JOSÉ ANTONIO SEVERO/A dança das cadeiras no Prata

José Antonio Severo
O presidente Alberto Fernández e o vice-presidente Hamilton Mourão botaram o balde de água fria na fervura da crise Argentina/Brasil, arrefecendo o arranca-rabo verbal entre o brasileiro Jair Bolsonaro e o novo governo portenho, que tomou posse nesta semana em Buenos Aires. Essa solução lembra, com papéis trocados entre os atores, revivendo a pacificação de 1910, quando os dois países quase foram à guerra por causa da mesma desfeita: O Brasil não mandou representantes à festa do primeiro centenário da independência das então Províncias Unidas del Río de La Plata, futura (1860) República Argentina. Vamos refrescar a memória histórica.
O atual episódio aparentemente se extinguiu quando o presidente Maurício Macri, com sua proverbial elegância bonaerense, conseguiu botar panos quentes para evitar que seu sucessor Alberto Fernández ficasse exposto a algum constrangimento logo no início do mandato, aceitando antecipar a 55 ª Reunião de Cúpula do Mercosul, realizada em Bento Gonçalves (RS). Assim, deu mais tempo para seu amigo Jair Bolsonaro se acomodar na situação “pragmática”, sem precisar se retratar. Dar tempo ao tempo, é a regra.
Com isto, Brasil e Argentina fizeram, terça feira, um afago no lugar de disparar impropérios. Mas as tensões não se resumem aos arrufos entre os dois mandatários. Também o Uruguai, vendo seus vizinhos traçando riscas no chão, amoleceu, mandando como chefe da delegação a vice-presidente Lucia Topolansky, igualmente nos últimos dias de seu mandato. Com isto, o presidente brasileiro, que estava deixando a presidência pró tempore do Mercosul, passou o martelo (como disse Bolsonaro, referindo-se ao bastão de comando) para seu sucessor pelos próximos seis meses, o também estreante presidente do Paraguai, Marco Abdo Benítez.
Pausa na velha polêmica
A manobra não desanuviou inteiramente o cenário político das duas maiores economias da sub-região. As relações diplomáticas entre os dois países vêm se atritando desde a eleição do candidato peronista, podendo, rapidamente, contaminar o intercâmbio comercial e minar irremediavelmente o bloco regional, o Mercosul, que já vem mal das pernas. Foi prudente o chefe do governo argentino, contribuindo para adiar a peleja.
O sinal de alerta foi dado pelo deputado nacional(federal) argentino Ricardo Alfonsín, do Partido União Cívica Radical, advertindo que pode ir por terra a delicada costura realizada por seu pai, o ex-presidente Raúl Alfonsín (1983/89) e o brasileiro José Sarney. Os dois deram por finda uma rivalidade estratificada de séculos, criando o Mercosul.
É verdade que as relações do mundo lusitano com os hispânicos platinos nunca foram muito tranquilas. Sarney e Alfonsín conseguiram aplainar arestas, o que foi mantido por seus sucessores, Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma. No século passado houve momentos dramáticos, à beira do conflito.
Artigo abriu os olhos
Um artigo de jornal abriu os olhos nos dois países. Neste sentido, vale transcrever trechos de um artigo publicado no jornal Clarín, o maior em circulação na Argentina, pelo historiador Rosendo Fraga, relembrando os momentos de maior tensão entre os dois países no Século XX. Fraga é um cientista político e diplomata, que serviu com o mais famoso embaixador argentino no Brasil, Oscar Camillon, depois chanceler de seu país. É um especialista respeitadíssimo.
Escreve Rosendo (em tradução livre): “Os atuais embates entre Alberto Fernández e Jair Bolsonaro refletem uma difícil situação no vínculo bilateral. Mas não é o único. Houve outro muito mais difícil”, diz o historiador.
Continua: “de fato, o momento mais difícil das relações entre Brasil e Argentina no Século passado ocorreu na primeira década, concretamente entre 1906 e 1910”.
Fraga adverte que a grande crise se iniciou com um incidente menor, em 1906, insignificante, que descambou para a insensatez e quase levou os dois países às vias de fato.
Começou numa ação desastrada da guarda costeira portenha, envolvendo um navio de bandeira uruguaia que navegava numa área proibida do Rio da Prata, disputada na demarcação de limites entre Argentina e Uruguai. O bate-boca entre Montevidéu e Buenos Aires foi escalando, até que o Uruguai, o célebre algodão entre os cristais, “sentindo-se ameaçado por um vizinho maior– conta Rosendo – aproximou-se do outro, no caso o Brasil. Tratava-se do jogo pendular que países como Bolívia, Paraguai e Uruguai, que têm fronteiras com os países de maiores dimensões, fazem o jogo buscando certo equilíbrio de poder conveniente a seus interesses”. Aí a confusão dos platinos chega ao Rio de Janeiro.
A Primeira Lição
Vamos acompanhar mais um trecho da narrativa de Rosendo Fraga: “neste caso (do barco uruguaio) a crise foi mais longe do que o previsto. Esta é a primeira lição que deixa este conflito: as crises podem escalar por erro de cálculo”.
Esta história é uma boa advertência ao Itamaraty, atualmente conduzido por um diplomata de carreira ainda pouco experiente, sem grande experiência nas áreas de conflito. Está mais habituado aos embates retóricos. Entretanto, como conta Rosendo Fraga, a questões pode evoluir das bocas-rotas para a boca de um cano de canhão. Aí, literalmente, esquenta.
A recusa do presidente Bolsonaro de comparecer à posse do novo presidente da Argentina lembra o incidente do início do século passado.
“A deterioração do relacionamento para valer começou quando ao se comemorar na Argentina o primeiro centenário (da independência da Espanha), não compareceu nenhuma delegação brasileira”.
Isto causou grande desconforto em Buenos Aires. Na posse de Fernández, o governo Bolsonaro seria representado pelo ministro Osmar Terra, da Cidadania. A escolha do delegado brasileiro justificava-se porque o ministro foi prefeito de Santa Rosa, às margens do Rio Uruguai, fronteira entre os dois países e terra de Xuxa Meneghel, que até hoje é a artista brasileira mais popular nos pampas argentinos. Esperava-se que isto baste para contornar o carão. Entretanto, na última hora o presidente brasileiro desfez a delegação e disse que não iria ninguém na festa castelhana. A fervura voltou a subir. Tal qual em 1910. Voltemos à narrativa de Rosendo.
Naqueles tempos, a mídia argentina abriu a boca e considerou um desaforo que o Brasil não mandasse ninguém à grande comemoração. “Ao mesmo tempo – escreve Rosendo – os dois países haviam embarcado numa caríssima corrida armamentista, que tinha como ponto mais importante a compra de dois navios encouraçados”. Estas eram as armas estratégicas mais poderosas daqueles tempos. Cada qual encomendara três embarcações de grande porte, o Brasil na Inglaterra, a Argentina nos Estados Unidos.
Segunda Lição: vaidades e rancores
Conta Rosendo Fraga: “Neste conflito, tinham papel importante as personalidades: no Brasil, comandava as relações exteriores o barão do Rio Branco, chanceler entre 1902 e 1912 – quando morre – com quatro presidentes sucessivos. Do outro lado, o presidente argentino José Figueroa Alcorta – sem experiência internacional, escolheu Estanislao Zeballos, uma sólida personalidade na política, no direito, no jornalismo e nas letras, como seu chanceler. Era um grande erudito nas questões de limites em nosso País (Argentina)”, conta Rosendo.
Continua o narrador: “Parecia o homem certo. Mas ao começar a última década do Século XIX, Zeballos e Rio Branco haviam sido os peritos designados por seus respectivos países para defender suas posições na arbitragem do presidente (Stephen Grover) Cleveland dos Estados Unidos, que deveria pronunciar-se sobre a quem pertencia o território das Missões, contíguo à província argentina que leva seu nome. No Brasil abrangia grande parte de Santa Catarina e um pedaço do Paraná. (Essa terra sem dono produziu, depois o conflito do Contestado).
O brasileiro Rio Branco havia chegado a esse encontro, preparando-se durante muitos anos nas questões de limites. O argentino não percebeu, pois acreditava ter pela frente um opaco cônsul de seu país em Liverpool.
Ledo engano. Rio Branco aproveitara o tempo na Inglaterra, para estudar, pesquisar e escrever importantes livros sobre a história e a geografia de seu país. O argentino, por seu lado, chegava muito seguro, com fama e prestígio. Mas o barão terminou sendo mais eficaz e convincente e a sentença de Cleveland favoreceu os interesses do Brasil”.
Nesse ponto, um lembrete ao jovem chanceler Ernesto Araújo.  Rosendo demonstra como as idiossincrasias podem colocar em grande risco as relações internacionais.
Rosendo recorda a derrota do figurão argentino ante o ainda desconhecido, mas já experiente e bem preparado Rio Branco: “Isto gerou em Zeballos um rancor, que ao assumir o Ministério de Relações Exteriores, tendo quem o havia derrotado como novo antagonista, fez o conflito escalar desnecessariamente. O argentino queria sua revanche”, escreve Rosendo, advertindo: “Aqui aparece uma segunda lição: personalidade e os rancores podem escalar os conflitos desnecessariamente. Podem levar a se perder a perspectiva e tomar atitudes arriscadas e imprudentes”.
Rosendo relembra o que foi o Barão do Rio Branco no Brasil daqueles tempos, continuando no cargo ao longo de vários governos. Então não era mais o jovem cônsul dos tempos da arbitragem de Cleveland. Era um gigante diplomático.
Golpe de Mestre
“O chanceler brasileiro era um poder permanente em seu país. Já no ´primeiro ano no cargo (1902), trocava cartas regularmente com o presidente argentino, general Júlio A. Roca, que nesse momento exercia sua segunda presidência (. Por esta razão quando escala o conflito e Roca se preparava para regressar de uma prolongada viagem à Europa, após finalizar seu segundo governo, em 1904, recebe a sugestão do chanceler brasileiro para desembarcar em algum ponto do Brasil. Roca era um adversário político de seu sucessor ( Alcina), mas todavia controlava o Senado e os governos de várias províncias. A intensão (de Rio Branco) era demonstrar à opinião pública brasileira que haveria quem (na Argentina) não acompanhasse à rígida postura de Zeballos”.
A manobra teve grande êxito: “Escolheu-se o porto de Santos para a escala (do navio          que levava o ex-presidente argentino) e ali foi recebido pelo barão, junto com o ex-presidente Campos Salles, que entre 1899 e 1900 havia trocado visitas com o general Roca. O encontro não resolveu o conflito, mas distendeu.
Ao mesmo tempo, não obstante a ausência brasileira nas festas do Centenário (da independência da Argentina), Rio Branco realiza um segundo movimento. É eleito presidente o embaixador argentino na Itália, Roque Sáenz Peña. Sempre atento às oportunidades, o barão sugere (ao novo presidente) que poderia ser conveniente, dada a deterioração das relações bilaterais, que em seu regresso passasse pelo Rio de Janeiro. E assim se faz. O presidente eleito reúne-se com o brasileiro (o recém empossado marechal Hermes da Fonseca) e com seu chanceler. Acertam que uma vez em Buenos Aires, Sáenz Peña enviará uma pessoa de sua confiança para iniciar uma negociação e chegar a um acordo. Já na capital argentina, o novo presidente escolhe para a delicada missão ao deputado nacional (federal) Ramón J. Cárcano, que será um importante embaixador argentino no Brasil nos anos 1930”.
O novo embaixador (ainda antes da posse) é recebido no Rio com todas as honras, recorda Rosendo Fraga: “Chega ao Rio de Janeiro, atendendo a um convite intermediado pelo barão, para fazer uma conferência no Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro sobre a história das relações entre os dois países. Trazia, também, a proposta para que os dois países concordem e anunciem a suspensão do terceiro encouraçado que haviam encomendado. O Barão não concorda. Diz que não será fácil. Terá de convencer o presidente. Combinam um código telegráfico para informar do êxito da gestão. De volta a Buenos Aires, Cárcano informa ao presidente sobre as conversações. Em poucos dias chega a resposta positiva. O acordo é anunciado. Ao suspender a construção dos terceiros encouraçados, os países davam por finda a corrida armamentista, que consumia recursos e aumentava os desconfortos e prevenções.
(No final, os dois países ficaram com dois encouraçados cada um: No Brasil foram batizados como Minas Gerais e São Paulo. O terceiro seria o Rio de Janeiro; na Argentina foram denominados Rivadavia e o Moreno, nomes de heróis da independência).
Terceira Lição, diplomacia
Conclui o historiador argentino: “Aqui aparece a terceira lição: Uma boa diplomacia – neste caso exercida por um chanceler de um lado e dois presidentes sucessivos do outro – podem conter e inclusive superar conflitos. Estas lições do passado podem ser uteis quando Argentina e Brasil atravessam um momento delicado em sua relação bilateral”.
Na posse do novo governo argentino, com a ação decidida do vice-presidente brasileiro, convencendo Bolsonaro a lhe dar a missão, os papeis se inverteram. O cordato Alberto Fernández fez o papel do presidente brasileiro, o gaúcho Hermes da Fonseca (São Gabriel) baixou o tom de seu discurso, Mourão fez os rapapés, e os assim Bolsonaro, no lugar do estridente Alcina, baixou abola, e ministro do Exterior Ernesto Araújo teve de engolir suas diatribes anti-peronistas. OU seja, pela segunda vez esses dois porto-alegrenses se encontraram na arena diplomática, Mourão e Ernesto. A primeira foi em Bogotá, quando o vice-presidente brasileiro desconversou a invasão da Venezuela, e acabou com a guerra de Araújo. Agora uma vez mais o general contém o belicoso diplomata profissional. Quantos gaúchos nesses imbróglios: Mourão, Enresto Araújo e Osmar Terra. Tinha tudo para dar nova briga com os castelhanos. Mas aí enterram os homens do dinheiro e influíram para que seus presidentes dessem uma meia trava. Segundo fontes, foi a Fiesp que deu a prensa decisiva em Bolsonaro, que ouviu e acatou Mourão, do grupo dos generais (Villas-Boas, de Cruz Alta e Santos Cruz – já defenestrado, mas influente – de Rio Grande). Desce o pano do primeiro ato.
 

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