádio e TV do centro do País, entre eles TV Globo, TV Bandeirantes, ….

Além de jornalista exemplar, Severo foi um brilhante escritor com vasta bibliografia onde se destacam:

“General Osório e seu tempo” (biografia, 850 páginas);

“Os senhores da guerra” (romance, 502 páginas);

“100 anos de guerra no continente americano” — (História — volume 1: Rios de Sangue, 461 páginas); volume 2, Cinzas do Sul, 618 páginas);

“A guerra dos cachorros” (romance, L&PM, 187 páginas);

“A Invasão” (ficção política, L&PM, 225 páginas)

 

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