LUIZ-OLYNTHO TELLES DA SILVA/ Uma parábola para os dias de hoje

Luiz-Olyntho Telles da Silva

Terminava o ano de 1348 e com ele a devastadora peste negra. A Europa estava um caos. Aos sobreviventes tocava elaborar o luto. Muitos perderam seus pais, avós, amigos e irmãos, sem falar nas famílias das quais não sobrou ninguém. Boccaccio foi um desses que sofreu todas essas perdas e encontrou na escrita um meio de trabalhar sua dor. Daí saiu seu Decameron, organizado em torno de dez jornadas nas quais se contam, a cada dia, dez novelas. Santo Ambrósio já havia louvado os seis dias da criação, intitulados com uma expressão grega, o Hexameron, e Boccaccio achou por bem repetir a ideia para os seus dez conjuntos de dez, por vezes luxuriosos, ora melancólicos, ingênuos, ora espirituosos, etc., etc.

A história que escolhi para hoje, está na base da formação dessas locuções que os franceses chamam de mot d’esprit, um dito espirituoso, um dito que requer inteligência para ser compreendido.

Estamos já quase ao final da sexta jornada, o dia se prepara para começar a perder suas cores, acendem-se os candelabros e a rainha Elissa começa a nona história, anunciando que sua conclusão será com uma sentença tão brilhante que talvez ainda não se tenha narrado nenhuma com tanta sabedoria.

Em tempos passados, continuou ela, houve em Florença costumes muito galantes, agora perdidos pela avareza que junto com a riqueza prosperou. Entre os hábitos banidos estava o de cavalheiros de diferentes bairros da cidade reunirem-se a cada tanto para jantar, convidando, quando era o caso, algum estrangeiro, ou mesmo algum expoente conterrâneo para homenagear e, a cada vez, era um que pagava a conta. Formavam assim diferentes brigadas que cavalgavam juntos e exibiam-se em justas nos dias de festa. Entre elas, estava a brigada de Messer Betto Brunelleschi, antepassado do famoso arquiteto Filipo Brunelleschi – construtor da cúpula do Duomo, da igreja de São Lourenço, do palácio Riccardi e do palácio Pitti –, e que muito se esforçou, junto de seus companheiros, para incorporar Guido Cavalcanti às suas fileiras. Filho de Messer Cavalcante dei Cavalcanti, Guido era um importante poeta, amigo de Dante Alighieri, homem educado, bem falante, de boa aparência e muito rico; sempre voltado às suas meditações, alheava-se de outros homens e, dedicado ao epicurismo, diziam que buscava demonstrar a inexistência de Deus. Então, certa manhã, quando Guido fazia seu trajeto habitual, ao passar pelo cemitério San Giovanni, onde havia grandes sarcófagos de mármore (hoje em Santa Reparata), além de muitos outros, e estando ele entre aquelas colunas de pórfiro, daquelas rochas vermelhas contemporâneas do período pré-cambriano – um presente dos pisanos para Florença, em retribuição à guarda que lhes fizeram quando foram conquistar a ilha de Maiorca –, avistou-o Messer Betto que vinha com sua brigada, a cavalo, pela praça de Santa Reparata, e logo teve uma ideia: – Andiamo a dargli briga. Vamos incomodá-lo um pouco, traduziu Maurício Santana Dias para a Ed. Cosac Naify, em 2013, enquanto Urbano Tavares Rodrigues, em 1976, ao fazer a tradução para a Ed. Formar, em coedição com a Libraria Bertrand, de Portugal, preferiu Vamos disfrutá-lo um pouco (escrito assim, com i mesmo). Enfim, tratava-se de implicar um tanto com Guido, de fazer bullying, como se diria hoje, e, decididos, esporearam seus cavalos. Antes que Guido se desse conta, o cercaram fazendo-lhe a seguinte pergunta: Guido, você se recusa a entrar em nossa brigada; mas, quando descobrir afinal que Deus não existe, o que fará? Sem dar-se por achado, Guido logo respondeu: Senhores, estais em vossa casa, podeis dizer-me o que quiserdes. A seguir, ágil que era, saltou por sobre uma alta tumba e sumiu-se por entre os sarcófagos. Os brigadianos, pasmos, ficaram a olhar entre si. Aquele homem era um smemorato – inconsciente, traduziu Maurício Santana Dias; louco, preferiu Urbano Tavares Rodrigues –, sua resposta não fazia sentido. Foi então que Messer Betto, voltando-se para os companheiros, falou: – Os smemorati são vocês que não entenderam nada: com poucas palavras e na maior elegância, ele nos disse a pior das vilanias. Vejam, esses túmulos são as casas dos mortos, aí estão os defuntos; mas ele diz que são nossas casas para nos mostrar que nós e os ignorantes como nós, em comparação a ele e aos filósofos, somos piores que os mortos. Logo, se estamos aqui, estamos em nossa casa. Assim foi construída a brilhante sentença anunciada pela rainha Elissa e, tendo todos entendido a tirada espirituosa de Guido Cavalcanti, nunca mais o incomodaram e Messer Betto passou a ser considerado um cavalheiro sutil e inteligente.

 

Deixe uma resposta